JOHN STEINBECK

A LESTE DO PARASO



Ttulo da edio original: EAST OF EDEN

Autor: JOHN STEINBECK

Traduo: JOO B. VIEGAS 
Reviso: MOURA VITRIA 
Capa: A. PEDRO

Copyright (c) 2001 by Livros do Brasil
Reservados todos os direitos pela legislao em vigor

ltima edio - Lisboa - Setembro de 2001

ISBN 972-38-0002-0 

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COLECO DOIS MUNDOS


JOHN STEINBECK

A LESTE DO PARASO


VOLUME I

Traduo deJOO B. VIEGAS

EDIO LIVROS DO BRASIL LISBOA, Rua dos Caetanos, 22


Digitalizao e Arranjo
A. R. M.



1
PASCAL COVICI 
Querido Pat,


Surpreendeste-me quando esculpia uma figurinha
de madeira e disseste:
- Porque no fazes qualquer coisa para mim? 
Perguntei-te o que querias e respondeste: 
- Uma caixa.
- Para qu?
- Para guardar coisas. 
- Que coisas? 
- Tudo o que tiveres.
Ora bem. Aqui tens a tua caixa. Pus nela quase tudo
o que tinha e no est cheia. Tem dor e prazer, bons ou
maus sentimentos, pensamentos maus e pensamentos
bons - o prazer de modelar, algum desespero e a ale-
gria indescritvel de criar. E, em cima de tudo isto, h a
minha gratido e todo o meu amor que te tenho. Nem mesmo assim a caixa 
ficou cheia.

JOHN



PRIMEIRA PARTE

CAPTULO I


1

O vale do Salinas fica na Califrnia do Norte.  um sulco 
longo e plano entre duas cadeias de montanhas, e o rio Salinas 
desliza e serpenteia pelo centro at desaguar na baa de Monterey.
Recordo-me dos meus nomes de infncia para as plantas e 
para as flores secretas, do esconderijo de cada sapo e da hora a 
que os pssaros acordavam no Vero - das rvores e das esta-
es do ano - das pessoas e do seu aspecto; recordo-me at do 
cheiro que tinham. A memria olfactiva  muito rica.
Recordo que as montanhas Gabilanes, a leste do vale, eram 
alegres e cheias de sol, lindas, tendo um ar de convite que des-
pertava em ns o desejo de subir pelas suas veredas clidas, quase 
como quem sobe para o colo da me bem-amada. Eram monta-
nhas atraentes envoltas no seu manto de erva rua. Para o lado 
do Ocidente, recortava-se no cu a serra de Santa Lucias, mura-
lha escura e taciturna, inamistosa e ameaadora, entre o vale e o 
mar. Sempre tive medo do Oeste, sempre gostei do Leste. No 
saberei dizer donde me vem tal ideia; s se for por a manh vir 
dos cumes dos Gabilanes e a noite cair das cristas de Santa Lucias. 
Pode muito bem ser que o nascimento e a morte do dia tenham 
concorrido para a impresso que me ficou dessas duas cordilhei-
ras.
De ambos os lados do vale precipitavam-se pequenas torren-
tes que iam cair no leito do rio Salinas. Nos invernos chuvosos, as 
torrentes engrossavam e iam aumentar o Salinas at o fazer sair
do leito, espumejante e furioso, tornando-o destruidor. O rio arras-
tava a terra das propriedades ribeirinhas; arrancava e levava ce-
leiros e casas; vacas, porcos e carneiros eram apanhados des-
prevenidos e afogados nas suas guas barrentas que os empurra-
vam para o mar. Depois, com o fim da Primavera, o rio regressava 
ao seu leito e apareciam os bancos de areia. No Vero, escondia-
-se. Do turbilho invernal, apenas restavam algumas poas junto 
dos bancos mais altos. A erva recuava e os salgueiros endireita-
vam-se com os destroos da torrente nos ramos mais altos. O 
Salinas era apenas um rio espordico: o sol do Vero fazia-o de-
saparecer. No era um rio a valer mas era o nico que tnhamos e 
por isso nos gabvamos dele - por ser perigoso nos Invernos 
chuvosos e por ser seco nos Veres secos. Podemos gabar seja 
o que for, se nada mais tivermos. Quanto menos se tem, maior  
a vontade de o gabar.
O solo do vale do Salinas, entre as cordilheiras e a seguir ao 
sop das montanhas,  plano porque este vale constitua o fundo 
duma reentrncia do mar com mais de cento e cinquenta quil-
metros. A foz do rio em Moss Landing era h centenas de anos a 
entrada deste longo brao de mar. Uma vez, o meu pai abriu um 
poo a mais de oitenta quilmetros do mar. A sonda comeou por 
encontrar uma camada de hmus, depois cascalho e, por fim, areia 
branca cheia de conchas e at de bocados de ossos de baleia. 
Sob a camada de quatro metros de areia, havia novamente terra 
vegetal. A sonda atravessou um pedao de sequia, essa madei-
ra vermelha que no apodrece. Antes de ter sido um mar interior, 
o vale deve ter sido uma floresta. E, essas coisas aconteceram 
mesmo debaixo dos nossos ps. s vezes,  noite, parecia-me 
que podia sentir o mar e a floresta que existira antes dele.
Sob as terras planas a camada de hmus era espessa e frtil. 
Bastava um bom Inverno chuvoso para que se cobrisse de erva e 
de flores. A florao da Primavera, nos anos hmidos, era um 
espectculo inacreditvel. O fundo do vale e o sop das colinas 
pareciam um tapete de tremoos e de papoilas. Uma mulher dis-
se-me um dia que as flores coloridas pareceriam ter mais brilho 
se lhes juntassem algumas flores brancas. As ptalas azuis do 
tremoo so orladas de branco e por isso um tremoal  mais azul 
do que se pode imaginar. No meio disto, havia exploses de
papoilas da Califrnia. Estas tm uma cor quente - no laranja, 
nem oiro, mas se o oiro fosse lquido e emitisse um vapor, esse 
vapor doirado seria a cor das papoilas. Depois vinha a estao da 
mostarda amarela. Era to alta quando o meu av chegou ao Vale 
que apenas se conseguia ver a cabea de um homem que no 
meio dela passasse a cavalo. Nas terras altas, a erva estava 
semeada de rainnculos, de margaridas e de violetas amarelas 
com o centro negro. E um pouco mais tarde, surgiam os cravos da 
ndia, vermelhos e amarelos. Eram as flores dos grandes espaos 
expostos ao sol.
Sob os carvalhos, numa atmosfera sempre sombria, cresci-
am as avencas perfumadas, e  beira dos regatos pendiam ca-
chos de doiradinhas. E depois havia os jacintos, minsculas lan-
ternas dum branco aveludado e quase pecaminoso, mas eram 
to raros que, quando uma criana descobria algum, se sentia 
privilegiada e esquisita durante todo o dia.
Quando chegava o ms de Junho, a erva estiolava e todo o 
Vale ficava castanho, mas era um castanho em que s entrava o 
oiro, o aafro e o vermelho - uma cor indescritvel. Ento, as 
terras e os cursos de gua secavam at s prximas chuvas. Apa-
reciam fendas no solo. O Salinas era absorvido pelo seu leito de 
areia. O vento soprava no Vale, erguendo poeira e palha, adqui-
rindo fora e tornando-se mais spero  medida que se aproxi-
mava do Sul.  noite parava. Era um vento nervoso e cortante que 
irritava a pele e queimava os olhos. Os homens que trabalhavam 
nos campos usavam culos e protegiam o nariz com um leno 
atado em volta da cara.
A terra do Vale era espessa e rica mas, junto s vertentes, to 
escassa que mal chegava para alimentar as razes das ervas. 
Quanto mais se subia, mais se adelgaava, desnudando a rocha, 
at que, no alto, se transformava num tapete de cascalho que 
cegava os olhos com o reflexo do sol.
At aqui s falei dos anos frteis em que as chuvas eram 
abundantes. Mas havia tambm anos de estiagem, terror do Vale. 
As chuvas vinham num ciclo de trinta anos. Primeiro, havia cinco 
ou seis magnficos anos de chuva com dezanove a vinte e cinco 
polegadas de gua: a vegetao rebentava por toda a parte. De-
pois, seis ou sete anos regulares com doze a dezasseis polega-

das de chuva. Por fim, eram os anos secos com as suas escas-
sas sete ou oito polegadas. A terra endurecia, a vegetao no 
tinha foras para crescer e surgiam grandes peladas por todo o 
Vale. Os carvalhos viosos pareciam petrificados e a artemsia 
ficava pardacenta. O solo estalava, os ribeiros secavam, o gado 
retouava ramos quebradios; as vacas emagreciam e, s vezes, 
morriam de fome. As pessoas, se queriam beber, tinham de ir 
buscar a gua em barris. Ento os fazendeiros e os criadores de 
gado amaldioavam o Vale. Algumas famlias vendiam tudo por 
uma ninharia e iam-se embora. Era fatal: durante os anos de estia-
gem, as pessoas esqueciam os anos prsperos e, assim que vol-
tava a chuva, esqueciam a seca. Sempre foi assim.


2

Assim era o extenso vale do Salinas. A sua histria era igual  
do resto do Estado. Primeiro houvera ndios, mas duma raa de-
generada, sem energia, incapaz de cultivar ou de inventar, ali-
mentando-se de gorgulhos, de gafanhotos e de mariscos, to pre-
guiosa que no caava nem pescava. Para fazer farinha, moam 
bolota amarga; as prprias guerras no passavam de meras pan-
tomimas.
Depois vieram os conquistadores espanhis, duros, vorazes 
e realistas, sedentos de oiro e de Deus. Coleccionavam almas 
como coleccionavam jias. Acumularam montes e vales, rios e 
horizontes, do mesmo modo que o homem de hoje obtm licen-
as para construir lotes de habitaes. Alguns deles estabelece-
ram-se em terras to grandes como reinos, dons de reis de 
Espanha que ignoravam o valor do presente. Estes primeiros pro-
prietrios viveram uma vida de senhores feudais pobres, deixan-
do que os rebanhos pastassem em liberdade e se multiplicassem. 
Periodicamente, os donatrios matavam os animais para lhes ti-
rar o coiro das botas e o sebo das velas, abandonando a carne 
aos abutres e aos coiotes.
Quando os Espanhis chegaram, tiveram que baptizar tudo o
que viram.  este o primeiro dever dum explorador - um dever e 
um privilgio. Tem que se baptizar um lugar antes de lhe inscrever 
o nome num mapa desenhado  mo. Tratava-se de gente piedo-
sa, e s os padres, infatigveis companheiros dos soldados, sabi-
am ler, escrever, redigir os dirios e desenhar os mapas. Os pri-
meiros lugares foram, portanto, crismados com nomes de santos 
ou de festas religiosas celebradas ao acaso das paragens. H 
muitos santos, mas a lista no  inesgotvel. Assim, surgem mui-
tas repeties nas primitivas designaes: San Miguel, St. Michael, 
San Ardo, San Bernardo, San Benito, San Lorenzo, San Carlos, 
San Francisquito. E depois as festas: Natividad - a Natividade; 
Nacimiente - o Nascimento; Soledad - a Solido. Mas alguns 
stios tambm foram baptizados de acordo com o estado de esp-
rito em que se encontrava a expedio nesse dia: Buena Esperanza 
- Boa Esperana; Buena Vista, porque a vista era bonita; e Chua-
lar, porque o lugar tinha o seu encanto. Depois seguiam-se os 
nomes descritivos: Paso de los Robles, por causa dos carvalhos; 
Los Laureles, porque havia loureiros; Tularcistos, por causa dos 
canios dum pntano; e Salinas, por causa do alcali que era bran-
co como o sal.
Depois baptizaram os lugares consoante os animais que l 
viram: Gabilanes, por causa dos falces que voavam nas monta-
nhas; El Topo, por causa das toupeiras; Los Gatos, por causa dos 
gatos selvagens. Certas vezes, a configurao natural sugeria um 
nome: Tassajara - uma chvena com o pires; Laguna Seca - 
uma lagoa seca; Corral de Tierra - uma barreira de terra; Pa-
raso, porque parecia estar-se no Cu.
Depois vieram os Americanos - mais vorazes porque eram 
em maior nmero. Apoderaram-se das terras e, para se confina-
rem na legalidade, refizeram as leis. As propriedades espraiaram-
-se pela regio, primeiro no vale e depois nos contrafortes das 
montanhas - casinhas de madeira com telhados de sequia, cur-
rais de paus com a extremidade aguada. Onde quer que 
irrompesse um fio de gua, erguia-se uma casa que abrigava uma 
famlia que logo crescia e se multiplicava. Plantaram-se ps de 
gernios e de roseiras nos jardinzinhos. As carroas traaram tri-
lhos nas pistas. O trigo, a aveia e a cevada expulsaram a mostar-
da amarela. De quinze em quinze quilmetros, ao longo das estra-

das movimentadas, instalaram-se vendas e ferreiros que se 
transformaram em ncleos de povoaes: Bradley, King City, 
Greenfield.
Mais ainda do que os Espanhis, os Americanos tinham ten-
dncia para baptizar os lugares com nomes descritivos. Esses 
nomes exercem em mim uma grande fascinao, pois cada um 
deles sugere uma histria esquecida. Estou pensando em Bolsa 
Nueva - a bolsa nova; Morocojo - o Mouro Coxo (quem era e 
como foi ali parar?); o Desfiladeiro do Cavalo Selvagem e o da 
Fralda da Camisa. Os lugares ficam marcados para sempre por 
aqueles que os baptizaram, respeitosos ou irrespeitosos, poticos 
ou trocistas. Pode chamar-se San Lorenzo a qualquer coisa, mas 
Desfiladeiro da Fralda da Camisa ou do Mouro Coxo tem outro 
sabor.
Para quebrar a violncia do vento que ameaava arrastar as 
terras lavradas, os fazendeiros plantaram quilmetros e quilme-
tros de filas de eucaliptos. E era este o aspecto do vale do Salinas 
quando o meu av trouxe a mulher e se instalou nas colinas, a 
Leste de King City.


CAPTULO II

1

Para tentar reconstituir a histria dos Hamilton, tive de me 
fiar nos diz-se, folhear velhos lbuns de fotografias e evocar 
recordaes, algumas delas imprecisas e muitas vezes rechea-
das de imaginao, pois, alm das certides de nascimento, de 
casamento, de propriedade e de bito, no deixaram mais ne-
nhum vestgio nos arquivos do Vale. No eram pessoas eminen-
tes.
O jovem Samuel Hamilton e a esposa vieram da Irlanda do 
Norte. Ele era filho de pequenos lavradores que, h muitas cente-
nas de anos, viviam da terra na sua casa de pedra. Os Hamilton 
eram muito educados e cultos. E, como acontece com frequncia 
no seu verde pas, eram aparentados a pessoas muito importan-
tes e a pessoas muito simples; dois primos podem ser, baronete, 
um, e o outro, mendigo. Os Hamilton descendiam dos reis da Ve-
lha Irlanda, como todo o irlands que se preza.
Ignoro por que motivo Samuel abandonou a casa de pedra e 
os verdes alqueives dos antepassados. No se entregava  polti-
ca e  pouco verosmil que tenha sido expulso por actividades 
antigovernamentais; e, como era intrinsecamente honesto, ficam 
eliminados os motivos de ordem policial. O amor - dava-se a 
entender por palavras veladas na minha famlia - era a causa; 
mas amor por uma mulher que no era a que desposara. Traduzi-
ra-se tal amor num xito total ou numa derrota? No o sei. Sem-
pre preferimos optar pela primeira soluo. Como se poderia su-
por que uma camponesa irlandesa tivesse podido repudiar o se-
nhor dutor Samuel?

Chegou ao Vale com novas energias, o corao cheio de cora-
gem, inventivo, e respirando actividade. Tinha os olhos muito azuis 
e, quando estava fatigado, um deles desviava-se levemente para 
fora. Era um homem robusto mas dotado duma espcie de delica-
deza. Apesar do trabalho emporcalhante da quinta, parecia andar 
sempre imaculado. Tinha mos hbeis: bom ferreiro, carpinteiro e 
serralheiro hbil, podia criar todo o gnero de coisas com simples 
bocados de madeira e de ferro. Inventava continuamente novos 
mtodos para fazer melhor e mais depressa o que sempre se fize-
ra de outro modo. Mas nunca teve o dom de ganhar dinheiro. Ti-
nham-no outros homens que enriqueceram explorando as inven-
es de Samuel. Ele nunca passou de um assalariado.
No sei porque foi que ele se fixou no vale do Salinas. Era 
uma escolha estranha da parte de um homem que vinha de um 
pas verdejante. Convm esclarecer que chegou durante o pero-
do hmido do ciclo, cerca de trinta anos antes do fim do sculo. 
Acompanhava-o a mulher: uma irlandesinha seca e slida, to 
destituda de humor como um frango, uma presbiteriana austera, 
que vivia fechada num sistema de valores morais que nos tirava 
toda a vontade de gozar os prazeres da vida.
No sei onde foi que Samuel a encontrou, nem como a namo-
rou, nem como a desposou. A imagem duma mulher  sua seme-
lhana devia estar gravada em qualquer parte do seu corao. 
Samuel respirava o amor, mas nunca correu qualquer boato de 
que enganasse a mulher.
Quando Samuel e Lizza chegaram ao vale do Salinas, j esta-
vam ocupados todos os bons terrenos planos, as encostas frteis 
e as matas, mas ainda havia terras marginais. Samuel Hamilton 
instalou-se a leste da actual King City, no meio das colinas des-
nudadas.
Seguiu o processo habitual. O governo concedeu-lhe um 
sesmo para ele, - um sesmo para a mulher, e um sesmo para a 
criana que ia nascer, pois ela estava grvida. Com os anos, nas-
ceram nove filhos - quatro rapazes e cinco raparigas - e a pro-
priedade aumentou de um sesmo por filho, o que totalizava onze 
sesmos, ou seja cerca de 900 hectares.
Se a terra tivesse qualquer valor, os Hamilton teriam sido gente 
rica, mas eram hectares duros e secos. No havia gua e o slex
perfurava a fina camada de hmus. Nem a prpria artemsia con-
seguia vingar em tal terreno e os carvalhos viviam enfezados por 
falta de humidade.
Mesmo nos anos bons, a erva era to ruim que o gado se 
extenuava  procura de pastos. Do alto das suas colinas escal-
vadas, os Hamilton tinham uma bela vista das terras gordas do 
fundo do Vale e da faixa verde onde corria o Salinas.
Samuel construiu com as prprias mos uma casa, um celei-
ro e uma oficina de ferrador. Depressa compreendeu que, mesmo 
que tivesse dez mil acres de terra naquelas colinas, corria o risco 
de morrer de fome. Construiu, ento, uma broca e foi abrir poos 
nas propriedades de lavradores mais felizes. Depois, com uma 
mquina de malhar inventada por ele, foi at ao Vale malhar as 
colheitas que no podiam germinar no seu prprio solo. Na ofici-
na, afiava relhas de arado, reparava grades de esterroar, soldava 
cubos de roda quebrados e ferrava cavalos. De todos os lados do 
Vale, os agricultores levavam-lhe ferramentas para consertar ou 
para aperfeioar. Para mais, gostavam de ouvir Samuel falar de 
poesia e de filosofia e da evoluo das ideias num mundo que 
continuava a existir no exterior do vale do Salinas. Samuel tinha 
uma bela voz profunda. To bom cantor como orador, no tinha 
sotaque propriamente dito, mas as inflexes e a cadncia da sua 
voz soavam bem aos ouvidos dos lavradores l de baixo, gente 
muito taciturna. Eles traziam usque e bebiam-lhe forte sob o olhar 
desaprovador da Sr. Hamilton, postada atrs da janela da cozi-
nha. Depois, mastigavam gros de anis silvestre para disfarar o 
cheiro do lcool. Quando no havia trs ou quatro homens em 
torno da forja, escutando Samuel e o seu martelo, era um mau 
dia. - Os lavradores diziam que ele tinha o gnio do cmico e 
repetiam-lhe as histrias. Mas nas suas cozinhas elas j no ti-
nham o mesmo sabor e eles perguntavam a si mesmos como se 
tinham arranjado para perder uma parte da graa pelo caminho.
Com a broca, a malhadeira e a forja, Samuel poderia ter enri-
quecido, mas faltava-lhe tino para os negcios. Os fregueses, com 
falta de dinheiro, prometiam pagar depois da ceifa, aps o Natal, a 
seguir, depois... Depois, esqueciam-se. Samuel ignorava a arte 
de lho lembrar. Foi por isso que os Hamilton ficaram pobres.
Todos os anos, regularmente, nascia um filho. Os poucos
mdicos da regio, com trabalho at aos olhos, raramente eram 
chamados para um nascimento, a no ser que o feliz aconteci-
mento se transformasse em pesadelo. Samuel Hamilton ajudou a 
nascer todos os seus filhos, cortou e atou os cordes umbilicais, 
deu palmadas nos rabinhos e limpou toda a trapalhada. Quando o 
filho mais novo nasceu e comeou a sufocar, Samuel colou a boca 
 do recm-nascido e insuflou-lhe a vida. A sua habilidade e a sua 
delicadeza eram to grandes que o chamavam vinte milhas em 
redor para assistir aos partos - quer se tratasse duma gua, duma 
bezerra ou duma mulher.
Ao alcance da mo, tinha sempre um grande livro negro com 
a capa ornada dum ttulo em letras douradas: A Medicina Familiar 
do Doutor Gunn. Certas pginas estavam falhadas e rasgadas; 
outras nunca viram certamente a luz do dia. Folhear o DoutorGunn 
 um excelente meio para conhecer a histria mdica dos Hamil-
ton. As pginas usadas tratavam de fracturas, cortes, golpes, an-
ginas, sarampo, espinhela cada, escarlatina, difteria, reumatis-
mos, dores femininas, hrnia - e evidentemente tudo o que dizia 
respeito  gravidez e ao parto. Quanto aos captulos sobre a 
blenorragia e a sfilis, estavam intactos - prova de que os Hamil-
ton tinham muita virtude, ou muita sorte.
Suave no falar e de alma terna, Samuel no tinha quem se 
lhe comparasse para acalmar as crises de nervos e sossegar uma 
criana assustada. Era um homem limpo e de esprito imaculado. 
Os visitantes da forja paravam um instante de praguejar - no 
porque estivessem constrangidos, mas automaticamente, como 
se o lugar no se prestasse a tal.
Talvez por causa do ritmo com que falava, Samuel aparentou 
sempre algo de estrangeiro. Tanto os homens como as mulheres 
lhe confiavam coisas que nunca teriam dito a um parente ou a um 
amigo. Estranho  comunidade, Samuel oferecia a segurana dum 
tmulo.
Apesar de tambm ser irlandesa, Lizza Hamilton era muito 
diferente. A sua cabecinha redonda estava cheia de ideias feitas. 
Tinha um nariz arrebitado e um queixinho metido para dentro.
Era uma boa cozinheira, e a sua casa - pois era a sua casa 
- andava escovada, varrida e lavada. O permanente estado de 
gravidez no a impedia de trabalhar, excepto durante as ltimas
duas semanas. Devia ter uma bacia provida de barbas de baleia, 
pois todos os filhos foram sempre robustssimos.
Lizza tinha uma noo maravilhosamente desenvolvida do pe-
cado. A ociosidade era um pecado, assim como os jogos de car-
tas, que eram uma forma de ociosidade a seus olhos. Desconfia-
va das distraces - quer se apresentassem sob a forma de dan-
a, de canto ou at de riso - porque as pessoas que se divertem 
so uma presa oferecida ao demnio. E era pena porque Samuel 
tinha o riso fcil. Mas creio que Samuel, mesmo srio, era uma 
presa ideal para o demnio. A mulher protegia-o sempre que po-
dia.
Repuxava os cabelos para trs e juntava-os na nuca em 
carrapito. Se no consigo recordar a maneira como se vestia,  
porque usava vestidos a condizer com o carcter. No possua a 
mnima dose de humor e uma sada espirituosa era coisa rara 
nela. No teve nenhuma fraqueza de av e assustou os netos. 
Suportou hericamente os sofrimentos da vida, convicta de que 
tal era a vontade do seu Deus. A recompensa viria mais tarde.


2

Naqueles que primeiro chegaram ao Oeste e, em especial, 
naqueles que vinham das quintarolas europeias ciosamente prote-
gidas e cadastradas, a vista de toda aquela terra que se podia 
adquirir assinando um papel e construindo nela uma casa, des-
pertou uma furiosa loucura de propriedade. Queriam terra - boa, 
se possvel, mas terra antes de tudo. Talvez se lembrassem in-
conscientemente de que o poderio feudal repousava na proprie-
dade terrena. Os primeiros chegados apoderaram-se de terras de 
que no precisavam e que no podiam cultivar, terras sem valor, 
s pelo prazer de as possuir. Alteraram-se todas as propores. 
Um homem que poderia viver  vontade com dez acres na Europa 
levava uma vida de co em dez mil acres na Califrnia.
No foi preciso muito tempo para que todas as colinas 
escalvadas entre King City e San Ardo fossem divididas entre fa-
mlias miserveis, espalhadas pelos montes, lutando furiosamen-
te para arrancar a subsistncia ao solo pedregoso. Essa gente 
partilha com os coiotes uma vida de desespero, na extremidade 
do mundo do Vale. Tinham chegado sem um chavo, sem material, 
sem ferramentas, ignoravam as tcnicas da agricultura a aplicar 
nesse pas novo para eles. Pergunto a mim mesmo se eram divi-
namente estpidos ou se viviam animados por uma f imensa. 
Seja como for, uma aventura colectiva de tal importncia no deve 
reproduzir-se todos os dias neste pobre globo. As famlias cresce-
ram e multiplicaram-se. Possuam uma ferramenta ou uma arma 
que j no se sabe utilizar em nossos dias. Talvez ainda algum a 
consiga descobrir. Diz-se que essas pessoas obtinham de um Deus 
justo e bom a fora para viver e que os outros problemas se resol-
viam por si. Mas eu creio que  porque tinham confiana em si 
prprios, na sua qualidade de homens, porque sabiam ser, para l 
da dvida, slidas entidades morais, pelo que podiam oferecer a 
Deus a sua coragem e a sua dignidade, recebendo-a novamente 
d'Ele, mas mais fortalecida. Se tais coisas desapareceram  tal-
vez por os homens j no confiarem em si prprios. E se assim , 
a nica soluo que lhes resta  procurarem um homem forte, 
ignorando a dvida, e, mesmo que ele no tenha razo, agarra-
rem-se-lhe s abas do casaco.
Se muitas pessoas chegavam ao Vale sem um ceitil; outras, 
depois de venderem o que lhes pertencia, chegavam com dinhei-
ro para principiar uma vida nova. Compravam terra, mas terra boa, 
e mandavam construir uma casa de boa madeira. Tinham tapetes 
e as janelas adornavam-se de pequenos losangos de vidro colo-
rido. Essas famlias eram numerosas. Arrancavam a mostarda e 
semeavam trigo.
Adam Trask achava-se nessas circunstncias.



CAPTULO III

1

Adam Trask nasceu em 1862 numa propriedade do Connec-
ticut, seis meses depois de o pai se ter alistado num regimento da 
provncia. Enquanto cuidava do filho e dirigia a propriedade, a me 
de Adam ainda arranjou tempo para se entregar a uma teosofia 
primitiva. Pressentindo que o marido seria morto por esses selva-
gens brbaros que eram os rebeldes, preparou-se para se lhe jun-
tar naquilo a que chamava o alm. O marido voltou ao lar seis 
semanas aps o nascimento de Adam, com a perna direita corta-
da  altura do joelho, mancando sobre uma tosca perna de pau 
que fizera com um pedao de faia. Ao chegar, tirou da algibeira a 
bala de chumbo que lhe tinham dado a morder, enquanto lhe cor-
tavam a perna.
Cyrus, o pai de Adam, parecia ter o diabo no corpo. Era um 
selvagem, um desvairado que conduzia o carro de duas rodas a 
velocidades loucas. Nem a mutilao o acalmara. A perna de pau 
transformara-se num meio de seduo e chegava quase a causar 
inveja. A breve carreira militar fora para ele uma fonte de prazer. A 
sua natureza selvagem pudera expandir-se  vontade, durante o 
curto perodo da instruo, com o vinho, o jogo e as mulheres de 
m vida. Quando foi para o Sul render uma unidade, os prazeres 
mudaram mas foram, tambm, intensos. Viu terras novas, roubou 
frangos e derrubou raparigas rebeldes em medas de feno. O hor-
ror montono das manobras no o afectava. Avistou o inimigo pela 
primeira vez numa manh de Primavera, s oito horas. s oito e 
meia fora atingido na perna direita por um estilhao de granada
que lhe rasgou os tecidos e desfez os ossos. Teve sorte, os Sulis-
tas recuaram e os mdicos evacuaram-no para a retaguarda. A, 
enquanto lhe cortavam os tendes, serravam os ossos e caute-
rizavam a ferida, Trask viveu cinco minutos de pavor. Alis, as 
marcas dos dentes na bala ficaram como prova. Sofreu 
indizivelmente enquanto o coto cicatrizava nas estranhas condi-
es de assepsia que reinavam ento nos hospitais. Mas Cyrus 
era resistente e enrgico. Mesmo sem perna, resolveu procurar 
madeira para fazer uma muleta. Atrs duma pilha de tbuas, encon-
trou uma preta que lhe assobiou e, mediante dez cntimos, lhe 
pregou um violentssimo escarpio. Assim que fez a nova perna 
de faia e compreendeu a infelicidade que o atingira, partiu coxe-
ando  procura da preta. Deleitava-se contando aos camaradas 
do hospital o que faria  rapariga se lhe pusesse a mo em cima. 
Tencionava cortar-lhe o nariz e as orelhas e obrig-la a devolver o 
dinheiro. Enquanto aperfeioava a perna, descrevia aos compa-
nheiros o que faria: E quando tiver acabado, a puta h-de ficar 
com uma rica cara... Nem os ndios bbedos a ho-de querer.,, A 
negra dos seus amores deve ter desconfiado do que a esperava, 
pois desapareceu. Cyrus foi desmobilizado. A blenorragia j no 
supurava. Quando regressou ao Connecticut, levava apenas o 
suficiente para contaminar a mulher.
A Sr. Trask era uma mulher plida e ensimesmada. Nunca 
nenhum raio de sol lhe tocara as faces e os msculos dos lbios 
nunca haviam sido contrados por um verdadeiro sorriso. Empre-
gava a religio como um agente teraputico para tratar o mundo e 
a si prpria. Se o mal evolua, adaptava a religio ao mal. Quando 
compreendeu que a teosofia que arquitectara para comunicar com 
um esposo morto se mostrava intil, procurou um outro motivo 
para sofrer. Depressa foi recompensada pela infeco que Cyrus 
trouxera da guerra. Assim que teve a certeza, substituiu a antiga 
iluminao por uma nova. O deus de contacto transformou-se num 
deus de vingana, o deus mais magnfico de todos os que inven-
tara e o ltimo, pela evoluo dos acontecimentos. No havia d-
vida de que a sua misria fsica era a punio de certos sonhos 
que tivera na ausncia do marido. Mas a infeco no era um 
castigo suficiente para os seus desmandos durante o sono. O novo 
deus era exigente em matria de castigo. Pedia-lhe um sacrifcio.
Procurou a maneira de humilhar a carne e o esprito e, finalmente, 
com uma espcie de alegria, encontrou a resposta: o deus exigia-
-lhe o seu prprio sacrifcio. Levou duas semanas a emendar os 
erros de ortografia da carta de despedida, onde confessava cri-
mes que no podia materialmente ter cometido e erros que esta-
vam muito alm das suas possibilidades. Depois, uma noite,  luz 
do luar, envolta numa mortalha confeccionada em segredo, foi afo-
gar-se num charco to pouco profundo que teve de ajoelhar na 
lama e manter a cabea debaixo de gua - o que demonstrava 
uma grande fora de vontade. Quando, finalmente, a inconscin-
cia comeou a apoderar-se dela, pensou, com uma ponta de abor-
recimento, que a mortalha ficaria manchada de lama quando a 
retirassem da gua no dia seguinte. O que no deixou de aconte-
cer.
Cyrus Trask carpiu a mulher com um jarro de usque e trs 
camaradas de regimento que regressavam ao Maine natal. Adam 
chorou muito no princpio do velrio, pois os quatro homens, igno-
rantes da puericultura, esqueceram-se de alimentar o beb. Cyrus 
resolveu o problema dando-lhe a chupar um trapo molhado em 
usque. Adam, aps trs ou quatro doses, adormeceu. Acordou e 
chorou vrias vezes durante o luto, tendo sempre direito  chu-
peta. O beb no se desembebedou durante dois dias e meio. A 
matria cinzenta talvez tivesse sofrido, mas o tratamento foi ben-
fico para o metabolismo: esses dois dias e meio dotaram-no de 
uma sade de ferro. Quando, por fim, ao terceiro dia, o pai foi 
comprar uma cabra, Adam bebeu gulosamente o leite, vomitou, 
tornou a beber e pareceu satisfeito. O que no teve o condo de 
alarmar o pai, pois o lcool fazia-lhe o mesmo efeito.
Decorrido um ms, Cyrus Trask j fizera a sua escolha: ela 
tinha dezassete anos e era filha de lavradores vizinhos. O namoro 
foi rpido. Ningum teve dvidas acerca das intenes do vivo 
que eram razoveis e honestas. O pai da prometida reduziu ao 
mnimo o tempo de noivado: tinha duas filhas mais novas. Alice 
nunca tivera mais nenhum pretendente.
Cyrus precisava duma mulher para criar Adam, tratar da casa 
e cozinhar. Uma criada custa dinheiro. Cyrus tinha um feitio slido 
e precisava duma mulher na cama. Uma amante custa dinheiro, a 
no ser que se case com ela. Em duas semanas namorou, despo-
sou, desflorou e emprenhou Alice. Ningum, na vizinhana, achou 
que andara depressa de mais. Nessa poca, era natural que um 
homem, enquanto vivo, desse cabo de quatro mulheres.
Alice Trask tinha um grande nmero de qualidades admir-
veis: sabia tratar da casa e o trabalho no a assustava. No era 
necessrio vigi-la, pois era feia, com olhos plidos e dentes irre-
gulares. Era uma mulher saudvel apesar do seu aspecto doen-
tio. Suportou a gravidez sem uma queixa. Nunca se soube se gos-
tava dos filhos, porque nunca ningum lho perguntou e no era 
mulher que falasse sem que a interrogassem. Era esta a sua me-
lhor qualidade, pensava Cyrus: nunca dava opinies nem sentenas 
e, quando estava um homem a falar, ficava-se com a vaga im-
presso de que ela o ouvia enquanto se entretinha com o trabalho 
domstico.
A juventude, a inexperincia e os silncios de Alice Trask fo-
ram um estmulo para Cyrus. Alm de continuar a explorar a sua 
propriedade de acordo com os mtodos que se adoptavam na 
regio, abraou uma nova carreira: a de antigo combatente. A 
mesma energia que o fizera ser um selvagem, deu azo a que se 
tornasse um homem sensato e reflectido. Fora do Ministrio da 
Guerra, ningum lhe conhecia a folha de servio. A perna de pau 
era a garantia de que passara pelas trincheiras e de que nunca 
mais l voltaria. Timidamente, comeou a contar as suas campa-
nhas a Alice. Mas, assim que dominou a tcnica, as batalhas au-
mentaram de importncia e se, ao princpio, soube que mentia, 
no tardou a esquec-lo. Ele, que se desinteressara da guerra 
quando fora soldado, ps-se a comprar livros histricos e tratados 
militares, e fez-se assinante dos jornais de Nova Iorque para ler 
os comunicados. Para consolidar os conhecimentos geogrficos, 
comprou mapas. Finalmente, tornou-se uma autoridade na mat-
ria. Podia no s citar as datas das batalhas e descrever a manei-
ra como se tinham desenrolado, como conhecia os nomes das 
unidades que haviam participado, os nmeros dos regimentos, os 
patronmicos dos coronis e os lugares onde tinham nascido. Aca-
bou por se convencer de que tinha tomado parte nos aconteci-
mentos que narrava.
Esta transformao efectuou-se gradualmente durante o cres-
cimento de Adam e do seu meio-irmo. Adam e o pequeno Charles
escutavam religiosamente o pai explicar-lhes as tcticas dos gene-
rais, porque tinham cometido erros e como os teriam podido reme-
diar. Chegara mesmo a chamar a ateno de Grant e de Mac 
Clellan para os erros que tinham praticado, suplicando-lhes que 
tomassem em considerao o seu ponto de vista. Invariavelmen-
te, os generais recusavam e s mais tarde  que se davam conta 
de como ele tinha razo.
Cyrus teve a inteligncia de no querer brilhar com divisas 
ilegais. Soldado raso fora e soldado raso se manteve. Se se fizes-
se uma ficha das suas actividades, chegava-se  concluso de 
que o soldado Trask fora o infante mais mvel da histria. Dotado 
de ubiquidade, encontrava-se, pelo menos, em quatro stios diferen-
tes ao mesmo tempo. Talvez fosse o instinto que lhe ditasse a 
necessidade de no contar as suas campanhas por ordem cronol-
gica. Alice e os filhos tinham dele uma imagem completa: um sol-
dado raso orgulhoso da sua posio que, no s participara em 
todas as batalhas espectaculares ou importantes, mas tambm 
tinha acesso ao quartel general, onde emitia opinies, escutadas 
com o maior respeito, acerca das decises dos oficiais generais.
A morte de Lincoln ferira-o como uma punhalada. Sempre se 
recordou do que sentira quando recebeu a notcia. No podia evo-
car o drama sem lhe assomarem as lgrimas aos olhos. Com-
preendia-se, sem correr o risco de errar, que Cyrus Trask fora o 
amigo mais querido, mais sincero, mais chegado do Presidente 
Lincoln. Quando queria conhecer os sentimentos do exrcito do 
verdadeiro exrcito e no do constitudo por manequins mascara-
dos - o Sr. Lincolii dirigia-se a Trask. A maneira como Cyrus, 
sem nunca o afirmar, o dava a entender, era um monumento de 
insinuao. Ningum o podia considerar um mentiroso, pois a 
mentira estava-lhe no sangue e toda a verdade que lhe saa da 
boca tinha a cor da mentira.
Depressa se ps a escrever cartas, seguidas de artigos so-
bre a maneira de conduzir a guerra, e as concluses eram inteli-
gentes. Deve-se dizer que Cyrus adquirira uma excelente menta-
lidade militar e que as suas criticas sobre a evoluo da guerra e a 
organizao do exrcito eram penetrantes. Os artigos, publicados 
em vrias revistas, despertaram a ateno. Quando as suas car-
tas ao Ministrio da Guerra foram publicadas simultaneamente
por vrios jornais, comearam a fazer caso das suas sugestes. 
Era possvel que, se o Grande Exrcito da Repblica no repre-
sentasse um corpo eleitoral to poderoso, a sua voz no tivesse 
sido to claramente escutada em Washington, mas no podiam 
dar-se ao luxo de ignorar o porta-voz de um bloco de cerca de um 
milho de votos. E era nisto que se tornara Cyrus Trask em mat-
ria militar. Chegaram a consult-lo sobre assuntos que diziam res-
peito  organizao do exrcito, s relaes entre oficiais, ao pes-
soal e ao material. O Sr. Trask  um perito, dizia-se. Tem o gnio 
das coisas militares. Transformou o Grande Exrcito da Repbli-
ca numa organizao que desempenhava um importante papel 
na vida nacional. Depois de ter, benevolamente, ocupado vrios 
postos, ofereceram-lhe um secretariado remunerado de que as-
sumiu a chefia at ao fim dos seus dias, viajando pelo pas de 
ponta a ponta, assistindo aos congressos e organizando campos 
de repouso. Isto, quanto  sua vida pblica.
Quanto  vida privada, no passava duma rplica civil da pro-
fisso marcial - Cyrus era homem de uma s ideia. Organizou o 
lar e a propriedade em bases militares. Exigiu relatrios sobre o 
andamento da economia familiar. Alice preferia este mtodo, pois 
no gostava de falar. Os cuidados com as crianas, a limpeza da 
casa e a lavagem da roupa davam-lhe muito que fazer. Tinha a 
preocupao de no desperdiar as energias, preocupao que 
no figurava nos relatrios. As vezes, sentia-se completamente 
vazia de foras e tinha de se sentar  espera que voltassem.  
noite, uma transpirao abundante encharcava-lhe as roupas. 
Sabia perfeitamente que estava tsica. Os ataques de tosse que a 
deixavam extenuada no passavam de sintomas suplementares. 
No sabia quanto tempo lhe restava ainda para viver. Certas pes-
soas, no mesmo caso, no duravam muito. Mas no havia regra e 
ela no ousava falar no caso ao marido. Ele tinha uma maneira de 
curar que se assemelhava muito ao castigo. Uma dor de est-
mago era atalhada com uma purga to violenta que s por milagre 
se lhe sobrevivia. Se ela lhe falasse no seu estado, Cyrus era 
capaz de lhe infligir um tratamento que a mataria muito tempo 
antes de ser consumida pela doena. Alis, para se defender do 
crescente militarismo civil de Cyrus, Alice aprendia a nica tc-
nica que permite ao soldado sobreviver: no se tornar notado; s
falar para responder; no dar provas de iniciativa; desprezar as 
promoes. Nem soldado raso chegava a ser, o que muito simpli-
ficava as coisas. Alice recuava, recuava para o fundo do palco 
para no passar de uma silhueta imprecisa.
Foram os dois garotos que aguentaram com as 
consequncias. Cyrus partia do princpio que s existia uma car-
reira honrosa para um homem: a das armas, apesar das suas 
imperfeies. Como a perna de pau o relegava para as reservas, 
queria filhos no activo, oficiais que se distinguissem, soldados que 
aprendessem o Ofcio por experincia e no nos manuais. Incul-
cou-lhes os princpios do manual de infantaria quando eles ainda 
mal se tinham de p. Quando entraram para a escola, j haviam 
aprendido a obedincia e o dio  obedincia. Cyrus comandava 
os exercicios marcando o ritmo na perna de pau. Instituiu o regi-
me das marchas foradas, com um saco cheio de pedras s cos-
tas para enrijar os ombros. Os exerccios de tiro realizavam-se na 
mata atrs da casa.


2

Quando uma criana v, pela primeira vez, os adultos tais 
como so, quando, pela primeira vez, lhe penetra na cabea a 
ideia de que os adultos no tm uma inteligncia divina, de que os 
seus juzos nem sempre so acertados, as ideias boas, as frases 
correctas, todo o seu mundo desaba e d lugar a um caos ater-
rador. Os dolos caem e a segurana desaparece. E quando um 
dolo cai, no  s em parte, fica completamente esmagado e esti-
lhaado ou desaparece sob um monte de estrume. Torna-se, en-
to, difcil reconstitu-lo e, mesmo que o voltem a colocar no pe-
destal, ficam sempre manchas inapagveis que denunciam a queda 
passada. E o mundo da criana j no est intacto. Penosamente, 
ir-se- arrastando at ao estado de homem.
Adam compreendeu quem era o pai. No foi o homem quem 
descobriu um defeito na couraa, foi a criana quem forjou novas 
armas. Como todo o animal bem constitudo, odiava a disciplina.
Era um mal inevitvel como o sarampo, um mal que no se podia 
recusar nem amaldioar, mas apenas odiar. Foi muito simples e 
rpido - um estalido no crebro e Adam compreendeu. A educa-
o no era concebida em funo dos rapazes, mas unicamente 
para engrandecer Cyrus. Ora Adam sabia que o pai no era um 
grande homem. Era, dotado duma grande vontade, um homen-
zinho que usava um chapu grande de mais para a cabea. O que 
 que pe o mecanismo em movimento no crebro da criana: um 
olhar, uma mentira descoberta, uma hesitao? Seja o que for, o 
dolo desaba com fragor. Adam foi sempre uma criana obedien-
te. Havia nele algo que o fazia furtar-se  violncia, ao que podia 
fazer desencadear a violncia. Desejoso de calma, despojava-se 
da agressividade, mas era obrigado a dissimular uma parte de si 
mesmo, pois h sempre um pouco de violncia em todos ns. 
Ocultava as suas aces sob um vu de bruma, mas no fundo 
dos olhos fervilhava uma vida rica e intensa. Se no se encon-
trava protegido contra os ataques, tinha uma espcie de imuni-
dade.
O meio-irrno Charles, menos de um ano mais novo, crescia 
 imagem do pai. Era um atleta nato e possua um esprito de 
competio que leva a afrontar os outros para os esmagar - o 
que, no nosso mundo,  considerado um sinal de xito.
Quer se tratasse de habilidade, de fora pura ou de rapidez 
de reflexos, o jovem Charles, em competio com Adam, ganha-
va sempre com uma tal regularidade e uma tal facilidade que de-
pressa se aborreceu e foi procurar novos adversrios entre as 
outras crianas. Nasceu uma espcie de afeio entre os dois 
irmos, mas uma afeio de irmo por irm. Charles provocava e 
castigava os que desafiavam ou atacavam o irmo mais velho. 
Protegia-o do rigor paterno mentindo e arcando com as culpas. 
Tinha pelo irmo a afeio que se concede a um ser indefeso, 
cachorro cego ou recm-nascido.
Dissimulado na sua carapaa, atravs dos longos tneis onde 
escondia os olhos, Adam examinava os que habitavam o seu mun-
do. O pai, fora natural de uma s perna, presente para aumentar 
nos meninos a sensao da sua pequenez, para os convencer da 
sua estupidez. Depois, mais tarde - aps a queda do dolo- um 
polcia congnito, um agente da policia a quem se pode enganar
ou cercar, mas nunca desafiar. No campo dos seus longos olhos-
tneis, Adam via a imagem de Charles, um ser de outro gnero, 
feito de msculos e de ossos, rpido e gil, vivendo num plano 
diferente, que se pode admirar como se admira o andar pregui-
oso da pantera negra, mas com quem, nem por sombras, se 
podia comparar; um ser ao qual teramos tanta vontade de nos 
confiarmos - dizer a sede das coisas, os sonhos azuis e os pra-
zeres que nascem para c dos dois tneis - como a uma bela 
rvore ou a um faiso voando. Adam gostava de Charles como 
uma mulher gosta de um grande diamante, e dependia do irmo 
na medida em que uma mulher depende do seu diamante, da po-
sio social que o seu valor apregoa. Mas ter-lhe amor, afeio, 
simpatia, no.
Em relao a Alice Trask, Adam nutria um sentimento de ca-
lorosa vergonha. No era me dele - de mais lho tinham dito, 
no por frases categricas mas pela maneira como se dizem cer-
tas outras coisas. Sabia que tivera uma me e que ela fizera coi-
sas vergonhosas - como esquecer-se de alimentar as galinhas 
ou falhar o alvo nos exerccios da mata. E, para castigo das suas 
faltas, desaparecera. Adam dizia muitas vezes a si mesmo que, 
se conseguisse descobrir o pecado que ela cometera, se apres-
saria a comet-lo para desaparecer por sua vez.
Alice tratava equitativamente os dois rapazes, lavava-os e 
dava-lhes de comer. O resto era com o pai que dera a entender, 
de uma vez para sempre, que s a ele respeitava a educao 
fsica e espiritual das duas crianas.
As felicitaes e os ralhos tambm eram com ele. Alice nun-
ca se queixava, nem discutia, assim como nunca chorava nem se 
ria. Aprendera a mostrar um rosto impenetrvel - nada tinha a 
esconder, nem a oferecer. Contudo, um dia, quando ainda era muito 
pequeno, Adam entrara na cozinha. Alice no o viu, entretida a 
remendar meias. Sorria. Adam saiu sem rudo e foi esconder-se 
atrs dum tronco de rvore que descobrira na mata, aninhando-se 
no meio das razes protectoras. Ficara to surpreendido como se 
tivesse surpreendido Alice nua. Respirava com fora, muito im-
pressionado, faltava-lhe o ar, porque Alice estava nua, comple-
tamente despida pelo sorriso. Perguntava a si mesmo porque se 
teria ela permitido um tal desregramento. Sentiu, ento, que um
sentimento doloroso, lancinante e clido, o empurrava para ela. 
Nunca fora beijado, embalado, acariciado, ele que procurava um 
seio, uns joelhos a que se agarrar, um pouco de ternura numa 
voz. A sua paixo compunha-se de todas estas coisas que lhe 
tinham faltado, mas no o sabia visto que as ignorava. Como lhe 
poderiam ter feito falta?
Pensou, evidentemente, que talvez se tivesse enganado, que 
fora apenas uma sombra maliciosa o que lhe embaciara o olhar. 
Procurou a imagem que encerrara na memria e viu que os olhos 
tambm sorriam. A sombra podia fazer sorrir uma boca ou uns 
olhos, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo.
Ps-se ento a espreitar Alice com as mesmas artimanhas 
que empregava para surpreender as velhas doninhas prudentes 
que expunham os filhos ao sol. Espreitou Alice, escondido, ou com 
o rabo do olho. Era verdade: quando estava s ou se julgava s, 
ela deixava o espirito brincar num jardim e sorria. Era maravilhoso 
ver como ela conseguia apagar o sorriso, to depressa como as 
doninhas escondem os filhos.
Adam dissimulou o seu tesouro no fundo dos tneis, mas sen-
tiu que devia pagar um tributo pelo prazer recebido. Alice, ento, 
passou a encontrar presentes na caixa da costura, na velha mala 
de mo, debaixo do travesseiro: duas flores de caneleira, uma 
pena azul de pssaro, meio pauzinho de lacre verde, um leno 
roubado. A princpio, Alice ficou admirada mas depressa se habi-
tuou e quando, depois, encontrava um desses presentes inespe-
rados, s o sorriso destinado ao jardim lhe iluminava o rosto, sor-
riso to breve como o faiscar dum raio de sol nas escamas dum 
peixe na gua. Mas no fez quaisquer perguntas, nem a mnima 
observao.
Os ataques de tosse tornaram-se to fortes que Cyrus, resol-
vido a proteger o seu sono, mandou-a dormir para outro quarto. 
Mas ia visit-la com muita frequncia, saltitando sobre o nico p 
descalo e apoiando-se  parede com a mo. Os filhos ouviam e 
sentiam a sacudidela, quando ele se deixava cair ou saa da cama 
de Alice.
Adam via aproximar-se o dia em que seria incorporado e esse 
dia assustava-o. O pai nunca se esquecia de lhe lembrar que tal 
dia no tardaria. Adam. precisava de ir para a tropa para ser um
homem. Charles j era quase um homem. Um homem perigoso 
apesar de s ter quinze anos, quando Adam j ia nos dezasseis.


3

A amizade dos dois irmos crescera com os anos. Nos senti-
mentos de Charles talvez entrasse um pouco de desprezo, mas 
era um desprezo protector. Uma tarde, os dois rapazes estavam 
jogando ao peewee na cerca. Era um jogo novo para eles: colo-
cava-se um pauzinho esquinado no cho; batia-se numa extremi-
dade com uma espcie de p; o pauzinho saltava e dava-se-lhe, 
ento, com a p, para que atingisse a maior distncia possvel.
Adam era um medocre jogador mas, por acaso, por falta de 
viso ou de sincronismo do irmo, ganhou-lhe ao peewee. Quatro 
vezes de seguida jogou o pauzinho mais longe. O facto era to 
inesperado que se apoderou dele uma alegre excitao e se es-
queceu de observar Charles como nunca deixava de o fazer.  
quinta vez, o pauzinho elevou-se com um zumbido de abelha e 
desapareceu. Satisfeito, voltou-se para o irmo e a sua alegria 
dissipou-se subitamente para dar lugar a um grande frio. O dio 
que deformava o rosto de Charles meteu-lhe medo.
- Foi por acaso - disse desajeitadamente. - Aposto que 
no sou capaz de tornar a fazer o mesmo.
Charles ps no cho o seu peewee, bateu e falhou o pauzinho 
s voltas no ar. Avanou para Adam, com o olhar frio e inexpres-
sivo. Adam recuou de travs, tomado de pnico. No ousava vol-
tar as costas e fugir porque o irmo corria mais depressa do que 
ele. Ps um p atrs do outro, com o olhar assustado e a garganta 
seca. Charles aproximou-se e,  queima-roupa, vibrou-lhe uma 
paulada na cara. Quando Adam levava as mos ao nariz ensan-
guentado, Charles agrediu-o com a p nas costas e na cabea, 
deixando-o prostrado. Depois, vendo-o inanimado no cho, deu-
-lhe um pontap no estmago e afastou-se.
Adam recuperou os sentidos poucos instantes depois e res-
pirou devagarinho porque lhe doa muito o peito. Tentou sentar-se
mas caiu para o lado, torcido pela dor que se enrodilhara na boca 
do estmago. Viu que Alice o olhava pela janela e o seu rosto 
exprimia qualquer coisa que nunca vira at ento - no era dou-
ra, nem compaixo, talvez fosse dio. Quando se sentiu observa-
da, Alice deixou cair a cortina e desapareceu. Adam conseguiu, 
finalmente, erguer-se e dirigiu-se, dobrado em dois, para a cozi-
nha onde encontrou uma bacia com gua quente e uma toalha 
limpa. A madrasta tossia no quarto.
Charles s tinha uma grande qualidade: nunca lamentava 
nada. No falou na sova e pareceu nunca mais ter pensado nela. 
Mas Adam tomou a precauo de nunca mais ganhar a coisa ne-
nhuma. Se quisesse ter, um dia, a veleidade de ganhar, deveria 
preparar-se para poder matar o irmo logo a seguir. Charles nada 
lamentava. Mostrara, simplesmente, aquilo de que era capaz.
Nem Charles, nem Adam, e muito menos Alice, falaram da 
tareia a Cyrus que, no entanto, pareceu estar informado. Nos 
meses que se seguiram, a sua atitude para com Adam foi mais 
amvel. Falou-lhe com mais ternura e no o tornou a castigar.
E se, todas as noites, lhe pregava um sermo, era sem vio-
lncia. Mas Adam sentia-se muito mais atemorizado pela ternura 
do que pela violncia um sintoma de que o iam sacrificar. As vti-
mas destinadas aos dolos so tratadas com todas as conside-
raes. Devem estender-se em cima da pedra e deixar que lhes 
cortem o pescoo com alegria, porque uma vitima revoltada seria 
um ultraje aos dolos.
Cyrus explicava suavemente a Adam o que era um soldado. 
Se bem que o seu saber fosse mais o fruto de investigaes do 
que de experincias, era rigoroso nas explicaes. Avisou o filho 
da triste dignidade que pode ser conferida ao soldado; disse-lhe 
quanto ele era necessrio para iluminar os erros do homem, cas-
tigo das nossas fraquezas. Talvez Cyrus fosse descobrindo essas 
coisas em si mesmo  medida que as exprimia. J andava longe 
do entusiasta que s se interessava pelo brilho das fardas e pelos 
sentimentos belicosos dos verdes anos. Nenhuma humilhao se 
poupava ao soldado, no consenso de Cyrus, para que, chegado o 
dia, aceitasse sem ira demasiada a ltima humilhao: uma morte 
ignbil que para nada serve. Cyrus s se dirigia a Adam e no 
autorizava Charles a escut-lo.
Por um fim de tarde, Cyrus levou Adam a passear. As negras 
concluses de todos os seus estudos e de todos os seus pen-
samentos derramaram-se, semeando o pnico no nimo do filho.
-  preciso que saibas que o soldado  o mais abenoado 
de todos os seres humanos, por ser o que mais provaes sofre. 
Sim, submetem-no a mais provaes do que seja quem for. Vou 
tentar explicar-te: sempre ensinaram ao homem que matar o pr-
ximo  um pecado sem remisso. Um homem que mata deve ser 
suprimido, porque matar  um grande pecado, talvez o maior de 
todos. Mas pegamos num soldado, metemos-lhe nas mos o po-
der de matar e dizemos-lhe: Aprende a servir-te dele. Emprega-
-o o melhor que puderes. No lhe fixamos um limite. Vai e mata 
muitos irmos teus, os que forem designados por ns, e ns te 
recompensaremos por isso, pois  uma violao da mais terna 
educao.
Adam molhou os lbios secos e tentou fazer uma pergunta. 
No o conseguiu e tentou de novo:
- Porque devem eles matar? Porque  necessrio matar?
Cyrus estava profundamente comovido e falou como nunca 
tinha falado.
- No sei. Estudei as coisas e talvez saiba o que elas so, 
mas estou muito longe de saber porque so. E no deves esperar 
encontrar pessoas que te compreendam o que fazem. Tantos ac-
tos so instintivos: a abelha fabrica o mel e a raposa caminha no 
riacho para enganar os ces. A raposa no sabe porque age des-
se modo, e qual a abelha que se lembra do Inverno e prev que 
ele h-de voltar? Quando compreendi que tinhas de partir, pensei 
primeiro em deixar-te um futuro virgem onde pudesses descobrir 
tudo tu por ti mesmo; depois, pareceu-me que ficarias melhor pro-
tegido se te desse o pouco que sei. Porque tu vais partir em breve 
-j atingiste a idade.
- Mas eu no quero - disse rapidamente Adam.
- Vais partir em breve - continuou o pai, que no o escuta-
va. E quero acautelar-te para que no sejas apanhado de sur-
presa. Primeiro, pem-te nu. Mas no ficam por a. Destruiro em 
ti toda a dignidade; perders o que pensas ser um direito im-
prescritivel: o direito de viver s, o direito  decncia. Obrigar-te-
-o a viver, a comer, a dormir e a cagar com outros homens. E
quando te tiverem vestido, j no consegues distinguir-te dos ou-
tros. Nem sequer poders pregar um papel no peito, dizendo: Sou 
eu. No fao parte deles.
- Mas eu no quero.
- Aps algum tempo, os teus pensamentos j no diferiro 
dos pensamentos dos outros. Deixars de conhecer as palavras 
que os outros no pronunciarem. E fars as coisas porque os ou-
tros as fazem. Sentirs o perigo contido no no-conformismo, o 
perigo que representar para ti a existncia duma massa com um 
s pensamento, uma s aco.
- E se eu no me submeter?
-  uma coisa que acontece. Muito raramente, aparece um 
homem que no faz o que lhe mandam. Sabes, ento, o que acon-
tece? Toda a mquina se pe em movimento e esmaga friamente 
todas as salincias do recalcitrante. Mi o crebro, os nervos e o 
corpo at se transformarem numa pasta que se adapta s pare-
des do vaso que a deve conter. Se no te submeteres, a mquina 
vomita-te e abandona-te. J no fazes parte dela mas, mesmo 
assim, no s livre.  melhor submeter-se  sua vontade. Ela s o 
exige para se proteger. Uma entidade to triunfalmente ilgica, 
to magnificamente insensvel como o exrcito no pode permitir 
perguntas que a enfraqueceriam. Uma vez alistado, se no procura-
res elementos de comparao desfavorveis, encontrars no exr-
cito - lentamente, seguramente - uma razo, uma lgica e uma 
assustadora beleza. Um homem que o aceita no  forosamente 
inferior, pode at ser um homem melhor. Presta bem ateno ao 
que te digo, porque tenho pensado muito nisso. H homens que, 
depois de terem alcanado a mais profunda e sombria desagrega-
o exigida pelo exrcito, se confessam vencidos e perdem, en-
to, todas as cores.  preciso que se diga que esses homens 
comearam por nunca ter tido umas cores muito brilhantes. Tal-
vez tu faas parte desse grupo. Mas h tambm os que, tendo 
atingido o fundo, e perdido o p sob a camada de lama comum, 
sobem ento  superfcie e se ultrapassam porque se 
desenvencilharam duma mesquinhez feita de vaidade e 
envergaram a altivez dum grupo. Se puderes descer to baixo, 
subirs mais alto do que podes imaginar e conhecers uma ale-
gria sem igual, saborears o prazer duma camaradagem que vale
a dos anjos no cu. S ento conhecers os homens, mesmo que 
no formem seno uma massa. Mas para saber tudo isso, ters 
primeiro que tocar no fundo.
Quando se dirigiam para casa, Cyrus virou  esquerda e en-
trou na mata. Era quase de noite. Adam disse subitamente:
- Vs aquele tronco, pai? Escondia-me nas razes quando 
me castigavas ou s porque me sentia infeliz.
- Vamos ver - disse o pai.
Adam conduziu-o e Cyrus debruou-se para a cavidade arran-
jada nas razes.
- J o conhecia h muito tempo - disse. - Num dia em que 
ficaste por fora muito tempo, pensei que devias ter um esconde-
rijo e procurei-o tentando imaginar antecipadamente qual era o 
gnero de stio de que precisavas. Vs como a terra est batida e 
a erva arrancada? Enquanto estavas a escondido, arrancavas pe-
daos da casca que rasgavas em tiras. Soube logo que era este o 
stio, mal aqui cheguei.
Adam fitava o pai com um olhar admirado.
- Mesmo assim, nunca me vieste buscar.
Pode-se obrigar um ser humano a chegar muito longe, mas 
eu nunca o quis fazer. Deve-se deixar sempre um meio de evaso 
ao homem, antes da sua morte. Recorda-te disto! No queria le-
var-te a um extremo porque sentia que te havia fechado todas as 
sadas, menos uma.
Saram  pressa da mata.
- Tenho tantas coisas a dizer-te que acabarei por esquecer 
mais de metade - disse Cyrus. - Quero dizer-te que um soldado 
desde o dia em que nasce, atravs de cada acontecimento, por 
cada lei, por cada direito ou dever, aprende a proteger a vida.  
com esse instinto que parte e tudo o vem confirmar. Mas quando 
se torna soldado, deve aprender a esquec-lo, deve aprender a 
viver aceitando a morte. E a sua razo no deve vacilar. Se pude-
res l chegar - cuidado, muitos so incapazes - ters adquirido 
a maior das virtudes. Ouve, meu filho... (E a voz tornou-se mais 
animada.) A maioria dos homens tem medo. Ignoram a causa do 
seu medo: sombras, perguntas, perigos sem nome e sem conta, 
medo da morte annima. Se te puderes alar at olhar de frente, 
no sombras, mas a morte, a verdadeira morte, a morte tal como
a conhecemos, pela bala ou pelo sabre, pela flecha ou pela lana, 
ento deixars de ter medo ou, pelo menos, de ter medo como 
antes. Ters direito a um lugar  parte, sers um homem em se-
gurana onde os outros uivam de pavor.  esta a grande recom-
pensa. Talvez seja a nica. Talvez seja a pureza derradeira com o 
seu anel de sujidade. J  quase noite. Amanh, falarei novamente 
contigo, depois de termos pensado no que acabei de te dizer.
Ento Adam perguntou:
- Porque no falas antes com o meu irmo? O Charles no 
se importa de ir. Ser um bom soldado, muito melhor do que eu.
- O Charles no vai. No serviria de nada.
- Mas daria um bom soldado?
- Aparentemente. O Charles no conhece o medo. No pode-
ria aprender o que  a coragem. Nada sabe acerca do que h fora 
de si mesmo, portanto como poderia assimilar as coisas de que te 
falei? P-lo no exrcito equivaleria a desencadear nele sentimentos 
que devem, justamente, ser refreados. No o mandarei alistar-se.
- Nunca o castigas, deixa-o viver  vontade, sempre o enco-
rajavas enquanto me humilhavas, e agora no o queres meter no 
exrcito.
Adam deteve-se, assustado com o que dissera, receando que 
o pai descobrisse a raiva, o desprezo ou a violncia que aquelas 
palavras deixavam transparecer.
O pai no respondeu. Saiu da mata, com a cabea inclinada 
e o queixo repousando no peito. A perna de pau desenhava um 
semicrculo para avanar e a anca soerguia-se sempre que o coto 
tocava no cho.
Fazia completamente escuro e a luz doirada dos candeeiros 
saa pela porta aberta da cozinha. Alice saiu e perscrutou a obs-
curidade, depois, ao ouvir os passos irregulares, tornou a entrar 
em casa.
Cyrus s se deteve no limiar. Ergueu a cabea. 
- Onde ests?
- Aqui, atrs de ti.
- Fizeste uma pergunta. Suponho que devo responder-te 
Fao bem ou mal em responder? No sei. Tu no s inteligente. 
No sabes o que queres. Ignoras a violncia. Deixas-te levar. s 
vezes, conveno-me bem de que s um pobre tipo que nunca con-
seguir nada. Isto responde  tua pergunta? Gosto mais de ti. 
Sempre te preferi a ele. Talvez seja mau dizer-to, mas  verdade; 
gosto mais de ti. Se no fosse isso, porque me teria dado ao tra-
balho de te fazer mal? Agora, cala a boca e vai jantar. Amanh  
tarde voltaremos a falar. A perna est a doer-me.


4

Ningum falou durante o jantar. O sossego s foi perturbado
pelo sorver da sopa e pelo rudo das mandbulas. O pai tentava
afastar com as costas das mos as borboletas que voavam em
torno do vidro do candeeiro de petrleo. Adam pensava que o ir-
mo o observava disfaradamente. Ergueu bruscamente os olhos
e surpreendeu um claro no olhar de Alice. Assim que acabou de
comer, Adam afastou a cadeira.
- Vou dar uma volta - disse. Charles levantou-se: 
- Vou contigo.
Alice e Cyrus viram-nos sair e, depois, ela fez uma das suas
raras perguntas:
- Que fizeste tu? - perguntou nervosamente. 
- Nada.
- Vais mand-lo para l? 
- Vou.
- Ele sabe?
Cyrus fitou a obscuridade, para l da porta: 
- Sabe, sim.
- No h-de gostar. No  bom para ele. 
- No tem importncia - disse Cyrus. 
Depois repetiu mais alto: 
- No tem importncia.
E o tom da voz significava: Basta! No tens nada com isso.
Ficaram silenciosos por um momento e, depois, ele disse, como
que a pedir que o desculpassem:
- No  como se fosse teu filho. 
Alice no respondeu.
Na obscuridade, os dois irmos caminhavam entre os trilhos 
da estrada. Ao fundo, algumas luzes indicavam a posio da al-
deia.
- Vamos  estalagem ver o que se passa? - perguntou 
Charles.
- No era isso o que eu tencionava fazer - disse Adam.
- Ento o que  que tu andas a cheirar c fora, em plena 
noite?
- Ningum te pediu para vir.
Charles aproximou-se:
- Que foi que ele te disse esta tarde? Vi-os andarem juntos. 
Que te disse ele?
- Falou-me da tropa, como sempre.
- No era isso o que parecia - disse Charles, suspeitoso.
- Vi-o debruado para ti, a falar-te como costuma falar aos ho-
mens. No contava coisas, estava a falar.
- Contava coisas - disse Adam, pacientemente.
Mas controlou a respirao porque sentia o estmago con-
trado por um assomo de medo. Aspirou um profundo hausto de
ar e guardou-o no peito para empurrar o medo.
- Que foi que ele te contou? - perguntou Charles de novo. 
- A tropa e o que  ser soldado.
- No acredito - disse Charles.- s um mentiroso refi-
nado e um sonso! O que me ests tu a esconder? 
- Nada - disse Adam
Charles lanou bruscamente:
- A doida da tua me atirou-se  gua. Se calhar olhou-te de 
perto e foi por isso.
Adam respirou suavemente; recalcando o medo ignbil. Con-
tinuava calado.
- Andas a ver se o atrais. No sei como  que consegues. 
- Hem! o que  que andas a tramar? 
- Nada - disse Adam.
Charles deu um salto para barrar a passagem a Adam que 
teve de parar; o seu peito quase tocava no do irmo. Adam re-
cuou, mas com extrema cautela, como se recua diante duma ser-
pente.
- Por exemplo: v se te recordas do aniversrio dele - ber-
rou Charles. - Eu tinha seis cntimos e comprei-lhe um canive-
te alemo: trs lminas e o saca-rolhas, com um cabo de 
madreprola. Onde est o canivete? J o viste alguma vez ser-
vir-se dele? Deu-to? Nunca o vi afi-lo. Tens o canivete a no teu 
bolso? Que foi feito dele? Obrigado, disse-me ele, sem mais nada. 
E depois nunca mais se tornou a falar no meu canivete de seis 
cntimos.
A fria deformava-lhe a voz e Adam sentia o medo a inchar 
dentro de si; mas tambm sabia que ainda dispunha de um mo-
mento. J vira muitas vezes comear a funcionar a mquina des-
truidora que esmagava tudo o que encontrava no caminho. Pri-
meiro, vinha a fria, depois, o frio domnio de si prprio: olhos sem 
expresso, sorriso satisfeito, voz sem timbre, segredar. Nessa al-
tura, surgia a morte, mas uma morte hbil e segura de si mesma, 
uma morte com punhos certeiros. Adam engoliu a saliva para 
humedecer a garganta. Nada tinha para dizer que desviasse a 
mquina, pois sabia que, possudo pela fria, o irmo no lhe pres-
taria ateno, nem sequer o ouviria.
Charles postou-se em frente de Adam, mais baixo, mais lar-
go, mais forte, mas no, ainda em posio de ataque. Os lbios 
hmidos brilhavam  luz das estrelas, mas no sorria ainda e a 
voz continuava a ser timbrada.
- Que fizeste tu no dia dos anos dele? julgas que no vi? 
Gastaste, por acaso, seis cntimos, ou mesmo quatro? Trouxeste-
-lhe um cachorro atravessado que apanhaste na rua. Riste como 
um imbecil e disseste-lhe que daria um bom co de caa.  no 
quarto dele que dorme o co. Enquanto l, brinca com o co. At 
o ensinou. E onde est o meu canivete, no meio de tudo isto? 
Obrigado foi tudo o que ele disse, obrigado.
Charles murmurara estas palavras enquanto baixava os om-
bros.
Adam deu um salto desesperado para trs e levantou as mos 
para proteger a cara. O irmo avanou com preciso e firmou-se 
nas pernas. Um punho atirado delicadamente para calcular a dis-
tncia, depois o trabalho, cientfico de destruio: um murro no 
estmago para baixar as mos de Adam, depois quatro murros na 
cara. Adam sentiu esmagarem-se os ossos e s cartilagens do 
nariz. Ergueu as mos e Charles atingiu-o no corao. E, durante
todo este tempo, Adam olhou o irmo com o olhar espantado e 
sem esperana que o condenado dirige ao carrasco.
Subitamente, para sua grande surpresa, Adam lanou em se-
micrculo um punho ineficaz que no tinha fora nem preciso. 
Charles esquivou-se, rodou, e o brao impotente foi enrolar-se-
lhe  volta do pescoo. Adam apertou o irmo nos dois braos e 
colou-se a ele soluando. Continuou a agarrar-se, apesar dos dois 
punhos que o martelavam, apesar da nusea. O tempo no pas-
sava. Sentiu que o irmo se movia de lado para o obrigar afastar 
as pernas. Sentiu o joelho subir, ultrapassar-lhe os joelhos, roar-
lhe as coxas e depois esmagar-lhe os testculos. Um ferro em 
brasa abriu uma dor fulgurante que se propagou atravs de todo o 
corpo. Abriu os braos, dobrou-se todo e vomitou sob os golpes 
implacveis que continuavam a chover.
Adam sentia as punhadas nas fontes, na cara, nos olhos, as 
pancadas que fendiam e faziam rebentar os lbios; mas a pele 
parecia-lhe mais espessa, menos sensvel, como se estivesse 
revestida de borracha. Perguntou a si mesmo porque no se lhe 
vergavam as pernas, porque no caa, porque no ficava incons-
ciente. A punio prosseguiu durante uma eternidade. Ouvia o 
arfar do irmo, o <h que lhe saa dos lbios como um ferreiro 
que abate o martelo. Depois,  luz doentia das estrelas, atravs 
da cortina de sangue que lhe escorria dos olhos, viu o irmo. Viu o 
olhar inocente, sem expresso, e o sorrisinho nos lbios molha-
dos. E quando via estas coisas, veio um claro, logo seguido da 
noite.
Charles ficou de p a olh-lo, engolindo o ar como um co 
sem flego.Depois voltou-se e afastou-se rpidamente em direc-
o a casa, amassando as falanges doloridas.
Adam depressa recuperou a conscincia e, com ela, veio o 
medo. O crebro rolava num nevoeiro doloroso. O corpo ficara 
pesado e desajeitado com a dor. Mas, instantaneamente, esque-
ceu a dor. Ouvira passos rpidos na estrada. Reagiu com o instin-
to do rato -medo e ferocidade. Ps-se de joelhos e atravessou a 
estrada em direco  valeta. Havia gua no fundo da valeta e 
erva nos bordos. Adam rastejou suavemente para entrar na gua 
sem provocar rudo.
Os passos aproximaram-se, afrouxaram, afastaram-se, tor-
naram a aproximar-se. Do seu esconderijo, Adam apenas avis-
tava uma sombra na noite. Riscou-se um fsforo e o enxofre ar-
deu com uma chamazinha azul antes que a madeira, ao pegar, 
iluminasse por debaixo, de maneira extravagante, o rosto de 
Charles que ergueu o fsforo e inspeccionou a zona iluminada  
sua volta. Adam viu-lhe um machadinho na mo.
Quando o fsforo se extinguiu, a noite pareceu mais escura 
do que antes. Charles avanou lentamente e riscou outro fsforo, 
depois outro ainda, e continuou a avanar. Procurava pegadas na 
estrada. Passado pouco tempo, renunciou s pesquisas. A mo 
direita descreveu um arco de crculo, atirando o machadinho para 
o meio dos campos. Depois, afastou-se rapidamente em direco 
s luzes plidas da aldeia.
Adam ficou muito tempo na gua gelada. Congeminava no 
que pensaria o irmo. Perguntava a si mesmo que sentimento 
viera substituir a fria: aflio, pena, remorso ou nada? Adam pu-
nha-se no seu lugar. Estava ligado ao irmo pelo canal do pensa-
mento e sofria por ele como noutras circunstncias fizera por ele 
os deveres escolares.
Adam saiu cautelosamente da gua e endireitou-se. As pan-
cadas cristalizavam em dores agudas e as crostas de sangue aca-
bavam de secar na cara. Pensou que seria melhor ficar na escuri-
do at que o pai e Alice se fossem deitar. Sentia-se incapaz de 
responder  menor pergunta, pois no conhecia as respostas. Pro-
curar uma resposta desencadeava furaces no crebro magoa-
do. Um mal-estar debruado de azul instalou-se-lhe na testa e sen-
tiu que ia desmaiar de novo.
Ps-se a andar com dificuldade, afastando muito as pernas. 
Chegado ao limiar da casa, deteve-se para olhar. O candeeiro que 
pendia do tecto por uma corrente, gerava um crculo amarelo e 
alumiava Alice sentada  mesa, diante da caixa de costura. O pai, 
do outro lado, roa a caneta antes de apontar os seus projectos 
militares numa agenda preta.
Alice, ao erguer a cabea, viu o rosto ensanguentado de Adam. 
Levou a mo  boca e os dedos agarraram-se aos incisivos inferi-
ores.
Adam subiu o primeiro degrau, depois o outro, e encostou-se 
ao alizar. Foi ento que Cyrus levantou a cabea. A sua primeira
expresso apenas revelou uma perfeita curiosidade. S muito len-
tamente compreendeu de onde provinha a deformao do rosto.
Ergueu-se, pejado de perguntas. Enfiou a caneta no tinteiro e 
limpou os dedos s calas.
- Porque ele fez isso?- perguntou docemente.
Adam tentou responder, mas os lbios estavam tumefactos e 
rebentados. Molhou-os com a ponta da lngua e o sangue voltou a 
correr.
- No sei.
Cyrus precipitou-se para ele e empunhou-lhe o brao com
tanta selvajaria que Adam fez uma careta e tentou libertar-se. 
- No mintas! Porque fez ele isso? Discutiram? 
- No.
Cyrus curvou-o para si.
- Fala! Quero saber. Fala. Hs-de acabar por dizer. Porque, 
raio tens a mania de o proteger sempre? Julgas que no dou por 
isso? Tomas-me por parvo? Responde ou juro-te que te obrigo a 
ficar aqui de p durante toda a noite.
Adam procurou desesperadamente uma resposta:
- Ele pensa que tu no gostas dele.
Cyrus largou o brao e foi coxeando sentar-se na sua cadei-
ra. Enquanto olhava para a agenda com um olhar ausente, ia arra-
nhando o fundo do tinteiro com a caneta.
- Alice, vai pr o Adam na cama. H-de ser preciso cortar-
-lhe a camisa. D-lhe uma ajuda.
Levantou-se. Num canto da casa estavam as roupas pendu-
radas em pregos. Debaixo das roupas, estava a espingarda. Me-
xeu na culatra para verificar se estava carregada e, depois, saiu 
com o seu andar irregular.
Alice levantou a mo para o conter, como se pegasse na pon-
ta duma corda invisvel. A corda quebrou-se e o seu rosto nada 
deixou transparecer.
- Sobe para o teu quarto - disse. - Vou buscar uma bacia 
com gua.
Adam estava na cama com um lenol descido at  cintura. 
Alice tratava as feridas com um leno molhado em gua quente. 
No disse nada durante um longo momento, depois continuou a 
frase de Adam como se ele nunca tivesse sido interrompido.
Julga que o pai no gosta dele. Mas tu gostas. Sempre gos-
taste dele.
Adam no respondeu.
Alice prosseguiu calmamente:
-  um rapaz muito esquisito.  preciso conhec-lo. Todo 
eriado por fora, parece que d cabo de tudo, quando se no co-
nhece - parou para tossir, dobrou-se ao meio, tossiu e, quando a 
crise acabou, tinha as faces coradas e estava extenuada. -  
preciso conhec-lo - repetiu. - H muito tempo que me d pre-
sentes, coisas bonitas em que ningum o julgaria capaz de repa-
rar. Mas no me oferece as coisas assim. Esconde-as onde sabe 
que as hei-de encontrar e pode-se observ-lo durante horas a fio 
que nunca se trai.  preciso conhec-lo.
Alice sorriu a Adam. Ele fechou os olhos.


CAPTULO IV 

1

Charles encontrava-se na estalagem da aldeia. Encostado ao 
bar, ria deliciado com as histrias cmicas de alguns caixeiros-
-viajantes que ali tinham ido parar. Tirou a bolsa do tabaco onde 
guardava os trocos de prata, e ofereceu de beber aos homens 
para que continuassem a falar. Bamboleou-se, careteou um sorri-
so e afagou as falanges magoadas. Os caixeiros-viajantes aceita-
ram a rodada e ergueram os copos dizendo:  sua! Charles 
estava encantado. Encomendou outra rodada para os novos ami-
gos e partiu com eles para ir ofender o cu noutro stio, de outra 
maneira.
Cyrus mergulhara na noite, cheio de uma clera desespera-
da. Procurara o filho na estrada, depois na estalagem, mas Charles 
j se fora embora. Se tivesse encontrado o filho nessa noite, mat-
-lo-ia ou teria tentado faz-lo. Um acto importante pode deformar 
a histria e  provvel que todos os actos exeram uma influncia 
no seu meio,  sua medida - quer seja a pedra em que se trope-
a, a respirao que se sustm quando se v uma bela rapariga 
ou um fragmento de unha no cho do jardim.
Charles no tardou a saber que o pai o procurava, armado 
duma espingarda. Escondeu-se durante duas semanas e quando, 
finalmente, voltou a casa, a ideia de assassnio retrogradara  
fase da clera. Charles assumiu um ar teatralmente humilde e foi 
punido com um aumento de trabalho.
Adam ficou quatro dias de cama, ancilosado, debatendo-se 
com o sofrimento. Cada movimento arrancava-lhe um grunhido.
No terceiro dia, o pai trouxe uma prova da influncia de que dispu-
nha no exrcito motivo de orgulho para ele, recompensa para 
Adam. No seu quarto entraram um capito de cavalaria e dois 
sargentos de uniforme azul. Na cerca, dois simples soldados to-
mavam conta dos cavalos. Adam, amarrado ao leito, foi alistado 
como cavaleiro de segunda classe. Assinou e prestou juramento 
sob os olhares de Alice e do pai. Cyrus tinha lgrimas nos olhos.
Depois da partida dos soldados, ficou muito tempo junto do 
filho.
- Foi voluntariamente que escolhi a cavalaria. A vida de ca-
serna depressa perde o interesse. Mas a cavalaria vai ter muito 
que fazer, segundo tive o cuidado de me informar. Hs-de gostar 
de ir para o territrio ndio. Parece que vo praticar desporto para 
esse lado. No te posso dizer onde foi que obtive a informao. 
Mas vai haver luta.
- Pois sim, pai - disse Adam.

 
2

Sempre achei estranho que caiba geralmente a homens como 
Adam a obrigao de fazer a guerra. Ele no gostava de lutar e, 
em vez de aprender a gostar, como acontece a alguns, passou a 
sentir uma crescente repugnncia pela violncia. Os seus oficiais 
desconfiavam de que visava mal de propsito, mas nunca conse-
guiram apurar factos concretos. Durante os cinco anos que pas-
sou no exrcito, Adam fez mais faxinas do que qualquer outro 
homem do esquadro, mas se matou um inimigo foi em conse-
quncia dum ricochete infeliz. Como era um excelente atirador, 
tinha particular aptido para falhar o alvo. Nessa poca, a guerra 
com os ndios no passava duma caada perigosa - as tribos 
eram obrigadas a revoltar-se, perseguidas, dizimadas, e os deplo-
rveis sobreviventes eram encurralados em reservas onde 
estoiravam de fme. No era um trabalho limpo, mas a necessi-
dade de expanso do pas tornava-o necessrio.
Adam, mero executante, no entrevia as possibilidades que 
se preparavam. Apenas via seres humanos iguais aos que a guer-
ra dilacerava, e achava isso intil e revoltante. Quando atirava de 
propsito para no acertar, sabia que estava traindo, mas no se 
importava. O sentimento da no-violncia foi-se fortalecendo nele 
at se transformar num tormento to entorpecente como qualquer 
outra forma de conscincia. A simples ideia de atentar contra uma 
vida, qualquer que fosse o motivo, tornou-se-lhe intolervel. Essa 
obsesso - pois era uma obsesso - no o deixava pensar em 
mais nada. Contudo, Adam nunca praticou nenhuma covardia. Foi 
proposto e condecorado trs vezes por bravura.
Quanto mais se revoltava contra a violncia, mais os seus 
actos tomavam uma feio oposta. Arriscou vrias vezes a vida 
para trazer feridos para as linhas. Pediu para prestar servio nos 
hospitais de campanha fora das horas de servio. Os companhei-
ros consideravam-no com um desprezo afectuoso mesclado de 
medo - medo que se tem de sentimentos que no se compreen-
dem.
Charles escrevia regularmente ao irmo. Falava da quinta da 
aldeia, duma vaca doente, duma gua que parira, dos terrenos 
que tinham comprado, do celeiro atingido por um raio, da morte 
de Alice, consumida pela tsica, da ida do pai para Washington 
para prestar servio no G.A.R. Como a maioria das pessoas que 
no sabem falar, Charles escrevia abundantemente e em porme-
nor. Falava na sua solido e nas suas perplexidades, prantava no 
papel muitas coisas que ignorava sobre si mesmo.
Foi durante o perodo em que os dois irmos estiveram sepa-
rados que se compreenderam melhor. A troca de cartas aproxi-
mou-os muito mais do que teriam julgado possvel.
Adam aguardou uma carta do irmo, no porque a entendes-
se inteiramente, mas porque parecia encobrir algo em que ele no 
podia tocar. Querido irmo Adam - dizia a carta -, pego na 
pena para desejar que estejas de boa sade. Comeava sempre 
assim para ajudar a inspirao. Ainda no recebi resposta  mi-
nha ltima carta, mas suponho que tenhas outras coisas a fazer-
ah! ah! A chuva veio fora de tempo e destruiu a flor das macieiras. 
No haver muita fruta para comer no Inverno que vem. Hei-de 
guardar o que puder. Esta tarde limpei a casa. Est tudo molhado 
e escorregadio de sabo, e se calhar no ficou mais limpo. Chego 
a perguntar como fazia a mam para conseguir ter a casa limpa.
As coisas j no so como no tempo dela. H qualquer coisa que 
se entranha, no sei o que , mas no consigo rasp-la. Seja como 
for, uniformizei a sujidade, j  alguma coisa - ah! ah! o pai es-
creveu-te acerca da sua viagem? Ele foi a San Francisco da 
Califrnia para tomar parte num acampamento do G.A.R. O Se-
cretrio da Guerra tambm vai, e  o pai quem o apresenta. Mas 
isto nada tem de sensacional para o pap, que j esteve com o 
Presidente trs ou quatro vezes e at foi  Casa Branca. Gostava 
de a ver. Talvez l pudssemos ir os dois, quando tu voltasses. O 
pai podia receber-nos durante alguns dias e, de resto, deve estar 
com vontade de te ver. Acho que seria acertado se eu arranjasse 
uma mulher. Mesmo que no seja um bom partido, uma rapariga 
sempre gostaria de ter uma bela quinta como a nossa. Que dizes? 
No me disseste se contavas vir viver para casa quando sasses 
do exrcito. Espero que sim. Fazes-me falta.
A escrita acabava ali, com um borro de tinta e um buraco no 
papel. Depois recomeava, a lpis desta vez, e com uma grafia 
diferente.
Os gatafunhos a lpis diziam: Mais tarde. O aparo partiu-se 
mesmo aqui. Tenho de ir comprar outro aparo  aldeia.
Depois a caligrafia tornava-se mais calma. Mais valia espe-
rar at ter o aparo novo e no escrever a lpis. Mas a verdade  
que estava aqui, na cozinha, com o candeeiro, e devo ter-me pos-
to a pensar e fez-se tarde - meia-noite, suponho, no vi as horas.
O velho Z Preto comeou a cantar na capoeira. Depois a ca-
deira de baloio da mam ps-se a ranger como se ela l esti-
vesse. Sabes que no me assusto com este gnero de coisas,
mas comecei s voltas com as recordaes, sabes como estas
coisas acontecem. Tenho a impresso de que vou rasgar esta
carta, de que serve escrever coisas assim?
Depois as palavras comeavam a correr como se tivessem
medo de ser apanhadas. Se a vou rasgar, mais vale no estar
com meias medidas. Parece que toda a casa se ps a viver e que
cresceram olhos em toda a parte e que h pessoas  porta aguar-
dando um instante de distraco da minha parte para entrarem.
Estou todo arrepiado. Queria dizer-te - quero dizer-te - enfim,
nunca compreendi - enfim, porque fez o nosso pai aquilo? Quero
dizer, porque foi que ele no gostou do canivete que lhe comprei
pelo aniversrio? Porqu? Era um bom canivete e ele precisava 
dum bom canivete. Se se tivesse servido dele, se o tivesse afiado, 
se somente o tivesse tirado do bolso e olhado, era tudo o que eu 
queria. Se tivesse gostado do canivete, no me teria atirado a ti. 
Mas assim, tinha de me vingar em ti. Parece-me que a cadeira da 
mam est a baloiar um pouco.  a luz. Isso no pega comigo. 
Tenho a impresso de que est qualquer coisa por acabar. Qual-
quer coisa meio feita e de que no me lembro. Qualquer coisa no 
foi feita. Eu no devia estar aqui. Devia andar pelo mundo em vez 
de ficar numa boa quinta a perguntar a mim mesmo se vou casar. 
H qualquer coisa que no vai bem, como se tivesse acontecido 
cedo de mais e se tivesse esquecido qualquer coisa. Eu devia 
estar no teu lugar e tu aqui. Nunca pensei deste modo.  talvez 
por ser tarde -  mais tarde do que isso. Acabo de olhar pela 
janela e o dia j vai nascendo. Acho que no adormeci.- Como 
foi que a noite passou to depressa? Agora no me posso deitar. 
Fosse como fosse, no conseguia dormir.
A carta no estava assinada. Charles talvez tivesse esqueci-
do que a queria destruir e tinha-a enviado. Adam guardou-a du-
rante muito tempo e, sempre que a relia, percorria-o um calafrio e 
no sabia porqu.



CAPTULO V


No rancho os pequenos Hamilton principiaram a crescer e 
todos os anos nascia um. George era um grande e bonito rapaz 
meigo e amvel, dotado duma espcie de cortesia natural. Era o 
que se chama uma criana sossegada. Andava sempre limpo e 
arranjado como o pai, e nunca parecia estar mal vestido, mesmo 
quando o estava. Levou uma vida sem pecado e, se alguma vez 
pecou, foi por distraco. No meio da sua vida, pouco mais ou 
menos na poca em que tais coisas se descobriram, verificou-se 
que estava atingido de anemia perniciosa.  possvel que tenha 
alimentado as virtudes com a falta de energia.
Depois de George, vinha Will, atarracado e tacanho, despro-
vido de imaginao mas cheio de vigor. Menino ainda, j era um 
trabalhador infatigvel desde que lhe dissessem qual era o tra-
balho que devia fazer. Foi conservador, tanto em poltica como no 
resto, repudiando com nojo todas as ideias que julgasse revo-
lucionrias. Will no queria ser criticado e por isso sempre se es-
forou por viver como toda a gente.
Talvez o pai tivesse alguma coisa a ver com a desconfiana 
que Will sentia por todas as modificaes ou transformaes. Na 
poca da sua adolescncia, o pai ainda no vivia h tempo sufi-
ciente no Vale para ser considerado como um antigo. Era estran-
geiro, irlands, e nessa poca no gostavam dos irlandeses na 
Amrica. Desprezavam-nos, sobretudo na costa oriental, e  natural 
que o mesmo sentimento tenha germinado no Oeste. Ora Samuel 
no era apenas um irlands instvel e entusiasta, era tambm um 
irlands inventivo que acreditava nas ideias novas. No seio duma 
pequena comunidade isolada do mundo, um tal homem  consi-
derado com desconfiana at que consiga provar que no consti-
tui um perigo para os concidados. Um ser excepcional como 
Samuel podia - pode, alis - causar muitos aborrecimentos. 
Podia, por exemplo, mostrar-se demasiado atraente aos olhos das 
esposas cujos maridos se sabiam destitudos de encantos. De-
pois, havia a sua educao e a sua cultura, os livros que com-
prava e pedia emprestados, o seu conhecimento das coisas que 
no se comem nem se usam, o seu interesse pela msica e o seu 
respeito pelas belas-letras. Se Samuel fosse um homem rico como 
os Thornes ou os Delmar, que possuam boas casas e boa terra 
plana, teria tido uma grande biblioteca.
Os Delmar tinham uma - apenas livros enfileirados em pra-
teleiras de carvalho. Samuel pedira mais livros emprestados do 
que os lidos pelos Delmar. Nessa poca, admitia-se que um ho-
mem rico fosse culto. Podia mandar os filhos para o colgio sem 
dar que falar, podia usar um casaco, uma camisa e uma gravata 
em pleno dia e no meio da semana, podia usar luvas e tratar das 
unhas. Os costumes das pessoas ricas so misteriosos. No se 
sabe quais so as suas necessidades. Mas um pobre, para que 
precisava de poesia, de pintura ou de msica que no faz danar? 
Tais coisas no lhe rendiam um saco de trigo nem um remendo 
para pr nas calas dos filhos. Apesar de tudo, Samuel persistia. 
Devia ter razes que no sustentavam um exame aturado.
Samuel desenhava as peas das mquinas que tencionava 
construir. Os planos eram bem feitos e compreensveis. Inveja-
vam-lhe o talento. Mas, nas margens, fazia outros desenhos, umas 
vezes rvores, outras vezes caras de animais ou de monstros; s 
vezes, at, formas que nada queriam dizer. Ento os homens ti-
nham um sorriso embaraado. E depois, sobretudo, nunca se sa-
bia antecipadamente o que Samuel ia dizer, pensar ou fazer - 
tudo podia acontecer.
Durante os poucos anos que se seguiram  instalao de 
Samuel no vale do Salinas, os outros pouco se deram com ele. 
Talvez Will, mido ainda, tenha ouvido algum falatrio no arma-
zm de San Lucas. Os garotos no gostam que os pais sejam 
diferentes dos outros homens. Foi provavelmente nessa altura que 
Will se tornou conservador. Mais tarde, na poca em que os ou-
tros filhos j eram crescidos, Samuel passou a ser um homem do
Vale; o Vale orgulhava-se dele como um homem se orgulha de ter 
um, pavo. J no lhe tinham medo porque no lhes seduzia as 
mulheres nem os arrancava da sua confortvel mediocridade. O 
Vale ps-se a gostar de Samuel, mas era tarde de mais para Will, 
que j se fizera homem.
Certos seres, se bem que nem sempre o meream, so ver-
dadeiramente amados pelos deuses. O que recebem, nunca o 
devem nem aos seus esforos nem aos seus clculos. Will Hamil-
ton era um desses seres e recebeu os dons que tinha a possibili-
dade de apreciar. Will foi protegido desde muito cedo pela sorte. 
Quanto mais o pai era incapaz de ganhar dinheiro, mais o filho 
no podia deixar de o ganhar. Quando Will Hamilton comprou ga-
linhas e elas comearam a pr, o preo dos ovos subiu. Dois ami-
gos dele, donos dum pequeno armazm  beira da falncia, pedi-
ram a Will, ento ainda rapaz, que lhes emprestasse a quantia 
necessria para pagar as letras vencidas. Em troca disto, os ami-
gos comprometeram-se a entregar-lhe um tero dos lucros. Will 
no era mesquinho e deu-lhes o que pediam. Um ano depois, o 
negcio prosperra novamente, abriram uma sucursal, logo se-
guida de outra, e o mercado  agora controlado pelos actuais pro-
prietrios.
Will aceitou um dia, em pagamento duma dvida, uma peque-
na oficina de reparao de bicicletas. Ento, algumas pessoas 
ricas do Vale compraram automveis e tornaram-se clientes de 
Will. Foi nessa altura que um poeta materialista que sonhava com 
cobre, ferro fundido e borracha se dirigiu a ele para realizar um 
projecto ridculo e talvez ilegal. O poeta chamava-se Henry Ford. 
Resmungando, Will aceitou o exclusivo da parte sul do Vale. Quinze 
anos depois, as estradas estavam pejadas de Fords e Will, rico, 
guiava um Marnwn.
Tom, o terceiro filho, assemelhava-se ao pai. Nasceu furioso 
e viveu como um raio. Mergulhava na vida, de cabea baixa, sa-
cudido por entusiasmos e por alegrias desmesurados. No redes-
cobria o mundo e as gentes, recriava-os. Foi o primeiro a ler os
livros do pai. O seu mundo era fresco e brilhante, to ignorante
das imposies como o jardim do Paraso no sexto dia. O seu
esprito saltava como um cabrito numa pastagem radiosa e quan-
do, mais tarde, descobriu as vedaes, atirou-se a elas at que,
por fim, vendo-se encurralado, partiu as vedaes e abandonou a 
nossa pastagem. Os seus desgostos eram to desproporciona-
dos como as alegrias, e quando lhe morreu o co, parou o mundo.
Tom era to inventivo como o pai, mas mais audacioso. Ou-
sava o que o pai nunca teria tentado e era espicaado por uma 
concupiscncia que o pai ignorava.  possvel que o seu compor-
tamento sexual o tenha levado a ficar solteiro. Fazia parte duma 
famlia muito virtuosa. Seria por causa dos seus desejos e da 
maneira como os satisfazia que se sentia indigno? Que ia ele car-
pir nas colinas? Tom era uma mistura de violncia e de gentileza. 
Impunha a si mesmo tarefas superiores s suas foras para nelas 
consumir os desejos que o sufocavam.
Os Irlandeses so pessoas assustadoramente alegres, mas 
tm um espectro sinistro que lhes cavalga os ombros e lhes pers-
cruta os pensamentos. Se riem muito alto, o espectro mete-lhes o 
comprido dedo na goela. Condenam-se a si mesmos antes de 
serem acusados e, por isso, esto sempre na defensiva.
Tom, aos nove anos de idade, afligia-se porque a irm mais 
nova, Mollie, tinha um defeito de pronncia. Pediu-lhe para abrir 
bem a boca e viu debaixo da lngua uma membrana que era a 
causa do mal. Posso arranjar-te isso, disse ele. Levou a irm-
zinha a um lugar que s ele conhecia, afiou o canivete numa pe-
dra e cortou a excrescncia prejudicial. Depois, fugiu para ir vo-
mitar.
A casa dos Hamilton crescia com a famlia. Fora concebida 
para nunca ser acabada, para que lhe pudessem acrescentar mais 
divises conforme as necessidades. Em pouco tempo, deixou de 
ser possvel distinguir a casa original das suas dependncias.
Mas Samuel no enriquecia. Sofria duma doena comum a 
muitos homens: a patentite. Tinha aperfeioado uma debulha-
dora que custava menos e debulhava mais que qualquer outra 
mquina do mesmo tipo. Para patentear a inveno, despendeu o 
magro lucro obtido num ano. Depois mandou os planos a um fa-
bricante que teve o cuidado de os copiar antes de os devolver. 
Samuel moveu-lhe um processo que perdeu num prazo relativa-
mente curto. Foi o que, felizmente, valeu  famlia, que morria 
lentamente de fome. Samuel compreendeu pela primeira vez que, 
sem dinheiro, no se luta contra o dinheiro. Mas j contrara a
febre das patentes e, todos os anos, gastava o dinheiro ganho 
a debulhar ou a forjar nos pedidos de patente. Os midos Hamil-
ton andavam de p descalo, com as roupas remendadas e mal 
alimentados, mas Samuel continuava a desenhar planos, projec-
es e cortes transversais em papis de elevado preo.
Certos homens pensam em grande, outros pensam em pe-
queno. Samuel e os filhos Tom e Joe pensavam em grande. George 
e Will pensavam em pequeno. Joe era o quarto filho, uma criana 
sonhadora, profundamente amada e protegida por toda a famlia, 
e que depressa descobrira que uma incapacidade sorridente o 
punha ao abrigo do trabalho. Os irmos, sem excepo, eram gran-
des trabalhadores. Era mais fcil fazer o trabalho de Joe do que 
convenc-lo a faz-lo. O pai e a me diziam que era um poeta, 
visto no servir para mais nada. Para lhes dar razo, escreveu 
alguns versos harmoniosos. Era fisicamente preguioso e, prova-
velmente, tambm era um preguioso mental. Sonhava com a vida 
e a me amava-o mais do que aos outros por o julgar indefeso. Na 
realidade, ele era quem melhor se defendia, pois obtinha o que 
queria com um mnimo de esforo. Joe era o benjamim da famlia.
Nos tempos feudais, um rapaz inapto para o trabalho era des-
tinado  Igreja; nos Hamilton, como Joe era inapto para o trabalho 
no campo e na forja, foi destinado aos estudos superiores. No 
era fraco nem doentio, mas no conseguia desenterrar um p de 
batatas. Montava mal e detestava os cavalos. Toda a famlia era 
sacudida por um sorriso afectuoso quando evocava as tentativas 
de Joe atrs da charrua: o primeiro sulco que traara era tortuoso 
como um rio de plancie e o segundo roara pelo primeiro para 
partir logo em direco oposta.
Gradualmente, Joe soube subtrair-se a todos os trabalhos do 
rancho. A me explicava que ele andava nas nuvens, como se 
isso fosse uma especial virtude.
No possuindo nenhum dom fosse para que trabalho fosse, 
Joe viu que um pai desesperado lhe confiava a guarda dum reba-
nho de sessenta carneiros. Era a tarefa mais simples, aquela que 
sempre se entrega, desde que h memria, ao parvinho da aldeia. 
Joe s tinha uma coisa a fazer: ficar com os carneiros. E Joe per-
deu-os - sessenta de uma vez. Foi incapaz de os encontrar. Es-
tavam no fundo duma ravina, calmamente agrupados  sombra. A
dar crdito  histria da famlia, Samuel reuniu todos os seus, 
filhas e filhos, e obrigou-os a prometer que tomariam conta do 
irmo quando morresse, porque, abandonado  sua sorte, Joe 
morreria de fome.
No meio dos rapazes Hamilton vinham cinco raparigas: Una, 
a mais velha, uma rapariguinha morena, secreta e estudiosa; Lizzie 
- suponho que esta  que devia ser a mais velha, pois tinha o 
nome da me - mas pouco sei de Lizzie; parece que se enver-
gonhou muito cedo da famlia; casou nova, afastou-se e s a tor-
naram a avistar nos enterros; Lizzie, fenmeno entre os Hamilton, 
sabia o que era o dio e a amargura; teve um filho que casou com 
uma rapariga de quem Lizzie no gostava; no lhe falou durante 
anos.
Depois vinha Dessie que estava sempre a rir. Todos gosta-
vam dela porque se sentiam melhor ao p dela do que de outra 
pessoa qualquer.
A seguinte era Olive, a minha me. A ltima era Mollie, uma 
pequena beleza de cabelos loiros e olhos ametista.
Eram estes os Hamilton. E quase parecia milagre que uma 
mulher como Lizza, seca como uma ameixa, tivesse podido dar, 
regularmente, ao mundo, um filho todos os anos, e tivesse podido 
aliment-los, cozer-lhes o po, coser-lhes a roupa e dar-lhes uma 
boa educao com princpios de ferro.
Lizza teve sobre os filhos uma influncia de estranhar, pois 
no tinha nenhuma experincia do mundo, nenhuma cultura e 
nunca viajara, se exceptuarmos a longa viagem da Irlanda para a 
Amrica. Todos os seus conhecimentos dos homens residiam no 
marido, dever fatigante e por vezes doloroso. Passou a maior par-
te da vida a acompanhar e a educar os filhos. A Bblia era toda a 
sua bagagem intelectual. Havia ainda as ideias trocadas entre 
Samuel e os filhos, mas ela recusava-se a escut-las. A Bblia s 
por si era histria e poesia, conhecimento do mundo e das coisas. 
Nela residiam a esttica, a moral e a salvao de Lizza. Nunca 
estudava nem discutia a Bblia; lia-a. Nunca se deixara embaraar 
pelas suas contradies aparentes e acabou por a saber de cor.
Lizza tinha direito  considerao geral, pois era uma boa me 
que sabia educar os filhos. Podia ir para todo o lado de cabea 
levantada. O marido, os filhos e os netos respeitavam-na. Ela opu-
nha aos compromissos, s fraquezas, aos erros, o rigor duma moral 
de ao. Era admirada como se admira o ao.
Lizza tinha um santo horror pelo lcool. Quem quer que pro-
vasse o lquido destilado no alambique do diabo, ofendia o Se-
nhor. No s nunca lhe tocava, como tambm censurava todos os 
que dele gostassem. Nestas circunstncias, - era natural que 
Samuel e os filhos tivessem um certo fraco pela bebida.
Samuel perguntou, num dia em que estava muito doente: - 
Lizza, no posso beber um copo de usque para elevar o moral?
Ela ergueu a cabecinha redonda:
- Serias capaz de comparecer diante de Deus cheirando a 
usque? Claro que no eras!
Samuel voltou-se para o outro lado e sofreu o seu mal com o 
moral em baixo.
Lizza, por volta dos setenta anos, foi atacada de reteno e o 
mdico receitou-lhe uma colher de caf de vinho do Porto, por dia. 
Para engolir a primeira colherada, apertou o nariz. No era to 
mau como isso. A partir desse dia, o seu hlito passou a cheirar a 
vinho do Porto. Bebia-o sempre s colherinhas e era sempre um 
remdio, mas foi uma mulher muito mais feliz assim que atingiu o 
litro dirio.
Todos os filhos de Samuel e de Lizza Hamilton j tinham ul-
trapassado a adolescncia quando mudou o sculo. Era quase 
uma tribo de Hamiltons que crescia no rancho a leste de King City. 
Eram jovens americanos. Samuel nunca voltou  Irlanda e aca-
bou por a esquecer. As suas ocupaes no lhe deixavam tempo 
para as saudades. O universo era o seu Vale. Uma vez por ano, ia 
a Salinas, sessenta milhas ao Norte. Educar, alimentar, vestir a 
enorme famlia, explorar o rancho, tomavam-lhe a maior parte do 
tempo, mas no todo o tempo. Samuel tinha uma grande vitalida-
de.
A sua filha Una tornara-se uma aluna estudiosa, calada e som-
bria. Samuel ufanava-se do seu feitio independente. Olive pre-
parava-se para fazer exame aps um estgio, no liceu de Salinas. 
Olive ia ser professora. Para os Irlandeses, uma filha professora  
uma honra to grande como ter um filho padre. Joe ia partir para o 
colgio visto no servir para mais nada. Will prosseguia com xito 
a sua carreira de involuntrio homem rico. Tom cortava-se nas
asperezas da vida e tratava das feridas. Dessie andava na costu-
ra e Mollie, a bonita Mollie, haveria de casar certamente com um 
bom partido.
A herana no estava em causa, pois as terras nada valiam, 
apesar da sua extenso. Samuel abria poo aps poo e no en-
contrava gua na prpria terra. A gua teria feito dos Hamilton 
pessoas relativamente ricas. A bomba situada junto da casa ia 
buscar a gua s entranhas da terra; havia ocasies em que o 
caudal diminua perigosamente e a nascente secou por duas ve-
zes. O gado, para beber, tinha de atravessar toda a propriedade e, 
para comer, era obrigado a refazer o trajecto em sentido inverso.
Tudo bem pesado, era uma famlia como tantas outras, nem 
mais rica, nem mais pobre, que s desejava viver e prosperar no 
solo do Vale. Era uma famlia em que se equilibravam os elementos 
contrrios: conservadores e progressivos; sonhadores e realistas. 
Samuel s tinha motivos para estar contente com o fruto dos seus
amores.



CAPTULO VI 

1

Depois do alistamento de Adam e da partida de Cyrus para 
Washington, Charles viveu s no rancho. Por mais que dissesse 
que procurava uma esposa, no punha em prtica o mtodo cor-
rente que consiste em travar conhecimento com uma rapariga, 
lev-la ao baile, assegurar-se da sua virtude ou do contrrio e, 
para acabar, deixar-se escorregar preguiosamente para o casa-
mento. Charles tinha medo das raparigas. E, como todos os ho-
mens tmidos, satisfazia os desejos com uma prostituta annima. 
A puta  a mulher que mais segurana oferece ao tmido. Tendo-
-se-lhe pago, e com antecedncia, fica  merc do homem que 
pode,  vontade, ser alegre ou brutal; e, sobretudo, o homem no 
tem que encarar a eventualidade duma recusa que, s de pensar 
nisso, d um n nas tripas do tmido.
O sistema era simples e razoavelmente secreto. O dono da 
estalagem tinha trs quartos no ltimo andar que alugava s mu-
lheres, por duas semanas. Passadas as duas semanas, novo con-
tingente vinha substituir o anterior. O Sr. Hallam, o estalajadeiro, 
no recebia nenhuma percentagem. Podia quase garantir, com 
sinceridade, que ignorava tudo. Contentava-se em receber pelos 
quartos o quntuplo do preo normal. As mulheres eram escolhi-
das, procuradas, deslocadas, vigiadas e roubadas por um certo 
Sr. Edwards, de Bston. As mulheres efectuavam um lento priplo 
atravs das pequenas cidades, nunca ficando mais de quinze dias 
no mesmo stio. Era um sistema muito eficaz. As mulheres no 
habitavam na cidade o tempo suficiente para serem notadas por
um habitante ou por um guarda. Raramente saam dos quartos e 
evitavam os lugares pblicos. Era-lhes proibido, sob pena de chico-
te, beber, provocar escndalo ou ficar apaixonadas. Serviam-lhes 
as refeies nos quartos e os fregueses eram cuidadosamente pe-
neirados. Um homem em estado de embriaguez no era autorizado 
a subir. De seis em seis meses, todas as raparigas tinham direi-
to a um ms de frias, para se embebedarem e pintarem o diabo. 
Se, durante o trabalho, uma das rapariga desobedecia aos regula-
mentos, o Sr. Edwards despia-a, amordaava-a e zurzia-a sem lhe 
poupar uma polegada do corpo. Se reincidia, ia parar  priso por 
vagabundagem especial.
O estgio de quinze dias tinha outra vantagem. Como a maio-
ria das mulheres estava doente, tinham tempo de desaparecer 
antes que o presente incubasse no cliente. O homem contami-
nado no tinha ningum a quem pedir contas. O Sr. Hallam igno-
rava tudo e o Sr. Edwards nunca aparecia no exerccio das suas 
funes. No h dvida que o circuito era um riqussimo neg-
cio.
As mulheres pareciam-se todas umas com as outras: fortes, 
mandrionas e estpidas. Os frequentadores chegavam a perguntar a 
si mesmos se, duma quinzena para a outra, houvera de facto alguma 
substituio. Charles Trask adquiriu o hbito de ir  estalagem, pelo 
menos, uma vez por quinzena, subir ao ltimo andar, despachar o 
negciozito e voltar ao bar para se embriagar ditosamente.
A casa dos Trask nunca fora muito alegre mas, durante o rei-
nado de Charles, ficou com um ar de sinistra decrepitude. As corti-
nas de renda estavam cinzentas. O soalho, apesar de varrido, esta-
va pegajoso. As paredes, o tecto e as janelas estavam cobertos 
duma camada de gordura produzida pelos fritos.
O constante esfregar das mulheres que ali tinham vivido e a 
grande limpeza bianual haviam triunfado da sujidade. Charles con-
tentava-se geralmente em varrer. Renunciou aos lenis e pas-
sou a dormir s com mantas. Para que serve limpar uma casa que 
ningum v? Os nicos dias em que Charles se lavava e mudava 
de roupa eram os dias da estalagem.
Charles sentia necessidade de se mexer, mal rompia o sol. A 
solido dava-lhe foras. O irmo fazia-lhe mais falta do que a me 
e o pai. Antes da partida do irmo, eram os bons tempos, e a sua
memria imprecisa dava-lhe razo. Charles desejava que esses 
tempos voltassem.
Nunca esteve doente durante esse perodo, se exceptuarmos 
as indigestes crnicas que eram e continuam a ser a cruz dos 
solitrios. Uma forte purga, o elixir de vida do Tio George, curava-
lhe as perturbaes gstricas.
No decurso do terceiro ano de solido, teve um acidente quan-
do arrancava pedras para construir um muro. Um dos blocos era 
difcil de mover. Charles fez uma alavanca com uma comprida barra 
de ferro. A rocha recusava-se a sair do buraco e tornava sempre a 
cair. Charles ficou furioso. Assomou-lhe aos lbios o sorrisinho e 
lutou com a pedra como se fosse um homem. Animado duma raiva 
silenciosa, introduziu a barra debaixo da rocha e empurrou com 
toda a fora. A barra escorregou e foi bater-lhe na testa. Charles 
ficou inconsciente por um momento, depois levantou-se a vacilar e 
dirigiu-se para casa, meio cego. O ferro arrancara-lhe uma longa 
tira de carne, desde a nascena dos cabelos at s sobrancelhas. 
A ferida infectou e Charles andou de cabea atada durante algumas 
semanas. Mas no se preocupou. Nessa altura, uma formao de 
pus queria dizer que a ferida estava a cicatrizar bem. Na, realidade, 
deixou-lhe na testa uma comprida marca encrespada. Geralmente, 
uma cicatriz  mais clara do que o tecido que a rodeia, mas a de 
Charles coloriu-se de castanho-escuro. Talvez a barra estivesse 
enferrujada e se tivessem incrustado partculas de ferrugem sob a 
pele, formando tatuagem.
Charles no se preocupara com a ferida, mas a cicatriz ator-
mentava-o. Dir-se-ia ter na testa um trao de dedo sujo. Olhava-
-se muitas vezes ao espelho pendurado ao lado do fogo e pente-
ava-se para a frente para esconder a cicatriz o mais possvel. A 
cicatriz envergonhava-o e ps-se a odi-la. Ficava inquieto se al-
gum a olhava e enfurecia-se se lhe faziam perguntas. Numa car-
ta ao irmo, definiu os seus sentimentos.
Dir-se-a que fui marcado como um animal. Esta porcaria est 
cada vez mais escura. Quando voltares, talvez j esteja preta. S 
me falta outra de travs para ter o ar dum Papista em Quarta-Feira 
de Cinzas. No sei porque  que isto me aborrece tanto. Tenho 
muitas outras cicatrizes. Tenho a impresso de estar marcado. 
Quando vou  vila,  estalagem por exemplo, todos me observam.
Oio-os falar quando julgam que no estou a ouvir. Gostava de sa-
ber que curiosidade  a deles.  por isso que j no tenho vontade 
de ir  vila.


2

Adam foi desmoblizado em 1885 e encetou a caminhada de 
regresso a casa. Aparentemente, pouco mudara. No tinha apa-
rncia militar. Na cavalaria,  diferente, apreciam-se os ares im-
portantes.
Adam sentia-se em estado de sonambulismo.  difcil aban-
donar uma profunda vida de rotina, mesmo que se odeie essa 
rotina. Na primeira manh de civil, ao, acordar, aguardou por ins-
tantes o toque de clarim. Os polainitos j no lhe apertavam os 
jarretes e sentia o pescoo nu sem o colarinho rijo. Chegado a 
Chicago, alugou, por uma semana, sem razo, um quarto mobi-
lado ocupou-o durante dois dias e partiu para Buffalo, mas, tendo 
mudado de opinio, dirigiu-se para as Quedas do Nigara. No 
queria voltar a casa e adiava a altura de o fazer o mais que podia. 
A casa no era um lugar agradvel, na sua opinio. O que l sen-
tira j morrera nele e no tinha vontade de o fazer ressuscitar. 
Observou as Quedas na altura propcia. O seu estrondo deixou-o 
estupefacto e hipnotizado.
Uma noite fez-lhe imensa falta a promiscuidade dos homens 
nas casernas e nas tendas. Sentia-se s. O primeiro stio habita-
do que encontrou foi um pequeno bar fumarento. Suspirou de pra-
zer e aninhou-se no calor humano. Pediu um usque, bebeu-o e 
deixou-se invadir pelo calor. Sentia-se bem. De todos os seus sen-
timentos, o nico que funcionava era o gosto. Contentava-se em 
absorver e ser absorvido.
Quando comeou a fazer-se tarde e os consumidores se reti-
raram, assaltou-o o receio de voltar a casa. Ficou s com o patro 
que esfregava o balco e tentava, com o olhar e o gesto, p-lo 
fora.
- Mais um - disse Adam.
O patro foi buscar a garrafa. Adam encarou-o pela primeira 
vez. Tinha um sinal na testa.
- No sou c do stio - disse Adam. As Quedas atraem
muita gente. Acabo de sair do exrcito. Cavalaria.
- Pois  - disse o patro.
Adam sentiu subitamente que devia impressionar o homem,
atrair-lhe a simpatia.
- Andei a combater os ndios. Passmos maus bocados. 
O homem no respondeu.
- O meu irmo tem um sinal na testa.
O patro levou a mo ao sinal.
- Um sinal de nascena. Cresce com os anos. O seu irmo
tem um?
- No.  um ferimento. Foi o que me escreveu. 
- Reparou que o meu tem a forma dum gato?
-  isso mesmo, .
- E a minha alcunha: o Gato. Foi sempre assim que me cha-
maram. Diz-se que a minha velhota se deve ter assustado com
um gato quando me trazia na barriga.
- Vou a caminho de casa. Andei muito tempo por fora. Quer
tomar alguma coisa?
- No, obrigado. Onde est hospedado? 
- Na casa da Sr.a May. Na penso.
- Bem sei. Parece que enche os hspedes de sopa para que
no comam muita carne.
- Todos os ofcios tm os seus truques. 
-  claro. O meu tem imensos.
- No duvido - disse Adam.
- Mas h um que eu no conheo.
- Qual?
- A maneira de o obrigar a sair para eu poder fechar. 
Adam fitou-o sem nada dizer.
- Estava a gozar - disse o patro embaraado.
- Volto amanh de manh para a minha casa. A minha ver-
dadeira casa.
- Felicidades - disse o patro.
Adam atravessou a cidade sombria, caminhando cada vez 
mais depressa, como se fosse perseguido pela solido. Quando
subiu os degraus da penso, a madeira gemeu como um sinal. A 
entrada mal estava iluminada por um candeeiro de petrleo, com a
torcida to baixa que a chama parecia prestes a expirar.
A dona estava no corredor. A sombra do nariz alongava-se-lhe 
at ao queixo. Os seus olhos frios seguiram Adam como os olhos 
dum retrato de frente e ela estendeu o nariz para apanhar o cheiro 
do usque.
- Boa noite - disse Adam.
Chegado ao patamar, Adam voltou-se. A mulher tinha a ca-
bea levantada e o queixo projectava uma sombra na garganta. 
Os olhos j no tinham pupilas.
O quarto de Adam cheirava a poeira bafienta. Riscou um fs-
foro e transmitiu a chama ao bocado de vela que emergia da pal-
matria japonesa. A cama era informe, coberta com uma manta 
de retalhos e o avesso de algodo estava esfrangalhado nos bor-
dos.
Os degraus gemeram de novo. Adam sentiu que a mulher j 
estava no corredor, preparada para envolver de inospitalidade o 
recm-chegado.
Adam sentou-se numa cadeira, descansou os cotovelos nos 
joelhos e encravou o queixo nas palmas da mo. Uma tosse inextin-
guvel veio de baixo, para destruir a calma da noite.
Adam compreendeu que no podia regressar a casa. Ouvira 
explicar a velhos soldados a razo do que ele ia fazer.
No conseguia aguentar. No tinha para onde ir. No co-
nhecia ningum. Andei por a s voltas e de repente enchi-me de 
medo, como uma criana, e, quando dei por mim, estava diante 
do sargento a pedir que me reincorporasse por mais cinco anos 
- como se fosse um favor.
De regresso a Chicago, Adam voltou ao servio e pediu para 
ser incorporado no seu antigo regimento. No comboio que o leva-
va para o Oeste, evocou as caras dos camaradas de quem j 
sentia saudades.
Enquanto esperava pela ligao em Kansas City, ouviu que o 
chamavam pelo nome. Entregaram-lhe uma mensagem: instrues 
para se apresentar em Washington, no gabinete do Ministro da 
Guerra. Durante os cinco anos de servio, Adam absorvera a ideia 
de que as ordens no se discutem. Os longnquos dolos de Wa-
shington no passavam de uns doidos e se um soldado queria con-
servar o seu juzo, mais valia que pensasse o menos possvel no
general.
Ao chegar ao Ministrio, Adam deu o nome a um funcionrio e 
foi sentar-se numa antecmara. Foi a que o pai o encontrou. Adam 
teve de fazer um esforo para o reconhecer. Cyrus transformara-se 
num grande homem: casaco e calas pretos, chapu preto, sobre-
tudo com gola de veludo, bengala de bano que manejava como 
uma espada. Cyrus comportava-se como um grande homem: fala 
lenta e harmoniosa, comedida e senhora de si; os gestos eram 
largos. Os dentes novos davam-lhe  boca um sorriso desproporci-
onado com a emoo que o provocava.
Mesmo depois de ter compreendido que aquele grande ho-
mem era seu pai, Adam ficou perplexo. Subitamente, baixou o 
olhar: a perna de pau desaparecera. L estava a perna, dobrada 
no joelho, e o p mergulhava num sapato preto engraxado. Quan-
do Cyrus se deslocava, coxeava ligeiramente, mas em nada se 
parecia com o bamboleio anterior.
Cyrus viu o olhar.
-  mecnica - disse. -  articulada. Tem uma mola. Se 
eu quiser, nem sequer coxeio. Hei-de mostrar-te quando a tirar. 
Vem comigo.
- Tenho de me apresentar ao coronel Wells, meu pai.
- Bem sei. Disse ao Welis que esperasse. Segue-me.
Adam sentia-se embaraado.
- Se no visses inconveniente nisso, pai, preferia ir apresen-
tar-me ao coronel.
O pai voltou-se para trs.
- Queria pr-te  prova - disse ele com ar suficiente. -
Queria ver se a disciplina continuava a ser a mesma. Estou satis-
feito. Bem sabia que te havia de fazer bem. Ests um homem e
um soldado, meu rapaz.
- Tenho de ir para o meu regimento, pai.
Aquele homem era um estranho. Adam sentiu-se invadir por
uma leve repugnncia. Havia qualquer coisa de falso em tudo aqui-
lo. E a rapidez com que as portas se abriram at ao coronel, a
obsequiosidade do oficial, as palavras o Senhor Ministro vai
receb-lo imediatamente, no conseguiram modificar a impresso
de Adam.
- Aqui est o meu filho, Senhor Ministro, soldado, tal como
eu, soldado do exrcito dos Estados Unidos.
- Fui licenciado como cabo - disse Adam.
Mal ouviu a troca dos cumprimentos. Pensava, O Ministro 
no percebe que o meu pai est a representar uma comdia?  
extraordinrio que o Ministro no perceba. Que lhe ter aconte-
cido?
Pelo caminho que levava ao seu pequeno hotel, Cyrus foi de-
signando os panoramas interessantes, os monumentos e os 
lugares histricos com a facndia dum guia.
- Moro no hotel -- disse. - Podia ter comprado uma casa, 
mas fao tantas viagens que no vale a pena. Ando sempre por 
montes e vales.
O porteiro do hotel inclinou-se diante de Cyrus, tratou-o por 
Senhor Senador e garantiu que se arranjaria um quarto para Adam, 
nem que tivessem de pr fora um hspede.
- Mande levar uma garrafa de usque para o meu quarto, se 
faz favor.
- Com gelo modo?
- Gelo! - disse Cyrus. - O meu filho  um soldado. (Com a 
bengala bateu na perna, que produziu um som oco.) Eu tambm 
fui soldado. Raso. No precisamos de gelo.
Adam ficou estupefacto com o luxo em que Cyrus vivia. No 
s tinha um quarto com casa de banho, como tambm uma sala 
contgua.
Cyrus deixou-se cair numa poltrona e suspirou. Arregaou a 
perna da cala para que Adam pudesse ver o engenhoso meca-
nismo de ferro, ao e madeira, depois desapertou a correia que 
mantinha a perna artificial no seu lugar e colocou-a de p ao lado 
da cadeira.
- H ocasies em que magoa duma forma insuportvel.
Sem a perna, Cyrus voltava a ser o mesmo. Adam tornava a 
encontrar o pai da infncia. No princpio do encontro, sentira um 
leve desprezo, mas agora renasciam o medo, o respeito e a ani-
mosidade, era novamente o garoto que procura adivinhar o esta-
do de esprito do pai para evitar qualquer aborrecimento.
Cyrus preparou a bebida, bebeu o usque e desabotoou o cola-
rinho.
- Ento? - perguntou, fitando Adam. 
- Pai?
- Porque te voltaste a alistar?
- No sei, pai. Apeteceu-me.
- No gostas do exrcito, Adam? 
- No, pai.
- Ento, porque voltas? 
- No queria ir para casa.
Cyrus suspirou e esfregou a ponta dos dedos nos braos da
cadeira.
- Tencionas fazer carreira no exrcito? 
- No sei, pai.
- Eu posso fazer com que entres para West Point. Tenho
influncia. Se quiser, anulam a nova incorporao e vais para West
Point.
- No quero ir para l.
- Ests a tentar desafiar-me? - perguntou calmamente
Cyrus.
Adam levou muito tempo para responder, mas no havia ma-
neira de iludir a pergunta:
- Estou, sim, pai..
- D-me um pouco de usque. (Uma vez servido, continuou:). 
Pergunto a mim mesmo se tens alguma noo da influncia que 
eu realmente possuo. A eleio dum candidato depende do apoio 
do G. A. R. Ora sou eu quem resolve se havemos de conceder ou 
no os nossos votos. At o prprio Presidente me pede a minha 
opinio acerca dos negcios pblicos. Posso demolir um senador 
e os lugares bem pagos  a mim que os pedem. Posso fazer um 
homem e posso dar cabo dele. Sabias tudo isto?
Adam sabia mesmo mais. Sabia que Cyrus ameaava para
se defender.
- Sabia, sim, pai.
- Posso destacar-te para Washington. Posso exigir que se-
jas minha ordenana para te desemburrar.
- Prefiro ingressar no meu regimento, pai.
Viu a sombra da derrota passar pelo rosto do pai.
- Talvez eu tenha cometido um erro. Tu aprendeste a resis-
tncia imbecil do soldado. (Suspirou.) Voltas para o teu regimento.
Hs-de apodrecer numa caserna. 
-Obrigado, pai.
Passado um momento, Adam perguntou:
- Porque no mandas vir o Charles para o p de ti?
- Porque eu... No o Charles est melhor l onde est. 
Adam teve muito tempo para se recordar do tom da voz e da
expresso do pai, pois apodreceu, de facto, numa caserna. Teve
tempo para se lembrar de que Cyrus estava s e sofria, e sabia-o.


3

Charles, decorridos os cinco anos, comeara a aguardar o 
regresso de Adam. Pintara a casa e o celeiro e, quando se aproxi-
mou o grande dia, contratou uma mulher para limpar a casa a 
fundo.
A mulher era velha, asseada e agressiva. Mal olhou para as 
cortinas que apodreciam sob uma crosta de porcaria, deitou-as 
fora e fez outras. Esfregou o fogo coberto duma camada de sebo 
que datava da morte de Alice, e atirou-se s paredes onde se 
entranhara a gordura da cozinha e a fuligem dos candeeiros de 
petrleo. Lavou o cho com lixvia e mergulhou os cobertores numa 
soluo de soda. O trabalho no a impedia de se queixar continu-
amente.
- Os homens so todos uns porcos! Mais porcos do que os 
porcos. Deixam-se apodrecer no molho que fabricam. Gostava de 
saber porque  que as mulheres casam com eles. At parece que 
cheira a mortos. Olhem-me para este forno, tem calda de torta que 
vem de Matusalm.
Charles refugiara-se num telheiro onde as suas narinas esta-
vam ao abrigo dos cheiros desagradveis da barrela, da soda, do 
amonaco e do sabo azul. Tinha a impresso de que aquela boa 
mulher no aprovava a sua concepo de limpeza domstica. 
Quando a velha, finalmente, se foi embora a resmungar e dei-
xando a casa limpa, Charles ficou no telheiro. Queria guardar a 
casa limpa para Adam. No sitio onde dormia estavam arrumados 
todos os instrumentos de lavoura e o ferramental para os reparar. 
Charles verificou que podia cozer ou fritar as refeies mais de-
pressa na forja do que no fogo da cozinha. Graas ao fole, podia
activar a combusto do coque e no tinha de esperar que o fogo 
aquecesse. Porque no teria pensado nisso mais cedo?
Charles esperou por Adam e Adam no veio. Talvez tivesse 
vergonha de escrever. Foi Cyrus, com uma carta furiosa, quem 
informou Charles de que Adam se realistara contra a sua vontade. 
Cyrus tambm dizia que Charles o poderia ir visitar a Washington, 
mas nunca mais tornou a convid-lo.
Charles reinstalou-se na casa e lanou-se com fria numa 
vida de porcaria, sentindo prazer em destruir o trabalho da velha.
Passou-se mais de um ano antes que Adam escrevesse a 
Charles uma carta embaraada em que justificava a sua coragem 
dizendo: No sei porque assinei. Parecia que era outro que assi-
nava em meu lugar. Escreve assim que puderes e d-me notcias 
tuas.
Charles esperou que chegassem quatro cartas ansiosas para, 
enfim, responder com a maior frieza: que nunca contara muito 
com o regresso do irmo. Seguiam-se contas pormenorizadas 
do rancho e dos animais.
O tempo realizara a sua obra. Depois disto, Charles limitou-
-se a enviar as Boas-Festas depois do primeiro dia do ano e pas-
sou a receber do irmo uma carta escrita na mesma altura. Nunca 
houvera nada de comum entre eles e o silncio fez-se sem per-
guntas nem comentrios.
Charles arranjou, uma aps outra, vrias mulheres desma-
zeladas. Quando comeavam a contundir-lhe com os nervos, des-
fazia-se delas como se vendesse um porco. No tinha a minima 
afeio por elas e nunca o interessaram os sentimentos que elas 
nutriam. Passou a viver afastado da aldeia. Os nicos contactos 
que mantinha eram a estalagem e o carteiro. Se a gente da aldeia 
desaprovava a sua maneira de viver, via-se, contudo, obrigada a 
reconhecer-lhe uma qualidade que, a seus olhos, o recompensa-
va duma vida to lamentvel: a quinta nunca estivera to prspe-
ra. Charles desbravou terrenos, construiu muros, melhorou as dre-
nagens e adquiriu novas terras. Alm disso, ps-se a plantar ta-
baco e construiu ao lado da casa um impressionante barraco para 
a secagem. Era por isso que os vizinhos continuavam a respeit-lo. 
Um lavrador no pode pensar muito mal dum bom lavrador. Charles 
gastava quase todo o dinheiro e as energias no rancho.


CAPTULO VII 

1

Adam passou os cinco anos seguintes a fazer as coisas em 
que o exrcito emprega os homens para evitar que fiquem doidos: 
limpeza interminvel de metais e coiros; paradas, exerccios, jura-
mentos de bandeira - bailado frentico para homens ociosos. 
Em 1886, estalou a grande greve em Chicago. Chamaram o regi-
mento de Adam, mas a greve acabou antes que tivesse entrado 
em aco. Em 1888, os Seminoles, que no tinham assinado tra-
tado de paz, principiaram a agitar-se e de novo se apelou para a 
cavalaria. Mas os Seminoles regressaram aos seus pntanos e 
nunca mais deram que falar de si, de modo que a tropa voltou ao 
ramerrame habitual.
A noo do tempo decorrido  uma coisa estranha e por ve-
zes contraditria. Seria razovel admitir que, anos passados na 
rotina, ou que no tenham sido animados por algum acontecimen-
to, possam parecer interminveis. Assim deveria ser, mas no . 
So os anos vazios os que no deixam vestgios. Um perodo de 
aco atravessado pelas feridas do drama ou pelas fendas da 
alegria, deixa uma impresso de tempo na memria, pois  preci-
so tempo para se recordar o que assinalou esse perodo. Os acon-
tecimentos so os marcos da memria. Dum marco ao outro, h 
tempo passado. De nada a nada, s h espao vazio.
Adam chegou ao termo do segundo perodo de cinco anos 
sem dar por isso. Era no fim de 1890. Foi desmobilizado no Pres-
dio de San Francisco com o posto de sargento. Adam e Charles 
s muito raramente se correspondiam, mas Adam, antes de ser
desmobilizado, enviou um bilhete: Desta vez, regresso a casa. 
Charles no tornaria a ouvir falar nele durante trs anos.
Adam deixou passar o Inverno e subiu o rio lentamente at Sa-
cramento. Depois de errar pelo vale de San Joaquim durante uns 
tempos, viu-se sem dinheiro. Entretanto, chegara a Primavera. Enro-
lou a manta e partiu lentamente para Leste, ora a p, ora nos eixos 
dos vages de mercadorias, na companhia de outros homens.  
noite, dormia em acampamentos de acaso para vagabundos,  en-
trada das cidades. Aprendeu a mendigar, no dinheiro, mas o seu 
alimento. Sem dar por isso, tornara-se um autntico vadio.
Tais indivduos so agora raros mas, por alturas de 1900, en-
contravam-se em grande nmero vagabundos solitrios que tinham 
escolhido o seu destino. Alguns fugiam s responsabilidades; ou-
tros julgavam-se injustamente excludos da sociedade. Trabalha-
vam um pouco, mas no por muito tempo. Roubavam um pouco, 
mas apenas o seu alimento ou, quando muito, uma pea de roupa 
de que precisavam. Eram homens de toda a espcie - homens 
instrudos, homens ignorantes, homens asseados, homens sujos 
- mas todos tinham de comum a inquietao. Iam atrs do calor, 
mas receavam tanto a cancula como a geada. Seguiam a Prima-
vera para Leste e eram atirados para o Oeste e o Sul pelos primei-
ros frios. Eram irmos do coiote que vive perto dos homens e dos 
seus galinheiros: paravam junto das cidades mas no entravam 
nelas. Associavam-se em grupo por uma semana ou por um dia e, 
depois, eram irremediavelmente separados pelos seus destinos.
Em torno das fogueiras onde preparavam o guisado comum, 
ouviam-se todas as maneiras de falar, mas nunca se exprimiam 
na primeira pessoa do singular. Adam soube da criao dos I. W. 
W.1 e dos seus anjos colricos. Escutou discusses filosficas, 
metafsicas, estticas, e narrativas de experincias impessoais. 
Os companheiros duma noite podiam ser um assassino, um pa-
dre renegado, um professor expulso dum emprego tranquilo por 
uma Faculdade estpida, um infeliz solitrio fugindo s recorda-
es, um arcanjo decado ou um aprendiz de demnio. Cada um 
deles alimentava o fogo com achas de pensamentos, do mesmo

1 - International Workers of the World. Organizao sindical revolucio-
nria criada nos Estados Unidos no fim do sculo XIX.

modo que contribua para o guisado comum com cenouras, bata-
tas, cebolas ou carne. Adam aprendeu a barbear-se com um caco 
de vidro, a avaliar uma casa antes de bater para pedir auxlio, a 
evitar a polcia hostil ou a colaborar com ela e a julgar uma mulher 
pelo corao.
Adam amava esta nova vida. Quando o Outono atingiu as rvo-
res, chegara a Omaha. Ento, sem motivo, sem se interrogar, 
obliquou para o Oeste e o Sul, atravessou as montanhas e atingiu 
com alvio a Califrnia do Sul. Vindo do Norte, foi andando  beira-
-mar at San Lus Obispo. Aprendeu a pescar as enguias, os me-
xilhes e as percas nas poas deixadas pela mar vazia; apren-
deu a cavar a areia para encontrar moedas perdidas e a caar 
coelhos das dunas com laos de fio de pesca. E deitava-se ao sol 
na areia quente, contando as ondas.
A Primavera empurrou-o de novo para Leste, mas mais lenta-
mente desta vez. O Vero era fresco nas montanhas, e os monta-
nheses eram amveis como todas as pessoas que vivem ss.
Adam empregou-se em casa duma viva perto de Denver. Humil-
demente, compartilhou da mesa e da cama dela, at que o frio o 
atirou de novo para o Sul. Seguiu o curso do Rio Grande para ML 
de Albuquerque e de El. Paso, atravs do Big Bend e de Laredo, 
at Brownsville. Aprendeu as palavras da lngua espanhola para a 
fome e o prazer; aprendeu que mesmo as pessoas muito pobres 
tm alguma coisa para dar e a vontade de dar. Aprendeu a amar 
os pobres e amou-os como nunca o teria podido fazer se ele pr-
prio no tivesse conhecido a pobreza. Transformara-se num va-
gabundo hbil cujo modo de existncia era a humildade. Estava 
magro e queimado pelo sol, e sabia disfarar a prpria personali-
dade ao ponto de no despertar clera nem cime. A voz suaviza-
ra-se; misturava na conversa palavras de diversos dialectos, de 
modo que nunca era um estranho, fosse onde fosse. Era esta a 
grande segurana do vagabundo, o seu vu protector. Raramente 
utilizava os comboios de mercadorias, receando a vaga de clera 
que alastrava contra os vadios, por causa da violncia dos I. W. 
W., agravada por ferozes represlias. Adam foi preso por vaga-
bundagem. A rpida brutalidade da policia e dos prisioneiros as-
sustou-o. Resolveu nunca mais viajar em grupo. Passou a andar 
s, tendo o cuidado de se barbear e de se mostrar limpo.
Quando chegou a Primavera, mais uma vez, partiu para o Nor-
te. Sentia que terminara o tempo - do descanso e da paz. O seu 
objectivo era Charles e as memrias desvanecidas da infncia. Adam 
atravessou rapidamente a interminvel parte Leste do Texas, de-
pois a Luisiana e os confins do Mississipi e do Alabama. Quando 
chegou  Florida, sentiu que no podia ali ficar. Os negros eram 
suficientemente pobres para serem hospitaleiros, mas no podiam 
depositar confiana num branco, por muito pobre que fosse; e o 
pobre branco tinha medo dos estranhos.
Perto de Tallahassee foi detido por vagabundagem e conde-
nado a seis meses de trabalhos forados numa estrada. Era as-
sim que se construam as estradas. Soltaram-no ao fim de seis 
meses, para logo o tornarem a prender e condenarem a mais seis 
meses. Foi ento que ficou a saber at que ponto o homem pode 
considerar o homem como um animal e que a nica maneira de 
sobreviver  portar-se como um animal. Uma cara asseada e fran-
ca, um olhar que se ergue para encontrar outro olhar atraam a 
ateno e, portanto, o castigo. Adam compreendia que um ho-
mem que comete um acto brutal se fere a si mesmo e deve punir 
algum pela sua ferida. Ser vigiado durante o trabalho por ho-
mens armados de espingardas, ter uma grilheta nos ps durante 
o sono, no eram afinal seno medidas de precauo - mas as 
constantes flagelaes ao menor sinal de resistncia, ao menor 
assomo da vontade ou da dignidade, indicavam perfeitamente que 
os guardas tinham medo dos prisioneiros, e Adam aprendera no 
exrcito que um homem que tem medo  um animal perigoso. E 
Adam, como qualquer outra criatura humana, receava o chicote, 
tanto para o corpo como para o esprito. Ergueu uma cortina  sua 
volta: o rosto perdeu a expresso; os olhos extinguiram-se; a ln-
gua calou-se. O que o admirou quando voltou a pensar nisso mais 
tarde, no foi que se tivesse encontrado em tal situao, mas que
tivesse sido capaz de a suportar - e com um mnimo de emoo.
 muito mais horrvel depois do que na altura. Torna-se necess-
rio um completo domnio de si prprio para ver chicotear um ho-
mem at que os msculos rasgados deixem aparecer a brancura
dos tendes, e no se mostrar nenhum sintoma de pena, de clera
ou at de interesse. Adam aprendera isso.
Passados os primeiros momentos,  mais fcil adivinhar do
que ver uma pessoa. Durante este segundo perodo de seis meses 
nas estradas da Florida, Adam reduziu a personalidade ao mnimo. 
No fazia ondas, no emitia vibraes; estava quase impondervel. 
E, assim que os guardas deixaram de sentir uma presena huma-
na, perderam o medo. Adam foi encarregado de limpar o acampa-
mento, de fazer os despejos e de encher os baldes de gua.
Trs dias antes de ser libertado pela segunda vez, logo depois 
do almoo, Adam despejou os baldes de gua e voltou  ribeira 
para os tornar a encher. Chegado ali, meteu-lhes pedras dentro e 
deixou-os ir para o fundo, entrou na gua e nadou por muito tempo 
a favor da corrente; depois descansou e tornou a nadar at ao cre-
psculo. Nessa altura, descobriu na margem uma anfractuosidade 
dissimulada por uma cortina de plantas. Ali se escondeu, mas sem 
sair da gua.
Tarde na noite, ouviu os ces-polcias que corriam de ambos 
os lados do rio. Tivera o cuidado de esfregar o cabelo com folhas 
verdes para disfarar o cheiro. Sentou-se na gua, deixando de 
fora apenas o nariz e os olhos. De manh, os ces regressaram, 
desinteressados da caada. Os homens estavam demasiado can-
sados para fazerem uma batida em regra s margens. Depois de 
eles se afastarem, Adam tirou da algibeira um bocado de carne 
frita ensopada em gua e comeu-o.
Jurara a si prprio que nunca se apressaria, pois era uma 
imprudncia que, em geral, custava a liberdade aos evadidos. Pre-
cisou de cinco dias para chegar  Gergia, que no distava muito 
dali. Evitou o risco, conteve a impacincia e sentiu-se bastante 
admirado com a prpria habilidade.
Deteve-se  entrada de Valdosta e escondeu-se at  meia-
-noite; depois, entrou na cidade como uma sombra, escolheu uma 
loja barata e forou lentamente uma janela das traseiras arran-
cando os parafusos que seguravam o trinco na madeira podre. 
Tornou a pr o trinco no lugar, mas deixou a janela aberta. A nica 
luz de que dispunha era o luar. Roubou umas calas baratas, uma 
camisa branca, sapatos pretos, um chapu preto e um imperme-
vel de encerado, verificando se todos os artigos lhe assentavam 
bem. Depois, antes de sair, teve o cuidado de ver minuciosamente 
se no deixara nada desarrumado. S tirara coisas de que existi-
am vrios exemplares, e tivera o cuidado de no tocar na caixa.
Voltou a fechar a janela com precauo e deslizou sob a lua, de 
sombra em sombra.
Escondido durante o dia, fazia as suas provises de noite: na-
bos, maarocas de milho, mas cadas; nada cujo desapareci-
mento se pudesse descobrir. Deu aos sapatos um aspecto usado
esfregando-os com areia e enrolou o encerado em bola para que 
parecesse velho. Esperou trs dias pela chuva que a sua extrema 
prudncia lhe aconselhava.
A chuva comeou a cair quando a tarde j ia no fim. Adam 
acocorou-se debaixo do encerado aguardando a noite e, quando 
ela chegou, entrou na cidade de Valdosta, com o chapu negro 
descado para os olhos e o impermevel abotoado at ao pesco-
o. Dirigiu-se  estao e deu uma espreitadela atravs da vidra-
a que escorria gua. O chefe da estao, de pala verde e man-
gas de lustrina, estava debruado no guich e falava a um amigo. 
O amigo em questo levou vinte minutos para se ir embora. Adam, 
na plataforma, viu-o afastar-se. Respirou fundo para se acalmar e
entrou.


2

Charles recebia muito pouca correspondncia; s vezes 
passavam-se semanas sem ir ao correio. Em Fevereiro de 1894, 
chegou uma enorme carta de Washington, expedida por um car-
trio de notrio. O carteiro pensou que talvez fosse importante e 
passou pelo rancho dos Trask, onde encontrou Charles cortando 
lenha. Entregou-lhe a carta e, j que se dera ao trabalho de l ir,
esperou para ver de que se tratava.
Charles deixou-o esperar. Leu lentamente as cinco pginas e
releu-as soletrando as palavras que lia. Depois dobrou a carta e
encaminhou-se para casa.
O carteiro chamou-o.
- Alguma novidade, Sr. Trask?
- Morreu o meu pai - disse Charles. 
Entrou em casa e fechou a porta.
- Custou-lhe - contou o carteiro na cidade -, custou-lhe a
valer.  um tipo sossegado, de poucas falas.
Se bem que o dia ainda no tivesse terminado, Charles acen-
deu a luz, desdobrou a carta em cima da mesa e foi lavar as mos 
antes de se sentar para a ler de novo.
Ningum lhe enviara um telegrama. Os notrios tinham en-
contrado a sua direco nos papis do pai. Estavam desolados,
apresentavam condolncias, mas encontravam-se sobretudo muito
excitados. Quando tinham feito o testamento do Sr. Trask, julgaram
que no deixaria ao filho mais do que umas centenas de dlares.
Pelo menos, a julgar pela cara, pouco mais valia do que isso. Mas, 
quando tiveram conhecimento da conta bancria, verificaram que 
possua noventa e trs mil dlares em metal sonante e dez mil 
dlares em aces. Os seus sentimentos em relao ao Sr. Trask 
evoluiram de forma notvel. Pessoas naquelas condies eram 
ricas e j no tinham necessidade de se preocupar com o futuro. 
Havia o bastante para fundarem uma dinastia. Na carta, os notri-
os felicitavam Charles e o seu irmo Adam. Em conformidade com 
o testamento, os bens deveriam ser divididos em partes iguais. 
Seguia-se uma lista dos objectos deixados pelo defunto: cinco 
espadas de cerimnia oferecidas a Cyrus por ocasio dos diver-
sos Congressos do G. A. R.; um martelo de madeira de oliveira 
com uma placa de oiro; um emblema manico recamado de 
brilhantes; as capas de ouro dos dentes que tirara quando pusera 
a dentadura artificial; um relgio de prata; uma bengala com cas-
to de oiro; e assim por a fora...
Charles releu a carta duas vezes e apoiou a testa nas mos. 
Pensava em Adam. Queria que Adam voltasse.
Charles estava sombrio. Acendeu o fogo, ps a frigideira ao 
lume e encheu-a de grossas fatias de carne de porco salgada. 
Depois, a carta atraiu-o novamente. Subitamente, dobrou-a e me-
teu-a na gaveta da mesa da cozinha. Resolveu no tornar a pen-
sar em tudo aquilo durante um certo tempo.
Como  evidente, no fez outra coisa seno pensar naquilo e, 
por mais voltas que lhe desse, voltava sempre ao mesmo: onde 
arranjara o pai tanto dinheiro?
Quando dois acontecimentos tm algo de comum - quer seja 
pela sua natureza, pelo sitio ou pelo tempo em que se deram - 
conclumos com satisfao que se assemelham e que h neles 
alguma coisa de estranho que enterramos na memria para, mais
tarde, podermos contar. Charles nunca recebera uma carta ao do-
miclio. Algumas semanas depois, chegou um rapazinho a correr, 
com um telegrama. Charles ligou a carta ao telegrama, do mesmo 
modo que se ligam duas mortes na previso duma terceira. Correu 
para a gare da aldeia, levando o telegrama na mo.
- Oia-me isto - disse ele ao telegrafista.
- J o li.
- Ah! sim?
- Veio pelo telgrafo e fui eu que o escrevi.
- Ah! pois claro! Favor telegrafar urgente cem dlares. Re-
gresso casa, Adam.
- A pagar pelo destinatrio! Deve-me sessenta cntimos.
- Valdosta, Gergia. No conheo.
- Eu tambm no, mas  o que a est.
- Diga l, Carlton, como  que se faz para telegrafar dinheiro?
- Tem de me trazer cento e dois dlares e sessenta cntimos, 
e eu mando um telegrama para Valdosta dizendo para pagarem 
cem dlares ao Adam. No esquea que me deve sessenta cn-
timos.
- Est bem, mas como posso eu saber que se trata do 
Adam? Qualquer pessoa me pode pedir dinheiro.
O empregado do telgrafo teve um sorriso condescendente.
- Vou dizer-lhe como costumamos fazer: voc faz-me uma 
pergunta a que mais ningum pode responder. Eu telegrafo a per-
gunta e a respectiva resposta. O empregado faz a pergunta ao 
destinatrio e se ele no conseguir responder, no recebe o di-
nheiro.
- No est mal achado, no senhor. Deixe ver se me lembro 
duma boa pergunta.
- Era melhor que fosse buscar os cem dlares antes que 
fechasse o guich.
Charles estava encantado com o jogo. Voltou pouco depois 
com o dinheiro.
- J tenho a pergunta - disse.
- Espero que no seja o segundo nome de baptismo da sua 
me. H muita gente que no se lembra.
- No  nada disso. Aqui tem: Que deste ao pai no dia do 
seu aniversrio antes de partires para a tropa?
- A pergunta  boa, mas nunca mais acaba. No a pode 
reduzira dez palavras?
- Mas afinal quem paga? A resposta : Um cachorro.
- Ningum conseguia adivinhar. No fim de contas, no sou 
eu que pago.
- Tinha graa se ele se tivesse esquecido. No podia voltar 
para casa.


3

Adam fez a p o trajecto da estao ao rancho. Tinha a camisa 
suja e as roupas roubadas estavam no fio e cheias de terra, pois 
dormira com elas durante uma semana. Deteve-se entre a casa e o 
celeiro, para adivinhar onde se encontrava o irmo. Ao fim de certo 
tempo, ouviu marteladas no novo armazm do tabaco.
-  Charles - chamou Adam.
As marteladas cessaram e houve um silncio. Adam teve a 
impresso de que o irmo o observava atravs das frinchas do 
barraco. Depois, Charles saiu rapidamente, correu para Adam e 
apertou-lhe as mos.
- Como ests?
- Bem.
- Santo Deus, que magro!
- No havia de estar. E tambm estou mais velho. 
Charles inspeccionou-o da cabea aos ps. 
- No pareces nadar em prosperidade. 
- Pois no.
- Onde est a tua mala?
- No tenho.
- Jesus! mas por onde andaste? 
- Tenho andado por a.
- Como um vadio?
- Como um vadio.
Com a idade, a cara de Charles escurecera e os olhos tinham 
ficado vermelhos. Adam, apesar do tempo decorrido, sabia que
Charles s pensava em duas coisas: na pergunta e noutra coisa
qualquer.
- Porque no voltaste logo?
- Apeteceu-me passear. No podia parar, era mais forte do
que eu. Mas que grande cicatriz que tu tens.
- Falei-te nela numa das minhas cartas. Est cada vez pior.
Porque no escreveste? Tens fome?
Charles enfiou as mos nos bolsos, depois tirou-as, esfregou
o queixo e coou a cabea.
- Isso pode desaparecer. Uma vez vi um tipo, o dono dum 
bar, que tinha uma mancha. Era um sinal do feitio dum gato. Cha-
mavam-lhe o Gato.
- Ests com fome?
- Parece-me que sim.
- Tencionas ficar?
- Queres falar nisso agora?
- Se quiseres. O pai morreu.
- Bem sei.
- Santo Deus! Como sabes?
- Disse-me o chefe da estao. Morreu h quanto tempo?
- Um ms, pouco mais ou menos.
- Com qu?
- Com uma pneumonia.
- Foi enterrado aqui?
- No, em Washington. Recebi uma carta e jornais.Leva-
ram-no num armo de artilharia com uma bandeira em cima do 
caixo. O Vice-Presidente foi ao enterro e o Presidente mandou 
uma coroa. Vem tudo nos jornais, com fotografias. Tenho tudo
guardado, hei-de te mostrar.
Adam fitou o irmo at que Charles desviou o olhar.
- Ests furioso com alguma coisa? - perguntou Adam.
- Porque havia de estar furioso?
- Ests com cara disso...
- No estou furioso com coisa nenhuma. Anda. Vou arran-
jar-te de comer.
- Est bem. Ele sofreu muito? 
- No. Foi de repente.
Charles estava escondendo alguma coisa. Desejava diz-lo mas
no sabia como o fazer. As palavras tinham um sentido oculto. 
Adam calou-se. Pensava ser boa poltica calar-se e esperar que o 
irmo descobrisse as baterias. Charles decidiu-se finalmente:
- No acredito muito nas mensagens do alm, mas nunca se 
sabe. H pessoas que dizem ter recebido mensagens. A velha Sarah 
Whitburn por exemplo. At jura. A gente nem sabe o que h-de 
pensar. Tu no recebeste nenhuma mensagem? Valha-me Deus! 
parece que tens a lngua presa!
- Estava a pensar - disse Adam.
Na realidade, estava estupefacto. J no tenho medo do meu 
irmo! Dantes, provocava-me clicas. Agora, acabou-se. Gostava de 
saber porqu. Ser da tropa? Ser dos trabalhos forados na estra-
da? Ser da morte do pai? Talvez, mas no compreendo.
Agora, que j no tinha medo, podia pronunciar as palavras 
que quisesse, enquanto que antes era obrigado a escolher as que 
no corressem o risco de lhe trazer aborrecimentos. Sentia-se bem, 
como um morto no limiar da ressurreio.
Entraram na cozinha. Recordava-se dela e, contudo, parecia-
-lhe diferente. Parecia mais pequena por causa da desordem. Adam 
disse quase alegremente:
- Se bem compreendi, Charles, tens qualquer coisa para me 
dizer, mas no h maneira de desembuchares. V se falas antes 
que isso te asfixie.
Uma chispa de clera saltou nos olhos de Charles. Ergueu a 
cabea. Mas perdera a fora. Pensou com desolao: J no o 
posso esfrangalhar. J no posso.
Adam disse com um ar trocista:
- Talvez no seja bonito a gente sentir-se bem quando o pai 
nos morreu, mas a verdade, Charles,  que nunca me senti to 
bem na minha vida. Vamos, despacha-te, Charles, no fiques com 
isso atravessado.
- Gostavas do nosso pai?- perguntou Charles.
- S responderei quando souber aonde queres chegar. 
- Gostavas dele ou no?
- Que tens tu com isso?
- Quero saber.
A sensao de liberdade dera novas foras a Adam.
- Bom. Vou dizer-te. No, no gostava dele. s vezes metia-
-me medo. Por vezes, sim, de vez em quando, admirava-o, mas a 
maior parte das vezes odiava-o. Agora, diz-me o que queres saber.
Charles falou sem desviar os olhos das mos.
- No percebo - disse ele. -  uma coisa que no consigo 
meter na cabea. Tu eras a pessoa de quem ele mais gostava no 
mundo.
- No acredito.
- Ningum te pede que acredites. Ele gostava de tudo quan-
to lhe davas. De mim no gostava. No gostava do que eu lhe 
dava. Recordas-te do presente que eu lhe ofereci: o canivete? Tive 
de cortar e vender um estere de madeira para conseguir o canivete. 
Pois nem sequer o levou para Washington. Ainda est na gaveta 
dele. Tu deste-lhe um cachorro que no te custou nada. Hei-de 
mostrar-te, uma fotografia do teu cachorro. Foi ao funeral. Como 
j estava cego e no podia andar, foi um coronel quem lhe pegou 
ao colo. Depois do enterro, meteram-lhe uma bala na cabea.
Adam ficou surpreendido com o tom selvagem do irmo.
- No percebo - disse ele. - No vejo aonde queres che-
gar.
- Eu gostava dele - disse Charles.
E, pela primeira vez na sua vida, Adam viu Charles chorar; 
descansou a cabea em cima dos braos e soluou.
Adam esteve prestes a aproximar-se dele quando se viu para-
lisado por um resto de medo. No, pensou, se lhe tocasse era 
capaz de me matar.  Foi at  porta aberta e olhou para fora. 
Atrs dele, ouvia o irmo a fungar.
A quinta no era agradvel junto da casa - nunca o fora. 
Tudo era desordem, confuso, falta de mtodo. No havia flores; 
o cho estava juncado de papis e de pedaos de lenha. A casa 
tambm no era acolhedora; quando muito era um tecto slido 
sob o qual se podia dormir e comer. O conjunto era tristonho. No 
se sentia vontade de amar aquele stio, no era hospitaleiro. No 
era um lar, um lugar com que se sonha e aonde se quer voltar. De 
sbito, Adam pensou na madrasta, mulher til, esplndida mulher 
no seu gnero, to mal estimada como a quinta. A madrasta no 
era uma esposa. A quinta no era um lar.
O irmo j no soluava. Adam voltou-se. Charles tinha o 
olhar fixo.
- Fala-me da mam - disse Adam. 
- Morreu. Escrevi-te a esse respeito. 
- Fala-me dela.
- J te disse. Morreu. H tanto tempo. Ela no era tua me.
O sorriso que Adam surpreendera uma vez no rosto de Alice 
voltou a abrir-se na sua mente. O rosto dela projectava-se  sua 
frente.
A voz de Charles atravessou a imagem e despedaou-a.
- Queres dizer-me uma coisa? No tenhas pressa e escu-
sas de responder se a resposta no for sincera. (Charles moveu 
os lbios para preparar as palavras.) Achas que o pai possa ter
sido... desonesto?
-Que queres dizer?
- No fui bastante claro? A palavra desonesto s tem um 
significado.
- No sei - disse Adam. - No sei. Nunca ouvi dizer nada. 
Repara no que ele veio a ser. Chegava a passar a noite na Casa 
Branca. O Vice-Presidente foi ao funeral. Ser isto prprio dum 
homem desonesto? Vamos, Charles - suplicou ele - diz-me o 
que tens estado ansioso por me dizer desde que cheguei.
Charles humedeceu os lbios. Parecia que o sangue lhe fugi-
ra, levando toda a energia e toda a violncia. Quando falou, f-lo 
numa voz monocrdica.
- O pai fez um testamento. Todos os seus bens devero ser 
igualmente partilhados por ns dois.
Adam riu-se.
- Ora, a quinta h-de dar para vivermos. No morreremos 
de fome.
- Deixou mais de cem mil dlares - continuou a voz sem 
modulao.
- Ests doido. Queres dizer cem dlares. Onde teria ele ido 
buscar tanto dinheiro?
- No estou doido, no. No G. A. R. ele ganhava cento e 
trinta e cinco dlares por ms. Era com isto que pagava o quarto e 
a alimentao, Quando viajava, recebia cinco cntimos por milha 
percorrida, alm de lhe pagarem as despesas de hotel.
- Talvez, ento, ele tenha sido sempre rico, mas ns  que 
no sabamos.
- No, no foi sempre rico.
- Podamos escrever ao G. A. R. pedindo informaes. Eles 
devem saber.
- No tenho coragem - disse Charles.
- Escuta-me. No te ponhas a imaginar coisas pavorosas. 
Existe uma coisa a que se chama especulao. Podem ganhar-se 
fortunas. O pai conhecia pessoas influentes. Talvez tenha obtido 
uma boa informao. Lembra-te dos homens que se meteram na 
corrida para o oiro da Califrnia e voltaram ricos.
O rosto de Charles exprimia a desolao. Falou to baixo que 
Adam teve de se aproximar para o ouvir. A voz era montona, 
como a dum escrivo:
- O pai entrou para o Exrcito da Unio em Junho de 1862. 
Fez a instruo neste Estado durante trs meses, o que nos leva 
a Setembro. A sua unidade deslocou-se para o Sul. Em 12 de 
Outubro, foi atingido na perna e evacuado. Em Janeiro, j estava 
de volta a casa.
- Continuo a no perceber aonde queres chegar.
- Ele no esteve em Chancellorsville. Ele no esteve em 
Gettysburg, nem em Wlderness, nem em Richmond, nem em 
Appomatox.
A voz de Charles era tnue e triste.
- Como sabes?
- A caderneta de desmobilizao estava junto aos papis 
que me mandaram.
Adam suspirou profundamente. O corao palpitava-lhe de 
alegria. Abanou a cabea como se no pudesse acreditar no que 
ouvia.
- Mas como foi que ele se conseguiu arranjar? - perguntou 
Charles.- Como diabo  que ele conseguiu arranjar-se? Nunca 
ningum lhe perguntou nada. Nem tu, nem eu, nem a minha me. 
Ningum. Nem os tipos de Washington.
Adam levantou-se.
- H alguma coisa que se coma? Vou pr a aquecer.
- Matei ontem uma galinha. Se quiseres esperar, posso frit-
-la.
- No tens nada mais rpido?
- Porco salgado e ovos com fartura.
- Pode ser isso - disse Adam.
Abandonaram o assunto e contornaram o obstculo. Se bem 
que no tornassem a falar nele, no pensavam noutra coisa. Que-
riam falar naquilo, mas no podiam. Charles ps a carne de porco 
numa frigideira, aqueceu uns feijes guisados e fritou ovos.
- Lavrei a pastagem - disse ele.- Semeei centeio.
- E que tal?
- Bem. Mas tive que tirar as pedras todas. (Apontou a testa.) 
Foi l que apanhei esta porcaria, quando tentava desviar uma ro-
cha.
- Escreveste-me acerca disso - disse Adam.- No sei se 
te cheguei a dizer que as tuas cartas representavam muito para 
mim.
- Nunca me disseste bem o que estavas fazendo.
- Devia ser porque no queria pensar nisso. Na maioria dos
casos, no era coisa que prestasse.
- Li os comunicados nos jornais. Entraste em todas as bata-
lhas?
- Entrei, mas no queria pensar nelas e continuo a no que-
rer.
- Mataste ndios?
- Matmos ndios, matmos.
- Eles no valem l grande coisa. 
- Talvez.
- Se no queres tocar no assunto, no s obrigado. 
- No quero, no.
Jantaram  luz do candeeiro de petrleo.
- Via-se melhor se eu me desse ao trabalho de limpar a cha-
min.
- Eu depois limpo. No se pode pensar em tudo.
- Ainda bem que voltaste. Que dirias se fssemos dar uma 
volta at  estalagem, depois do jantar?
- Logo se v. Talvez s me apetea ficar para a sentado.
- Nunca te disse nada nas minhas cartas, mas na estala-
gem h mulheres. Talvez gostasses de vir comigo. Elas mudam de 
quinze em quinze dias. Talvez gostasses de ir l deitar uma vista de 
olhos.
- Mulheres?
- Sim. No ltimo andar.  muito cmodo. Pensava que, como 
ests de volta...
- Esta noite, no. Mais tarde, talvez. Quanto levam elas?
- Um dlar. E so jeitosas, na maior parte.
- Talvez mais tarde - disse Adam. - O que me admira  
que as deixem ficar.
- Tambm eu me admirava ao princpio, mas eles descobri-
ram uma maneira.
- Vais l muitas vezes?
- Quase todos os quinze dias.  triste para um homem s, 
aqui...
- Escreveste-me uma vez que pensavas casar.
- De facto, pensava. Acho que no encontrei a mulher que 
me convinha.
Os dois irmos andaram de roda do tema principal. Estive-
ram vrias vezes para o atacar de frente, mas recuavam rapida-
mente para falarem de colheitas, de mexericos, de poltica ou de 
sade. Sabiam que, mais cedo ou mais tarde, l iriam parar. Charles 
tinha muito mais vontade de tocar na questo do que Adam. 
Charles tivera tempo de reflectir no assunto, enquanto que para 
Adam se tratava dum novo campo de pensamento. Teria preferido 
adiar aquilo para outro dia, mas ao mesmo tempo sentia que o 
irmo no lhe deixaria fazer tal coisa. Por isso, disse abertamen-
te: daquilo que sabes depois duma boa noite de sono.
-  como quiseres - disse Charles.
Mas depressa lhes faltou assunto para conversarem. Depois 
de terem evocado todos os amigos e discutido os acontecimentos 
locais, nada mais lhes sobrava para dizer. O tempo passava.
- Ento, vamos a isto?- perguntou Adam.
-  s um momento.
Ficaram silenciosos enquanto a noite adejava em torno da 
casa, fazendo-se cada vez mais insistente.
- Gostava de ter assistido ao funeral -- disse Charles.
- Deve ter sido estupendo.
- Queres que te mostre os artigos dos jornais? Guardei-os no 
meu quarto.
- No. Esta noite, no.
Charles avanou a cadeira e fincou os cotovelos na mesa. 
preciso encarar as coisas de frente - disse nervosamente. - Pode-
-se tentar sempre adiar isto para mais tarde, mas a verdade  que 
temos de resolver o que vamos fazer.
- Bem sei - disse Adam.- Mas gostava de poder pensar 
um pouco mais no assunto.
- No serve de nada. Eu tive tempo, todo o tempo que quis, 
e no consegui passar da cepa torta. At chegava a andar deso-
rientado, mesmo quando no queria pensar no caso. Achas que o 
tempo ajuda alguma coisa?
- No me parece. Mas afinal por onde queres principiar? 
Mais vale irmos direito ao assunto, j que no podemos pensar 
noutra coisa.
- Primeiro, h o dinheiro - disse Charles.- Mais de cem 
mil dlares. Uma fortuna.
- Que tem o dinheiro?
- De onde veio ele?
- Como queres que saiba? Talvez tenha especulado. Talvez 
algum lhe tenha dado uma boa informao em Washington. 
-Acreditas nisso?
- No acredito em coisa nenhuma. No sei nada. Em que 
queres tu que eu acredite?
-  muito dinheiro - disse Charles.-  uma fortuna que 
nos vem parar s mos. Podemos viver  custa dela o resto dos 
nossos dias, ou ento podemos comprar terrenos e faz-los ren-
der. Talvez ainda no tivesses pensado nisso, mas ns somos 
ricos. Somos mais ricos do que todos os nossos vizinhos.
- Isso parece produzir-te o mesmo efeito que uma condena-
o aos trabalhos forados - disse Adam a rir.
- De onde provinha o dinheiro?
- Que tens tu com isso? - perguntou Adam. - O melhor 
que temos a fazer  aproveit-lo.
- Ele no esteve em Gettysburg. No entrou em nenhuma 
das putas das batalhas de toda a guerra. Foi atingido durante uma 
escaramua. S nos contou mentiras.
- Despeja o saco - disse Adam.
Charles parecia o mais infeliz dos homens.
-Julgo que ele roubou o dinheiro. Fizeste-me uma pergunta 
e eu respondo-te.
- E a quem o roubou?
- No sei.
- Ento porque julgas que o roubou?
- Porque mentiu a respeito da guerra.
- O qu?
- Quero dizer que, se ele mentiu a respeito da guerra, tam-
bm pode ter roubado.
- Como?
- Ele tinha um posto importante no G. A. R. Pode ter pra-
ticado um desfalque na tesouraria e falsificado a contabilidade.
Adam suspirou.
- Se assim for, s te resta escrever-lhes e contar tudo. Eles 
que examinem os livros. Se for verdade, devolveremos o dinheiro.
Charles tinha o rosto contrado e a cicatriz pusera-se mais 
escura.
- O Vice-Presidente foi ao funeral. O Presidente mandou 
uma coroa. Havia uma fila de carros com meia milha de compri-
mento e centenas de pessoas a p. Sabes quem levava as coro-
as?
- Aonde queres tu chegar?
- Supe que descobrimos que ele era um ladro? Acaba por 
se descobrir que tambm no esteve em Gettysburg nem em lado 
nenhum. Ento todos ficaro a saber que no passava de um 
mentiroso e que toda a sua vida foi uma enorme mentira. Por-
tanto, se por acaso alguma vez disse a verdade, j ningum que-
rer acreditar nela.
Adam manteve-se imvel. O olhar era calmo mas interessado.
- Eu bem sabia que gostavas dele - disse placidamente.
Sentiu-se livre e aliviado.
- Gostava dele e ainda gosto.  por isso que odeio tudo isto 
- a sua vida destruda, completamente destruda. E a sepultura? 
Eram capazes de o exumar e de o pr de l para fora. (A voz saa 
contrada pela emoo.) Ento tu no gostavas mesmo nada dele? 
- perguntou num soluo.
- At agora, no tinha a certeza - disse Adam.- Estava
dividido entre o que sentia e o que devia sentir. No, no gostava
dele.
- Ento, -te indiferente que ele fique com a vida toda estra-
gada, que lhe tirem o pobre cadver da sepultura e que... Oh! valha-
-me Deus Nosso Senhor!
Adam reflectiu rapidamente, tentando encontrar as palavras 
para definir o que sentia:
- Porque me havia de interessar?
- Tens razo - disse Charles com amargura. - Se no 
gostavas dele, ests-te nas tintas. At podes ajudar a enterr-lo 
ainda mais.
Adm sabia que o irmo deixara de ser perigoso porque j 
no obedecia ao cime. Todo o peso do pai se lhe abatia sobre os 
ombros, mas era o pai dele e ningum lho podia roubar.
- Que impresso sentirs quando andares pelas ruas e toda 
a gente souber? - perguntou Charles. - Como poders olhar 
para as pessoas?
-J te disse que no me interessa. E no me interessa por-
que no acredito nisso.
- No acreditas no qu?
- No acredito que tenha roubado o dinheiro. Acredito que 
tenha estado na guerra, que fez tudo o que disse ter feito e que 
esteve em todos os stios onde disse ter estado.
- Mas a prova: a caderneta de desmobilizao?
- No tens prova nenhuma de que roubou. Fabricaste toda 
essa histria porque no sabias de onde vinha o dinheiro.
- Mas a caderneta militar...
- Podem ter-se enganado - disse Adam.- Creio que se 
enganaram. Tenho confiana no meu pai.
- No sei como podes...
- Escuta - disse Adam - H provas muito fortes de que 
Deus no existe, mas, para muitas pessoas, no so to fortes 
como a impresso de que Ele existe.
- Mas tu disseste-me que no gostavas do pai. Como podes 
ter f nele, ento?
- Talvez seja essa a razo - disse lentamente Adam, pro-
curando as palavras. - Talvez que, se o tivesse amado, viesse a 
ter cimes dele. Tu tinhas.  possvel que o amor provoque a sus-
peita e a dvida. Quando se gosta duma mulher, nunca se confia 
nela porque no temos confiana em ns prprios. Estou a ver 
tudo claramente. Compreendo como gostavas dele e como reagi-
as. Eu no gostava dele. Talvez ele gostasse de mim. Punha-me  
prova, feria-me, castigava-me e, por fim, acabou por me enviar 
como que para o sacrifcio. Talvez fosse para restabelecer o equi-
lbrio. Mas como no gostava de ti, tinha f em ti. Talvez seja uma
espcie de balana...
Charles fitava-o com os olhos muito abertos. 
- No compreendo - disse.
- Eu tento compreender - disse Adam. -  um pensamen-
to novo para mim. Sinto-me bem, nunca me senti to bem na mi-
nha vida. Acabo de me ver livre de qualquer coisa. Talvez um dia
venha a sofrer do teu mal, mas por agora sinto-me ptimo.
- No compreendo - repetiu Charles.
- No acredito que o pai tenha sido um ladro; no acredito
que tenha mentido.
- E os papis?
- Nem os quero ver. A f que deposito no meu pai no de-
pende duns papis quaisquer.
Charles respirou ruidosamente.
- Ento, eras capaz de ficar com o dinheiro? 
- Evidentemente.
- Mesmo que tivesse sido roubado?
- No foi roubado. No pode ter sido roubado. 
- No compreendo.
- A srio? Bom, ento  possvel que esteja a a chave do
mistrio. Ouve, nunca te falei nisto: lembras-te do dia em que me
bateste, mesmo antes de me ir embora?
- Lembro.
- E depois, lembras-te, voltaste com um machado para me
matar?
- No me recordo muito bem. Devia estar de cabea perdi-
da.
- No o sabia ento, mas sei-o agora: tu defendias o teu
amor.
- O meu amor?
- Sim - disse Adam. - Vamos tirar o mximo deste di-
nheiro. Talvez fiquemos aqui, talvez nos vamos embora... para a 
Califrnia, por exemplo. Temos que pensar no que havemos de 
fazer. E,  claro, temos de mandar erigir um monumento  memria
do pai, um grande monumento.
- Nunca poderei sair daqui - disse Charles.
- Depois se v. No temos pressa nenhuma. Confiemos no 
instinto.


Captulo VIII

1

Creio que os humanos podem gerar monstros. Alguns so 
reconhecveis: informes e horrveis, com cabeas enormes em 
corpos muito pequenos, troncos sem braos ou sem pernas; al-
guns, mais raros, tm trs braos; outros, tm cauda. Trata-se de 
acidentes. A culpa no  de ningum, costuma-se pensar. Houve 
tempos em que eram considerados punies por pecados ocul-
tos.
Se h monstros fsicos, no haver monstros mentais ou ps-
quicos? A cara e o corpo podem ser perfeitos; mas se um esper-
ma deficiente ou um factor hereditrio produzem monstros fsi-
cos, porque no ho-de produzir almas disformes?
Os monstros no passam de variaes em grau mais ou 
menos elevado das normas usuais. Se uma criana pode nascer 
maneta, uma outra pode nascer sem bondade ou sem conscin-
cia. Um homem que perde os braos num acidente  obrigado a 
lutar durante muito tempo para se adaptar  sua nova configura-
o, mas aquele que nasce sem os braos s sofre com a sua 
singularidade. Como nunca teve braos, no lhe fazem falta. As 
vezes, a criana imagina o que seria ter asas, mas o que imagina 
no corresponde certamente ao que sente o pssaro em voo. Ao 
monstro, o normal deve parecer monstruoso, visto que tudo  nor-
mal para ele. E para aquele cuja monstruosidade  apenas interi-
or, o sentimento deve ser ainda mais difcil de analisar, visto que 
nenhuma tara visvel lhe permite comparar-se aos outros. Para o 
homem nascido sem conscincia, o homem torturado pela cons-
cincia deve parecer ridculo. Para o ladro, a honestidade no 
mais que fraqueza. No esqueam que o monstro no passa duma 
variante e que, aos olhos do monstro, o normal  monstruoso.
Acredito sinceramente que Cathy Ames nasceu com as ten-
dncias, ou a falta de tendncias, que deviam dirigir e transviar-
-lhe a vida. Um dos balancins fora mal calculado; uma das engre-
nagens no correspondia s especificaes. Cathy sempre fora di-
ferente dos outros desde o dia em que nascera. E, assim como um 
mutilado pode aprender a utilizar a mutilao para ultrapassar os 
no-mutilados num campo de aco bem delimitado, tambm Ca-
thy tirou vantagens da sua enfermidade, causando muito sofrimento 
aos seus mais prximos.
Tempos houve em que se diria duma mulher como Cathy que 
estava possessa do demnio. Teria sido exorcismada para expul-
sar o mafarrico e se, aps numerosas tentativas, o diabo teimas-
se em no sair, teria sido queimada como feiticeira para maior 
bem da comunidade. A nica coisa que se no pode perdoar a 
uma bruxa  o seu poder de perturbar as criaturas, de as inquietar, 
de lhes fazer perder o equilbrio e, at, de despertar nelas o ci-
me.
Como se a natureza tivesse querido disfarar a armadilha, 
Cathy oferecia a imagem da inocncia: belos cabelos doirados 
emolduravam um rosto em forma de corao terminado por um 
queixinho pontiagudo; os grandes olhos cor de avel, sempre 
semicerrados, tinham um olhar misteriosamente ensonado; o na-
riz era fino e delicado; as mas do rosto eram altas e largas; a 
boca de lbios bem desenhados era anormalmente pequena - 
uma boca em boto de rosa; tinha umas orelhas pequeninas, 
desprovidas de lbulos, to coladas  cabea que, mesmo quan-
do penteava o cabelo para trs, mal se viam - pareciam frgeis 
borboletas pousadas de cada lado da cabea.
Cathy, mesmo adulta, teve sempre uma silhueta de criana: 
frgil, braos delicados, mos muito pequenas. Os seios nunca 
se desenvolveram muito. Antes da puberdade, as pontas mete-
ram-se para dentro; quando comearam a doer, a me teve de as 
amassar para obrig-las a sair. Cathy tinha um corpo de rapaz, 
com ancas estreitas, pernas magras e tornozelos muito finos. Os 
ps eram pequenos, redondos e altos, lembrando quase cascos 
de cora. Era uma bonita criana e veio a ser uma bonita mulher.
A voz tinha suavidades roucas que ela sabia tornar irresistveis. 
Mas uma das cordas vocais devia ser de ao porque, quando ela 
queria, a voz de Cathy podia ser cortante como uma arma.
Ainda criana, j havia nela qualquer coisa que despertava a 
ateno. Quando se olhava para ela, desviava-se a vista, depois 
tornava-se a olhar, atrado por uma fora estranha. O seu olhar 
exprimia qualquer coisa que escapava  anlise. Era calma e fa-
lava pouco, mas quando entrava numa sala todos os olhares con-
vergiam para ela.
Cathy criava um mal-estar nas pessoas mas nunca a ponto 
de as afugentar. Homens e mulheres desejavam examin-la, apro-
ximar-se dela para tentarem descobrir donde provinha esse em-
barao que ela destilava com tanta subtileza. Sempre fora assim 
e Cathy achava-o naturalssimo.
Era diferente das outras crianas que, em geral, no gostam 
de se singularizar e querem parecer-se com as outras, falar, ves-
tir-se, agir como os outros. Se  lanada uma nova moda infantil, 
a criana sofre por no a poder seguir. Se fosse de bom-tom usar 
colares de costeletas de porco, a criana que no os usasse sentir-
-se-ia nua. Esta obedincia s leis do grupo  extensvel aos jo-
gos e aos actos da vida de famlia.  uma capa protectora de que 
a criana se reveste para se proteger.
Quando Cathy cresceu, o grupo, o bando - seja qual for o 
nome dado  reunio de vrias crianas - reagiu como os adul-
tos. Cathy no era como eles. Em breve, s alguns elementos 
isolados do grupo andavam com ela. A colectividade reunida evi-
tava-a como se ela representasse um perigo indizvel.
Cathy era mentirosa, mas no mentia como as outras crian-
as que inventam acontecimentos e os apresentam como autnti-
cos: trata-se apenas de mascarar a realidade. Creio que a dife-
rena entre um conto e uma mentira reside no facto de o conto 
apenas utilizar as ciladas e as aparncias da realidade para cap-
tar o interesse do auditor, enquanto que a mentira no passa de 
um meio de fuga ou de proveito. Se nos cingirmos a esta defini-
o, um homem que escreve histrias  um mentiroso - se obti-
ver um proveito aprecivel, evidentemente.
As mentiras de Cathy nunca eram inocentes. Permitiam-lhe 
escapar aos castigos, evitar um trabalho ou fugir s responsabili-
dades. Utilizava-as em proveito prprio. Os mentirosos, em geral, 
so apanhados, ou porque se esqueceram do que disseram, ou 
porque so postos perante uma verdade irrefutvel. Mas Cathy 
no se esquecia de nada e o seu mtodo era dos mais eficazes. 
Mantinha-se suficientemente perto da verdade para obter o benef-
cio da dvida. Tambm empregava outros dois processos: ou re-
cheava as mentiras de verdades, ou dizia uma verdade como se 
fosse uma mentira. Se algum for acusado de mentir e se se veri-
ficar que a mentira era uma verdade, cria-se um precedente cujos 
efeitos se faro sentir durante muito tempo e cobriro um grande 
nmero de verdades truncadas.
Cathy era filha nica. A me no tinha termos de comparao 
no seio da famlia e pensava que todas as crianas eram como a 
sua. Todos os pais so cegos e a Sr. Ames estava convencida de 
que todas as suas amigas tinham os mesmos problemas a resol-
ver.
O pai de Cathy no tinha uma certeza to grande. Era dono 
de uma pequena tanaria no Massachusetts que lhe assegurava 
uma vida confortvel, desde que trabalhasse muito. Fora de casa, 
o Sr. Ames encontrava-se em contacto com outras crianas e ti-
nha a impresso de que Cathy no era como elas. Era mais uma 
impresso do que uma certeza. A filha constrangia-o um pouco, 
mas no saberia dizer porqu.
Todos tm apetites e impulsos, mpetos irracionais, ilhas de 
egosmo e desejos  flor da pele. Alguns vigiam-se, outros dei-
xam andar. Cathy conhecia a existncia desses impulsos nos ou-
tros e sabia explor-los em seu proveito. Talvez estivesse conven-
cida de que essas tendncias eram as nicas que governavam o 
ser humano, pois era muito precoce em determinados sectores, 
mas muito atrasada nalguns outros.
Muito jovem, Cathy aprendeu que a sexualidade, com o seu 
cortejo de sofrimentos, melancolias, desejos dolorosos, cimes e 
tabus, era um dos piores impulsos que afligem os humanos. E 
nessa poca tudo se complicava ainda mais porque se tratava 
dum assunto inabordvel e inabordado. Todos procuravam escon-
der o seu inferno pessoal, enquanto, publicamente, pretendiam 
que ele no existia - e, quando eram apanhados com a boca na 
botija, no havia remdio que lhes valesse. Cathy compreendeu
que uma utilizao racional desse medo lhe asseguraria um cons-
tante domnio da maioria das pessoas. Era, simultaneamente, uma 
arma e uma ameaa. Era irresistvel. E como parece que Cathy 
nunca se deixou enlear no tal alvoroo cego,  muito provvel que 
ignorasse o desejo e desprezasse as suas vtimas. De certo modo, 
ela tinha razo.
Que liberdade no teriam o homem e a mulher se no fossem 
constantemente trados, enganados, escravizados e torturados pela 
sua sexualidade! A desvantagem  que deixariam de ser huma-
nos; passariam a ser monstruosos.
Aos dez anos, Cathy conhecia j a fora dos mpetos sexuais 
e comeou friamente a experiment-la. Considerou lucidamente o 
projecto, previu as dificuldades e preparou-se para venc-las.
Os jogos sexuais da infncia so velhos como o mundo. Quem 
 que, no sendo anormal, no ter arrastado em pequenino uma 
rapariguinha para um ninho de verdura, para um recanto sombrio 
sob uma rvore, para debaixo duma ponte que atravessa uma 
estrada - ou, pelo menos, quem  que nunca sonhou faz-lo? 
Tarde ou cedo, os pais tm de afrontar este problema. Se se re-
cordarem ento da prpria infncia, a criana est com sorte. Na 
poca em que Cathy era uma rapariguinha, ainda era pior: os pais 
ficavam horrorizados quando descobriam nos filhos os instintos 
cuja existncia negavam em si prprios.


2

A me de Cathy acabava de estender a roupa ao sol da Pri-
mavera. Cintilava um orvalho teimoso; a terra impregnava-se de 
calor; desabrochavam os dentes-de-leo amarelos. Os Ames vi-
viam  beira da cidade. Atrs da casa, havia um celeiro, uma 
cocheira, uma horta e uma estrebaria para dois cavalos.
A Sr? Ames vira Cathy dirigir-se para o celeiro. Chamou-a e, 
no obtendo resposta nenhuma, julgou que se tivesse talvez en-
ganado. Dispunha-se a entrar em casa quando ouviu um risinho 
na cocheira. Cathy!, gritou. Nenhuma resposta. Ficou inquieta. 
Tentou recordar-se do som do riso. No era a voz de Cathy. Cathy 
no costumava rir.


No se sabe como nasce o medo nos pais. Deve reconhecer-
se que, na maior parte dos casos, as suas apreenses no so 
motivadas. E que os pais mais inquietos so os de filho nico. 
Tm tanto medo de os perder...
A Sr.a Ames ficou imvel, de ouvido atento. Notou um cochicho 
e encaminhou-se sem rudo para a cavalaria. A porta de dois ba-
tentes estava fechada. As vozes vinham do interior, mas a Sr.a Ames 
no conseguia distinguir a da filha. Deu rapidamente um passo em 
frente, abriu os dois batentes da porta, e o sol iluminou um tal 
quadro que ficou petrificada, de boca aberta. Cathy estava estendi-
da no cho, com a saia levantada. Estava nua at  cintura e viam-
-se dois rapazes de cerca de catorze anos ajoelhados ao lado dela. 
A luz sbita tinha-os imobilizado. Os olhos de Cathy exprimiam um 
intenso terror. A Sr.a Ames conhecia os rapazes e os pais deles.
Um dos garotos saltou subitamente, empurrou a Sr.a Ames e 
desapareceu atrs da casa. O outro rapaz, num sobressalto deses-
perado, evitou a mulher e precipitou-se para a porta. A Sr.a Ames 
jogou-lhe a mo, mas os dedos escorregaram pelo fato e no con-
seguiram ret-lo.
A Sr.a Ames tentou falar, mas a voz no passava dum mur-
mrio rouco:
- De p!
Cathy fitou a me com um olhar suplicante e no se moveu. 
Cathy tinha os punhos atados com uma corda forte. A Sr.a Ames 
soltou um grito, atirou-se para o cho e desatou o n. Depois, 
levou Cathy para casa e deitou-a.
O mdico da famlia, aps t-la examinado, no encontrou 
quaisquer vestgios de violncia. Agradea a Deus por ter che-
gado a tempo, contentou-se ele em repetir vrias vezes.
Cathy esteve muito tempo sem falar.  do choque, disse o 
mdico. Mas, passada a prostrao, Cathy recusou-se a falar. 
Quando lhe faziam perguntas, esgazeava os olhos de forma a 
deixar aparecer o branco em torno das pupilas, ficava sem respi-
rar, punha-se vermelha e todo o corpo se inteiriava.
O Dr. Williams presidiu o conselho que reuniu as trs famli-
as. O Sr. Ames, que levara a corda, manteve-se calado a maior 
parte do tempo. Estava perplexo. Havia coisas que no compre-
endia, mas no as mencionou.
A Sr.a Ames entregou-se a uma histeria permanente. Estivera 
l. Vira tudo. Era ela a autoridade suprema. Naquela histeria, 
transparecia o sadismo. Queria sangue. Sentia prazer em exigir 
um castigo. A cidade, a regio deviam ser protegidas. Era assim 
que ela via as coisas. Conseguira chegar a tempo - Deus seja 
louvado! - mas quem sabe como se passariam as coisas da pr-
xima vez? E o terror em que viveriam as outras mes? E a Cathy 
s tinha dez anos.
Nessa poca, os castigos eram mais selvagens do que hoje. 
Acreditava-se sinceramente nas virtudes salvadoras do chicote. 
Primeiro, separadamente, depois, em conjunto, os rapazes foram 
zurzidos, zurzidos at escorrerem sangue.
O seu crime era hediondo mas, negando-o, provavam que 
estavam habitados por um demnio que nem o prprio chicote 
conseguia expulsar. Logo de princpio, a sua defesa fora ridcula. 
Afirmavam que fora Cathy quem comeara. Ambos lhe tinham 
dado cinco cntimos. No lhe tinham atado as mos. Lembravam-
-se de que ela brincava com uma corda.
Toda a cidade entoou em coro as palavras da Sr.a Ames: Es-
taro eles a insinuar que foi ela prpria quem atou as mos? Uma 
criana de dez anos!
Se os rapazes tivessem confessado o crime,  provvel que 
s tivessem sofrido uma parte do castigo. Mas a sistemtica dene-
gao despertou uma fria vingadora no s nos pais que os ti-
nham chicoteado, mas tambm em toda a comunidade. Com a 
aprovao dos pais, os rapazes foram expedidos para a casa de 
correco.
Ela vive obcecada por aquilo, disse a Sr.a Ames aos vizi-
nhos. Se ao menos pudesse falar, talvez lhe fizesse bem. Mas 
quando lhe fao uma pergunta,  como se revivesse a cena.
Os Ames nunca mais evocaram o drama. O caso estava arru-
mado. O Sr. Ames esqueceu rapidamente as suas perplexidades. 
Ficaria com um peso na conscincia se tivessem enviado duas 
crianas para a casa de correco por um crime que no tinham 
cometido.
Quando Cathy ficou completamente curada, os rapazes e as 
raparigas observaram-na de longe, depois, fascinados, aproxima-
ram-se. Ela no tinha nenhum derrio, como  hbito nessa idade:
os rapazes no queriam correr o risco de serem excludos do seu 
bando por terem acompanhado Cathy desde a escola at casa. 
Mas ela exercia uma forte seduo e, se um rapaz se encontrava a 
ss com ela, sentia-se atrado por uma fora que no podia 
compreender, nem combater.
Cathy era delicada, muito meiga, e falava em voz baixa. Dava 
grandes passeios sozinha, mas era raro que no encontrasse, por 
puro acaso, um rapaz saindo da mata. Enquanto se extinguiam os 
ltimos rumores do acontecimento, as actividades de Cathy man-
tiveram-se secretas, o que causa estranheza numa idade em que 
os segredos so numerosos e em que no se guardam por muito 
tempo.
Cathy aperfeioou um sorrisinho, um assomo de sorriso. Ti-
nha uma maneira de olhar de lado que dava a entender aos rapa-
zes que estava disposta a partilhar segredos com eles.
O pai tinha uma nova preocupao, mas evitava a resposta 
s pela vergonha de pensar em tal assunto. Cathy tinha o dom de 
encontrar objectos: um berloque de oiro; moedas; uma bolsinha 
de seda; uma cruz de prata incrustada de pedras encarnadas que 
se dizia serem rubis... Encontrou muitas coisas. Quando o pai ps 
um anncio no Correio hebdomadrio, acerca da cruz, ningum 
apareceu a reclam-la.
O Sr. William Ames, pai de Cathy, era um homem ensimes-
mado. Raramente dizia o que pensava. Seria incapaz de provocar 
os remoques dos vizinhos. Por isso, foi alimentando dentro de si a 
chamazita da suspeita: achava prefervel nada saber, era mais 
seguro e mais prudente. E tinha a conscincia em paz. Quanto  
me de Cathy, estava to enleada num casulo de meias-mentiras, 
de verdades mascaradas, de sugestes e de armadilhas prepara-
das por Cathy que seria incapaz de reconhecer uma verdade se a 
viesse a encontrar.


3

Cathy crescia em beleza. A pele aveludada, os cabelos doira-
dos, o olhar franco, modesto e, contudo, prometedor, a boquinha 
cheia de doura, atraam a ateno. Fez os oito graus de instruo
primria com to boas notas que os pais a matricularam na escola 
secundria, se bem que, nesse tempo, no fosse costume pr as 
raparigas a estudar. Mas Cathy dizia que queria ser professora, o 
que encantava a me e o pai, pois era a mais digna profisso que 
se oferecia a uma rapariga de boa famlia sem fortuna. Era uma 
honra ter uma filha no ensino. Cathy tinha catorze anos quando 
entrou para o liceu. Ela sempre parecera inaprecivel aos pais, 
mas, assim que se familiarizou com a lgebra e o latim, atingiu 
alturas onde eles j no a podiam acompanhar. Tinham-na per-
dido; sentiam que atingira esferas superiores.
O professor de latim era um homem novo e plido, de olhar 
intenso, que fora expulso dum seminrio, mas que possua os 
conhecimentos bastantes para ensinar a inevitvel gramtica, 
Csar e Ccero. Era um rapaz sossegado que acalentava no seio 
o revs sofrido. L no ntimo, sentia que fora rejeitado por Deus e 
que Deus tinha as suas razes.
Durante certo tempo, notou-se que ardia uma chama nos olhos 
de James Grew. Nunca o viram com Cathy e no houve suspeitas 
de que tivessem mantido relaes.
James Grew fez-se um homem. Endireitou a cabea e o co-
rao encheu-se-lhe de alegria. Escreveu cartas to convincentes 
ao reitor do seminrio que este pensou em readmiti-lo.
Depois, a chama vacilou. A cabea, to levantada, descaiu. 
Os olhos ficaram febris; as mos puseram-se a tremer. Viram-no 
 noite, na igreja, ajoelhado, murmurando oraes. Faltou  esco-
la, pretextando doena, apesar de o terem avistado a andar sozi-
nho pelas colinas atrs da cidade.
Uma noite, j bastante tarde, foi bater  porta dos Ames. O 
Sr. Ames saiu da cama a resmungar, acendeu uma vela, atirou 
um casaco por cima da camisa de dormir e foi at  porta. Depa-
rou-se-lhe um James Grew desvairado e selvagem, com os olhos 
chispando e o corpo sacudido por tremuras.
- Preciso de lhe falar - disse ele numa voz rouca.
- J passa da meia-noite - disse o Sr. Ames.
- Preciso de lhe falar a ss. Vista-se e venha c para fora. 
Preciso de lhe falar.
- Voc ou est bbedo ou doente. V para casa e durma. J 
passa da meia-noite.
- No posso esperar. Tenho de lhe falar.
- Venha estar comigo amanh de manh  tanaria.
O Sr. Ames fechou a porta com mo firme e ficou imvel  
escuta. Ouviu a voz que gemia: No posso esperar. No posso 
esperar. Depois, passos desceram vagarosamente os degraus.
O Sr. Ames protegeu a chama da vela com a mo e foi deitar-
-se. Pareceu-lhe ver fechar-se silenciosamente a porta do quarto 
de Cathy, mas talvez fosse a luz vacilante que lhe provocasse 
vises, pois tambm lhe pareceu ver mexer-se um reposteiro.
- O que era? - perguntou-lhe a mulher quando ele se tor-
nou a meter na cama.
O Sr. Ames no soube porque respondeu assim, talvez para 
evitar uma discusso:
- Um bbedo que se enganou de casa.
- Est o mundo perdido - disse a Sr. Ames.
Estendido no escuro, o Sr. Ames viu danar diante dos olhos 
um crculo verde onde se avistava o rosto suplicante e desespera-
do de James Grew. Foi com dificuldade que adormeceu.
De manh, a cidade foi percorrida por um boato, umas vezes 
deformado, outras, aumentado; mas,  tardinha, j se sabia a ver-
dade: o sacristo encontrara James Grew estendido junto do al-
tar; dera um tiro nos miolos. Ao lado dele, jaziam uma espingarda, 
a vara de madeira que utilizara para disparar o gatilho e um can-
delabro de altar. Uma das trs velas ainda ardia; as duas outras 
no tinham sido acesas. No cho, estavam dois livros, um em 
cima do outro; o livro dos cnticos e o livro das oraes. Na opi-
nio do sacristo, James Grew colocara o cano da espingarda em 
cima dos livros para o elevar  altura da testa. O recuo afastara a 
arma.
Muitas pessoas se lembraram de ter ouvido uma exploso 
antes de o Sol nascer. James Grew no deixava nenhuma carta. 
Ningum compreendeu porque fizera aquilo.
O primeiro impulso do Sr. Ames foi ir procurar o coroner para 
lhe contar a visita que recebera  meia-noite; depois, pensou: Para 
que servia? Se soubesse alguma coisa, seria diferente, mas como 
no sei... Sentia-se vagamente enjoado. Repetia a si mesmo que 
a culpa no era dele. Que poderia ter feito? Nem sei o que ele 
me queria. Sentia-se culpado e infeliz.
Durante o jantar, a mulher falou-lhe no suicdio, o que lhe tirou 
o apetite. Cathy estava silenciosa, mas no mais do que era costu-
me. Comeu com a ponta dos lbios e limpou muitas vezes a boca.
A Sr.a Ames passou em revista todos os pormenores do caso, 
incluindo o corpo e a espingarda.
- H uma coisa que te queria dizer. O bbedo que veio c 
ontem bater  porta, no era o Grew? - perguntou ela ao marido.
- No - respondeu ele rapidamente.
- Tens a certeza? Como o podias ver no escuro?
- Eu tinha uma vela - respondeu ele secamente. - No 
era ele. O homem tinha uma grande barba.
-  escusado responder assim - disse ela. - Estava s a 
fazer uma pergunta.
Cathy limpou a boca e, quando tornou a pr o guardanapo em 
cima dos joelhos, estava sorrindo.
A Sr. Ames voltou-se para a filha:
- Tu via-lo todos os dias na escola, Cathy. Pareceu-te preo-
cupado nestes ltimos dias? Notaste alguma coisa que...
Cathy inclinou a cabea para o prato e, depois, tornou a ergu-
-la.
- Pareceu-me doente - disse ela.- Sim, no tinha um ar 
nada bom. Toda a gente falava nisso, hoje, l na escola. E algum 
- no me lembro quem foi - disse que o Sr. Grew tinha aborre-
cimentos em Bston. No sei que espcie de aborrecimentos eram. 
Todos ns gostvamos muito do Sr. Grew.
Limpou delicadamente a boca.
Era o mtodo de Cath. Antes da noite seguinte, j toda a cida-
de sabia que James Grew tivera aborrecimentos em Bston. Nin-
gum imaginava que Cathy inventara a histria. A prpria Sr.a Ames 
j no se recordava onde o ouvira dizer.


4

Cathy modificou-se pouco depois de ter completado os dezas-
seis anos. Uma manh, no se levantou para ir  escola. A me 
subiu ao quarto dela e encontrou-a na cama, fitando o tecto.
- Despacha-te. J ests atrasada. Vo dar as nove. 
- No vou  escola.
- Ests doente?
- No.
- Ento, levanta-te.
- No quero ir.
- Deves estar doente. Nunca faltaste nenhum dia.
- No vou  escola - repetiu calmamente Cathy. - Nunca 
mais l volto.
A Sr.a Ames abriu a boca de espanto. 
- Que queres tu dizer?
- Nunca mais - disse Cathy.
E continuou a fitar o tecto.
- Muito bem. Vamos ver o que diz o teu pai. Com todo o 
dinheiro que ns gastmos, dois anos antes de receberes o di-
ploma...
Aproximou-se e perguntou ternamente: 
- No pensas em te casar?
- No.
- Que livro  esse que ests a esconder?
- Aqui o tem. No estou a escond-lo.
- Oh! Alice no pas das maravilhas. J ests muito cresci-
da...
Cathy respondeu:
- Quero tornar-me to pequena que nem tu me poders ver. 
- Que histria  essa?
- Ningum me poder descobrir.
A me disse encolerizada:
- Deixa-te de disparates. No percebo em que ests a pen-
sar. E o que  que a menina tenciona fazer? 
- Oh! ainda no sei - disse Cathy. - Talvez me v embora.
- Muito bem! A menina vai ficar deitada e quando o seu pai 
voltar h-de ter uma ou duas coisas para lhe dizer.
Cathy voltou a cabea muito devagar e contemplou a me. 
Tinha os olhos frios e sem expresso. Subitamente, a Sr.a Ames 
teve medo da filha. Saiu sem fazer rudo e fechou a porta. Na 
cozinha, sentou-se, cruzou as mos nos joelhos e, pela janela,
ps-se a olhar a cocheira.
A filha tornara-se uma estranha. Sentia, como acontece a to-
dos os pais, mais cedo ou mais tarde, que j no a conseguia 
dominar, que lhe fugiam dos dedos as rdeas com que tentava diri-
gir Cathy. O que ela ignorava  que nunca exercera qualquer poder 
sobre Cathy. Limitara-se a servir os propsitos da filha. Passados 
instantes, a Sr.a Ames ps um chapu e encaminhou-se para a 
tanaria. Queria falar ao marido fora de casa.
De tarde, Cathy levantou-se e passou um grande bocado di-
ante do espelho.
 noite, o Sr. Ames, embora contrariado, pregou um sermo 
 filha. Falou-lhe dos seus deveres, das suas obrigaes, do amor 
natural que devia ter aos pais. Quando j estava no fim do discur-
so, - percebeu que ela o no escutava. Zangou-se e ameaou-a. 
Falou da autoridade que Deus lhe concedera para guiar a filha e 
de como essa autoridade era confirmada e reforada pelo Estado. 
Cathy ouvia-o agora com ateno e olhava-o a direito nos olhos.
A boca sorria levemente e os olhos no pestanejavam. Por fim, 
o pai viu-se obrigado a desviar o olhar, o que lhe aumentou a ira. 
Ameaou-a vagamente com o chicote se ela no lhe obedecesse.
E, terminou, sentindo-se desamparado:
- Vais prometer-me que amanh no faltas  escola e que te 
deixas de caprichos.
O rosto de Cathy mantinha-se inexpressivo. A boca estava 
fechada.
- Est bem - disse ela.
Nessa noite, o Sr. Ames disse  mulher, com uma fingida se-
gurana:
- Como vs, basta um pouco de autoridade. Talvez no te-
nhamos sido bastante severos. Mas ela tem bom fundo. Talvez se 
tivesse esquecido de quem ns ramos. Um pouco de disciplina 
nunca fez mal a ningum.
Mas no se sentia to confiante como as suas palavras o 
davam a entender.
Na manh seguinte, verificaram que Cathy se fora embora. 
Desaparecera o cesto de viagem assim como a maioria dos seus 
vestidos. A cama estava impecavelmente feita. O quarto era im-
pessoal - nem fotografias, nem recordaes, nenhum dos vestgi-
os que costuma deixar um ser vivente. Cathy nunca brincara com
bonecas. Nada parecia indicar que naquele quarto crescera uma 
criana.
O Sr. Ames era um homem inteligente a seu modo. Ps o 
chapu e dirigiu-se rapidamente para a estao. O chefe da esta-
o foi categrico: Cathy tomara o primeiro comboio para Bston. 
A pedido do Sr. Ames, transmitiu um telegrama  polcia de Bs-
ton. O pai de Cathy comprou um bilhete de ida e volta e apanhou 
a composio das nove e cinquenta. Era um homem de grandes 
decises nos momentos cruciais.
Nessa noite, a Sr.a Ames fechou-se na cozinha e sentou-se. 
Estava branca e agarrava-se  mesa, tanto tremia. O barulho - 
primeiro as chicotadas, depois os gritos - chegava-lhe distinta-
mente atravs das portas fechadas.
O Sr. Ames no era um perito na arte de chicotear por nunca 
a ter praticado. Com o chicote da carroa, comeou por zurzir as 
pernas de Cathy. Depois, quando viu que ela o olhava insolente-
mente com os olhos frios e que no chorava, perdeu as estribeiras. 
Flagelou-lhe as ilhargas e as costas. O chicote estalava e feria.
Dominado pela raiva, o Sr. Ames falhou vrias vezes, ou 
aproximou-se demasiado, fazendo com que o chicote se enrolas-
se em torno da vtima.
Cathy compreendeu rapidamente; descobriu o ponto fraco do 
pai. Logo se ps a berrar, a torcer-se, a suplicar; e teve a satisfa-
o instantnea de ver diminuir a dor.
O Sr. Ames assustou-se com o barulho e a punio que esta-
va a infligir. Deteve-se. Cathy caiu na cama, soluando. Se o pai a 
tivesse olhado de perto, descobriria que ela tinha os olhos secos, 
os msculos do pescoo retesados e os maxilares salientes de 
tanto os apertar. Perguntou-lhe:
- Tornas?
- No. Oh! no. Perdoa-me - disse Cathy.
E escondeu a cara na manta para que o pai no lhe visse a 
expresso.
- E v se te lembras quem s. E no esqueas quem eu 
sou.
A voz de Cathy despedaou-se e emitiu um soluo seco: 
- No hei-de esquecer.
Na cozinha, a Sr.a Ames torcia as mos. O marido acariciou-
-lhe o ombro:
- Custa-me muito - disse ele -, mas tinha de o fazer. Acho 
que lhe fez bem. Pareceu-me mudada. No devamos ter afrouxado 
as rdeas. Bem mal andmos em ser fracos.
A mulher insistira, obrigara-o a chicotear Cathy, e agora odia-
va-o, por ele o ter feito. Apoderou-se dele o desespero.


5

No havia dvida nenhuma que era daquilo que Cathy preci-
sava. Como dizia a Sr. Ames: At parece que se abriu. Cathy 
tornou-se prestvel: durante as semanas que se seguiram, aju-
dou a me na cozinha, mais do que era necessrio, e at princi-
piou a tricotar-lhe um xaile - projecto de envergadura cuja reali-
zao exigiria meses. A Sr.a Ames falou no caso s vizinhas:
- Ela tem uma habilidade extraordinria para combinar co-
res. Ferrugem e amarelo. J fez trs carreiras.
Ao pai, Cathy oferecia um sorriso fabricado. Tirava-lhe o cha-
pu quando ele chegava e virava-lhe a cadeira de frente para a 
luz, para que pudesse ler com comodidade.
At na escola se modificou. Sempre fora estudiosa, mas come-
ou a fazer planos para o futuro. Falou ao director nos exames do 
diploma de ensino que desejava obter com um ano de antecedn-
cia. O director examinou-lhe a caderneta e achou que ela podia 
tentar com muitas probabilidades de xito. Foi ver o Sr. Ames  
tanaria, para discutirem o assunto.
- Ela no nos disse nada.
O Sr. Ames sentia-se muito orgulhoso.
-Talvez tenha feito mal em lhes dizer. Espero no ter estra-
gado a surpresa.
O Sr. e a Sr.a Ames julgaram ter descoberto a varinha mgica 
que ia resolver todos os seus problemas. Chegaram  concluso 
de que aquele resultado era o fruto duma habilidade de que s os 
pais so capazes.
- Nunca vi algum mudar tanto - dizia o Sr. Ames.
- Ela sempre foi boa rapariga - dizia a mulher.- J repa-
raste como est a ficar bonita?  quase bela. E que bonitas cores! 
- No me parece que fique professora primria muito tempo 
- acrescentava o Sr. Ames.
Era verdade que Cathy resplandecia. Enquanto fez os prepa-
rativos, manteve o sorriso infantil. O tempo no lhe faltava. Limpou 
a cave e colocou buchas de papel para evitar as correntes de ar. 
Untou os gonzos da porta da cozinha, que rangiam, e o ferrolho, 
que estava muito perro, e j que estava com as mos na massa, os 
gonzos da porta da rua. Sentiu-se na obrigao de encher os can-
deeiros e de limpar os vidros. Inventou um sistema especial de 
limpar as chamins dos candeeiros, mergulhando-as numa grande 
bacia de petrleo que mandara pr na cave.
- S vendo se acredita - dizia o pai.
E no era s em casa que as coisas se passavam deste modo. 
Cathy desafiava o cheiro do tanino para ir visitar o pai. Fizera os 
dezasseis anos, havia pouco e o pai considerava-a como um beb. 
As perguntas que ela lhe fez deixaram-no estupefacto.
- Parece saber mais do que muitos homens que eu conheo 
-disse ele ao contramestre. - Talvez um dia possa ficar  frente 
do negcio.
Ela no se interessava apenas pelos processos de curtir, mas 
tambm pelo andamento do negcio. O pai explicou-lhe o que 
eram os investimentos, os prazos de pagamento, a facturao e 
as folhas de frias. Mostrou-lhe como se abria o cofre forte e ficou 
encantado por ela se lembrar da combinao  primeira tentativa.
- Vou dizer-te qual  o meu ponto de vista - confidenciou 
ele  mulher.-Todos ns temos uma tendncia para o mal. No 
gostava nada de ter uma filha excessivamente sossegada. Na mi-
nha opinio, ela tinha energia a mais. E se a orientarmos, h-de 
gast-la no bom sentido.
Cathy cosia a sua roupa e arrumava as suas coisas.
Num dia de Maio, ao voltar da escola, dirigiu-se directamente 
para as agulhas de tricotar. A me estava vestida para sair.
- Tenho de ir  Confraria do Altar. O nosso bazar de caridade 
realiza-se na prxima semana. Sou eu a presidente. O teu pai 
perguntou-me se tu podias ir ao banco levantar o dinheiro para as 
frias e lev-lo  tanaria, visto eu no poder ir.
- Com todo o gosto - disse Cathy.
- O dinheiro est pronto. J o puseram num saco.
A Sr.a Ames saiu.
Cathy trabalhou rpidamente mas sem precipitao, envergou 
um velho avental para proteger a roupa. Foi buscar  cave um boio 
de doce, com tampa, e levou-o para a arrecadao das ferramen-
tas. Na capoeira, apanhou um frango e cortou-lhe a cabea; de-
pois, segurou o pescoo em cima do boio at ficar meio cheio de 
sangue; em seguida, pegou no frango ainda agitado por sobressal-
tos e foi enterr-lo no monte de estrume. De regresso  cozinha, 
tirou o avental, meteu-o no fogo e ateou as brasas at o tecido 
arder. Lavou as mos, inspeccionou os sapatos e as meias, e apa-
gou uma mancha escura na ponta do sapato direito. Mirou-se ao 
espelho. As faces estavam rosadas, os olhos brilhavam e a boca 
tinha um sorrisinho infantil. Escondeu o boio de doce na escada 
da cozinha. A me no sara havia mais de dez minutos.
Cathy partiu com passo ligeiro e quase danava quando che-
gou  rua. A Primavera fazia abrir os rebentos e, nos prados, den-
tes-de-leo precoces desenhavam manchas amarelas. Cathy enca-
minhou-se alegremente para o centro da cidade, onde se encon-
trava o banco. E ia to fresca e to bonita que todos se voltavam 
para a ver.


6

O incndio deflagrou por volta das trs horas da manh. O fogo 
pegou, rugiu e abrasou toda a casa antes que algum tivesse tido 
tempo de notar fosse o que fosse. Quando os bombeiros voluntri-
os chegaram, arrastando a bomba, s restava uma coisa a fazer: 
regar os telhados prximos para os preservar do sinistro.
A casa dos Ames ardera como um foguete. Os bombeiros e os 
basbaques que so sempre atrados pelos incndios, examinaram 
os rostos iluminados a ver se reconheciam o Sr. e a Sr.a Ames, 
assim como a filha. Depressa se verificou que no estavam ali. Os 
espectadores estremeceram de horror ao lembrarem-se de que lhes 
poderia ter acontecido o mesmo. Os coraes bateram mais de-
pressa e as gargantas contraram-se. Os bombeiros comearam a
regar as chamas como se, tomados de remorsos tardios, esperas-
sem salvar ainda algum membro da famlia. Percorreu a cidade um 
boato aflitivo: toda a famlia Ames morrera queimada.
Logo de manh cedo, reuniu-se toda a populao em torno dos 
escombros fumegantes. Os da primeira fila eram obrigados a prote-
ger-se do calor. Os bombeiros continuavam a borrifar os tristes res-
tos. Por alturas do meio-dia, o coroner pde avanar por um cami-
nho de tbuas molhadas e esquadrinhar com um atiador os boca-
dos de madeira calcinada, impregnados de gua. Restava o bas-
tante do Sr. e da Sr.a Ames para garantir que havia dois corpos. Uns 
vizinhos designaram o local aproximado do quarto de Cathy. O 
coroner e alguns amadores passaram ao crivo os montes de ma-
deira queimada, mas no encontraram ossos nem dentes.
O chefe dos bombeiros, durante esse tempo, tinha descoberto 
as argolas e o fecho da porta. Olhava para o metal enegrecido, 
perplexo, mas no sabia porque o estava. Pediu o ancinho ao 
coroner e entregou-se furiosamente ao trabalho. Dirigiu-se para o 
stio onde se erguia a porta da entrada e procurou, at o encon-
trar, o ferrolho torcido e meio derretido. Alguns espectadores que 
faziam crculo em torno dele, perguntaram:
- Que procuras tu, George? Que encontraste, George?
Finalmente, o coroner dirigiu-se-lhe: - Que aconteceu, 
George?
- No h chaves nas fechaduras - disse o chefe dos bombei-
ros, embaraado.
- Talvez tenham cado?
- De que maneira?
- Talvez se tenham derretido?
- Os fechos no se derreteram.
- Talvez o Bill Ames as tenha tirado? 
- Do lado de dentro?
E mostrava os trofus: as duas fechaduras estavam fecha-
das.
Como a casa do patro ardera e, com ela, o patro, os empre-
gados da tanaria no foram trabalhar. Postaram-se junto da casa, 
oferecendo-se para ajudar, maadores e inteis.
S no fim da tarde  que Joel Robinson, o contramestre, se 
dirigiu  tanaria, onde encontrou o cofre aberto e os papis espa-
lhados no cho. Uma janela partida indicava o caminho por onde 
fugira o gatuno.
O caso mudava de figura. No se tratava, ento, de um aciden-
te! O medo substituiu a dor e a clera, irm do medo, despertou. A 
multido comeou a dispersar.
No foi preciso ir muito longe. Na cocheira encontraram aquilo 
a que se chama vestgios de luta: uma caixa partida, uma lanterna 
estilhaada; pegadas na terra e palha espalhada por toda a parte. 
Os investigadores talvez no tivessem compreendido que se trata-
va de vestgios de luta se no houvesse uma grande quantidade de 
sangue no cho.
Um agente da polcia tomou a situao em mos. Era o seu 
distrito. Mandou sair toda a gente da cocheira.
- Querem fazer desaparecer todos os vestgios? - atirou 
ele aos espectadores. - E agora afastem-se desta porta.
Vasculhou a casa, apanhou qualquer coisa e, num recanto, 
achou outra coisa qualquer. Encaminhou-se para a porta com as 
descobertas na mo: uma fita azul manchada de sangue e uma 
cruz com pedras encarnadas.
- Algum reconhece estes objectos? - perguntou.
Numa pequena cidade onde todos se conhecem, custa a acre-
ditar que uma pessoa das nossas relaes possa ser o assassino 
de algum. Por isso, quando se no descobrem provas esmaga-
doras contra determinado indivduo, vai-se acusar um vago estra-
nho, algum vindo desse mundo exterior onde podem acontecer 
coisas semelhantes. Ento, fazem-se rusgas aos acampamentos 
de vagabundos, os mendigos so interrogados e passam-se ao 
crivo os registos dos hotis. Todo o desconhecido  automatica-
mente um suspeito. No se esqueam de que se estava no ms 
de Maio e de que os vadios se tinham posto a caminho, aprovei-
tando os meses quentes em que se dorme ao relento  beira dos 
regatos. E havia ainda os ciganos, um acampamento completo a 
menos de cinco milhas de distncia. Os pobres ciganos passaram 
um mau bocado.
O campo foi esquadrinhado em todas as direces para se 
tentar descobrir uma parcela de terra remexida de fresca data. 
At os pntanos foram dragados para encontrar o corpo de Cathy. 
 Era to bonita, dizia-se. O que significava que talvez fosse uma
boa razo para terem raptado Cathy. Finalmente, detiveram um meio-
parvo, hirsuto e babado. Era um candidato perfeito  forca, pois no 
s era incapaz de dizer onde passara aquela noite, como tambm 
no conseguia lembrar-se do que fizera durante toda a vida. O seu 
pobre esprito percebia que os interrogadores estavam  espera de 
qualquer coisa e, como era uma criatura amvel, tentou satisfazer-
-lhes a vontade. Quando lhe faziam uma pergunta-armadilha, deixa-
va-se logo cair por ela abaixo e arvorava um ar feliz ao verificar que 
os inquiridores se mostravam satisfeitos. Pretendia, virilmente, con-
tentar aqueles seres superiores. No h dvida de que era um ex-
celente rapaz. S era pena que confessasse coisas de mais. Alm 
disso, tinham que estar sempre a lembrar-lhe tudo o que suposta-
mente cometera. Estava, de facto, encantado, quando se apresen-
tou perante um jri rgido e assustado. Tinha a sensao de que, 
finalmente, realizara alguma coisa neste mundo.
Houve e ainda h certos juizes cujo amor pela justia tem a 
qualidade do amor por uma mulher. Era um homem destes quem 
presidia ao jri, um homem to puro e to bom que resgatou mui-
tas iniquidades no decorrer da sua vida. A confisso do culpado 
era uma estupidez. O juiz notou que o suspeito tentava seguir uma 
directiva, mas que no conseguia de forma nenhuma recordar-se 
do que fizera, quem matara, como e porqu. O juiz suspirou triste-
mente, libertou o homem e chamou o polcia com um gesto.
- Michael - disse ele -, no tinhas o direito de fazer uma 
coisa destas. Se o rapaz fosse um bocadinho mais inteligente, 
eras capaz de o mandar para a forca.
- Mas ele confessou.
O polcia sentia-se ferido, pois era um homem consciencioso.
- At era capaz de confessar ter subido as escadas do Para-
so e cortado a garganta de S. Pedro com um taco de bilhar disse 
o juiz.- V se s mais prudente, Michael. A lei foi concebida para 
salvar e no para destruir.
Em todas estas tragdias de pequena envergadura, o tempo 
age como um pano molhado numa aguarela. Os contornos embo-
tam-se, a dor desaparece, as cores misturam-se e as linhas ou-
trora distintas passam a formar uma massa cinzenta. Ao fim de um 
ms, j no se sentia a necessidade de enforcar ningum. E, de-
corridos dois meses, admitia-se que no existiam provas reais
contra quem quer que fosse. Se no tivesse sido o assassnio de 
Cathy, chegar-se-ia a pensar que o fogo e o roubo no passavam 
duma coincidncia. E depois, as pessoas comearam a dizer que 
se, no fim de contas, no encontravam o corpo de Cathy, era por-
que talvez no tivesse morrido.
Cathy deixava atrs de si um cheiro de santidade.


CAPTULO IX

1

O Sr. Edwards dirigia o seu negcio de prostituio com ordem 
e mtodo. A mulher e os dois filhos, muito bem educados, viviam 
numa boa casa de um bom bairro de Bston. Os filhos, dois rapa-
zes, estavam inscritos nos registos da parquia de Groton.
A esposa velava pela limpeza da casa e tomava conta das 
criadas. O Sr. Edwards tinha de se ausentar muitas vezes por causa 
dos negcios, mas levava uma vida conjugal surpreendente e pas-
sava mais seres em casa do que se possa imaginar. Geria os 
negcios com a exactido de um contabilista diplomado. Era um 
homem grande e forte, com tendncia para a obesidade  medida 
que se aproximava dos cinquenta, mas com uma sade espan-
tosa numa poca em que s se engordava para mostrar que se 
vencera na vida.Fora ele quem concebera o negcio: um circuito 
atravs das pequenas cidades; a breve estadia de cada rapariga; 
a disciplina; as percentagens. No agia no ar e cometia poucos 
erros. Nunca mandava as mulheres para as grandes cidades. Sabia 
como acalmar o apetite dos polcias das vilas, mas respeitava os 
polcias das grandes cidades, mais inteligentes e mais vorazes. O 
seu campo de aco ideal era uma cidadezinha sem distraces, 
com um hotel hipotecado, onde os nicos concorrentes fossem as 
esposas legtimas e alguma forasteira ocasional. Naquela altura, 
tinha dez grupos. Quando morreu aos sessenta e sete anos, en-
gasgado com um osso de frango, tinha grupos de quatro mulhe-
res em cada uma das trinta e trs pequenas cidades da Nova 
Inglaterra. A sua situao era mais do que desafogada - era rica.
Alis, a maneira como morreu constitua, j de si, um smbolo de 
xito.
Nos tempos que vo correndo, a instituio dos bordis parece 
condenada a desaparecer. Os sbios apresentam vrias razes: 
uns dizem que  o declnio da moralidade das raparigas que lhe 
vibrou um golpe mortal; outros, mais idealistas, talvez, afirmam que 
a interveno em maior escala da polcia, conduz  runa dos prost-
bulos. Nos ltimos dias do sculo passado e nos primeiros do ac-
tual, aceitava-se a existncia dos bordis, chegando-se a discuti-
los publicamente. Dizia-se, ento, que constituam uma proteco 
para as mulheres decentes. Pelo facto de um homem ir a uma 
dessas casas evacuar uma energia sexual intempestiva, no dei-
xava de continuar a partilhar a opinio tradicional acerca do encan-
to e castidade das mulheres. Era um mistrio, mas existem muitos 
mistrios na nossa vida social.
Tais casas iam do palcio doirado, forrado de veludo,  caba-
na exalando um cheiro que teria afugentado um porco. De vez em 
quando, contavam-se histrias de raparigas raptadas e reduzidas 
 escravido pelos magnates dessa indstria e talvez essas his-
trias fossem verdadeiras. Mas a maioria das prostitutas abraa a 
carreira tanto por preguia como por estupidez. Nos bordis, no 
tinham responsabilidades. Eram alimentadas, vestidas e tratadas 
at se tornarem demasiado velhas. Nessa altura, punham-nas fora. 
To triste fim no as descorooava. A juventude no concebe a 
velhice.
De tempos a tempos, entrava para o ofcio uma rapariga inte-
ligente mas, na generalidade dos casos, passava logo a dedicar-
-se a tarefas mais importantes: abria a sua prpria casa; ou prati-
cava chantagem; ou, ento, casava com um homem rico. H um 
nome fino para as putas inteligentes: chamam-lhes cortess.
O Sr. Edwards no tinha muito trabalho com o recrutamento 
nem com a vigilncia das mulheres. Se uma rapariga no era com-
pletamente idiota, recusava-a. Tambm no aceitava raparigas
bonitas. Um jovem provinciano poderia apaixonar-se por uma bo-
nita puta, e era complicao pela certa. Se uma das mulheres
aparecia grvida, tinha direito a escolher entre o licenciamento e o
aborto. O aborto era to brutal que custava a vida a uma boa parte
das operadas. Apesar disso, escolhiam em geral o aborto.
Nem sempre as coisas corriam de feio ao Sr. Edwards. Sem-
pre tinha que resolver alguns problemas. Na poca de que lhes 
estou falando, sofrera ele alguns reveses: um descarrilamento ma-
tara-lhe dois grupos de quatro mulheres; perdeu outro grupo que se 
converteu quando um pregador de provncia se inflamou e inflamou 
toda a cidade com os seus sermes. O nmero de fiis aumentou 
de tal modo, que tiveram de abandonar a igreja e ir para os campos. 
Depois, como acontece tantas vezes, o pregador acenou-lhes com 
um argumento de peso, com o seu maior trunfo: predisse a data do 
fim do mundo e toda a provncia aos berros lhe caiu de joelhos aos 
ps. O Sr. Edwards foi  cidade, sacou o chicote das grandes oca-
sies e aoitou as mulheres, sem d nem piedade. Mas, em lugar 
de se porem a gemer, as raparigas pediram-lhe que as chicoteasse 
um pouco mais para as lavar dos seus pecados. Enojado, abando-
nou-as, levando-lhes as roupas, e voltou para Bston. As raparigas 
obtiveram um legtimo sucesso quando se encaminharam, nuas, 
para a assemblia campestre, a fim de se confessarem. Era por 
estes motivos que o Sr. Edwards se via na obrigao de recrutar um 
grande nmero de mulheres, em vez de apanhar uma aqui e outra 
acol. Precisava de reconstituir trs grupos a partir do nada.
No sei como foi que Cathy Ames ouviu falar no Sr. Edwards. 
Talvez por um cocheiro de tipia. Mas so coisas que se sabem 
quando uma mulher deseja realmente sab-las. O Sr. Edwards 
acabava de passar uma m manh, quando ela lhe entrou no es-
critrio. Supunha ele que as suas dores de estmago provinham 
da caldeirada que a mulher lhe servira no jantar da vspera. Pas-
sara a noite de p. A caldeirada abrira passagem pelas duas sa-
das disponveis, mas continuava a sentir-se fraco e enjoado.
No contratou logo aquela rapariga que dizia chamar-se 
Catherine Amesbury. Ela era bonita de mais para o trabalho a que 
se destinava. Tinha uma voz baixa e rouca. Era magra, quase 
delicada, e tinha uma pele macia. Numa palavra, no se tratava 
do gnero de rapariga para o Sr. Edwards. Se ele no se sentisse 
em estado de inferioridade, t-la-a corrido imediatamente. No a 
olhou de muito perto enquanto a interrogava, sobretudo acerca 
dos pais que podiam causar aborrecimentos, mas algo no seu 
corpo se ps a vibrar. O Sr. Edwards, no era um homem concu-
piscente. E, alm disso, nunca misturava os negcios com o pra-
zer. A reaco admirou-o. Ergueu os olhos, perplexo, e a rapariga 
semicerrou as plpebras, suavemente, misteriosamente, enquanto 
se meneava ligeiramente na cadeira. Na boca pequena, brincava 
um sorriso de gato. O Sr. Edwards debruou-se sobre a secret-
ria, respirando ruidosamente. Aquela, queria-a para si.
- No compreendo como  que uma rapariga como... - 
comeou ele.
E logo foi vtima do mais velho sentimento do mundo: a mu-
lher que se ama no pode ser seno sincera e honesta.
- O meu pai morreu - disse Catherine com ar modesto.-
Antes de morrer, deixou ir tudo por gua abaixo. No sabamos 
que tinha hipotecado a quinta. No quero que o banco se aposse 
dela. Seria a morte da minha me. (Os olhos de Catherine enche-
ram-se de lgrimas.) Pensava ganhar o bastante para pagar a 
hipoteca.
Se alguma vez na vida o Sr. Edwards teve a oportunidade de 
evitar aborrecimentos, foi precisamente naquela altura. Na reali-
dade, pareceu-lhe ouvir tocar um sinal de alarme no crebro, mas 
no fez caso. Cerca de oitenta por cento das raparigas que o pro-
curavam, precisavam de dinheiro para pagar uma hipoteca. E o 
Sr. Edwards obedecia a uma regra invarivel: nunca acreditava no 
que as raparigas lhe diziam - mesmo que fosse o que tinham 
comido ao pequeno almoo, pois at nisso eram capazes de men-
tir. E ali estava ele, o grande, o gordo, o poderoso proxeneta, de 
barriga encostada  secretria, com as faces escaldantes e arre-
pios que lhe percorriam as pernas e as coxas.
O Sr. Edwards ouviu que dizia:
- Vejamos, minha filha, vejamos. Talvez haja outra maneira 
de arranjar o dinheiro.
E isto a uma rapariga que apenas lhe viera pedir para se pros-
tituir - ou no viera?


2

A Sr.a Edwards era persistentemente, se no profundamente, 
religiosa. Passava a maior parte do tempo velando pelo bom anda-
mento da sua igreja. A f e os seus objectivos no lhe diziam res-
peito. Para ela, o Sr. Edwards trabalhava em importaes. Mesmo 
que tivesse sabido quais eram os verdadeiros negcios do marido, 
no teria acreditado. E, isto  outro mistrio. O marido fora sempre 
para ela um homem frio e correcto que raramente cumpria os seus 
deveres conjugais e, quando o fazia, era como se de dever se tra-
tasse. Ele nunca estivera apaixonado e tambm nunca fora cruel. 
Os dramas dela, as emoes, provinham dos filhos, dos vestidos e 
da comida. A vida que tinha, satisfazia-a, e sentia-se reconhecida. 
Quando o marido se transformou e se tornou nervoso, passando a 
.abandonar bruscamente a casa em meio de terrveis ataques de 
clera, ela comeou por pensar que era por causa do estmago e, 
depois, por lhe correrem mal os negcios. Quando, um dia, entrou 
por acaso na casa de banho e o encontrou sentado na retrete, 
chorando mansamente, compreendeu que era um homem doente. 
Ele tentou esconder rapidamente os olhos vermelhos. Quando a 
mulher verificou que nem os chs nem os emplastros o curavam, 
ficou desorientada.
Se, at isto acontecer, o Sr. Edwards tivesse ouvido contar a 
histria dum homem nas suas circunstncias, era natural que se 
risse. Contudo, ele, o mais frio dos patres de bordis, acabara 
por se apaixonar por Catherine Amesbury e sem qualquer espe-
rana de remisso. Comprara uma linda casinha de tijolos, onde a 
alojara. Mandara decorar o interior com um luxo inimaginvel e 
excessivo. Os tapetes eram duma espessura desmesurada e as 
paredes estavam cobertas de quadros com enormes molduras.
O Sr. Edwards nunca fora to infeliz. Aprendera tanta coisa 
acerca das mulheres que nunca acreditava em nenhuma. Mas, 
desde que amava profundamente Catherine - e, para amar,  
preciso acreditar - vivia torturado e despedaado pelo seu amor. 
Queria ter confiana e, ao mesmo tempo, duvidava. Procurava 
comprar-lhe a lealdade com presentes e dinheiro. Quando se 
encontrava longe dela, torturava-o a ideia de que ela podia rece-
ber outros homens na sua ausncia. Apavorava-o ter de sair de 
Bston para ir vigiar os grupos de mulheres, pois tinha de deixar 
Catherine sozinha. At certo ponto, comeou a descurar os neg-
cios. Era a primeira vez que amava daquele modo, o que quase o
ia matando.
O que o Sr. Edwards no sabia - nem podia saber, pois 
Catherine no se deixava interrogar - era que ela se lhe mantinha 
fiel, no sentido em que no recebia nem ia visitar outros homens.
Para Catherine, o Sr. Edwards era um negcio, do mesmo modo 
que os grupos de mulheres eram um negcio para ele. Se ele tinha 
uma tcnica, ela tambm tinha. Assim que ela o teve  sua merc 
- o que no demorou muito - arranjou as coisas de forma a pare-
cer sempre insatisfeita. Tinha sempre um ar desapontado, como se 
estivesse  beira de se ir embora. Quando sabia que ele ia v-la 
ausentava-se de propsito e chegava a casa muito atrasada arvo-
rando o ar de quem acabava de passar por uma experincia ines-
quecvel. Queixava-se da dificuldade que tinha em evitar os olhares 
e as apalpadelas dos homens na rua. Chegou, vrias vezes, assus-
tada, fugindo a um homem que a perseguia. Quando entrava em 
casa tarde e o encontrava  espera, explicava: Andei a fazer com-
pras. No tenho outro remdio. E dizia isto como se fosse uma 
mentira.
Nas relaes sexuais, dava-lhe a entender que o resultado 
no era completamente satisfatrio e que, se ele fosse mais ho-
mem, teria podido desencadear nela vagas de sensaes incr-
veis. O seu mtodo consistia em desequilibr-lo. Ficou contente 
quando viu que os nervos dele comeavam a dar de si, que lhe 
tremiam as mos, que perdia peso e que tinha um olhar feroz. Ao 
sentir a aproximao da loucura e do castigo, sentava-se-lhe nos 
joelhos, acalmava-o e obrigava-o a acreditar por momentos na 
sua inocncia. Era capaz de o conseguir.
Catherine queria dinheiro. E disps as coisas de modo a obt-
-lo to depressa e com tanta facilidade quanto possvel. Quando o 
reduziu a uma massa informe - e Catherine soube com exacti-
do quando isso se deu - comeou a roub-lo. Vasculhava-lhe 
as algibeiras e tirava-lhe todas as notas grandes. Ele no ousava 
acus-la com medo de que ela o abandonasse. As jias que lhe 
oferecia desapareciam e, mesmo que ela dissesse que as per-
dera, ele sabia que as tinha vendido. Catherine falsificava as con-
tas da mercearia e aumentava os preos dos vestidos. E ele no 
se sentia com foras para pr termo a tudo aquilo. Ela no vendeu 
a casa, mas hipotecou-a na medida do possvel.
Uma noite o Sr. Edwards verificou que a sua chave no entra-
v na fechadura. Catherine s respondeu depois de ele estar a ba-
ter por muito tempo. Sim, mudara a fechadura porque tinha perdido 
a chave. Como vivia sozinha, tinha medo. Qualquer pessoa podia 
entrar. Depois lhe daria outra chave - mas nunca lha deu. E, a 
partir desse dia, o Sr. Edwards teve de tocar para entrar; umas 
vezes, ela levava muito tempo a abrir, outras, nem sequer abria. Ele 
no tinha meio algum de saber se ela estava em casa ou no. O Sr. 
Edwards dirigiu-se a uma agncia de detectives e mandou segui-la. 
Catherne nunca soube quantas vezes o fizeram.
O Sr. Edwards era essencialmente um homem simples. Mas 
- complexidades dum homem simples podem ser obscuras e 
tortuosas. Catherine era inteligente, mas s vezes acontece que 
uma mulher inteligente no consegue descobrir alguns dos estra-
nhos subterrneos que atravessam o homem.
Ela s deu um passo em falso e, mesmo esse, tentou evitar. 
Como estava indicado, o Sr. Edwards adornara o lindo ninho com 
garrafas de champanhe. Catherine sempre se recusara a beb-lo.
- Pe-me doente. J tentei mas no consigo.
- Ento. S uma taa no te far mal.
- No, obrigada. No gosto disso,
O Sr. Edwards pensava que essa recusa era uma prova de 
delicadeza de mulher bem-educada. Nunca insistira at  noite 
em que compreendeu que no sabia nada a respeito dela. O vi-
nho pode soltar a lngua. Quanto mais pensava nisso, mais a ideia 
lhe parecia excelente.
- Devias ter a amabilidade de tomar uma taa comigo. 
- J te disse que me faz mal. 
- Disparate!
- No quero, j te disse.
- No sejas ridcula. Queres que me zangue? 
- No.
- Ento, bebe uma taa.
- No quero.
- Bebe.
Estendeu uma taa e ela recuou.
- No ests a compreender. Faz-me mal. 
- Bebe.
Ela pegou na taa, engoliu o lquido e ficou imvel, arrepiada,
como se escutasse. O sangue subiu-lhe  cara. Encheu outra taa 
e, depois, outra. O olhar tornou-se fixo e frio. O Sr. Edwards teve 
medo. Ia passar-se qualquer coisa que eles eram incapazes de 
evitar.
- No te esqueas que eu no queria - disse ela calma-
mente.
- Talvez fosse melhor parares.
Ela riu-se e encheu outra taa.
- Agora j no tem importncia - disse. - No  a quan-
tidade que conta.
- Um copito faz sempre bem - disse ele embaraado.
Ela falou-lhe suavemente:
- Meu grande imbecil - disse -, que sabes tu de mim? 
Pensas que no sou capaz de decifrar todos os terrores que an-
dam s voltas na tua cabecinha? Perguntas a ti mesmo aonde foi 
que uma pequena como eu aprendeu todos estes truques. Pois 
vou dizer-te: foi numa casa de putas, ests a ouvir? Numa casa de 
putas. Trabalhei em lugares em que tu nunca ouviste falar. Quatro 
anos. Foram uns marinheiros de volta de Port-Said que me ensi-
naram certas habilidades. Conheo os nervos da tua carcaa a 
um e um e sou capaz de fazer deles o que me apetecer.
- Catherine - protestou ele -, no sabes o que ests a 
dizer.
- J c faltava essa. Julgavas que eu ia falar, pois muito 
bem, falei.
Avanou lentamente para ele e o Sr. Edwards refreou a von-
tade de fugir. Estava com medo, mas ficou sentado. Bem na fren-
te dele, Catherine despejou a ltima gota de champanhe na taa, 
bebeu, e partiu-a delicadamente na mesa. Com o p, que lhe ficou 
nas mos, rasgou-lhe a cara.
Foi ento que ele fugiu da casa e ouviu atrs de si o riso de 
Catherine.


3

O amor, para um homem como o Sr. Edwards,  um senti-
mento destruidor. Arruinou-lhe o esprito, o discernimento e a for-
a. Concluiu que ela era histrica e tentou acredit-lo. A sua tarefa
foi facilitada pelo comportamento de Catherine, pois ficara aterrada
com a cena que fizera e, durante algum tempo, moveu todos os
esforos para recriar a doce imagem que a princpio oferecera.
Um homem to dolorosamente apaixonado pode conseguir
torturar-se a si prprio muito mais do que se possa imaginar.
O Sr. Edwards queria acreditar de todo o corao na bondade
de Catherine, mas era obrigado a renunciar a tal, tanto por causa
do seu demnio interior, como pelo que ela deixara entrever. Quase
instintivamente, ps-se a procurar a verdade a respeito dela e, ao
mesmo tempo, no queria acreditar na verdade. Sabia, por exem-
plo, que ela no depositava dinheiro no banco. Um dos seus empre-
gados, com o auxlio dum complicado jogo de espelhos, descobriu 
o esconderijo na cave da casinha de tijolos.
Um dia, a agncia de investigaes enviou-lhe um recorte de 
jornal. Era a notcia dum incndio que irrompera numa cidadezinha 
de provncia. O Sr. Edwards analisou-a. Pareceu-lhe que o peito e 
o estmago se enchiam de chumbo derretido e que um vu ver-
melho lhe passava diante dos olhos. Ao seu amor juntou-se um 
medo autntico: a mistura destes dois elementos produz um pre-
cipitado: a crueldade. Sentindo-se mal, cambaleou at ao div do 
escritrio e estendeu-se de barriga para baixo, encostando a testa 
ao coiro fresco. Durante um instante, ficou imvel, quase sem res-
pirar. Depois, gradualmente, fez-se luz. Tinha um gosto de sal na 
boca e sentia uma grande dor de fria nos ombros. Mas estava 
calmo e a mente ia percorrendo todos os recantos das suas inten-
es como o estreito fanal duma lanterna vai iluminando todas as 
partes duma casa s escuras. Entrou lentamente em aco e fez 
a mala como costumava fazer sempre que partia em viagem de 
inspeco: camisas lavadas e roupa de baixo, camisa de noite e 
pegas, e o pesado chicote enrolado no fundo da mala.
Com um andar pesado, atravessou o jardinzinho defronte da 
casa de tijolos e tocou  porta.
Catherine respondeu imediatamente. Estava de casaco e de 
chapu.
- Oh! que pena! - disse ela.- Ia sair. 
O Sr. Edwards largou a mala.
- No - disse ele.
Ela observou-o. Tinha qualquer coisa de mudado. Empurrou-a 
e encaminhou-se para a cave.
- Aonde vais?
A voz dela era aguda. Ele no respondeu. Pouco depois, vol-
tou a aparecer com uma caixinha de carvalho que meteu na mala.
- Isso  meu - disse ela de mansinho.
- Eu sei.
- Que tens tu na ideia?
- Pensei que poderamos ir fazer uma viagenzinha.
- Onde? Eu no posso ir.
- A uma cidade do Connecticut. Tenho de l ir arrumar um 
negcio. Disseste-me que querias trabalhar. Pois vais trabalhar.
- No quero. Tu no podes obrigar-me. Vou chamar a pol-
cia.
Perante o sorriso dele, Catherine recuou. O sangue latejava 
nas fontes do Sr. Edwards.
- Talvez queiras regressar  cidade onde nasceste? Houve 
l um incndio, h alguns anos. Recordas-te desse incndio?
Ela perscrutou-lhe o rosto, procurando um ponto fraco. Mas 
os olhos dele nada exprimiam.
- Que queres tu que eu faa? - perguntou ela lentamente.
- Vem comigo. Tu disseste que querias trabalhar.
Ela no conseguia imaginar um plano de evaso. Tinha de o 
seguir e aguardar uma oportunidade. No estaria sempre vigiada. 
Talvez fosse perigoso tentar escapar-lhe agora. Era melhor ir com 
ele. Sempre pegava. Sempre tinha pegado. Mas Catherine torna-
va a pensar na frase que ele pronunciara e tinha medo.
Chegaram ao crepsculo. Subiram a escura rua nica da cida-
dezinha e encontraram-se no campo. Catherine estava desconfi-
ada. No sabia o que ia fazer. No saco, levava uma faca de lmina 
afiada.
O Sr. Edwards julgava saber o que ia fazer. Ia zurzi-la, met-
-la num dos quartos da estalagem, aoit-la de novo, conduzi-la 
para outra cidade, e assim de seguida at que j no prestasse 
para nada. Ento, desembaraar-se-ia dela. A polcia local logo 
tomaria conta dela. E no tinha medo da faca. J sabia.
A primeira coisa que fez quando se detiveram num stio sos-
segado, entre um muro de pedra e uma ala de cedros, foi arran-
car-lhe o saco e atir-lo por cima da parede. Isto quanto  faca. 
Mas j no tinha a mesma confiana em si mesmo, pois durante 
toda a sua vida nunca estivera apaixonado. Pensava que tinha 
apenas a inteno de a castigar. Aps as duas primeiras chico-
tadas, verificou que o chicote no era suficiente. Atirou-o para o 
cho e serviu-se dos punhos, respirando ruidosamente.
Catherine no queria obedecer ao pnico. Procurou evitar os 
punhos ou, pelo menos, amortecer as pancadas. Mas o medo 
apoderou-se dela e tentou fugir. Ele agarrou-a de um salto, atirou-a 
ao cho e os punhos j no lhe chegavam. Apanhou uma pedra e 
deixou-se submergir por uma grande vaga vermelha.
Mais tarde, contemplou o rosto desfeito. Escutou o corao e 
no ouviu nada alm das pancadas do seu. Dois pensamentos 
completos e separados lhe assaltaram o crebro; um era: Tenho 
de a enterrar, tenho de fazer um buraco e met-la l dentro; o 
outro gritava como um pensamento de criana: No posso. No 
posso tocar nela. Depois, o mal-estar que se segue  loucura 
desceu sobre ele. Fugiu a correr, deixando atrs de si a mala, o 
chicote e a caixa. Partiu cambaleando no crepsculo, perguntan-
do a si mesmo onde poderia esconder a sua infelicidade durante 
uns momentos.
Nunca lhe fizeram nenhuma pergunta. Aps uma doena, que 
a mulher curou com ternos cuidados, regressou aos negcios e 
nunca mais se deixou aproximar pela loucura do amor. Um ho-
mem que no aprende nada com a experincia.  um imbecil,dizia 
ele. A partir desta altura, teve por si mesmo uma espcie de res-
peito feito de medo, pois aprendera que tinha em si o desejo de 
matar.
Se no matara Catherine, fora por acaso. Todas as pancadas 
tinham essa finalidade. Ela ficou muito tempo inconsciente e mais 
tempo, ainda, semiconsciente. Sentiu que tinha o brao partido e 
que precisava de auxlio se no quisesse morrer. Foi a sua vonta-
de de viver que lhe deu foras para se arrastar pela estrada som-
bria. Parou diante dum portal e subiu todos os degraus antes de 
desmaiar. Os galos cantavam nas cercas e a Leste um trao cin-
zento anunciava a madrugada.



CAPTULO X

1

Quando dois homens vivem juntos, geralmente mantm uma 
espcie de tensa polidez resultante duma raiva incipiente e m-
tua. Dois homens ss esto sempre  beira da luta e sabem-no 
muito bem. Adam Trask ainda no se encontrava h muito tempo 
em casa quando a situao comeou a tornar-se tensa. Os dois 
irmos viam-se demasiado e davam-se com pouca gente de fora.
Durante alguns meses entretiveram-se a recuperar o dinheiro 
de Cyrus e a p-lo a render. Foram de viagem at Washington 
para deitarem uma vista de olhos ao tmulo, uma bela pedra enci-
mada por uma estrela de bronze munida de um buraco para intro-
duzir o pau de uma bandeirinha nos dias de festa. Os dois irmos 
recolheram-se demoradamente sobre a campa e depois foram-se 
embora sem tornar a falar no pai.
Se Cyrus fora desonesto, soubera fazer bem as coisas. Nin-
gum fez perguntas acerca do dinheiro. Mas Charles continuava 
a no pensar noutra coisa.
De regresso ao rancho, Adam perguntou-lhe:
- Porque no compras fatos novos? s rico e ages como se 
tivesses receio de gastar um tosto.
-  assim mesmo - disse Charles.
- Porqu?
- Talvez tenha de o devolver.
- Continuas a pensar nisso? Se tivesse de se passar algu-
ma coisa, no achas que j nos teria chegado aos ouvidos?
- No sei - disse Charles. - Prefiro no tocar no assunto.
Mas nessa mesma noite, voltou a falar no assunto.
- H uma coisa que me preocupa - comeou. 
- Por causa do dinheiro?
- Sim. Quando se ganha tanto dinheiro, deixam-se ficar ves-
tgios.
- Que queres tu dizer?
- Ora, o que h-de ser? papis, contas, recibos, apontamen-
tos, nmeros. Vimos todos os papis do pai e no encontrmos 
nada disso.
- Talvez os tivesse queimado.
- Quem sabe?- disse Charles.
Os dois irmos respeitavam um horrio estabelecido por Char-
les e que nunca variava. Charles acordava s quatro e meia em 
ponto, como se o pndulo do relgio lhe tivesse feito sinal. Na 
realidade, despertava uma fraco de segundo antes das quatro 
e meia; j tinha os olhos abertos antes de soar a meia hora. Fica-
va um instante imvel, sondando a escurido e coando a barriga. 
Depois, estendia a mo para a mesa de cabeceira e, com um 
gesto preciso, apanhava a caixa de fsforos. Riscava um e deixa-
va arder a chama azul at pegar bem. S ento acendia a vela. 
Afastava o cobertor e levantava-se. Usava ceroulas que faziam 
boas nos joelhos e chegavam at aos calcanhares. Bocejando, 
arrastava-se at  porta, abria-a e gritava:
- Adam, so quatro e meia. Toca a levantar!
A voz de Adam resmungava:
- Sempre s muito teimoso!
- So horas de te levantares.
Adam enfiava as calas e apertava-as na cintura.
- No precisas de te levantar, s rico. Podes ficar todo o dia 
na cama.
- E tu? Todos os dias nos obrigas a levantar antes de nascer
o sol.
- No tens necessidade de te levantar - repetia Charles.-
Mas se queres tornar-te lavrador, tem de ser assim.
E Adam acrescentava, aborrecido:
- Pois . E quanto mais terras comprarmos, mais trabalho 
teremos.
- No faas caso - redarguiu Charles.- Se  isso que te 
apetece, torna a meter-te na cama.
E Adam respondia:
-Tenho a certeza de que no conseguias dormir se ficasses 
na cama. E sabes de que mais tenho a certeza? De que te levan-
tas porque tens vergonha e depois convences-te de que tens von-
tade.
Charles encaminhava-se para a cozinha e acendia o cande-
eiro.
- No se fica na cama quando se  lavrador.
Mexia o carvo, rasgava um pedao de papel, punha-o em cima 
das brasas e soprava at haver chama.
Adam observava-o da porta.
- At poupas os fsforos.
- No te metas onde no s chamado. E no me chateies. 
Adam.- Est bem. Chego a desconfiar de que estou a mais.
- Podes desconfiar  vontade. Se queres ir embora, vai.
Este gnero de discusso era idiota, mas Adam nada podia 
fazer para a evitar. Um dia, apesar dos seus esforos, no se 
conteve e gritou palavras injuriosas:
- Vou-me embora, vou, mas s quando me apetecer. Esta 
casa  tanto tua como minha.
- Ento porque no queres trabalhar?
- Valha-me Deus! No vale a pena discutir e perder a calma.
- No sou eu quem anda a provocar - disse Charles.
Encheu duas tigelas com caf morno e p-las em cima da 
mesa.
Os dois irmos sentaram-se. Charles barrou uma fatia de po 
com manteiga, depois, com a ponta da faca, tirou doce que esten-
deu no po. Quando tornou a servir-se de manteiga, sujou-a de
doce.
- Mas que raio! No podias limpar a faca? Olha para a man-
teiga!
Charles deixou cair a faca e o po em cima da mesa e pou-
sou as mos, uma de cada lado da tigela.
- Era melhor que te fosses embora.
Adam ergueu-se.
- Preferia viver numa pocilga - disse ele.
E saiu de casa.
Passaram-se oito meses antes que Charles tornasse a ver o
irmo. Voltava do trabalho no campo quando encontrou Adam en-
tretido a borrifar a cara e o cabelo no lavadouro da cozinha. 
- Viva! - disse Charles. - Como tens passado? 
- Vai-se andando - respondeu Adam. 
- Onde estiveste?
- Em Bston.
- S?
- Pois. Andei a ver a cidade.
Os dois irmos recomearam a vida em comum, mas ambos 
tomaram precaues para no se zangarem. Num certo sentido, 
cada um deles protegia o outro, salvando-se assim a si prprio. 
Charles, o primeiro a levantar-se, preparava o pequeno almoo 
antes de acordar Adam. Adam limpava a casa e fazia as contas. 
Viveram assim dois anos at que a clera venceu de novo.
Numa noite de Inverno, Adam, que fazia contas, ergueu a 
cabea.
- A Califrnia  estupenda. No Inverno faz bom tempo. No
h nada que se semeie que no cresa.
- E depois de crescer, o que  que se lhe faz? 
- E o trigo? Cultivam muito trigo na Califrnia. 
- A ferrugem d cabo de tudo.
- Porque  que dizes isso? Ouve, Charles, na Califrnia as 
coisas crescem to depressa que, quando se plantam, tem de se 
recuar logo a correr se no se quer levar uma pancada nos quei-
xos.
- Porque no vais para l, ento? Quando quiseres, com-
pro-te a tua parte.
Adam manteve-se calmo. Mas no dia seguinte de manh, en-
quanto se penteava diante do espelhinho, voltou  vaca-fria: 
- No h Inverno na Califrnia. H Primavera todo o ano. 
- Eu gosto do Inverno - disse Charles. 
Adam dirigiu-se para o fogo.
- No te irrites.
- Ento no te metas comigo. Quantos ovos queres? 
- Quatro - disse Adam.
Charles pegou em sete ovos e p-los em cima da mesa. De-
pois acendeu o lume com gravetos e, assim que a chama ficou 
suficientemente forte, cobriu-a com a frigideira. Sempre que cozi-
nhava, perdia o ar pachorrento.
- No sei se j notaste, mas sempre que abres a boca  para 
falar na Califrnia. Desejas, de facto, ir para l?
Adam soltou um risinho.
- Isso gostava eu de saber. Mas no sei.  como quando 
acordo de manh. No consigo levantar-me apesar de no ter 
vontade de ficar na cama.
- As ondas que tu fazes por uma coisa que no vale nada! 
- disse Charles.
Adam prosseguiu:
- J no quartel era a mesma coisa: no havia manh em que 
o raio do clarim no tocasse. E eu jurava por todos os santos que, 
quando sasse da tropa, havia de dormir todos os dias at ao meio-
-dia. E aqui at me levanto meia hora antes do toque de alvorada. 
Charles, no sers capaz de me dizer porque  que ns traba-
lhamos?
- Quando se  lavrador, no se pode ficar na cama.
Charles mexeu o toucinho com um garfo.
- V se encaras as coisas - continuou Adam com fervor. - 
No temos filhos e mulher ainda menos. E, por este andar, nunca 
mais teremos. No temos tempo para procurar mulher, mas te-
mos tempo para pensar em comprar a quinta dos Clark se o preo 
nos convier.
-  uma bela terra - retorquiu Charles. - A nossa e a deles 
reunidas dariam um dos melhores ranchos da regio. Ouve l, 
tens inteno de casar?
- No tenho. E  por isso mesmo que te estou a falar. J no 
faltam muitos anos para que a gente fique com o melhor rancho 
da regio. Mas no passaremos de dois velhos imbecis que do 
cabo dos costados para valorizar a melhor propriedade das re-
dondezas. E depois h-de morrer um de ns, e o melhor rancho 
da regio ficar a pertencer a um s velho imbecil. E depois, mor-
re este...
- Porque falas nisso? - perguntou Charles. - Nunca te-
mos sossego. Vai chatear outro. Diz l o que te anda a remoer?
- Aborreo-me. Ou, pelo menos, no me divirto. O trabalho 
que tenho no est em relao com o que consigo obter. Eu, que 
no tenho necessidade de trabalhar!
- Porque no largas tudo da mo? - berrou Charles. - Por-
que no te vais embora? Ningum te prendeu. Vai para os Mares do 
Sul deitar-te numa rede, se  isso que queres.
- No leves as coisas para esse lado.  como de manh. 
No quero levantar-me e no quero ficar deitado. Eu no quero 
ficar aqui e tambm no me quero ir embora.
- Ds comigo em doido - disse Charles.
- Pensa bem. Tu gostas de estar aqui?
- Gosto.
- E tencionas viver aqui toda a vida?
- Tenciono.
- Oh, meu Deus! Quem me dera que as coisas comigo se 
passassem com a mesma facilidade. Que julgas tu que eu tenho?
- Ests com febre! Vai esta noite  estalagem, que te pes 
logo bom.
- Pode ser. Mas uma puta no me diz nada.
- Tanto faz - disse Charles.- Se fechares os olhos, no 
notas a diferena.
- Alguns camaradas do regimento tinham uma squaw. Eu 
tambm tive uma.
Charles, interessado, aproximou-se.
- O pai havia de dar uma volta na tumba se soubesse que tu 
Dormiste com uma ndia. Como foi?
- Bem bom. Lavava-me e passajava-me a roupa e cozinha-
ra um pouco.
- Referia-me ao resto. Como era?
- Era bom. Sim, era bom. No gnero meigo e delicado. Ter-
no e delicado.
- Tiveste muita sorte em ela no te ter espetado uma faca 
nas costas enquanto dormias.
- Agora! Era to meiga!
- Ests com um olhar muito esquisito. A tal squaw parece 
que te agradava?
- Ai no! - respondeu Adam.
- Que lhe aconteceu?
- Varola.
- E no arranjaste outra?
O olhar de Adam era doloroso.
- Puseram-nos em monte como achas, mais de duzentos, 
com os braos e as pernas muito esticados. Depois cobriram tudo 
com mato e com petrleo.
- Ouvi dizer que eles no resistiam  varola.
- Mata-os - disse Adam. - O teu toucinho est a esturrar. 
Charles voltou-se rapidamente para a frigideira. 
- Est como eu gosto: torriscado.
Disps o toucinho num prato e partiu os ovos na gordura quen-
te que espirrou. As claras escureceram nos bordos e puseram-se a 
crepitar.
- Havia tambm uma professora primria - disse Charles. 
- Tu nunca viste nada to bonito. Tinha uns ps muito pequeni-
nos e vestia-se em Nova York. Os cabelos eram loiros. Tu nunca 
viste uns ps to pequenos. E tambm sabia cantar. No coro. Toda 
a gente passou a ir  igreja, e era cada aperto que tu nem queiras 
saber. J l vai bastante tempo.
- Foi nessa altura que tu me escreveste que te querias ca-
sar?
Charles forou um sorriso:
- Evidentemente. Nessa altura, no houve nenhum tipo a 
quem no desse a febre de casar.
- Que foi feito dela?
- Sabes o que so as coisas. A presena dela no agradava 
s outras mulheres. Fizeram uma reunio e, em menos de dois 
tempos, puseram-na a andar. Disseram-me que usava combina-
es de seda. Dava demasiado nas vistas. O conselho disciplinar 
p-la na rua mesmo no meio dum trimestre. Uns ps que no 
eram maiores do que isto. E mostrava os tornozelos como se fos-
se por distraco. Estava sempre a mostrar os tornozelos.
- Chegaste a dar-te com ela?- perguntou Adam.
- No. Ia v-la  igreja. No imaginas como custava a entrar. 
Uma rapariga daquelas est a mais numa cidade pequena. Deixa 
as pessoas embaraadas e s causa sarilhos.
- Recordas-te da filha dos Samuels? - perguntou Adam. 
Era bonita a valer. Que foi feito dela?
- O mesmo. S arranjava sarilhos. Foi-se embora. Disseram-
-me que estava em Filadlfia e que era costureira. Contaram-me 
que chegava a pedir dez dlares por cada vestido.
-Talvez tambm fosse melhor a gente ir-se embora daqui - 
disse Adam.
- Continuas a pensar na Califrnia?
- Parece que sim.
Charles estoirou:
- Tu vais j desaparecer daqui! - gritou ele. - Vais pr-te a 
mexer! Compro-te a tua parte, ou vendo a minha, ou fao o que 
quiseres, mas desaparece, filho duma grand... (Deteve-se.) Eu 
no queria dizer isto, mas tu pes-me fora de mim.
- Deixa, que eu vou-me embora.


3

Trs meses depois, Charles recebeu um bilhete-postal colo-
rido representando a baa do Guanabara. Nas costas, Adam escre-
vera com um aparo de m qualidade: Aqui  Vero. Em casa  
Inverno. Porque no vens at c?
Passados seis meses, chegou outro postal, datado de Buenos 
Aires: Meu caro Charles, no imaginas como isto  grande. Fa-
lam francs e espanhol. Mandei-te um livro.
Mas no recebeu nenhum livro. Charles esperou-o durante 
todo o Inverno seguinte e uma boa parte da Primavera. E, em vez 
do livro, foi Adam quem chegou. Estava queimado e os fatos ti-
nham um corte estrangeiro.
- Como vai isso?- perguntou Charles. 
- Vai-se escapando. Recebeste o livro? 
- No.
- Gostava de saber o que lhe aconteceu. Tinha ilustraes. 
- Vens para ficar?
- Acho que sim. Depois te conto como  aquilo por l. 
- No estou interessado - disse Charles. 
- Caramba, s muito mesquinho.
- Estou a ver tudo a voltar  mesma. Deixas-te ficar um ano 
ou dois e, depois, comeas a ficar nervoso e a pr-me nervoso. 
Voltaremos a detestar-nos e a tratar-nos com deferncias idiotas 
- e no h nada pior. E, depois, um dia, explodimos, tu vais-te
embora mais uma vez, depois voltas e a dana continua. 
Adam interrompeu:
- Tu no queres que eu fique?
- Claro que quero. Fazes-me falta quando c no ests. Mas, 
seja como for, j sei como as coisas se passaro.
E tudo se passou como fora previsto. Durante algum tempo, 
falaram das velhas recordaes, lembraram as pocas em que 
tinham vivido separados e, depois, voltaram a cair nos longos siln-
cios odiosos, nas horas de trabalho sem uma palavra, na cortesia 
agressiva, nos ataques de raiva. O tempo no tinha fronteiras e, 
portanto, parecia-lhes que nunca mais passava.
Uma noite, Adam disse:
- Estou quase com trinta e sete anos.  metade duma vida.
- Pronto - acrescentou Charles.- S falta dizeres-me que 
estragaste a tua vida. Ouve, Adam, e se ns evitssemos zangar-
-nos desta vez?
- Que queres dizer?
- Se cada um mantm a sua posio, vamos discutir duran-
te trs ou quatro semanas para preparar a tua partida. Se te ape-
tece viajar, no poderias ir-te embora e evitar os aborrecimentos 
do costume?
Adam desatou a rir e a tenso diminuiu.
- Tenho um irmo que no  nada parvo. Muito bem. Quan-
do comear a sentir ccegas nos ps, vou-me embora sem procu-
rar um pretexto. Acho prefervel assim. Tu ests a ficar rico, no  
verdade, Charles?
- C me vou defendendo. Mas no sou rico.
- No s rico ao ponto de teres comprado quatro casas e a 
estalagem da aldeia?
- At esse ponto, no sou.
- No entanto,  a verdade. Charles, tu tens o melhor rancho 
das redondezas. Porque no havemos de construir uma nova casa? 
Com banheira, gua corrente, sanitas e tudo. Ns j no somos 
pobres. Diz-se que tu s o homem mais rico da regio.
- No precisamos doutra casa - resmungou Charles.- Pe 
de parte as tuas ideias de luxo.
- Seria agradvel poder ir  retrete sem ter de sair de casa. 
- No insistas, j te disse.
Adam prosseguiu:
- Talvez eu mande construir uma casinha para mim do outro 
lado da mata. Que te parece? Assim j no nos enervvamos um 
com o outro.
- No quero outra casa aqui.
A metade pertence-me.
- Compro a tua parte.
- No sou obrigado a vender.
Os olhos de Charles fuzilaram.
- Queimo-te a tua casa,
- Capaz disso eras tu - disse Adam, caindo em si. Isso  
que eras. Porque ests tu a olhar-me desse modo? 
Charles disse lentamente:
- Tenho pensado muito no caso e esperava que voltasses a 
tocar nele. Mas vejo que escuso de contar com isso. 
- Com o qu?
- Recordas-te do telegrama em que me pedias cem dla-
res?
- No me havia de recordar? Salvaste-me a vida. Porqu? 
- Nunca me devolveste esse dinheiro.
- Estava convencido que sim.
- Podes crer-me.
Adam olhou para a velha mesa onde Cyrus se sentara, ba-
tendo na perna de pau com a bengala. Pendia do tecto o mesmo 
candeeiro de petrleo, derramando uma luz amarela e tremelicante.
Adam disse lentamente:
- Amanh dou-te o dinheiro.
- Tiveste todo o tempo que quiseste para pagar. 
- Bem sei, Charles. Devia ter-me lembrado. 
Deteve-se, pensativo, e acabou por dizer: 
- Sabes porque precisava desse dinheiro? 
- Nunca te perguntei.
- E eu nunca to disse. Talvez tivesse vergonha.  que eu 
estava preso e evadi-me.
Charles abriu a boca.
- Que ests tu a dizer?
- Vou-te contar. Eu andava por a e fui caado por vadia-
gem. Condenaram-me a seis meses de trabalhos forados numa
estrada e,  noite, dormia com grilhetas nos ps. Depois de ter 
cumprido seis meses, fui novamente apanhado.  assim que se 
constroem as estradas. Trs dias antes do fim do segundo pero-
do de seis meses, escapei-me. Cavei para a Gergia, roubei rou-
pa numa loja e mandei-te o telegrama.
- No acredito no que ests a dizer - disse Charles.- Ou 
por outra, acredito. Tu nunca mentes. Acredito, sim. Porque no 
me disseste logo?
- Talvez tivesse vergonha. Mas ainda tenho mais vergonha de 
no te ter pago.
- No penses mais nisso - disse Charles.- Nem sei por-
que te toquei no assunto.
- Ah! isso no. Pago-te amanh de manh.
- Raios me partam! - disse Charles. - Um irmo na gaio-
la!
- No vale a pena estares com um ar to satisfeito.
- No sei porqu - disse Charles -, mas at me sinto 
orgulhoso. O meu irmo na cadeia! Diz-me uma coisa, Adam, por-
que esperaste at faltarem trs dias para te soltarem, para dares 
o salto?
Adam sorriu.
- Tinha dois ou trs motivos. Receava que, cumprindo toda 
a pena, me voltassem a prender. E imaginava que, se esperasse 
o mais possvel, no despertaria desconfiana.
-  sensato. Mas no disseste que tinhas outra razo?
-Tinha, e era a mais importante. E a mais difcil de explicar. 
Tinha uma dvida de seis meses. Era a sentena. No queria fazer 
batota. Assim, s lhes roubei trs dias.
Charles desatou a rir.
- s mesmo de todo - disse ele com afeio. - Mas aca-
baste de me dizer que assaltaste uma loja.
- Mandei-lhes o dinheiro com dez por cento de juros. 
Charles inclinou-se para a frente. Fala-me das estradas, Adam.
- Est bem, Charles, est bem.


CAPTULO XI

1

Desde que soube que o irmo estivera preso, Charles mos-
trou-lhe uma espcie de deferncia. Nutria pelo irmo o sentimen-
to caloroso que s se tem por um ser imperfeito; o dio perde a 
razo de ser. Adam aproveitou-se das circunstncias e tentou se-
duzir Charles.
- J pensaste que temos dinheiro que chegue para fazer-
mos tudo o que nos apetecer?
- E o que  que nos apetece?
- Podamos ir  Europa, visitar Paris.
- O que  isto?
- O qu?
- Pareceu-me ouvir algum l fora.
- Deve ser um gato.
- Pois deve. Temos que matar alguns.
- Podamos ir ao Egipto, ver a Esfinge.
-Tambm podamos ficar aqui e gastar o dinheiro como deve 
ser. E podamos, principalmente, agarrar-nos ao trabalho e tratar 
de no perder o dia. Ah! raios partam os gatos!
Charles correu para a porta, escancarou-a e berrou: 
- Desapaream-me da vista!
Depois, ficou silencioso e Adam notou que ele observava qual-
quer coisa na escada. Aproximou-se.
Uma trouxa suja de farrapos e de lama tentava escalar os 
degraus. Uma mo magra agarrava-se a eles enquanto a outra 
pendia tristemente. A forma tinha um rosto tumefacto onde bri-
lhava um olhar atravs das plpebras inchadas e negras. Os l-
bios estavam gretados, a testa rachada; dos cabelos colados escor-
ria sangue.
Adam desceu a escada e ajoelhou ao lado do corpo.
- Ajuda-me - disse. - Vamos lev-la para dentro. Cautela 
com o brao dela. Parece estar partido.
Ela desmaiou assim que lhe pegaram.
- Vamos met-la na minha cama - disse Adam.- Era bom 
que fosses buscar o mdico.
- No achas que seria melhor lev-la a casa dele? 
- Lev-la? Ests doido.
- No estou tanto como tu. Pensa bem. 
- Pensar bem, em qu?
- Dois homens ss com isto em casa!
Adam estava escandalizado.
- No pensas no que ests a dizer?
- Por isso mesmo. Era melhor lev-la daqui. Em menos de 
duas horas, toda a gente fica a saber. Quem  ela? Como veio c 
parar? Que lhe aconteceu? Adam, olha que  um grande risco.
Adam respondeu friamente:
- Se no fores j chamar o mdico, vou eu e deixo-te s 
com ela.
- Acho que cometes um erro. Eu vou, mas havemos de o 
pagar caro.
- Pois paga-se - disse Adam.- Vai.
Depois de Charles se ter ido embora, Adam foi  cozinha e 
encheu uma bacia de gua quente. Depois, regressou ao quarto, 
pegou num leno, molhou-o na gua e limpou a crosta de sangue 
e de lama que maculava a cara da mulher. Ela recuperou os sen-
tidos e contemplou-o com os olhos azuis. De repente, Adam re-
cordou-se - era aquele quarto, aquela cama. A madrasta estava 
ao p dele, com uma toalha hmida na mo, e a gua ao penetrar 
nas chagas despertava um formigueiro. Ento ela repetira vrias 
vezes a mesma coisa. Ele ouviu mas no conseguiu recordar-se 
do sentido das palavras.
- Vai ficar boa - disse ele  rapariga. - Estamos  espera 
do mdico.
Ela remexeu os lbios.
- No tente falar. No diga nada.
Enquanto continuava a limpar suavemente as feridas, sentia-
-se invadido por um enorme calor.
- Pode ficar aqui o tempo que quiser. Eu trato de si.
Torceu o leno, humedeceu o coiro cabeludo e descolou os 
cabelos pegados s feridas.
Como se fosse um espectador estranho, Adam ia ouvindo o 
que dizia enquanto trabalhava:
- Aqui, faz doer muito? Pobres olhos! Depois tapam-se com 
papel pardo para a luz no magoar. No h-de ter importncia. O 
golpe na testa  profundo e  capaz de deixar cicatriz. Pode dizer-
-me o seu nome? No, no  preciso. Temos muito tempo, muits-
simo tempo. Est a ouvir?  o carro do mdico. Veio depressa 
no veio? (Adam dirigiu-se para a porta da cozinha).
- Aqui, doutor, ela est aqui.




2

Ela ficara muito maltratada. Se j existisse a radiografia, o 
mdico teria certamente descoberto uma coisa muito diferente, 
mas o que encontrou foi suficiente. Tinha o brao esquerdo, trs 
costelas, o maxilar e o crnio fracturados. Trs dentes do maxilar 
inferior esquerdo estavam partidos. O coiro cabeludo fora rasga-
do e a pele da testa estava cortada at ao osso. Era tudo o que o 
mdico podia descobrir. Ps-lhe talas nos braos, ligou-lhe o t-
rax e suturou o ferimento da testa. Dobrou uma pipeta na chama 
duma lmpada de lcool e introduziu-a na boca, no stio onde fal-
tavam os dentes para que a doente pudesse beber e absorver 
alimentos lquidos sem mover a maxila fracturada. Aplicou-lhe uma 
boa dose de morfina, colocou um frasco de plulas de pio em 
cima da mesa de cabeceira, lavou as mos e vestiu o casaco. A 
paciente j dormia.
Na cozinha, sentou-se  mesa e bebeu o caf quente que 
Charles lhe oferecia.
- O que foi que aconteceu? - perguntou. 
Charles respondeu com brutalidade:
- Como quer que a gente saiba? Encontrmo-la  nossa por-
ta. Se quiser ver, v deitar uma vista de olhos ao rasto que ela 
deixou quando se arrastava para aqui.
- Sabem quem?
- No.- Voc, que costuma ir  estalagem, sabe se ela faz 
parte daquelas mulheres?
- H bastante tempo j que l no vou. Seja como for, no 
estado em que se encontra...
O mdico virou-se para Adam.
- J a tinha visto?
Adam abanou lentamente a cabea. Charles perguntou com 
secura:
- Aonde quer chegar?
- Vou dizer-lhes, j que lhes interessa. Esta mulher no caiu 
numa debulhadora, apesar de ser o que parece. Isto  obra dum 
homem que no gostava dela. Se querem que seja franco, al-
gum tentou mat-la.
- Interrogue-a - disse Charles.
- No poder falar seno daqui a muito tempo. E depois s 
Deus sabe se conseguir lembrar-se dalguma coisa com aquela 
fractura do crnio. Eis onde eu queria chegar: acham que devo 
prevenir o xerife?
- No.
A resposta de Adam foi to brutal que os dois homens se 
voltaram para ele.
- Deixe-a em paz. Deixe-a descansar. 
- Quem tomar conta dela?
- Eu - disse Adam.
- Ouve... - comeou Charles.
- No te metas nisto.
- Estou tanto em minha casa como tu. 
- Queres que me v embora?
- No queria dizer isso.
- Se ela se for embora, eu vou com ela.
- Acalmem-se - disse o mdico. - No vale a pena po-
rem-se nesse estado.
- Nem que fosse um co ferido eu o punha na rua.
- Nem se punha nesse estado. Est a tentar esconder algu-
ma coisa? Saiu ontem  noite? Foi voc quem fez aquilo?
- Ele passou a noite aqui - disse Charles. - Ressona como 
uma locomotiva.
- Porque no a deixam em paz?- disse Adam. - Deixem-
-na pr-se boa.
O mdico ergueu-se e esfregou as mos.
- Adam - disse - o seu pai era um dos meus melhores 
amigos. Conheo-o a si e  sua famlia. Voc no  parvo mas 
parece no compreender certas coisas. Tem de se lhe falar como 
a uma criana. Esta rapariga foi violentada e o culpado tentou mat-
-la. Se no disser nada ao xerife, infrinjo a lei. Admito j ter contor-
nado a lei vrias vezes, mas desta vez quero conformar-me com 
ela.
- Ento, v preveni-lo. Mas ele que no a venha maar at 
ela se pr boa.
- No tenho o hbito de deixar maltratar os meus clientes - 
respondeu o mdico. - Est resolvido a ficar com ela aqui? 
- Estou.
- Como quiser. Volto amanh. Ela vai dormir. D-lhe gua e 
caldo quente pelo tubo, se ela pedir.
O mdico saiu. Charles voltou-se para o irmo. 
- Por amor de Deus, Adam, que foi que te deu? 
- Deixa-me sossegado.
- Que tens tu?
- Deixa-me sossegado, ests a ouvir? Estou a pedir-te para 
me deixares sossegado.
- Valha-me Deus! - exclamou Charles.
E cuspiu no cho. Depois dirigiu-se para o trabalho, inquieto e 
contrariado.
Adam estava satisfeito por ele se ter ido embora. Andou s 
voltas pela cozinha, lavando a loia e varrendo o cho. Quando 
ficou tudo arrumado, foi at ao quarto e puxou uma cadeira para o 
p da cama. A rapariga ressonava ruidosamente, sob a influncia 
da morfina. O inchao do rosto diminuira, mas os olhos continua-
vam tumefactos e cercados de negro. Adam sentou-se junto dela, 
imvel, e contemplou-a. O brao partido estava dobrado em cima 
do estmago, mas o brao direito repousava na colcha, com os 
dedos levemente encolhidos. Era uma mo de criana, quase de 
beb. Adam tocou no pulso febril e os dedos estremeceram. En-
to, com mil cuidados, como se tivesse medo de ser surpreendido, 
tocou na ponta dos dedos. Eram rosadas e macias, mas as costas 
da mo tinham transparncias de ncar. Adam sorriu afectuosa-
mente. Ela parou de respirar e ele ficou alerta. Depois, ela engoliu a 
saliva enquanto recomeava o ressonar ritmado. Adam ergueu 
delicadamente a mo e tapou-a. Depois saiu do quarto na ponta 
dos ps.
Durante numerosos dias, Cathy repousou no seu subterr-
neo de pio. Estava envolta numa carapaa de chumbo e mexia-se 
muito pouco por causa da dor. Mas sentia os movimentos  roda 
dela. Gradualmente, a cabea e o olhar foram-se tornando mais 
claros. Havia dois rapazes em casa: um entrava raramente no quar-
to; o outro, muitas vezes. Tambm vinha outro homem: era o mdi-
co. Quanto ao quarto, alto e magro, interessava-a mais do que to-
dos os outros, pois metia-lhe medo. Um medo nascido durante o 
seu longo sono artificial.
Muito lentamente, foi recordando os dias precedentes e colo-
cando os acontecimentos pela devida ordem. Tornou a ver o Sr. 
Edwards e a loucura assassina que lhe deformava o plcido rosto. 
Nunca tivera tanto medo na sua vida, mas agora aprendera a sa-
ber o que era o medo. E o seu esprito andava s voltas, como um 
rato que procura um buraco por onde possa sair. O Sr. Edwards 
sabia tudo acerca do incndio. Mais algum saberia? Como viera 
ele a saber? Quando fazia estas interrogaes, sentia-se domina-
da por um terror que lhe dava vontade de vomitar.
Pelo que ia ouvindo, soube que o homem alto era o xerife, 
que ele a queria interrogar e que o rapaz que se chamava Adam a 
tal se opunha. Talvez o xerife estivesse a par do incndio...?
Foi ao escutar uma conversa em voz alta que definiu a sua 
linha de conduta. O xerife dizia:
- Ela deve ter um nome e algum a deve conhecer.
- Mas como pode ela responder se tem a maxila partida? 
Era a voz de Adam.
- Se ela no for canhota, podia escrever as respostas. No 
sei se compreende, Adam, se algum tentou mat-la mais vale 
prend-lo enquanto  tempo. D-me um lpis que eu vou tentar 
falar com ela.
- Ouviu o que disse o mdico.? Ela tem uma fractura no
crnio -teimou Adam. -Talvez no se recorde de nada. 
- D-me lpis e papel e depois se v,
- No quero que a mace.
- O que voc quer no me interessa. D-me papel e lpis. 
Depois a voz do outro homem disse:
- Mas que tens tu? Quem te ouvisse diria que s tu o cul-
pado. D-lhe um lpis.
Quando os trs homens entraram no quarto sem fazerem ba-
rulho, Cathy tinha os olhos fechados.
- Est a dormir - murmurou Adam.
Ela abriu os olhos e contemplou-os.
O magrio aproximou-se da cama.
- Eu no queria incomod-la. Sou o xerife. Sei que no pode 
falar, mas talvez possa escrever?
Ela tentou dizer que sim e fez uma careta de dor. Fechou 
rapidamente as plpebras em sinal de assentimento.
- Boa pequena - disse o xerife.- Como viram, est de 
acordo.
Pousou o bloco de papel em cima da cama e colocou os de-
dos da doente em torno do lpis.
- Ora muito bem. Como se chama?
Os trs homens no desviavam o olhar de Cathy. A boca con-
traiu-se e as plpebras franziram-se. Depois, Cathy fechou os olhos 
e o lpis principiou a mover-se. No sei, surgiu em grandes 
letras desajeitadas no papel.
- Aqui tem outra folha. De que se lembra?
Tudo negro. No posso pensar, escreveu o lpis, cobrindo 
toda a folha.
- No se recorda do seu nome? De onde veio? Pense!
Ela pareceu estar s voltas com um violento conflito interior, 
depois o rosto exprimiu uma trgica renncia. No. Tudo con-
fuso. Ajude-me.
- Pobre pequena - disse o xerife. - Obrigado por ter ten-
tado. Quando estiver melhor, faremos uma nova tentativa. No, 
no  preciso escrever mais nada.
O lpis escreveu: Obrigada, e caiu dos dedos.
Cathy conquistara o xerife, que passara para o lado de Adam. 
S Charles continuava contra ela. Quando os dois irmos esta-
vam no quarto e a ajudavam a levantar-se para se sentar na arrasta-
deira, ela observava a cara soturna de Charles. Havia nele qualquer 
coisa que ela reconhecia, que a deixava preocupada. Muitas vezes, 
Charles levava a mo  cicatriz e esfregava-a percorrendo a costura 
com os dedos. Certa vez, surpreendeu Cathy entretida a observ-
-lo. Charles deitou um olhar culpado aos dedos e, depois, disse 
com brutalidade:
- No se rale. H-de ter uma tambm e talvez ainda seja 
mais bonita.
Ela sorriu-lhe. Ele desviou os olhos. Quando Adam entrou com 
a sopa, Charles disse:
- Vou  cidade beber umas cervejas.


3

Adam no se recordava de j ter sido to feliz. No o preo-
cupava o facto de ignorar o nome da doente. Ela dizia chamar-se 
Cathy e isso lhe bastava. Cozinhava para Cathy, empregando re-
ceitas da me ou da madrasta.
Cathy possua uma grande vitalidade. Recuperou as foras 
rapidamente. O inchao da cara desapareceu e o encanto da 
convalescena embelezou-lhe o rosto. Dentro de pouco tempo j 
podia sentar-se, abrir e fechar a boca com cuidado e absorver 
alimentos que no exigissem um excessivo trabalho de mastigao. 
A testa continuava ligada mas o resto da cara pouco sofrera, ex-
ceptuando a cavidade no lado onde lhe faltavam os dentes.
Ela sentia-se desamparada e no encontrava uma sada para 
a sua situao. Cathy falava pouco, mesmo quando j no lhe 
custava tanto.Uma tarde, ouviu algum a andar na cozinha e cha-
mou:
-  o Adam?
A voz de Charles respondeu:
- No, sou eu.
- No se importa de vir at aqui um instantinho, se faz fa-
vor? Emoldurado pela porta, Charles olhava-a com ar sombrio. -
Aparece muito pouco - disse ela.
- L isso,  verdade.
- No gosta de mim.
- Tambm  verdade.
- Pode dizer-me porqu?
A resposta veio dificilmente.
- No tenho confiana em si.
- Porqu?
- No sei. No acredito que tenha perdido a memria. 
- Porque havia de mentir?
- No sei. E  por isso que no confio em si. H qualquer 
coisa que julgo reconhecer...
- Nunca me viu na sua vida.
- Pode ser. Mas h qualquer coisa que me aborrece... no 
sei o qu. E, como sabe que nunca a vi?
Ela ficou silenciosa e ele fez um movimento para sair. 
- Fique disse ela.- Que tenciona fazer? 
- A respeito de qu?
- A meu respeito.
Ele olhou-a com interesse.
- Quer a verdade?
- Que havia de querer?
- No sei mas vou-lhe dizer. Vou p-la na rua assim que 
puder. O meu irmo armou em doido, mas hei-de convenc-lo do 
que quero, nem que tenha de lhe pregar uma tareia.
- Era capaz disso? Ele  forte.
- No tenho medo.
- Onde est o Adam?
- Foi  cidade comprar-lhe a porcaria dos remdios. 
- Voc  mau.
- Sabe o que penso? Que nem tenho metade da maldade 
que se oculta dentro dessa linda cabecinha. Parece-me que voc 
 um demnio...
Ela riu suavemente.
- Ento somos dois - disse. - Charles, quantos dias me 
d?
- Para qu?
- Para me pr fora? Diga com toda a franqueza.
- Muito bem. Dou-lhe uma semana. Quando muito dez dias. 
Assim que puder andar.
- E se eu no quiser ir?
Charles olhou-a com desafio. Parecia sentir-se quase feliz  
ideia dum combate.
- Oia o que lhe vou dizer. Quando estava cheia de droga, 
falou como se estivesse a sonhar.
- No acredito no que diz.
Charles riu-se porque vira a boquinha franzir-se rapidamente. 
- Pois no acredite. Se desamparar a loja, no conto nada a 
ningum. Se no, vou ter com o xerife.
- No vejo o que possa ter dito de mal.
- No estou para discutir consigo. Tenho mais que fazer. 
Fez-me uma pergunta e eu respondi-lhe.
Charles saiu. Atrs do galinheiro, largou a rir e a dar palmadas 
nas pernas.
- Julgava que fosse mais esperta.
H muito tempo que no se sentia to leve.


4

Cathy ficara com muito medo de Charles. Ele era da mesma 
raa que ela. Era a primeira vez que encontrava algum que jo-
gasse o mesmo jogo. Cathy podia seguir os pensamentos de Char-
les e no era caso para ficar tranquila. Sabia que ele no cairia 
nas suas ciladas. Ora ela precisava de ser protegida e de read-
quirir foras. Estava sem dinheiro e necessitava dum abrigo por 
bastante tempo. Sentia-se cansada e doente, mas j ia pensando 
no futuro.Adam voltou da cidade com uma garrafa de Mata-dores.
-  muito amargo - disse ele - mas faz-lhe bem.
Ela engoliu sem protestar e nem sequer fez caretas.
- Tem sido muito bom para mim - disse ela.- Gostava de 
saber porqu. S lhe tenho dado aborrecimentos.
- Nada disso. Voc veio encher a casa de sol e nunca se 
queixa apesar do muito que tem sofrido.
- Tem sido to bom, to amvel.
-  porque quero.
- Precisa de sair? No pode demorar-se e conversar comi-
go?
- Claro que posso. No h nada que seja to importante 
para mim.
- Aproxime uma cadeira, Adam, e sente-se.
Assim que Adam se sentou, ela estendeu-lhe a mo direita 
que ele aprisionou nas suas.
- To bom, to amvel - repetiu ela.- Adam,  capaz de 
manter uma promessa, no ?
- Fao o possvel. Porque me pergunta isso?
-  que estou s e tenho medo - gemeu ela. - Tenho mui-
to medo.
- Posso ajud-la?
- Ningum me pode ajudar.
- Sempre posso tentar. Diga-me o que lhe mete medo.
- A  que est o pior. Nem sequer lho posso dizer.
- Porqu? Se for um segredo, no o conto a ningum.
-  um segredo que no me pertence. (Os dedos apertaram
a mo de Adam.) Eu nunca perdi a memria.
- Ento porque foi que... ?
-  o que estou a tentar explicar-lhe. Gostava do seu pai, 
Adam?
- O que sentia por ele era mais respeito do que amor.
- E no seria capaz de fazer tudo o que estivesse ao seu 
alcance para salvar algum que respeitasse?
- Acho que sim.
- Pois muito bem!,  esse o meu caso.
- Mas porque foi agredida?
- Faz parte do segredo.  por isso que no posso dizer. 
- Foi o seu pai?
- No. Mas est tudo relacionado.
- Quer dizer que, se denunciar aquele que a feriu, prejudica 
o seu pai?
Cathy suspirou. Ele no precisava da ajuda de ningum para 
construir uma histria.
- Ser capaz de ter confiana em mim, Adam?
- Evidentemente.
-  um pedido terrvel.
- No , se for para proteger o seu pai.
- O segredo no me pertence. Seno, j lho teria confiado. 
- Compreendo perfeitamente. Eu teria agido da mesma ma-
neira.
- Oh!  to compreensivo.
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Adam inclinou-se e 
ela beijou-o na face.
- No se preocupe. Pode contar comigo para a defender. 
Ela deixou cair a cabea no travesseiro. 
- No poder faz-lo.
- Porqu?
- Porque o seu irmo no gosta de mim. Ele quer mandar-
-me embora.
- J lhe disse alguma coisa?
- Ah! no, mas eu sinto-o. Ele no  to compreensivo como 
voc.
- Mas tem bom corao.
- Bem sei. Mas no tem a sua delicadeza. E se eu tiver de 
me ir embora, o xerife h-de querer fazer-me perguntas e no 
terei quem me defenda.
Adam olhou fixamente no vazio.
- O meu irmo no pode obrig-la a partir. Metade desta 
quinta  minha e tenho dinheiro s meu.
- Se ele o exigir, ir-me-ei embora. No desejo estragar-lhes 
a vida.
Adam levantou-se e saiu rapidamente do quarto. Foi at  
porta das traseiras e encheu os olhos com o espectculo da tarde. 
L longe, no campo, o irmo apanhava pedras e empilhava-as no 
muro. Adam observou o cu. De leste vinha um cardume de nu-
vens esguias. Respirou profundamente e sentiu uma espcie de 
formigueiro no peito. Os tmpanos estalaram como depois dum 
bocejo muito grande e ouviu o piar dos pintos e o vento de leste 
que soprava rente  terra. Ouviu ainda os cascos dum cavalo ba-
tendo na estrada e as marteladas dum vizinho que consertava o 
celeiro. E todos estes rudos se misturavam para formar uma 
melodia. Adam teve a impresso de ver pela primeira vez. As se-
bes, os muros, os edifcios erguiam-se na tarde alaranjada e parti-
cipavam na alegre sinfonia. Tudo parecia mudado. Um bando de 
andorinhas precipitou-se na poeira, procurou o alimento e partiu a 
voar como uma faixa cinzenta torcida na luz. Adam tornou a olhar 
para o irmo. Perdera a noo do tempo e j no sabia h quanto 
tempo estava ali  porta.
No passara tempo nenhum. Charles continuava a lutar com 
o mesmo pedregulho e Adam ainda no expirara o grande sorvo 
de ar que engolira quando o tempo se detivera.
Subitamente, compreendeu que a alegria e a dor saem do 
mesmo cadinho. A coragem e o medo tambm so uma e a mes-
ma coisa. Descobriu que se pusera a cantarolar. Deu meia volta, 
atravessou a cozinha e parou  porta do quarto, olhando para Cathy. 
Ela sorriu-lhe debilmente e ele pensou: Que criana. Que crian-
a indefesa. E sentiu-se submergido por uma grande vaga de 
amor.
- Quer casar comigo? - perguntou.
O rosto de Cathy crispou-se e a sua mo fechou-se convul-
sivamente.
- No lhe peo para me responder j - acrescentou Adam. 
- Pense no caso. Se casar comigo, poderei proteg-la, e j nin-
gum lhe far mal.
Cathy recompusera-se imediatamente.
- Venha c, Adam. Sente-se. D-me a sua mo. Como  
bom!
Cathy pegou-lhe na mo e ergueu-a  altura do rosto.
- Querido - disse ela numa voz entrecortada pela emo-
o -, querido Adam, afinal teve confiana em mim. Posso pedir-
lhe outra coisa ainda? No fale ao seu irmo na proposta que me 
fez.
- De casar consigo? Mas porqu?
- Quero pensar nisso esta noite. Talvez uma noite seja pou-
co. Quer dar-me tempo? (Levou a mo  testa.) No sei se pode-
rei pensar com acerto e queria faz-lo.
- Acha que poder casar comigo?
- Por favor, Adam, deixe-me s para pensar. Peo-lhe. 
Adam sorriu e disse nervosamente:
- No demore muito. Eu estou como o gato que trepou a
uma rvore e no  capaz de descer.
- Deixe-me reflectir... Adam, voc  um homem bondoso. 
Ele saiu e encaminhou-se para o irmo que empilhava pe-
dras.
Assim que ele desapareceu, Cathy levantou-se e foi at ao 
espelho com passo mal seguro.
Aproximou-se e examinou o rosto. A ligadura continuava a 
tapar a testa. Afastou-a para ver a horrvel marca vermelha. No 
s estava resolvida a desposar Adam, como pensara nisso muito 
antes dele. Cathy tinha medo. Mas precisava de dinheiro e de pro-
teco. Adam podia fornecer-lhe ambas as coisas. Sabia muito 
bem que faria dele o que quisesse. O casamento no era o seu 
objectivo mas, entretanto, seria um refgio. S uma coisa a abor-
recia: Adam era arrastado para ela por um sentimento que no 
compreendia. Ela nunca sentira nada que se lhe assemelhasse 
por qualquer pessoa. O Sr. Edwards assustara-a a valer. Fora a 
nica vez, em toda a sua vida, em que a lei lhe tinha sido ditada 
pelos acontecimentos. Cathy decidiu que tal nunca mais se torna-
ria a repetir e sorriu ao pensar no que diria Charles. Sentia-se 
atrada por Charles. As suspeitas dele no a incomodavam nada.


5

Charles endireitou-se quando Adam se aproximou. Levou as 
mos aos rins e esfregou os msculos fatigados.
- Meu Deus! H pedras que nunca mais acabam!
- Um camarada da tropa disse-me que havia vales na Cali-
frnia com milhas e milhas onde no se encontra a mais pequena 
pedra.
- Quando no so as pedras,  outra coisa - disse Charles. 
- Para onde quer que se v, aparecem sempre chatices. No 
Oeste, so os gafanhotos. Noutro lado, os tornados. O que  isso 
comparado com algumas pedras?
- Tens razo. Vinha dar-te uma ajuda.
- Obrigado pela lembrana. Pensei que ias passar o resto
da vida a brincar com as mos da tua pensionista. Quanto tempo 
falta ainda para ela se ir embora?
Adam estava prestes a falar-lhe na proposta, mas o tom da 
voz de Charles f-lo mudar de ideias.
- Sabes uma coisa - disse Charles -, o Alex Platt veio ver-
-me h algum tempo. Sabes o que lhe aconteceu? Achou uma 
fortuna.
- Achou como?
- Conheces o stio onde a terra dele  marginada de cedros, 
junto  estrada municipal?
- Conheo. E depois?
- O Alex, quando andava a caar coelhos, passou entre as 
rvores e o muro de pedra. Pois encontrou uma mala com fatos 
de homem muito bem dobrados. Mas estava tudo ensopado em
chuva. H muito tempo que aquilo devia ali estar. Tambm havia 
uma caixinha de madeira com uma fechadura. Depois de a arrom-
bar, encontrou quatro mil dlares. E tambm achou uma mala de 
senhora, mas no tinha nada dentro.
- Nem nome, nem papis?
- Isso precisamente  que  estranho. Os fatos no tinham 
nome e a roupa no estava marcada. Como se o tipo no quises-
se ser descoberto.
- O Alex vai ficar com tudo?
- No. Levou as coisas ao xerife que vai mandar publicar um 
anncio, e, se ningum responder, fica tudo para o Alex. 
- De certeza que aparece algum.
- Tambm acho, mas no o disse ao Alex. Pareceu-me to 
contente.  esquisito que no haja marcas. E no foram cortadas. 
nunca houve.
- Ainda  muito dinheiro - disse Adam.- H-de aparecer 
algum a reclam-lo.
- O Alex demorou-se um bocado comigo. Sabes, a mulher 
dele v muita gente.
Charles deteve-se e, depois, resolveu-se:
- Precisamos de ter uma conversa. J andam todos a mexe-
ricar.
- A mexericar o qu?
- A propsito dela, valha-me Deus! Dois homens ss no
podem viver com uma rapariga em casa. O Alex disse-me que as 
mulheres andam desenfreadas. Isto no pode continuar. Ns vive-
mos aqui e temos uma reputao a defender.
- Queres que a mande embora antes de se restabelecer? 
- Quero que te desembaraces dela. No gosto dela. 
- Nunca gostaste, desde o primeiro dia.
- No tenho confiana nela. H qualquer coisa, no sei o
que , mas que me desagrada. Quando te livras dela?
- Vou dizer-te. (Adam falou lentamente.) D-me mais uma
semana para eu tomar uma deciso.
-- Prometes?
- Prometo.
- Prefiro assim. Hei-de dizer  mulher do Alex. Amanh j 
todos sabero. Jesus, que satisfao a minha quando voltarmos 
a ficar ss. Ela no recuperou a memria?
- No - respondeu Adam.


6

Cinco dias depois, aproveitando a ausncia de Charles que 
fora comprar alimento para o gado, Adam parou o cabriol diante 
dos degraus da cozinha. Ajudou Cathy a subir, tapou-lhe as per-
nas com uma manta e agasalhou-lhe os ombros. Depois, dirigiu-
-se para a cidade, onde se consorciou com Cathy perante o juiz 
de Paz.
Charles estava em casa quando chegaram e atirou-lhes um
olhar amargo quando os viu entrar na cozinha.
- Pensava que a tivesses ido levar ao comboio.
- Acabmos de nos casar - disse Adam simplesmente. 
Cathy sorriu a Charles.
- Porque fizeste uma coisa dessas?
- Ento um homem j no tem o direito de se casar? 
Cathy encaminhou-se para o quarto e fechou a porta atrs de 
si. Charles deixou explodir a clera.
- Ela no vale nada, digo-te eu.  uma puta. 
- Charles!
- Estou-te a dizer que  uma puta. Falsa como Judas. Uma 
cabra! Uma puta!
- Cala-te, Charles. Vais calar-te imediatamente. Probo-te 
que fales na minha mulher.
- Ela h-de ser-te to fiel como uma gata com cio. 
Adam articulou lentamente:
- Parece-me que tens cimes, Charles. Tu  que querias 
casar com ela.
- Que grande besta! Com cimes, eu? Nunca viverei debaixo 
do mesmo tecto com ela.
Adam respondeu no mesmo tom:
- Nem precisas. Vou-me embora. Vendo-te a minha parte, 
se quiseres. Podes ficar com o rancho e realizar o teu maior dese-
jo. Deixa-te ficar aqui a apodrecer.
Charles baixou a voz:
- Adam, v se te livras dela, peo-te. Pe-na a andar. Ela 
h-de fazer-te em pedaos. Destri-te, Adam. Ela destri-te. 
- Como sabes tu tanto a respeito dela?
O olhar de Charles estava turvo.
- No sei nada - disse ele.
E calou-se.
Adam no perguntou a Cathy se queria almoar na cozinha. 
levou dois pratos para o quarto e sentou-se ao lado dela. 
- Vamo-nos embora daqui - disse ele.
- Eu  que devo ir-me embora. Por favor, deixa-me ir em-
bora. No quero que te zangues com o teu irmo por causa de 
mim. Porque ser que ele me detesta?
- Creio que tem cimes.
Ela franziu os olhos.
- Cimes?
- Pelo menos,  o que penso. Mas no te preocupes. Ns 
vamo-nos embora. Vamos para a Califrnia.
Cathy respondeu calmamente:
- Eu no quero ir para a Califrnia.
- No digas isso.  bem bonito e faz sempre sol. 
- No quero ir para a Califrnia.
- Tu s minha mulher - disse ele de mansinho. - Quero 
que venhas comigo.
Ela ficou silenciosa e no tornou a falar na partida.
Ouviram Charles bater com a porta e Adam disse:
- Vai fazer-lhe bem. Depois de apanhar uma carraspana,
h-de sentir-se melhor.
Cathy baixou modestamente os olhos e contemplou os de-
dos.
- Adam, eu s poderei ser realmente tua mulher quando esti-
ver melhor.
- Eu sei - disse ele.- Compreendo perfeitamente. Espe-
rarei.
- Mas tens de ficar ao p de mim. Tenho medo de Charles. 
Ele odeia-me tanto...
- Vou trazer a minha cama para aqui. Poders chamar-me 
se sentires medo. Poders segurar-me na mo.
- Tu s to bom - disse ela. - Gostava de beber uma 
chvena de ch.
- Boa ideia. Tambm eu.
Adam voltou pouco depois com duas chvenas fumegantes e 
tornou  cozinha  procura do aucareiro. Sentou-se numa cadei-
ra junto da cama.
- Est forte. No estar muito forte para ti? 
- Gosto dele assim.
Adam acabou de beber.
- No achas que tem um gosto esquisito? 
Ela levou a mo  boca.
- Deixa-me provar. (Bebeu o fundo da chvena.) Adam 
exclamou ela -, enganaste-te na chvena! Era a minha, com o 
meu remdio.
Ele lambeu os lbios.
- No me h-de fazer mal.
Ela riu docemente.
- No. Mas espero no precisar de ti esta noite. 
- Porqu?
- Tu bebeste o meu sonfero. Eras capaz de no acordar. 
Adam caiu num sono pesado de pio com o qual tentava lu-
tar.
- Foi o mdico quem te disse para tomares uma dose to 
forte? - perguntou ele, entaramelando as palavras.
- Tu  que no ests habituado - respondeu ela.
Charles regressou a casa s onze horas. Cathy ouviu-lhe os 
passos surdos. Ele entrou no quarto, despiu a roupa e deitou-se. 
Grunhiu, virou-se, procurando uma posio confortvel. De repente, 
abriu os olhos. Cathy estava  cabeceira da cama.
- Que quer?
- No arme em tolo. Chegue-se para l. 
- Onde est o Adam?
- Ele bebeu o meu sonfero por engano. Afaste-se um pouco. 
Charles respirou ruidosamente.
- J estive esta noite com uma puta.
- Voc  um latago. Chegue-se para l. 
- E o seu brao partido?
- Isso  comigo. Trate voc do resto.
Charles desatou a rir:
- Pobre corno! - disse.
E afastou a roupa para que ela entrasse na cama.




SEGUNDA PARTE



CAPTULO XII


A pouco e pouco este livro atingiu uma grande fronteira que 
se chamava 1900. Mais cem anos batidos e modos, petrificados 
pelo calcrio da memria. Cem anos que os homens modelaram 
a seu gosto e, quanto mais recuados eram os acontecimentos, 
mais ricos se tornavam e maior significado adquiriam. Havia quem 
dissesse que eram os bons velhos tempos, uma era feliz, doce e 
simples como nenhuma outra. Os velhos que no sabiam se os 
seus passos trmulos os deixariam atravessar a fronteira do s-
culo, consideravam com desdm esses anos que viriam. Pois o 
mundo mudara e desaparecera a doura de viver, levando com 
ela a virtude. A inquietao apoderava-se dum mundo corrodo. 
Que iramos perder? Os bons modos, o sossego e a beleza? As 
senhoras j no eram senhoras. A palavra dum homem j no 
tinha valor.
Onde ia o tempo em que os homens apertavam os botes da 
braguilha? As caldeiras da liberdade extenuavam-se. A prpria 
infncia j no tinha o sabor de antanho. Ento, a nica preo-
cupao era encontrar uma boa pedra, no exactamente redon-
da, mas achatada, gasta pela gua, para a lanar com uma fisga 
talhada num sapato velho. Para onde foram as boas pedras e a 
simplicidade?
Na memria confusa do homem, as sensaes do prazer e 
da dor apenas subsistem no estado de imagens, sem provocar 
qualquer emoo. Um calhau na gua da memria e o homem 
adulto rev a menina com quem brincava aos doentes. Mas no 
passa de uma imagem tremida. Ele esquece, quer esquecer a 
emoo cida que ri os fgados e que, em criana, o atirava para o
cho no meio da aveia brava e o fazia soluar Meu Deus! Meu 
Deus! Tal homem esquece, no h dvida de que se esquece: 
Mas porque anda aquele mido a rebolar-se na erva? Ainda apa-
nha uma constipao!
Ah! os morangos e as framboesas j no tm o gosto de an-
tigamente e as coxas das mulheres j no nos excitam.
E alguns homens instalavam-se confortavelmente no ninho 
da morte, como galinhas poedeiras.
A histria foi segregada pelas glndulas de um milho de his-
toriadores. Temos de sair deste sculo tumultuoso, diziam alguns, 
sair dessa batota, desse sculo assassino de revoltas e de morte 
secreta, desse sculo de luta pela terra, conquistada fosse de que 
maneira fosse.
Pensem na nossa pequena nao ladeada pelos oceanos, 
dividida pelos problemas, precocemente desenvolvida e que 
despertava quando os Britnicos nos atacaram de novo. Foram 
batidos mas no ganhmos grande coisa com isso. Apenas nos 
restavam uma Casa Branca queimada e dez mil vivas de guerra 
na lista dos pensionistas.
E depois os soldados partiram para o Mxico e foi uma esp-
cie de doloroso piquenique. Porque se ir fazer um piquenique no 
meio das urtigas e das formigas, quando se est to bem em 
casa?... A guerra do Mxico sempre teve duas coisas boas. Con-
quistmos enormes terras a Ocidente, duplicando a nossa super-
fcie, e foi um excelente campo de manobras para os generais 
que, quando comeou a triste carnificina domstica, j tinham 
aprendido a fazer as coisas de modo que assumissem um aspec-
to verdadeiramente horrvel.
E depois houve as discusses.
Pode ter-se um escravo?
Se o comprou de boa f, porque no?
Qualquer dia, ainda acabam por dizer que um homem j no 
tem o direito de possuir um cavalo. Quem  que quer o que  
meu?
E nisto estvamos, como um homem que ferisse a prpria 
cara e que sangrasse na prpria barba.
Por fim, tambm isto acabou; erguemo-nos lentamente do 
solo ensanguentado e partimos para o Oeste.
Ento, foram o boom, as falncias, as bancarrotas e a crise. 
Chegaram grandes ladres patenteados que esvaziaram os 
bolsos dos que tinham bolsos.
Para o diabo com o sculo, que est podre!
Ele que acabe e que lhe dem com a porta na cara. Vamos 
fech-lo como um livro e comecemos a ler outra coisa. Um novo 
captulo, uma nova vida. O homem poder lavar as mos quando 
tiver dado com a tampa nesse sculo fedorento.  belo o que nos 
espera. Os cem novos anos esto intactos, perfeitamente limpos. 
As cartas no esto marcadas e o primeiro que fizer batota... pois 
muito bem! ser crucificado de cabea para baixo em cima das 
latrinas.
Pois , mas os morangos e as framboesas j no tm o gosto 
de antigamente e as coxas das mulheres j no nos excitam.



CAPTULO XIII

1

Uma espcie de graa ilumina s vezes o esprito do homem. 
 um fenmeno bastante vulgar. A princpio,  um crepitar de ras-
tilho que arde em direco  dinamite, uma alegria no estmago, 
uma delicia dos nervos e dos antebraos.
A pele saboreia o ar e de cada vez que se respira  uma ine-
fvel sensao. Todo o corpo se espreguia e boceja de prazer, o 
crebro ilumina-se e todo o mundo resplandece  nossa frente.
O homem pode ter vivido uma vida cinzenta, rodeado de ter-
ras escuras e de rvores negras, os acontecimentos mais impor-
tantes podem ter passado alinhados, annimos e desprovidos de 
cor, mas nada disso conta. Porque, no instante da graa, o canto 
sbito dum grilo encanta o ouvido, o aroma da terra enche as na-
rinas e a luz coada por uma rvore regenera a vista. Ento, o 
homem transforma-se numa nascente inesgotvel. Talvez que o 
lugar que ele ocupa no mundo possa ser medido pela qualidade e 
pelo nmero das suas iluminaes.  uma funo individual, mas 
que nos une  colectividade.  me de toda a criao e define o 
homem em relao aos outros homens.
No sei o que nos reservam os anos que esto para vir. Pre-
param-se monstruosas transformaes, foras extraordinrias de-
senham um futuro cujo rosto desconhecemos. Algumas delas 
parecem-nos perigosas porque tendem a eliminar o que conside-
ramos bom.  bem verdade que dois homens juntos levantam 
mais facilmente um peso do que um homem s. Uma equipa con-
segue fabricar automveis mais rapidamente e melhor do que um 
homem s. E, o po que sai duma fbrica  menos caro e de
qualidade mais uniforme do que o do padeiro. Quando a nossa ali-
mentao, a nossa vestimenta e os nossos tectos forem apenas o 
fruto exclusivo da produo estandardizada, chegar a vez do pen-
samento. Toda a ideia que no obedecer a uma bitola, dever ser 
eliminada. A produo colectiva ou em massa entrou na nossa vida 
econmica, poltica e at religiosa, de tal modo que certas naes 
j substituram a ideia de Deus pela de colectividade. Ainda  muito 
cedo. A  que est o perigo. A tenso  grande. O mundo caminha 
para o seu ponto de ruptura. Os homens esto inquietos.
Numa altura destas parece-me, portanto, natural fazer a mim 
mesmo as seguintes perguntas: Em que creio eu? Devo bater-me a 
favor de qu? E contra qu?
A nossa espcie  a nica criadora e dispe de uma s facul-
dade criadora: o esprito individual do homem. Dois homens nun-
ca criaram nada. No existe colaborao eficaz em msica, em 
poesia, nas matemticas, na filosofia. S depois de se ter dado o 
milagre da criao  que o grupo o pode explorar. O grupo nunca 
inventa nada. O bem mais precioso  o crebro isolado do ho-
mem.
Ora, hoje em dia, assiste-se ao espectculo de uma guerra 
de extermnio entre as foras militarizadas do conceito do grupo e 
esse bem precioso: o crebro do homem. Condenando-o  fome, 
ao desprezo,  represso, canalizando-o, esmagando-o sob os 
golpes de pilo da vida moderna, acossa-se, aniquila-se, embota-
-se, droga-se o espirito livre e vagabundo. Parece que a nossa 
espcie escolheu o triste caminho do suicdio.
Eis o que penso: o esprito livre e curioso do homem  o que 
de mais valioso h no mundo. E por isto me baterei: a liberdade 
para o esprito de tomar a direco que lhe apetecer. E contra isto 
me baterei: qualquer ideia, religio ou governo que limitar ou des-
truir a noo de individualidade. Assim sou,  esta a minha posi-
o. Compreendo perfeitamente porque  que um sistema basea-
do numa bitola considera seu dever eliminar a liberdade de espri-
to:  que s ela, atravs da anlise, pode destruir o sistema. Sim, 
compreendo tudo isto muito bem e tenho-lhe dio, e sempre me 
baterei para preservar a nica coisa que nos coloca acima dos 
animais que no criam. Se a graa puder ser destruda, estamos 
perdidos.


2

Adam Trask crescera na penumbra e as cortinas da sua vida 
tinham sido teias de aranha poeirentas e os seus dias uma longa 
sequncia de meios desgostos e de decepes amargas. Foi en-
to que encontrou Cathy e se iluminou.
Pouco importa que Cathy fosse aquilo a que chamei um mons-
tro. Talvez ns no sejamos capazes de compreender Cathy, mas 
por outro lado somos capazes de enveredar por muitos caminhos, 
tanto da inocncia como do pecado. Qual de ns  que no revol-
veu j a gua negra da sua alma?
Talvez todos ns tenhamos um pntano secreto onde o mal 
germina e prolifera. Mas as margens so escorregadias e os vrus 
que nele nadam no conseguem sair para fora. No ser possvel 
que em certos seres o mal adquira a fora suficiente para fugir? 
No ser esta a explicao do monstro? E no seremos ns seus 
parentes pelo pntano que com ele temos em comum? Seria ab-
surdo no admitir os anjos e os demnios, j que fomos ns que 
os inventmos.
Monstro ou no, Cathy ateou a chama em Adam. Ele libertou-
-se do medo, da amargura e das recordaes asfixiantes; o seu 
esprito pairou nas alturas. A graa ilumina o mundo e f-lo surgir 
sob um novo aspecto, tal como o foguete de guerra ilumina um 
campo de batalha.  possvel que Adam no visse Cathy, tanta 
era a luz que sobre ela emitia. Uma mulher terna e bela, meiga e 
sagrada, mais preciosa do que se possa imaginar, franca e am-
vel - assim era Cathy para o marido, e nada do que dissesse ou 
fizesse podia empanar a imagem criada por Adam.
Cathy recusara-se a ir para a Califrnia, mas Adam no fizera 
caso porque a sua imagem lhe dera o brao e o acompanhara. 
To forte era o estado de graa que no notara a dor do irmo 
nem os seus olhos cintilantes. Vendendo a sua parte a Charles, 
por um preo inferior ao que ela valia, e com a metade do que 
deixara o pai, tornara-se um homem livre e rico.
Os irmos eram agora uns estranhos. Apertaram as mos na 
estao e Charles viu afastar-se o comboio enquanto esfregava a 
cicatriz. Foi  estalagem, bebeu quatro usques de uma assen-
tada e subiu ao ltimo andar. Pagou  mulher sem chegar a qual-
quer resultado, pois chorara nos seus braos at ela o pr na rua. 
S lhe restava a quinta e a ela dedicou todas as suas energias.  
fora de furar, cortar e acrescentar, os seus domnios aumentaram. 
Desprezando o repouso e as distraces, tornou-se rico sem pra-
zer e respeitado sem amigos.
Adam parou em Nova York o tempo suficiente para comprar 
roupa para Cathy e para ele, depois tomaram o comboio que os 
levou para o outro lado do continente.  fcil compreender porque 
escolheram o vale do Salinas.
As companhias de caminhos de ferro, nessa poca em pleno 
desenvolvimento - lutando abertamente umas com as outras para 
imporem o seu domnio - empregavam todos os meios para au-
mentar o trfego. No se contentando em fazer publicidade nos 
jornais, mandavam imprimir prospectos e folhetos onde se des-
creviam e mostravam as belezas e as riquezas do Oeste. No 
havia elogios nem promessas que chegassem. A Companhia dos 
Caminhos de Ferro do Pacfico Sul, sob a direco enrgica de 
Leland Stanford comeava a dominar, comercial e politicamente, 
a costa do Pacfico. Os carris penetravam nos vales. Nasciam 
novas cidades e novas terras eram distribudas e povoadas, por-
que a Companhia precisava de criar uma clientela.
O longo vale do Salinas estava includo na sua zona de influ-
ncia. Adam estudara um lindssimo folheto a cores que apresen-
tava o Vale como se fosse a regio que o Paraso tentara em vo 
imitar. Depois de ter lido esta literatura, quem no sentisse vonta-
de de se fixar no vale do Salinas era um caso desesperado.
Adam no andou com pressa. Comprou um carro e visitou as 
redondezas, discutindo com os habitantes mais antigos do Vale, 
informando-se acerca das terras e da gua, do clima e das colhei-
tas, dos preos e das comodidades. Adam no procurava espe-
cular. Queria apenas estabelecer-se, fundar um lar, uma famlia, 
quem sabe se... uma dinastia.
Adam, cheio de entusiasmo, ia de herdade em herdade, apa-
nhando aqui e ali punhados de terra que deixava escorregar por 
entre os dedos. Falava, projectava e sonhava. A gente do Vale 
estimava-o e mostrava-se contente por ele ter resolvido ficar a 
viver no meio dela, pois reconhecia nele um homem de valor.
Adam s tinha uma preocupao: Cathy. Ela no estava bem.
Percorria a regio com ele, mas sem gosto. Uma manh, queixou-
-se duma dor e ficou no quarto, no hotel de King City, enquanto 
Adam ia visitar os arredores. Ele regressou s cinco horas e encon-
trou a mulher esvaindo-se em sangue. Adam teve a sorte de encon-
trar o Dr. Tilson em casa e de conseguir arranc-lo ao seu rosbife. 
O mdico fez um rpido exame, aplicou um penso e voltou-se para 
Adam:
- Era melhor que fosse l para baixo esperar por mim - 
sugeriu ele.
- Ela corre perigo?
- No. Eu j o vou chamar.
Adam acariciou o ombro de Cathy e a mulher sorriu-lhe.
O Dr. Tilson tornou a fechar a porta e aproximou-se nova-
mente da cama. Tinha a cara vermelha de clera. 
- Porque fez isso?
A boca de Cathy estava reduzida a uma linha. 
- O seu marido sabe que est grvida?
A cabea dela moveu-se lentamente dum lado para o outro. 
- Com que fez isso?
Cathy fitou-o intensamente.
O mdico examinou o quarto. Depois, dirigiu-se para a cmo-
da e apanhou uma agulha de tricotar. Brandiu-a diante da cara de 
Cathy:
- Sempre a mesma coisa. O instrumento criminoso do cos-
tume. No passa de uma idiota. Por um pouco no se matou e o 
beb continua vivo. Suponho que tambm bebeu coisas, que tomou 
toda a espcie de venenos: cnfora, petrleo, pimento, eu sei l o 
qu? Valha-me Deus! As mulheres sempre so duma fora!
Os olhos de Cathy estavam frios e inexpressivos.
O mdico aproximou uma cadeira da cama.
- Porque no quer ter a criana? - perguntou docemente. 
-- Tem um bom marido. No gosta dele?... Est resolvida a no 
me responder? Responda-me, c'os diabos! No seja teimosa.
Os lbios de Cathy no se moveram, as plpebras no estre-
meceram.
- Veja se me compreende, minha amiga - disse ele.- No 
deve destruir a vida.  o nico acto que me pe fora de mim. Deus 
sabe que perdi alguns dos meus doentes por ignorncia, mas fiz
sempre o que pude. Por isso, quando assisto a um crime deli-
berado...
O mdico falava rapidamente. Tinha medo do silncio entre as 
frases. Aquela mulher inquietava-o. Havia nela algo de inumano.
- Conhece a Sr.a Laurel? H anos que pede ao cu para lhe 
dar um filho. Era capaz de dar tudo o que tem e tudo o que h-de 
vir a ter para ter um filho. E a senhora tentou apunhalar o seu com 
uma agulha de tricotar! Pois muito bem - vociferou ele. - Se 
no quiser falar, ningum a obriga, mas oia-me bem: o beb est 
so e salvo. No soube fazer as coisas. E mais ainda: a criana h-
de nascer. Sabe como se castiga o aborto no nosso Estado? No 
lhe peo para responder, mas sim para escutar. Se isto se tornar a 
repetir, se a criana morrer e se eu vier a desconfiar de qualquer 
manobra suspeita, irei denunci-la, depor contra si e exigir um cas-
tigo. Espero que tenha a inteligncia bastante para acreditar no que 
digo e que no estou a falar no ar.
Cathy humedeceu os lbios com a ponta da lngua. A expres-
so do olhar transmutou-se numa tristeza que causava d.
- Lamento muito - disse ela.- O senhor no pode com-
preender.
- Ento porque se recusa a falar?
A clera do mdico derreteu como neve ao sol. 
- Explique-me o que se passou.
-  difcil dizer. O Adam  to bom, to forte, to so, en-
quanto que eu tenho uma tara. Sou epilptica. 
- No pode ser!
- Eu, propriamente, no sou. Mas eram o meu av e o meu 
pai. E o meu irmo tambm .
Cathy tapou os olhos com a mo.
- No posso dar um tal filho ao meu marido.
- Minha pobre filha - disse o mdico. - Nunca se pode ter
a certeza.  mais que provvel que o seu filho vir a ser bonito e
saudvel. Prometa-me que no torna a tentar. 
- Prometo.
- Muito bem. No direi ao seu marido o que fez. Agora, dei-
te-se. Vamos ver se a hemorragia j parou.
Alguns minutos depois, o mdico fechava o estojo e metia a 
agulha de tricotar na algibeira.
- Volto amanh - disse ele.
Adam precipitou-se ao seu encontro quando o viu descer a 
escada estreita que ia dar ao vestbulo do hotel. O Dr. Tilson repeliu 
um assalto de: Como est ela? Est melhor? Qual  a origem 
daquilo? j posso subir?
- Eh l! Calma. Calma.
Seguidamente, ps em prtica o mtodo que nunca falhara. 
- A sua mulher est doente.
- Senhor doutor!
-Tem a nica doena boa que existe... 
- Doutor...
- A sua mulher est grvida.
E saiu deixando Adam estarrecido. Trs homens sentados 
em volta do fogo sorriram-lhe. Um deles fez uma observao:
- Se fosse eu, convidaria... digamos, trs amigos para bebe-
rem um copo.
A aluso perdeu-se. Adam subiu desajeitadamente a estreita 
escada.
A ateno de Adam foi fixar-se no rancho Bordoni, algumas 
milhas ao sul de King City, na realidade quase  mesma distncia 
de San Lucas e de King City.
Restavam aos Bordoni novecentos acres duma doao de 
dez mil feita por um rei de Espanha ao bisav da Sr.a Bordoni. Os 
Bordoni eram suos, mas a Sr.a Bordoni era filha e herdeira duma 
famlia espanhola que se estabelecera no vale de Salinas sculos 
atrs. E, como acontece frequentemente na maioria das velhas 
famlias, a terra fora desaparecendo: uma parte perdida ao jogo; 
uma outra vendida para pagar os impostos; alguns acres arranca-
dos como se fossem cupes para pagar um cavalo, um diamante 
ou os favores duma mulher formosa. Esses novecentos acres, os 
melhores, formavam o cerne da primitiva doao feita aos Sanchez. 
O Salinas atravessava a terra que se estendia at s colinas.
Naquele lugar, o Vale estreita-se para se alargar novamente 
um pouco mais longe. A casa primitiva dos Sanchez ainda era 
utilizvel. Construda em tijolo, erguia-se numa pequena abertura 
entre as colinas, um vale miniatura, irrigado por um riacho que 
nunca secava. Fora por esse motivo que o primeiro Sanchez ali se 
fixara. Grandes carvalhos davam sombra ao vale e a terra era dum
verde nico na regio. As paredes da casa baixa tinham um metro 
e vinte de espessura e os pilares de apoio estavam ligados por 
correias de coiro cru que haviam sido molhadas antes de colocadas. 
Ao secarem, tinham encolhido, consolidando o conjunto, duras como 
ferro, quase indestrutveis. Este mtodo de construo s tem um 
inconveniente: se no se tiver cuidado com os ratos, do cabo do 
coiro.
A velha casa parecia ter surgido do cho. Era encantadora. 
Bordoni usava-a como estbulo das vacas. Era um emigrante su-
o, com o seu amor nacional pelo asseio. No gostava das gros-
sas paredes de argila e mandara construir uma casa de madeira a 
alguma distncia. As vacas espreitavam pelas janelas da velha 
casa dos Sanchez.
Os Bordoni no tinham filhos. E quando a mulher morreu, j 
bastante madura, o marido, abandonado a si prprio, sentiu soar 
o apelo dos Alpes natais. Queria vender e regressar ao seu pas. 
Adam Trask no tinha pressa em comprar. Bordoni exigia um pre-
o elevado e mantinha-o. Sabia que Adam compraria, muito antes 
de Adam ter tomado uma deciso.
Adam queria fixar-se e criar um lar para a criana que ia nas-
cer. Receava comprar uma propriedade e verificar mais tarde que 
preferia outra. Contudo, era a dos Sanchez que mais o atraa. 
Com Cathy a seu lado, a vida prometia ser longa e agradvel. Mas 
queria rodear-se de todas as precaues. Examinou cada metro 
quadrado do terreno. Mandou sondar a camada de terra vegetal 
para ficar a conhecer bem o subsolo. Perguntou os nomes de to-
das as plantas silvestres que cresciam nos campos,  beira do rio 
e nas colinas. Nos stios hmidos, ajoelhou para examinar as pe-
gadas na lama. Reconheceu as do tigre ruivo, do gamo, do coiote, 
do gato selvagem, do toiro, da doninha, da lebre e da codorniz. 
Vagueou no meio dos salgueiros e dos sicmoros, pelas amoreiras 
 beira do rio, acariciou os troncos dos carvalhos e dos loureiros.
Bordoni observava-o com um olhar irnico e enchia canecas 
com um vinho tinto da sua pequena lavra no flanco da colina. 
Bordoni gostava de se embriagar ao de leve todas as tardes. E 
Adam, que nunca provara vinho, comeava a apreci-lo.
Estava sempre a perguntar a Cathy qual a sua opinio. Gos-
tava do sitio? Sentir-se-ia feliz? E no prestava ateno s suas
vagas respostas. Supunha que ela partilhava o seu entusiasmo. No 
vestbulo do hotel, discutia com os homens reunidos em torno do 
fogo para lerem os jornais de San Francisco.
-  na gua que eu penso - disse ele uma noite. - Gostaria 
de saber at onde ser preciso cavar para encontrar gua. 
Um dos proprietrios cruzou as pernas.
- Devia ir estar com o Sam Hamilton - disse ele. - No que 
respeita  gua, no h ningum que saiba tanto como ele.  um 
vedor e um bom abridor de poos. Ele logo lhe diz. Foi ele quem 
abriu mais de metade dos poos deste lado do Vale.
O companheiro soltou uma risadinha.
- O Sam tem bons motivos para se interessar pela gua. 
Ainda no conseguiu descobrir uma s gota nas terras dele.
- Onde  que eu o posso encontrar? - perguntou Adam.
- Oua c. Eu tenho de o ir ver para lhe pedir que me dobre 
uns ferros. Se quiser, pode ir comigo. H-de gostar do Sr. Ha-
milton.  um homem de bem.
- E um grande nmero - acrescentou o companheiro.


3

Louis Lippo levou Adam  herdade Hamilton na sua carroa. 
As barras de ferro para dobrar saltavam no fundo da caixa e, em 
cima, ia uma perna de cabrito enrolada num pano molhado. Os 
costumes da poca exigiam que se levasse um substancial pre-
sente de comida quando se ia de visita, pois tinha de se ficar para 
almoar. A no ser, evidentemente, que se quisesse insultar a fa-
mlia. Alguns convidados podiam esvaziar a despensa. Era natu-
ral que se levasse com que tornar a ench-la. Um lombo de porco 
ou um pedao de carne de vaca era o que estava indicado. Louis 
levava, portanto, o cabrito e Adam uma garrafa de uisque.
- Acho melhor preveni-lo - disse Louis. - O Sr. Hamilton 
ficar encantado, mas a mulher vai olh-lo de revs. Se fosse a si, 
escondia a garrafa debaixo do banco e s a tirava quando che-
gssemos diante da forja.  assim que fazemos sempre.
- Ela no deixa o marido beber?
-  do tamanho dum passarinho - disse Louis -, mas tem 
opinies firmes. Esconda a garrafa debaixo do banco.
Abandonaram a estrada do Vale e penetraram nas colinas. Os 
trilhos traados na lama do Inverno tinham endurecido, formando 
dois carris. Os cavalos faziam um esforo violento entre os varais e 
a carroa avanava aos solavancos. O ano fora mau e, se bem que 
se estivesse apenas em Junho, as colinas j estavam secas e os 
slices brilhavam nas pastagens amarelecidas. A aveia elevava-se 
quando muito a seis polegadas acima do cho como se soubesse 
que, se no germinasse rapidamente, corria o risco de nunca che-
gar a germinar.
No  um stio agradvel - disse Adam.
- Agradvel? Isto  uma terra para dar cabo dum homem e 
devor-lo, Sr. Adam. Agradvel! O Hamilton tem um bom pedao 
de terra, mas j podia ter morrido de fome mais os filhos. A herda-
de no os alimenta; ele tem de se dedicar a toda a espcie de 
trabalhos e os filhos j comeam a ganhar.  uma boa famlia.
Adam contemplou uma sara que crescia  beira do cami-
nho.
- Porque teria ele vindo viver para uma terra destas?
Louis Lippo, como toda a gente, gostava de brincar aos gui-
as, especialmente com um estranho, se no houvesse nenhum 
indgena para o contradizer.
- Eu vou explicar-lhe. Veja o meu caso, por exemplo. O meu 
pai era italiano. Veio para c depois da revoluo, mas ainda trou-
xe algum dinheiro. A minha terra no  grande, mas  boa. Foi o 
meu pai quem a comprou e escolheu. E o senhor, por exemplo - 
no sei a quanto monta a sua fortuna e no vou tomar a liberdade 
de lho perguntar, mas diz-se que vai comprar a terra dos Sanchez 
e todos sabem que o Bordoni no tem o hbito de dar presentes. 
Isto quer dizer que o senhor tem aquilo com que se compram os 
meles e sabe com o que pode contar.
- Vivo com desafogo - disse Adam modestamente.
- Se no vou direito ao fim,  para lhe explicar melhor-
disse Louis. - Quando o casal Hamilton chegou ao Vale, nem 
sequer tinha um penico onde mijasse. Ficaram com o que resta-
va: terras do governo que ningum queria. Vinte e cinco acres no 
bastam para alimentar uma vaca, mesmo nos anos bons. E dizem
que nem chega para contentar os coiotes, nos anos maus. H pes-
soas que perguntam como  que os Hamilton conseguiram viver. 
Foi porque o Sr. Hamilton se atirou logo ao trabalho. Andou  jorna 
at construir a debulhadora.
- Deve ter conseguido alguma coisa. Tenho ouvido falar nele 
um pouco por toda a parte.
- Conseguiu, sim, como o senhor diz. Conseguiu criar nove 
filhos. Mas no tem um tosto de lado. Como seria possvel?
Uma das rodas da carroa levantou-se, passou sobre uma 
grande pedra e tornou a cair. Os cavalos luziam de suor e os arreios 
estavam negros.
- Gostarei de conversar com ele - disse Adam.
- Pois , Sr. Adam. Ele criou uma bela seara. Bons filhos, 
bem-educados. Todos se desenrascam, menos o Joe -  o mais 
novo. Dizem que o vo mandar para o colgio. Mas os outros ho-
-de singrar na vida. O Sr. Hamilton pode sentir-se vaidoso. A casa 
fica atrs daquela encosta. E veja l se se esquece do que lhe 
disse. Se mostrasse a garrafa, ela era capaz de o transformar em 
esttua de sal.
A terra seca estalava ao sol e as cigarras cantavam.
-  mesmo uma terra desprezada pelo Senhor - disse Louis. 
- Faz-me sentir mesquinho - disse Adam. 
- Como?
- Alegra-me ter dinheiro suficiente para estar dispensado de 
viver num stio como este.
- Tambm eu estou dispensado disso e no me sinto mes-
quinho. Antes pelo contrrio, sinto-me feliz.
Assim que a carroa chegou ao alto da encosta, Adam pde 
avistar l em baixo os edifcios que constituam a residncia dos 
Hamilton. Uma casa, um estbulo, uma oficina e uma arrecada-
o. O conjunto parecia seco e comido pelo sol. rvores nenhu-
mas e um jardinzinho regado  mo.
Louis voltou-se para Adam e havia um leve travo de hostilida-
de na sua voz.
- Quero preveni-lo, desde j, de uma ou duas coisas, Sr. 
Trask. H pessoas, quando vem Samuel Hamilton pela primeira 
vez, que podem pensar que ele  um pouco doido. Ele no fala 
como toda a gente.  um irlands. Tem ideias que nunca mais
acabam. Tem mais de cem ideias por dia.  um homem que respira 
esperana. Deus do Cu! Quanta no lhe foi precisa para viver numa 
terra destas. Mas lembre-se disto:  um trabalhador, um bom ferrei-
ro e as invenes dele no so estpidas. E tenho-lhe ouvido prever 
coisas que aconteceram.
Adam ficou alarmado com esta espcie de ameaa.
- No sou homem para desprezar seja quem for - disse 
ele.
E compreendeu subitamente que Louis o considerava um es-
tranho e um inimigo.
- Queria apenas avis-lo, mais nada. H pessoas que vm do 
Leste e que julgam que, se um homem no tem muito dinheiro, no 
vale nada.
- Como poderia eu...
- Talvez o Sr. Hamilton no tenha com que mandar cantar um 
cego, mas  dos nossos e talvez o melhor de todos ns. E criou 
uma famlia como no haver muitas por a. No se esquea disto.
Adam ia para defender-se, mas apenas respondeu:
- No me hei-de esquecer. Obrigado por me ter prevenido.
Louis voltou a cabea para olhar em frente.
- Olhe, ali est ele,  porta da forja. Deve ter-nos ouvido
- Ele tem barbas? - perguntou Adam franzindo os olhos.
- Tem umas lindssimas barbas, tem. Mas j comea a ficar 
grisalho. Qualquer dia esto brancas.
Passaram diante da casa de madeira e viram a Sr.a Hamilton 
que os observava pela janela. Detiveram-se em frente da forja 
onde Samuel, de p, os esperava.
Adam viu um homem forte, barbudo como um patriarca, cujos 
cabelos grisalhos flutuavam no ar como uma charpa. O rosto, por 
cima da barba, estava corado pelo sol. Vestia uma camisa azul, 
limpa, um fato-macaco e um avental de coiro. Tinha as mangas 
arregaadas e os braos musculados tambm estavam limpos. 
S as mos estavam enegrecidas pela forja. Os olhos eram azuis-
-claros, duma alegria juvenil, e as rugas irradiavam um ar risonho.
- Louis - disse ele-, tenho muito prazer em te ver. Mesmo 
neste cu aberto, gostamos de receber os amigos.
Sorriu a Adam e Louis disse:
-Trouxe-lhe o Sr. Adam Trask, que veio do Leste para se fixar
aqui.
- Ainda bem -disse Samuel. - Depois lhe apertarei a mo. 
No quereria sujar-lha com estas patorras negras.
- Trouxe umas barras de ferro. Pode dobr-las em esquadria? 
 para consolidar um vigamento.
- Claro que posso, Louis. Desa. Desa. Vamos pr os cava-
los  sombra.
H uma perna de cabrito a atrs, e o Sr. Trask trouxe-lhe 
uma lembrana.
Samuel deitou uma olhadela para a casa.
- Talvez seja melhor a gente tirar a lembrana quando a carro-
a estiver atrs do celeiro.
Adam distinguia o ritmo cantante da sua fala, mas no con-
seguia descobrir nenhum vestgio de sotaque, excepto talvez nos 
tt e nos II reforados pela lngua.
- Louis, quer desatrelar os cavalos? Eu vou levar o cabrito 
para a cozinha. A Lizza vai ficar contente. Ela adora a caa. 
- Os seus filhos esto c?
- No, no esto. O George e o Will vieram passar o fim de 
semana e foram todos ontem  noite danar para a escola de 
Peach Tree no Desfiladeiro do Cavalo Selvagem. Devem voltar 
em bando ao fim da tarde. Por causa disso perdemos um sof. 
Depois lhe conto. A Lizza prometeu vingar-se. O culpado foi o 
Tom. Mas depois lhe conto.
Riu-se e encaminhou-se para casa, levando a perna de cabri-
to embrulhada.
- Se quiser, leve a lembrana para a forja, para no aquecer 
com o sol.
Ouviram-no chamar quando se aproximava de casa:
- Lizza, no adivinhas. O Louis Lippo, trouxe um bocado de 
cabrito maior do que tu.
Louis conduziu a carroa para trs do celeiro e Adam ajudou-
-o a desatrelar e a prender os cavalos  sombra.
- Percebeu o que ele queria dizer com aquilo do sol? 
- Essa mulher deve ser uma praga.
- To grande como um passarinho. Mas uma vontade de 
ferro.
Samuel foi ter com eles  forja.
- A Lizza gostava que almoassem c.
Mas a sua mulher no contava connosco - protestou Adam. 
- Ora, ora. Pem-se mais dois pratos na mesa.  com todo o 
prazer. Agora ns, Louis. Vamos l ver como quer essas barras?
Amontoou alguns cavacos na fornalha quadrada da forja, deu 
ao fole e alimentou o lume com coque molhado at obter uma 
chama vermelho-cereia.
- Agora, voc, Louis - disse ele. - V dando ao fole. Deva-
gar, homem,- devagar e com regularidade.
Colocou as barras de ferro em cima do carvo.
- Sr. Trask, fique sabendo que a Lizza est habituada a cozi-
nhar para nove filhos esfaimados. No h nada que a faa perder 
a cabea.
Chegou uma das barras mais ao calor e riu-se.
- Quando digo que no h nada que a faa perder a cabea,
minto com todos os dentes que tenho. Previno-os de que a minha
mulher anda furiosa. No pronunciem a palavra sof diante dela.
 uma palavra de clera e de dor para a Lizza.
- O senhor ia comear a contar-nos - disse Adam.
- Se o senhor conhecesse. O Tom, o meu filho, compreen-
deria melhor. O Louis conhece-o.
- Ai no, que no conheo - disse Louis. 
Samuel continuou:
- O Tom tem o diabo no corpo. Sempre teve mais olhos que 
barriga. Sempre semeou mais do que pode colher.  feliz e infeliz 
com exagero. H pessoas assim. A Lizza diz que eu sou desses. 
No sei qual  o destino que espera o Tom. Talvez a celebridade. 
Quem sabe se a forca... j houve enforcados na famlia. Mas esta 
histria fica para outra vez.
- O sof - sugeriu delicadamente Adam.
- Tem toda a razo. Eu sei, e a Lizza tambm sabe, que 
costumo correr atrs das palavras como o pastor atrs das ove-
lhas teimosas. Pois bem, organizou-se um baile na escola de Peach 
Tree e os rapazes - o George, o Tom, o Will e o Joe - resolve-
ram ir. Claro que as minhas filhas tambm quiseram ir. OGeorge, 
o Will e o Joe, que so rapazes simples, convidaram cada um 
deles uma amiga. Mas o Tom, como de costume, resolveu fazer 
as  coisas  grande e convidou as duas irms Williams, a
Jennie e a Belle Louis, de quantos buracos precisas para os para-
fusos?
- Cinco - disse Louis.
- Muito bem. Devo dizer-lhe, Sr. Trask, que o Tom, como to-
dos os rapazes que se acham feios, julga-se muito importante aos 
seus prprios olhos. Anda a maior parte do tempo em desalinho, 
mas assim que se trata duma festa, todo ele  atavios e rescende 
que nem uma flor na Primavera. Leva um tempo enorme nos prepa-
rativos. Devem ter reparado que a arrecadao estava vazia. O 
George, o Will e o Joe partiram em primeiro lugar, pois no so to 
tolos como o Tom. O George levou a carroa, o Will o cabriol e o 
Joe a carrinha de duas rodas.
Os olhos azuis de Samuel brilharam de prazer.
- Ento, o Tom apareceu todo pimpo e reluzente como um 
imperador romano, e a nica coisa que restava como veculo era 
a carroa do feno. Ele nem podia pensar em aparecer com tal 
coisa, mesmo que fosse s a uma das irms Williams. Por sorte 
ou por azar, a Lizza estava a dormir a sesta nessa altura. O Tom 
sentou-se nos degraus e procurou uma soluo. Passados instan-
tes, vi que se dirigia para a arrecadao e atrelava dois cavalos. 
Depois, entrou em casa e tornou a sair com o sof s costas. P-
-lo em cima da carroa e prendeu-o com correntes. Um sof com 
braos em colo de cisne, a coisa que a Lizza mais estima neste 
mundo! Tinha-lho oferecido para repousar antes do nascimento 
do George. A ltima viso que tive, foi o Tom subindo a colina, 
reclinado no sof e gozando a satisfao de poder oferecer s 
irms Williams um assento digno delas! Oh! meu Deus, quando 
penso que j no ter conserto quando voltar para casa!
Samuel largou as tenazes e ps as mos nas ancas para rir 
mais  vontade.
- A fogueira expiatria j arde no corao da Lizza. O fumo 
at lhe sai pelo nariz. Pobre Tom!
Adam props a sorrir:
- No quer beber uma coisinha?
- Com todo o prazer - disse Samuel.
Pegou na garrafa, bebeu rapidamente um golo e entregou-a
ao dono.
- Uisquebaugh. A palavra irlandesa para usque, a gua da
vida. E  bem certo.
Colocou, uma a uma, as barras ao rubro em cima da bigorna, 
fez os furos para os parafusos e dobrou-as s marteladas. As cen-
telhas saltavam sob o martelo. Mergulhou os ferros numa dorna de 
gua preta e ouviu-se um assobio.
- Pronto - disse ele.
E atirou as barras para o cho.
- Obrigado - disse Louis. - Quanto lhe devo?
- O prazer da vossa companhia.
-  sempre a mesma coisa - disse Louis.
- No , no. Quando lhe abri o poo, pagou-me o preo que 
lhe pedi.
- A propsito... Aqui o Sr. Trask talvez v comprar a terra 
dos Bordoni. A antiga herdade Sanchez, recorda-se?
- Conheo-a muito bem.  um bom pedao de terra.
- O Sr. Trask falou-me na gua e eu disse-lhe que no ha-
via ningum mais indicado para o informar do que voc.
Adam tornou a fazer circular a garrafa. Samuel bebeu outro 
golo e limpou a boca  parte limpa do antebrao.
- Ainda no tomei uma deciso - disse Adam.- O que eu 
queria era fazer-lhe um certo nmero de perguntas.
- Valha-o Deus, homem, l deu um passo em falso! Diz-se 
que  perigoso fazer perguntas a um irlands porque ele d logo a 
resposta. Espero que saiba ao que se arrisca abrindo as com-
portas do meu verbo. H duas maneiras de ver: o homem silen-
cioso  um sbio ou ento o homem que nunca diz nada  porque 
nada pensa. Como  natural, agrada-me muito mais a segunda 
definio. A Lizza diz que eu me aproveito. Que deseja saber?
- Na terra dos Bordoni, por exemplo, at onde ser preciso 
cavar para encontrar gua?
- Necessitava de ver o lugar. s vezes, so dez metros, ou-
tras, quinze, por vezes  preciso ir at ao centro da terra.
- Seria capaz de encontrar gua?
- Eu encontro gua em toda a parte, menos na minha terra.
- Ouvi dizer que tinha muita falta de gua.
- Ouviu dizer? At Deus j deve ter ouvido, tal  a fora com 
que tenho gritado.
- H um terreno de quatrocentos acres  beira do rio. Acha
que ter algum lenol de gua?
- S vendo. Este vale  muito estranho. Se achar que tem 
pacincia, talvez lhe possa contar alguma coisa, pois conheo-o 
como s minhas mos.
Louis Lippo disse:
-O Sr. Trask veio da Nova Inglaterra. Tenciona fixar-se aqui, 
mas j esteve antes no Oeste. Era soldado e andou a combater 
os ndios. ,
- A srio? Ento compete-lhe a si falar e a mim escutar. 
- No gosto de falar nesse assunto.
- Mas porqu? Valha-me Deus! Se eu tivesse combatido os
Indios, a famlia e os vizinhos bem se podiam queixar.
- Mas eu no queria combat-los, Senhor...
O Senhor viera-lhe  boca sem que ele desse por isso.
- Pois , compreendo perfeitamente. Deve ser duro matar
um homem que no se conhece e por quem no se sente nenhum
dio.
- Pelo contrrio,  mais fcil - disse Louis. 
- So modos de ver, Louis.
- Mas certos homens sentem amizade por toda a gente, en-
quanto que outros se odeiam a si prprios e espalham o dio  
sua volta como se pusessem manteiga em po quente.
- Preferia que falssemos do Vale - disse Adam com um 
certo embarao.
A recordao dos cadveres amontoados causava-lhe uma 
espcie de nusea.
- Que horas so?
Louis saiu e observou o Sol.
- Ainda no so duas horas.
- Quando comeo a falar, desoriento-me por completo. O 
meu filho Will diz que eu falo s rvores quando no tenho audit-
rio humano.
Suspirou e sentou-se numa cadeira.
- Eu disse que era um estranho vale, mas talvez seja por ter 
nascido num pas verdejante. O Vale parece-lhe estranho, Louis? 
- No, eu no conheo mais nada.
- Tenho-o sondado muito - continuou Samuel. - Algo vi-
veu e talvez continue a viver sob a terra. H o leito dum oceano e,
mais fundo ainda, h um outro mundo. Mas isto no interessa ao 
lavrador. A superfcie, o solo  bom, especialmente na parte plana. 
No vale superior, a terra arvel  leve e arenosa, mas est mis-
turada ao hmus que cobria as colinas e que foi arrastado para 
baixo pelas chuvas. Quanto mais se vai para o Norte, mais o Vale 
se alarga e a terra se torna mais negra, mais pesada e talvez mais 
rica. Suponho que, antigamente, haveria pntanos. No decorrer 
dos sculos, as plantas foram apodrecendo e enegreceram e ferti-
lizaram o solo. Quando se revolve a terra, verifica-se que est 
misturada com argila gorda. Sobretudo nas proximidades de Gon-
zales, a norte da foz do rio. Nas margens, perto de Salinas, de 
Blanco, de Castroville e de Moss Landing, ainda h pntanos. 
Quando, um dia, drenarem esses pntanos, ficar sendo a terra 
mais rica deste mundo.
- Est sempre a falar no que ser a terra um dia - inter-
rompeu Louis.
-O esprito do homem no se pode contentar em viver com 
o seu tempo, como o faz o corpo.
- Se ficar aqui, quero saber o que  e o que ser a terra - 
disse Adam. - Porque os meus filhos, se os tiver, ho-de viver 
nesta terra.
Os olhos de Samuel fitaram a luz doirada, para l dos seus 
amigos, e a forja sombria.
- Devo avis-lo de que, sob uma boa parte do Vale, umas 
vezes a grande profundidade, outras muito perto da superfcie, 
existe aquilo a que chamamos uma crusta.  argila densa e gor-
da.
Em certos stios, tem trinta centmetros de espessura; s 
vezes, mais. E essa crusta  impermevel  gua. Se l no esti-
vesse, as chuvas do Inverno impregnariam a terra e, no Vero, a 
gua poderia subir at s razes. Mas quando a terra por cima da 
camada de argila est bem ensopada, a gua perde-se em ria-
chos ou fica  superfcie a apodrecer as culturas.  uma das gran-
des maldies do Vale.
- Apesar disso,  um lugar agradvel para se viver, no ?
- Pois . Mas um homem no fica completamente satisfeito 
quando sabe que a terra poderia ser mais rica. Eu pensei que, se 
pudesse fazer milhares de buracos para obrigar a gua a penetrar,
obteria a soluo do problema. Fiz algumas experincias com 
cartuxos de dinamite. Parti a crusta e a gua pde infiltrar-se. Mas 
imagine a quantidade de dinamite que seria precisa para todo o 
Vale! Li que um sueco - aquele que inventou a dinamite - fabrica 
um explosivo mais forte e mais seguro. Talvez esteja a a soluo.
Com irriso, mas com admirao tambm, Louis disse:
- Ele est sempre a pensar em mudar as coisas. Nunca se 
sente satisfeito com o que elas so.
Samuel sorriu-lhe:
- Parece que h muito tempo o homem vivia nas rvores. Foi 
necessrio que um deles se sentisse insatisfeito para que as coi-
sas se modificassem. De contrrio, a estas horas, ainda os seus 
ps no tocariam no cho.
E riu-se novamente.
- Estou para aqui, sentado no meu monte de poeira, criando 
um mundo, to certo como Deus criou o Seu. Mas Deus viu a Sua 
obra, ao passo que eu nunca verei a minha, a no ser na minha 
imaginao. Este vale ainda vir a ser rico. Poder alimentar o 
mundo e talvez o venha a alimentar. E h-de vir para aqui gente 
feliz viver aos milhares, aos milhares...
Uma nuvem pareceu escurecer-lhe o olhar. O rosto entriste-
ceu. Calou-se.
- Quem o ouvir dir que isto  um bom sitio para se viver 
disse Adam.- Com uma perspectiva destas, onde  que os meus 
filhos correriam o risco de serem mais felizes?
Samuel continuou:
- H uma coisa que eu no compreendo. Paira uma sombra 
sobre este vale. No sei de que se compe, mas sinto-a. s ve-
zes, quando a claridade do dia  deslumbrante, sinto essa sombra 
passar e envolver o Sol, chupando toda a luz como se fosse uma 
esponja.
A sua voz elevou-se, mais sonora:
- Uma negra violncia ameaa este vale. No sei. No sei. 
 como se um fantasma sado do oceano morto que dorme a 
nossos ps viesse assombrar o Vale e turvar o nosso ar com a 
desgraa.  uma sombra secreta como um desgosto oculto. No 
sei o que , mas vejo-a e sinto-a nas pessoas daqui.
Adam arrepiou-se.
- Agora me lembro que prometi voltar cedo. A Cathy, a minha 
mulher, est  espera dum beb.
- Mas a Lizza j tem o almoo pronto.
- H-de desculpar-me quando souber a razo. A minha mu-
lher no se tem sentido bem. Obrigado pelas informaes acerca 
da gua.
- Foram as minhas divagaes que o deixaram preocupa-
do?
- No, no. Nem pensar nisso.  o primeiro filho e ela tem 
medo.
Adam pesou os prs e os contras durante toda a noite. No dia 
seguinte de manh, foi a casa de Bordoni, fechou o negcio e a 
terra dos Sanchez tornou-se sua.



CAPTULO XIV

1

H tanto a dizer a respeito do Oeste nessa poca, que no se 
sabe por onde comear. Uma coisa arrasta cem outras. A questo 
est em determinar qual ser a que se deve contar em primeiro 
lugar.
Recordam-se que Samuel dissera que os filhos tinham ido ao 
baile na escola de Peach Tree. As escolas rurais constituam en-
to os centros culturais. Nas cidades, a Igreja protestante lutava 
pela existncia numa regio onde era novidade. A Igreja catlica 
enraizada h muito tempo, adormecia numa tradio confortvel 
enquanto as misses eram gradualmente abandonadas, com os 
telhados a apodrecer e os pombos a arrulhar nos altares. A biblio-
teca (formada de livros latinos e espanhis) da misso de San 
Antonio, atirada para um sto, era devorada pelos ratos que roam 
as encadernaes de carneira. No campo, o repositrio das artes 
e das cincias era a escota; a professora empunhava o facho do 
saber e da beleza. Era na aula que se realizavam as discusses 
pblicas e as sesses de msica; era l que se instalavam as 
urnas para as eleies; era l que se coroavam as rainhas de 
Maio, que se fazia o panegrico dum presidente falecido e que se 
efectuavam os bailes nocturnos. E a professora no era apenas 
um padro de cincia e uma mulher notvel, era tambm o objec-
tivo matrimonial de toda a regio. Uma famlia podia legitimamen-
te orgulhar-se quando um dos seus filhos desposava a professo-
ra. Presumia-se que os filhos duma professora possuam grandes 
vantagens intelectuais, tanto por herana como pela educao.
As filhas de Samuel Hamilton, no estavam destinadas a tor-
nar-se lavradoras envelhecidas prematuramente pelos trabalhos do 
campo. Eram belas raparigas de quem emanava o esplendor ine-
rente aos seus ascendentes, os antigos reis da velha Irlanda. Pos-
suam uma altivez que transcendia a sua pobreza. Nunca ningum 
pensara que elas pudessem causar d. Samuel dera origem a uma 
raa distintamente superior. A todos Samuel comunicara a sua sede 
de aprender e no quisera que tivessem a orgulhosa ignorncia do 
seu tempo. Olive Hamilton fez-se mestre-escola. Aos quinze anos 
abandonou o rancho para ir viver em Salinas onde se matriculou na 
escola secundria. Aos dezassete anos fez os exames de aptido 
que abrangiam todas as artes e todas as cincias e, aos dezoito 
anos, era a professora de Peach Tree.
Olive tinha na sua escola alunos mais velhos e maiores do 
que ela. Era preciso muito tacto para ensinar. Manter a disciplina 
entre latages sem se servir duma pistola ou dum chicote era ta-
refa difcil e perigosa. Numa escola das montanhas, a professora 
fora raptada pelos alunos.
Olive Hamilton ensinava tudo a todas as idades. Muito pou-
cas crianas ultrapassavam o grau primrio nessa poca e, como 
no podiam abandonar os trabalhos do campo, precisavam s 
vezes de catorze ou quinze anos para conclurem o curso. Olive 
tambm era obrigada a possuir rudimentos de medicina, pois os 
acidentes eram constantes. Devia saber pensar uma chaga quan-
do se trocavam facadas no ptio de recreio. Quando um rapazito 
de ps descalos era mordido por uma cascavel, era a ela que 
competia chupar o dedo para extrair o veneno.
Aos pequenos ensinava o alfabeto, e a lgebra aos do ltimo 
ano. Dirigia o coro, fazia as vezes de crtico literrio e compunha a 
rubrica mundana que aparecia uma vez por semana no Jornal de 
Salinas. Tinha nas mos toda a vida social da regio. No s fazia 
os exames de admisso como organizava os bailes, as reunies, 
os debates, as festas do Natal e de Maio, e as grandes comemo-
raes patriticas do Decoration Day e do 4 de Julho. Pertencia  
junta eleitoral, dirigia e centralizava todas as obras de caridade. 
Era um trabalho que estava longe de ser fcil e que impunha de-
veres e obrigaes difceis de imaginar. A professora no tinha 
vida privada. Qualquer fraqueza de carcter era logo notada. No
podia hospedar-se numa casa durante mais de um perodo, para 
no despertar cimes: subia-se na escala social quando se dava 
guarida  professora. Se na casa onde ela se hospedava havia um 
filho em idade casadoira, era automaticamente pedida em matrim-
nio. E se havia vrios filhos, travava-se uma luta desesperada pela 
posse da sua mo. Os filhos dos Aguita, que eram trs, estiveram 
 beira de se matar por causa de Olive Hamilton. Era raro que uma 
professora conservasse o seu emprego por muito tempo. O traba-
lho era to esgotante e os pretendentes to encarniados que, na 
generalidade, logo se casava, em desespero de causa.
Era este um caminho por onde Olive Hamilton no estava dis-
posta a enveredar. Ela no partilhava os entusiasmos intelectuais 
do pai, mas, aps a estadia em Salinas, resolvera que nunca viria a 
ser uma lavradora. Queria viver numa cidade, talvez no to grande 
como Salinas, mas que tambm no fosse um lugarejo situado na 
encruzilhada de dois caminhos. Em Salinas, Olive aprendera os 
encantos da existncia, familiarizara-se com os coros e os para-
mentos, com as confrarias religiosas e os bodos na igreja episco-
pal. Despertara para o prazer das artes, companhias itinerantes 
vinham representar peas e at peras que exalavam o perfume 
mgico e embriagador dum mundo exterior cheio de promessas. 
Fora a recepes, jogara s adivinhas, concorrera a jogos florais e 
tocara numa orquestra. Salinas tentara-a. L, podia ir ao baile ves-
tida como deve ser e voltar a casa com a mesma roupa sem ter de 
enrolar o vestido num saco, cavalgar dez milhas e depois desenro-
lar o vestido e tornar a pass-lo.
Sempre que a escola rural lhe deixava algum tempo livre, Olive 
sonhava com a vida das grandes cidades. Por isso, quando o jo-
vem que construiu a moagem de Kng City, lhe pediu a mo, ela 
aceitou, sob condio de manterem o noivado secreto. Era neces-
srio para salvaguardar a tranquilidade da regio.
Olive no tinha o brio do pai, mas misturava-se nela um certo 
sentido do humor aliado  vontade inquebrantvel, herdada da 
me. A bem ou  fora, os seus alunos recalcitrantes eram obri-
gados a ingurgitar os conhecimentos humanos.
Havia um preconceito contra a cultura. Um homem queria que 
os seus filhos s soubessem ler, escrever e contar, e mais nada. 
Tudo o que fosse alm disto, era perigoso. Citavam-se muitos exem-
pLos de crianas que, por terem ido  escola em demasia, tinham 
trocado o campo pela cidade, considerando-se superiores aos pr-
prios pais. Conhecer a aritmtica suficiente para medir os terrenos, 
contar os animais e fazer as contas, saber passar uma encomenda 
e escrever cartes de boas-festas, saber ler os jornais, os seman-
rios e os boletins locais, conhecer a msica suficiente para cantar 
na igreja e entoar os hinos patriticos, era quanto bastava em ma-
tria de educao sem que se corresse o risco de ver um rapaz 
desviado do seu caminho. A cultura era para os mdicos, para os 
advogados, para os professores, uma classe social  parte. Havia 
excepes, evidentemente, como Sam Hamilton, que era tolerado 
e amado, mas se ele no fosse capaz de abrir um poo, de ferrar 
um cavalo ou de manobrar uma debulhadora, s Deus sabe o que 
teriam pensado da sua famlia.
Olive casou-se com o jovem empreiteiro e foi primeiro para 
Paso Robles, em seguida para King City e finalmente para Sali-
nas. Tinha a intuio dum gato. Os seus actos eram mais instin-
tivos do que reflectidos. Possua o queixo firme, o nariz arrebitado 
da me e os lindssimos olhos do pai. Era a mais representativa 
do tipo Hamilton, se exceptuarmos a me. A sua teologia era uma 
curiosa mistura de contos de fadas e do Antigo Testamento. J no 
fim da vida, confundia Jeov com o pai e vice-versa. O Paraso 
era para ela uma quinta agradvel onde habitavam os mortos da 
famlia. Recusava-se a aceitar os obstculos que a natureza colo-
ca no nosso caminho. E se havia algum que no partilhasse a 
sua recusa, ficava furiosa. Parece que numa noite de sbado cho-
rou amargamente por no poder ir a dois bailes ao mesmo tempo. 
Um realizava-se em Greenfield e o outro em San Lucas, a vinte 
milhas de distncia. Ir a ambos e, depois, regressar a casa, repre-
sentava uma galopada de sessenta milhas. Vexada por no poder 
encontrar uma soluo para tal problema, ps-se a chorar e no 
foi a nenhum dos bailes.
Com a idade, aperfeioou um mtodo espalhafatoso para lu-
tar contra a adversidade. Aos dezasseis anos, contra uma pleuri-
sia, doena mortal na poca. Fui decaindo, decaindo, at as asas 
dos anjos me roarem nas plpebras. Olive ps em prtica o seu 
mtodo para curar a pleurisia. O pastor rezou comigo e por fim, a 
madre superiora e as freiras do convento ao lado imploraram o Cu
duas vezes por dia, um dos nossos parentes afastados, que era 
telogo, meditava em minha inteno: foram aplicados todos os 
sortilgios, magias, frmulas de bruxaria; postaram  minha cabe-
ceira duas enfermeiras e os melhores mdicos da cidade. Foi um 
xito e eu restabeleci-me. Olive era afectuosa e firme com as mi-
nhas trs irms e comigo. Ensinava-nos a arrumar A casa, a lavar a 
loia e a roupa e a estar  mesa. Quando se zangava, ficava com 
um olhar terrvel perante o qual o culpado empalidecia como uma 
amndoa cozida.
Assim que me curei, tive de aprender novamente a andar. 
Estivera nove semanas na cama e os msculos atrofiados deixa-
vam-se penetrar pela preguia da convalescena. Quando me puse-
ram de p, todos os nervos gritaram e a ferida que eu tinha ao lado 
doeu-me horrivelmente. Tornei a cair na cama, berrando como um 
possesso:
- No posso, no posso levantar-me.
Olive fitou-me com o seu olhar terrvel.
- De p! - disse ela. - O teu pai passou estes dias todos a 
trabalhar e as noites  tua cabeceira. Por causa de ti encheu-se 
de dvidas. J de p!
E eu levantei-me.
Dvida era uma palavra hedionda e uma prtica ignbil para 
Olive. Uma conta por pagar no dia quinze de cada ms era uma 
dvida. Esta palavra evocava traio, desonra e mancha, Olive, 
que acreditava sinceramente ser a sua famlia a melhor do mundo 
no queria que ela fosse corroda pelas dvidas. To profunda-
mente nos inculcou esse terror que, mesmo hoje, num sistema 
econmico em que as dvidas fazem parte da vida, comeo a ficar 
preocupado quando uma factura tem dois dias de atraso. Olive 
nunca aceitou o principio do pagamento a prestaes, mesmo 
quando se tornou popular. Um objecto comprado a crdito no 
nos pertencia; era uma coisa pela qual nos tnhamos endividado. 
Para obter aquilo de que tinha vontade, fazia economias. E todos 
os vizinhos beneficiavam das novas invenes dois anos antes de 
ns.


2

Olive tinha uma coragem extraordinria. Talvez a coragem 
seja necessria para criar os filhos. Devo dizer-lhes o que ela fez 
durante a primeira guerra mundial. Olive no tinha uma mentalidade 
internacional. A sua primeira fronteira rodeava a famlia; a segunda, 
a sua cidade, Salinas; quanto  terceira, era uma linha vaga, inde-
finida, a que delimitava a sua provncia. Por conseguinte, custava-
lhe a acreditar na guerra, mesmo quando a nossa milcia a cavalo 
foi chamada, carregada num comboio e levada para um destino 
desconhecido.
Martin Hopps morava  esquina da nossa rua. Era largo, baixo 
e ruivo. Tinha uma boca enorme e olhos vermelhos. Era o rapaz 
mais tmido de Salinas. Dar-lhe os bons-dias era o mesmo que 
mergulh-lo num profundo terror. Pertencia  milcia pelo facto de a 
sua equipa de bsquete se treinar na sala de armas.
Se os Alemes tivessem conhecido Olive, se tivessem tido 
um pouco de senso comum, reflectiriam antes de agir. Mas ou 
no sabiam ou eram parvos. Na altura em que mataram Martin 
Hopps, perderam a guerra, pois a minha me encheu-se de fria 
e lanou-se-lhes na peugada. ela gostava muito de Martin Hoopps. 
Ele nunca fizera mal a ningum. Quando morreu, Olive declarou 
guerra ao imprio alemo.
Correu tudo  procura duma arma. Tricotar abafos ou pe-
gas no era actividade que ela considerasse suficientemente mor-
tfera. Durante algum tempo envergou o uniforme da cruz verme-
lha e reuniu-se na sala de armas com outras damas; para enrolar 
ligaduras e desenrolar reputaes. Era bem bom, mas no era 
assim que vibrava o golpe mortal no corao do Kaiser. Olive exi-
gia sangue em troca da vida de Martin Hoops. A arma que preten-
dia, achou-a nos Bnus da Liberdade. Ela, que nada vendera du-
rante toda a sua vida, se exceptuarmos alguns bolos na tmbola 
da igreja episcopal, ps-se a vender bnus as carradas. Fazia-o 
com uma espcie de ferocidade e suponho que as pessoas com-
pravam coagidas pelo medo. E, quando compravam a Olive, ela 
dava-lhes a sensao de combate real: mergulhavam uma baio-
neta no ventre da Alemanha.
 medida que o volume do negcio assumia uma amplitude
espectacular, o ministrio das Finanas comeava a acompanhar a 
actividade dessa nova Amazona. Primeiro vieram circulares de agra-
decimento, depois foram autnticas cartas assinadas pela mo do 
Ministro. Ns sentamo-nos orgulhosos, mas ainda o ficmos mais 
quando comearam a chegar os presentes: um capacete alemo 
- pequeno de mais para qualquer de ns -; uma baioneta; um 
pedao de granada montado numa base de bano. Como ramos 
muito novos para ir combater e como tnhamos de nos contentar 
em marchar com espingardas de pau, parecia-nos que a guerra 
movida pela nossa me, nos justificava. Foi ento que ela se ultra-
passou e que ultrapassou todos os habitantes daquela regio do 
pas. Quadruplicou o seu j fabuloso recorde e obteve a mais bela 
de todas as recompensas: um baptismo do ar num avio do exrci-
to.
Ah! como ficmos radiantes! Mesmo por procurao era uma 
glria difcil de suportar. Mas para a minha pobre me - devo 
dizer-lhes que a minha me no acreditava na existncia de cer-
tas coisas, mesmo que lhe fornecessem todas as provas - no 
existiam maus Hamilton, no existiam aeroplanos e acabou-se! 
No era o facto de j ter visto aeroplanos que a faria mudar de 
opinio.
Aps o acontecimento, tentei imaginar o que ela teria sentido. 
A sua alma deve ter uivado de terror, pois como se pode voar 
numa coisa que no existe? Ainda se esse voo tivesse sido um 
castigo, seria algo de cruel e de invulgar. Mas era uma recompensa, 
um dom, uma honra escolhida entre as maiores. Creio que ela 
nos fitou nos olhos e que viu uma tal idolatria que se deixou cair na 
armadilha. Se tivesse recusado, trairia a famlia., Estava entre a 
espada e a parede e a nica salvao era a morte. Quando resol-
veu subir para aquela coisa que no existia, pareceu-me que se 
resignara a no sobreviver  experincia.
Olive fez o testamento. Foi uma coisa que lhe levou muito 
tempo, e redigiu-o perante um notrio. Depois abriu o cofre de 
pau-rosa onde guardava as cartas que o marido lhe escrevera 
durante e depois do noivado. Ignorvamos que ele lhe tivesse es-
crito versos, mas afinal era verdade, Queimou todas as cartas; 
aquelas pginas pertenciam-lhe e no queria que mais ningum, 
as lesse. Comprou roupa de baixo nova porque no queria que a
encontrassem morta com roupa remendada, ou, o que era pior, 
rota.  possvel que ela avistasse a grande boca contorcida e os 
olhos embaraados de Martin Hopps e que julgasse pagar a seu 
modo essa vida roubada. Foi muito boa connosco e nunca nos 
disse nada quando os pratos mal lavados deixavam marcas de gor-
dura nos panos da loia.
A apoteose de Olive devia ter lugar no campo de corridas de 
Salinas. Fomos levados para a pista num automvel do exrcito e 
amos mais solenes e circunspectos do que em funerais nacio-
nais. O nosso pai trabalhava na refinao de acar de Spreckles, 
a cinco milhas da cidade, e no obteve licena; talvez no a tives-
se solicitado, receando no conseguir resistir  emoo. Mas Olive 
pedira para o avio passar por cima da fbrica antes de se des-
penhar. S agora compreendo que as centenas de curiosos que 
acorreram o fizeram apenas para admirar o avio, mas naquela 
altura julgvamos que se tinham deslocado para homenagear a 
minha me. Olive era pequena e j principiara a ficar obesa. Tive-
mos de a ajudar a sair do carro.  muito natural que j estivesse 
morta de medo, mas mantinha a cabea erguida.
O avio estava pousado na erva, no meio do campo de cor-
ridas. Parecia terrivelmente pequeno e frgil - um biplano de 
carlinga aberta e estrutura de madeira retesada por cordas de pi-
ano. As asas eram cobertas de lona. Olive mostrava-se aparva-
lhada. Encaminhou-se para o aparelho como um boi para o cutelo 
do chacinador. Dois sargentos ajudaram-na a vestir por cima da 
sua roupa - da mortalha, julgava ela - um fato-macaco, um blu-
so de pele de cabrito e um casaco de piloto. Cada nova camada 
a tornava mais rolia. Enfiou na cabea um capacete de coiro e 
uns culos e, com o seu narizinho e as faces rosadas, oferecia um 
espectculo que valia a pena ser visto. Tinha todo o ar duma ce-
bola. Os dois sargentos pegaram-lhe por debaixo dos braos e 
puseram-na na carlinga. Ela enchia completamente o lugar. As-
sim que eles apertaram o cinto de segurana, ela voltou subita-
mente  vida e ps-se a gesticular freneticamente para chamar a 
ateno. Um dos soldados iou-se at  carlinga, escutou-a, de-
pois dirigiu-se  minha irm Mary e conduziu-a ao aparelho. Olive 
lutou para se livrar da enorme luva de voo que lhe tapava a mo 
esquerda. Assim que a conseguiu libertar, tirou o anel de noivado
guarnecido dum pequeno brilhante e, estendeu-o a Mary. Depois, 
verificou se a aliana estava no seu lugar, tornou a calar as luvas e 
olhou para a frente. O piloto instalou-se no lugar da frente e um dos 
sargentos puxou com toda a fora a hlice de madeira. A pequena 
aeronave rodou, deu meia volta, depois, chegada ao fim do campo, 
fez um barulho ensurdecedor e levantou voo. Olive tinha a cabea 
muito direita, mas  muito possvel que levasse os olhos fechados.
,Acompanhmos o aparelho com a vista e, quando se afastou 
muito, deixou atrs de si um silncio melanclico. A comisso dos 
bnus, os amigos, parentes e simples espectadores nem sequer 
pensaram em abandonar o campo. Do aparelho apenas restava 
um ponto no cu, para os lados de Spreckles, e mesmo isso desapa-
receu logo a seguir. S quinze minutos depois o tornmos a ver.
Voava muito alto, serenamente. Ento, vimos horrorizados que 
perdia o equilbrio e caa. Caa sem fim, continuava a cair. Subita-
mente, endireitou-se, subiu e efectuou um looping. Um dos sar-
gentos desatou a rir. Por instantes, o avio voou a direito e depois 
pareceu-nos que enlouquecia. Executou um tonneau, alguns 
immelmans, alguns loopings exteriores e interiores, depois virou-
-se ao contrrio e passou por cima de ns nessa posio. Avist-
mos o ponto escuro que representava o capacete da nossa me. 
Um dos soldados disse pachorrentamente:
- Ele est doido. A mulher j no  nova.
O aparelho aterrou e aproximou-se do nosso grupo. O motor 
parou. O piloto saiu e abanou a cabea com ar perplexo.
- Mas que mulher espantosa!
Depois voltou-se para o lugar de trs, sacudiu a mo mole de 
Olive e afastou-se rapidamente.
Foram precisos quatro homens e bastante tempo para tirar 
Olive do seu lugar. Estava to rgida que no a conseguiam do-
brar. Levmo-la para casa. Pusemo-la na cama e no se levantou 
durante dois dias.
Tivemos de esperar muito tempo at sabermos o que se ti-
nha passado. Aos bocados, arrancmos ao piloto e a Olive alguns 
pormenores e tivemos de comparar as duas histrias para que 
formassem um certo sentido. Primeiro, tinham voado at  refina-
o de acar e dado a volta, como fora previsto - deram trs 
voltas para que o meu pai tivesse tempo de os ver. Foi ento que o
piloto resolveu pregar-lhe um susto. Gritou qualquer coisa com o 
rosto contrado pelo vento. Olive no compreendeu nada porque o 
barulho do motor abafava as palavras. O piloto cortou o gs e 
gritou:Folha morta? No passava duma partida. Mas Olive s viu 
o rosto contorcido sob os culos e o vento deformou as palavras. 
Olive apenas ouviu ... morte. 
Eu bem sabia, pensou ela. Chegou a altura. Tentou recor-
dar-se se no se esquecera de nada: o testamento, as cartas quei-
madas, a roupa de baixo nova e as provises para o jantar. Ainda 
procurou lembrar-se se tinha apagado a luz da arrecadao. Tudo 
isto no espao de um segundo. Depois pensou que talvez ainda 
restasse uma pequena probabilidade de se salvarem. O militar es-
tava cheio de medo, disso no havia a menor dvida. Se notasse 
que a passageira fora tomada pelo pnico, era capaz de ficar ainda 
com mais medo e de no conseguir dominar a situao. Resolveu, 
portanto, encoraj-lo. Endereou-lhe um sorriso encantador e aqui-
esceu com a cabea para lhe dar coragem. E foi nessa altura que 
se via de cabea para baixo. Assim que voltou  posio normal, o 
piloto perguntou-lhe: Mais?
Olive j no se encontrava em estado de responder fosse o 
que fosse. Mas mantinha a cabea erguida e estava firmemente 
decidida a ajudar o piloto para que ele fizesse boa figura antes de 
se esmagar no solo. Por conseguinte, tornou a sorrir e a acenar 
com a cabea. Sempre que terminava uma acrobacia, ele repetia-
-lhe a pergunta e ela tornava a encoraj-lo. Passado muito tempo, 
ele ainda repetia: Nunca encontrei uma mulher to espantosa. 
Fiz-lhe tudo o que aprendi na escola e ainda pediu mais. Caramba, 
aquilo  que dava um piloto.



CAPTULO XV
1

Adam instalou-se na sua nova propriedade como um gato con-
solado. Da entrada do seu pequeno vale, assinalada por um carva-
lho gigantesco que mergulhava as razes na humidade subterrnea, 
Adam avistava os terrenos aluvianos  beira do rio e os contrafortes 
arredondados das colinas. Era uma terra agradvel, mesmo sob o 
sol de Vero, atravessada por uma fila de chaparros e de sicmoros, 
e as colinas a Ocidente tinham o tom amarelo-castanho do feno 
maduro. Por uma razo desconhecida, a camada de hmus daque-
le lado do Vale  mais espessa do que a Leste e a erva cresce mais 
densa. Talvez as geleiras distribuam a gua mais por igual e talvez 
esta parte da montanha, mais arborizada, seja um centro de preci-
pitaes.
S uma pequena parte da terra dos Sanchez, agora dos Trask, 
era cultivada. Mas Adam j via os campos de aveia e os pastos de 
luzerna  beira do rio. Atrs dele, matraqueavam e serravam os 
carpinteiros vindos especialmente de Salinas para reparar a velha 
casa, pois fora nela que Adam resolvera fundar o seu novo lar. 
Raspou-se o estrume, arrancaram-se os velhos sobrados e as 
velhas janelas por onde as vacas enfiavam a cabea. A madeira 
carcomida seria substituda pelo abeto que rescendia e pela 
sequia aveludada. Um telhado novo iria para o lugar do antigo. 
Nas velhas paredes foram aplicadas vrias camadas de uma mis-
tura branca,  base de cal e gua salgada, que parecia fosfores-
cente, ao secar.
Um jardineiro aparara as roseiras, plantara gernios e esco-
lhera o local para a horta, depois de ter canalizado a gua do ribeiro
184
para regar o jardim. Adam pensava em si e nos seus descendentes. 
Num celeiro, tapados com lonas, repousavam belos mveis enviados 
de San Francisco e trazidos de King City na carroa.
Adam previa tudo. Lee, o seu cozinheiro chins, fizera uma 
viagem especial a Pajaro para comprar caarolas, panelas, jar-
ros, marmitas e tachos. Estava a ser construida uma nova pocilga, 
longe da casa e abrigada do vento, assim como um canil para os 
ces que haviam de defender a casa dos coiotes. Adam no queria 
pressas. Tinha muito tempo. Devagar, mas bem, dissera ele aos 
operrios. Verificava todas as juntas de madeira e perdia horas a 
examinar amostras de tinta. Num canto do seu quarto, amontoa-
vam-se catlogos de mquinas, de mveis, de sementes, de rvo-
res de fruto. Sentia-se satisfeito por o pai ter feito dele um homem 
rico. o Connecticut comeava a desvanecer-se-lhe na memria. 
Talvez fosse a luz crua do Oeste que apagasse as recordaes da 
terra natal. Sempre que pensava na casa do pai, no rancho, na 
aldeia, passava-lhe uma sombra pelo rosto. Era um passado que o 
importunava e desejava ver-se livre dele.
Mandara pintar a casa de madeira dos Bordoni e nela insta-
lara Cathy para que esperasse o nascimento do filho e o fim das 
obras. Mas no restava dvida nenhuma; a criana nasceria mui-
to tempo antes de a casa ficar pronta. Adam no tinha pressa.
Quero que seja slida. Quero que dure. Pregos de cobre e 
madeira resistente. Nada que enferruje ou apodrea.
Adam no era o nico a preocupar-se com o futuro. O mesmo 
acontecia em todo o Vale, em todo o Oeste. O passado j no era 
o bom tempo de antanho. Poder-se-a percorrer uma grande distn-
cia sem encontrar um homem que carpisse a juventude. Por mais 
duro e estril que fosse o presente, as pessoas sentiam-se  von-
tade nele, pois era o limiar dum futuro fantstico. Era raro que dois 
homens se encontrassem, que trs homens discutissem num bar, 
que uma dzia de homens comessem cabrito monts em torno 
duma fogueira, que no fosse para conversar do futuro do Vale 
que viria a ser um dia um paraso. E no se tratava duma conjec-
tura, mas duma certeza.
H-de ser... quem sabe? talvez ainda durante a nossa vida 
diziam eles.
E as pessoas imaginavam um futuro to rico como era mise-
rvel o seu presente. Na poca, para ir ao Vale, um lavrador das 
colinas era obrigado a empilhar a famlia numa espcie de carro 
constitudo por uma grande caixa na qual se fixavam quatro rodas 
macias sem eixos. No fundo, punha-se palha. A mulher aconche-
gava a si os filhos que batiam os dentes e que, com os solavancos, 
se arriscavam a cortar a lngua. O pai pensava: Quando tivermos 
estradas  que h-de ser bom. Iremos num cabriol e chegaremos 
a King City em trs horas. Que mais se pode desejar neste mun-
do?
Se um homem possua uma mata de carvalhos verdes - o 
melhor combustvel do mundo, mais rijo e mais quente que o car-
vo - e se tinha no bolso um jornal que anunciava: pagam-se 
dez dlares por metro cbico de carvalho em Los Angeles, dizia l 
para consigo: quando o caminho de ferro chegar at aqui, poderei 
levar a minha lenha  estao por dlar e meio cada metro cbico. 
Suponhamos que a Pacfico Sul me pede trinta e cinco cntimos. 
Com as despesas de explorao, ainda sobram cinco dlares e eu 
tenho trs mil metros cbicos de lenha. Ao todo, so quinze mil 
dlares que ali tenho.
Outros profetizavam que, um dia, o Vale viria a ser irrigado 
por canais. Quem sabe? Talvez seja antes de morrermos. Abri-
riam poos, iriam buscar a gua s entranhas da terra por meio de 
bombas a vapor. Veja se imagina. Pense s no que renderia esta 
terra se houvesse gua. Ali! jardim mais bonito no haveria!
Um outro homem - mas era doido - dizia que um dia des-
cobririam a maneira, talvez graas ao gelo, talvez de outra forma, 
de transportar aquele pssego que tinha na mo at Filadlfia.
Nas cidades, falava-se de esgotos e de retretes no interior 
das casas. Alguns j as tinham. Falava-se de lmpadas de arco  
esquina das ruas - j havia em Salinas - e de telefones. J no 
havia limites, o futuro era imenso. Viria o tempo em que o homem 
j no teria espao suficiente dentro de si mesmo para armazenar 
tanta felicidade. A alegria jorraria pelo Vale como o rio Salinas no 
ms de Maro dum ano chuvoso.
Contemplavam o vale chato, seco, poeirento e as horrveis 
cidades-cogumelo e s viam beleza. Quem sabe? Talvez enquan-
to formos vivos...  Era por isso que no se podia troar de Samuel 
Hamilton que deixava vaguear o esprito mais deliciadamente do
que qualquer outro; alis, o que ele dizia no parecia to idiota 
quando se sabia o que estavam fazendo em San Jos. Mas Samuel 
emitia dvidas. Seria a gente feliz quando tudo isso acontecesse?
Feliz? Dem-nos tudo isso e logo lhes mostramos o que  a 
felicidade.
E Samuel recordava-se de ter ouvido a histria dum primo da 
sua me, um baro irlands, rico e belo, amado pela mulher mais 
formosa do mundo e que, apesar disso, metera uma bala nos mi-
olos.
H apetites de felicidade, dizia Samuel, que nem todo um 
paraso conseguiria satisfazer.
Adam Trask tambm fazia incurses no futuro, mas o pre-
sente era uma fonte suficiente de felicidade. A alegria invadia-o 
quando imaginava Cathy sentada ao sol, calma, pegando no filho, 
com um rosto semelhante ao dos anjos das imagens da primeira 
comunho. s vezes, a brisa agitava-lhe os cabelos ou ela erguia 
os olhos e Adam sentia-se dominado por um xtase to profundo 
que chegava  ser doloroso.
Se Adam se sentia como um gato bem nutrido aninhado nas 
suas terras, Cathy tambm parecia um felino. Ela sabia renunciar 
s coisas para melhor poder vir a obt-las mais tarde. A sua gravi-
dez no passara de mero acidente. Quando o mdico a ameaara, 
aps a tentativa de aborto, ela abandonara a ideia. Isto no quer 
dizer que se tivesse reconciliado com o facto de estar grvida. Re-
solveu levar as coisas com pacincia, como se fosse uma crise de 
urticria, tal como tinha sido o seu casamento com Adam. Cara na 
armadilha. S lhe restava esperar. Tambm no quisera ir para a 
Califrnia, mas no tivera outro remdio. Muito pequena ainda, j 
aprendera a vencer utilizando o mpeto do adversrio.  fcil dirigir 
a fora dum homem, enquanto que  impossvel resistir-lhe. Muito 
poucas pessoas poderiam podido adivinhar que Cathy no queria 
estar onde estava e nas condies em que estava. Descansava e 
aguardava a oportunidade que no deixaria de se apresentar. Tinha 
a qualidade indispensvel aos grandes criminosos: no confiava 
em ningum, no se confiava a ningum. Era uma ilha. Era muito 
provvel que no deitasse um olhar  terra de Adam nem  casa; 
era natural que os projectos dele no a interessassem pois no 
tinha a inteno de continuar a viver ali aps a sua cura, assim que
as maxilas da armadilha se abrissem. Mas s perguntas do marido 
respondia da forma que ele esperava. Agindo de outro modo, teria 
perdido tempo e desbaratado foras.
- Ests a ver como a nossa casa  bonita com as janelas 
dando para o Vale?
--  maravilhosa - respondia Cathy.
-Talvez te parea ridculo, mas s vezes tento imaginar o que 
Fez o primeiro Sanchez h centenas de anos. Como seria o Vale, 
ento? Como ele deve ter previsto tudo cuidadosamente! Sabes 
que havia canalizaes? Encontrmos algumas quando revolvamos 
a terra. Eram feitas de troncos de sequia escavados.
-  extraordinrio. Ele devia ser muito inteligente.
- Gostava de saber mais alguma coisa acerca dele. Pela 
posio da casa, pela sua forma e pelas propores, pelas rvores 
que plantou, devia ser um artista no seu gnero.
- Era espanhol, no era? Ouvi dizer que os Espanhis eram 
artistas. Recordo-me que no meu livro escolar se falava dum pin-
tor... No. Esse era Grego.
- Gostava de saber onde poderia encontrar informaes a 
respeito do primeiro Sanchez.
- Algum deve saber.
- Quando penso no trabalho todo que ele teve, e o Bordoni 
transformou a casa num estbulo! Sabes o que eu mais gostaria 
de saber?
- O que era, Adam?
- Se ele tinha uma Cathy e quem era ela.
Ela sorriu, baixou os olhos e evitou-lhe o olhar. 
- Dizes-me cada uma...
- Devia ter uma, devia. Eu no tinha coragem, no tinha ob-
jectivo, nem sequer... tinha grande desejo de viver antes de te 
conhecer.
- Adam, no digas isso. No faas pouco de mim. Olha que 
me ofendes.
- Desculpa. Sou to desajeitado.
- No s, no. Mas no reflectes no que dizes. Achas que
devo tricotar ou coser? Sinto-me to bem, sentada ao sol.
- Eu compro tudo o que for preciso. Contenta-te em ficar
sentada. Num certo sentido, tu ainda s quem mais trabalha aqui.
Mas o resultado  maravilhoso.
- Adam, a minha cicatriz nunca mais desaparece.
- O mdico disse que desaparecia com o tempo.
- s vezes acredito que sim, mas depois ela torna a acen-
tuar-se. Achas que est mais escura, hoje? 
- No me parece.
No entanto, estava. Assemelhava-se a uma grande dedada e a 
pele parecia franzida a toda a volta. Adam aproximou o dedo e ela 
recuou a cabea.
- No - disse ela-,  muito sensvel ao toque. Se carrega-
res, fica encarnada.
Sorriu-lhe quando o viu afastar-se mas, assim que ele desa-
pareceu, os olhos perderam-se-lhe no vazio. Aconchegou-se bem 
na cadeira. O beb estava a dar pontaps. Respirou e descontraiu 
todos os msculos. Esperava.
Lee aproximou-se da cadeira instalada sob o carvalho mais 
frondoso.
- Sinhla, qu ch?
- No... Quero, sim.
Cathy perscrutou-lhe a expresso mas no conseguiu inter-
pretar o sentido do seu olhar. O chins deixava-a embaraada. Cathy 
sabia perfeitamente rebuscar o crebro dum homem para lhe adivi-
nhar os mpetos e os desejos. Mas o de Lee amachucava-se e 
voltava ao seu lugar como espuma de borracha. O rosto magro com 
uma testa larga, firme e sensvel era agradvel; os lbios sorriam 
sempre. Nas costas pendia e mexia ao ritmo dos gestos o longo 
rabicho brilhante terminado por uma estreita fita de seda preta. 
Quando precisava de fazer um trabalho violento, Lee prendia o rabicho 
no alto da cabea. Usava calas de algodo muito cingidas, sand-
lias pretas sem salto e uma comprida cabaia chinesa. Sempre,que 
podia, escondia as mos nas mangas, como que para as proteger.
- V busc mesinha - disse ele.
Cumprimentou ligeiramente e afastou-se.
Cathy seguiu-o com o olhar e franziu as sobrancelhas. No 
tinha medo de Lee e, contudo, no se sentia  vontade na sua 
presena. Mas era um excelente criado, respeitoso... o melhor. 
Que mal lhe poderia fazer?


2

O Vero progredia e o rio Salinas secava. S algumas poas 
verdes subsistiam junto das margens. O gado ruminava todo o dia 
debaixo dos salgueiros e apenas se levantava  noite para comer. 
A erva comeava a adquirir um tom ruo.  tarde, o inevitvel vento 
descia peloVale e levantava uma poeira que subia como nevoeiro 
para o cu, at quase ao cimo das montanhas. As razes da aveia 
brava, desnudadas pelo vento, pareciam cabeas de preto. Na terra 
polida, palhas e gravetos corriam doidamente at encontrarem um 
obstculo. E os calhaus voavam aos saltos, empurrados pelo ven-
to.
Compreendia-se ento porque  que o primeiro Sanchez cons-
trura a casa no valezinho. O vento e o p no chegavam l e o 
ribeiro, embora tivesse um caudal diminuto, continuava a fornecer 
uma gua clara e fria. Mas Adam, sempre que contemplava a sua 
terra seca, obscurecida pela nuvem de poeira, sentia o pnico 
prprio do homem do Leste que se v pela primeira vez na 
Califrnia. No Connecticut se, durante o Vero, h duas semanas 
a fio sem chover, fala-se logo em seca. Quatro semanas so uma 
catstrofe. Se a erva no se mantm verde, morre. Mas na 
Califrnia no chove geralmente entre fins de Maio e princpios de 
Novembro. E o homem do Leste, apesar de prevenido, julga que a 
terra est doente durante os meses secos.
Adam enviou Lee com um recado ao Sr. Hamilton, pedindo-
-lhe que o fosse ver para discutirem a abertura de alguns poos.
Samuel estava sentado  sombra, observando o filho Tom 
que montava um novo tipo de armadilha, quando Lee chegou no 
carro dos Trask. Lee dissimulou as mos nas mangas, enquanto 
Samuel lia a mensagem.
- Tom - disse ele - achas que s capaz de tomar conta da 
propriedade enquanto eu for tratar duma questo de guas com 
um homem seco?
- Leva-me contigo. Talvez precises de ajuda.
- Para falar? No, obrigado. Os trabalhos de abertura ainda 
levaro certo tempo para comear. Quando se trata de poos, tem 
de se comear por falar muito. Cerca de quinhentas a seiscentas 
palavras por cada pazada de terra.
- Gostava de ir. Tu vais a casa do Sr. Trask, no vais? Eu no 
o vi quando c veio.
- Logo vais quando comearem as obras. Como sou mais 
velho do que tu, tenho o direito de falar em primeiro lugar. V se 
tens cuidado, Tom, se cair uma doninha na armadilha, basta-lhe 
enfiar uma pata por este stio para se soltar. Bem sabes como so 
espertas.
- Ests a ver esta barra? D uma volta e fica presa. Nem tu 
eras capaz de te soltar.
- Eu no sou to esperto como uma doninha. Mas parece-
-me que achaste a soluo. Tom, no te importas de selar o 
Doxology enquanto vou dizer  tua me para onde vou?
- Mim leva sinh - disse Lee.
- De qualquer forma, tenho de voltar para casa. 
- Mim tlaz sinh.
- Que disparate! - disse Samuel. - Atrelo o cavalo ao car-
ro e volto nele.
Samuel sentou-se no cabriol ao lado de Lee, enquanto o 
cavalo os seguia com um passo desigual.
- Como se chama? - perguntou Samuel para ser agrad-
vel.
- Lee. Tenho outlo nome, mas Lee nome famila do pap. 
Tlate-me pu Lee.
- Tenho lido muitas coisas sobre a China. Foi l que nas-
ceu?
- No. Nasc aqui.
Samuel manteve-se calado durante muito tempo, enquanto o 
carro descia aos solavancos para a poeira do Vale.
- Lee - disse ele por fim - no pretendo ofend-lo, mas 
nunca consegui compreender porque  que os da sua raa conti-
nuam a falar o pidgim quando os labregos analfabetos das terras 
negras da Irlanda, que tm o bestunto cheio de galico e a lngua 
como uma batata, aprendem o ingls em menos de dez anos.
Lee sorriu.
- Mim fal linga chinesa.
- L deve ter as suas razes e eu no tenho nada com isso. 
Espero que me desculpe se no acreditar no que diz.
Lee fitou-o e os seus olhos castanhos sob as plpebras esfri-
cas pareceram adquirir uma certa profundidade at se tornarem 
calorosos e compreensivos. Lee riu-se.
-  mais do que uma convenincia - disse ele. - At  
mais do que uma proteco. Se quisermos ser compreendidos, 
temos de utilizar esta linguagem.
Samuel no deu a entender que notara a modificao.
- Compreendo os dois primeiros motivos - disse. - Agora o 
terceiro  que no percebo.
-'Eu sei que custa a acreditar. Mas j nos aconteceu tantas 
vezes, aos meus compatriotas e a mim, que o consideramos uma 
regra geral. Se me apresentar a um homem ou a uma mulher e 
lhes falar como o estou a fazer neste momento, no me com-
preendem.
- Porque esto preparados para ouvir o pidgim e s isso  que 
percebem. Se falar ingls, no me escutam e, portanto, no me 
compreendem.
- Ser possvel? Ento como  que eu o compreendo?
-  por isso que lhe falo. O senhor  um dos raros homens 
que conseguem separar a ideia recebida da ideia preconcebida. 
O senhor v o que , enquanto que a maioria das pessoas no v 
seno o que espera ver.
No tinha pensado nisso. No tenho tanta experincia com 
voc. Mas o que disse parece reflectir a verdade. Estou a gostar 
muito de conversar consigo. Tinha tantas perguntas a fazer-lhe.
- Teria o maior gosto em responder-lhes.
- Tantas perguntas. Por exemplo, voc usa rabicho. Li em 
qualquer parte que era um sinal de escravido imposto pelos con-
quistadores manchus aos Chineses do Sul.
-  a verdade.
- Mas ento, valha-o Deus, porque  que usa rabicho quan-
do nada tem a recear dos Manchus?
- Mim fal pidgim, mim us rabicho china. Sinh complende? 
Samuel soltou uma gargalhada.
- J compreendi onde quer chegar. Quem me dera ter tam-
bm um alapo desses para me escapar de vez em quando.
- No sei se lhe poderei explicar tudo - disse Lee. - Quan-
do existe uma certa falta de experincia,  muito difcil. Se no me 
engano, o senhor no nasceu na Amrica...
- No, nasci na Irlanda.
- Apesar disso, daqui a alguns anos ter perdido os carac-
teres distintivos do Irlands. Enquanto que eu, que nasci na Amri-
ca, que fui  escola e passei vrios anos numa universidade, no 
tenho qualquer probabilidade de vir a passar por americano.
- Mesmo que cortasse o rabicho, que se vestisse e falasse 
como ns?
- Sim, mesmo assim. J tentei. Para os pretensos brancos, 
eu continuava a ser um chins, mas um chins que procurava 
dissimul-lo. Ao mesmo tempo, os meus amigos iam-se afastan-
do de mim. Tive de desistir.
Lee deteve o carro sob uma rvore, desceu e tirou o freio ao 
cavalo.
-  tempo de almoar - disse. - Trouxe um farnel. Quer 
partilh-lo comigo?
- Com todo o prazer. Vou pr-me  sombra. J me tem acon-
tecido esquecer-me de comer, o que  tanto de estranhar por-
quanto ando sempre com fome. Interessa-me muito o que diz; 
tem um tom de autoridade. Nunca se lembrou de ir para a China?
Lee sorriu com ironia.
- Daqui a pouco, h-de ter feito todas as perguntas que eu j 
fiz a mim mesmo. J estive na China, j. O meu pai tinha uma 
ptima situao antes de se vir embora. Comigo no deu resul-
tado. Disseram-me que tinha o ar de um demnio estrangeiro, 
que falava como um demnio estrangeiro, que cometia faltas de 
tacto e que ignorava todas as delicadezas que se tinham posto na 
moda depois da partida do meu pai. A China no queria nada co-
migo. Quer queira acreditar quer no, sou menos estrangeiro aqui 
do que na China.
- Acredito, pois parece-me muito razovel. Acaba de me for-
necer matria para pensar, pelo menos, durante um ano. As mi-
nhas perguntas esto a aborrec-lo?
- Pelo contrrio. O defeito do pidgim  que se acaba por 
pensar em pidgim. Eu escrevo muito para manter o meu ingls 
em forma. Ouvir e ler no  a mesma coisa que falar e escrever.
- E nunca se engana? Quer dizer: nunca lhe acontece come-
ar a falar ingls de repente?
- No. O mais importante  saber-se o que se espera de ns.
Perscrutam-se os olhos dum homem e v-se logo que ele espera 
que falem pidgim e que faam erros de sintaxe. Ento, pomo-nos a 
falar pidgim e a massacrar a gramtica.
- Tem razo - disse Samuel.- Eu prprio, se digo piadas  
porque as pessoas vm de muito longe para que eu as faa rir. 
Procuro ser engraado mesmo que esteja invadido pela tristeza.
- Mas dizem que os Irlandeses so alegres e felizes.
- Isso  o pidgim e o rabicho, deles. No so, no.  um 
povo sombrio mais dotado para sofrer do que realmente merece. 
Diz-se que se matariam se no tivessem o usque para lhes ado-
ar a vida. E se gracejam,  porque  isso o que deles se espera.
Lee tirou uma garrafa do cesto.
- Quer provar?  uma bebida chinesa, Ng-ka-py. 
-O que ?
- Aguardente chinesa. Muito forte. Na realidade,  uma mis-
tura de aguardente e absinto.  fortssimo e faz adoar a vida. 
Samuel bebeu um gole.
- Sabe a mas podres.
- Pois , mas a boas mas podres. Encha a boca, deixe a 
lngua impregnar-se bem e beba devagarinho.
Samuel tomou um bom trago e atirou a cabea para trs. Estou 
a ver o que quer dizer. , de facto, muito bom.
-Aqui tem sandes, pepino de conserva, queijo e uma lata de 
leite.
- Sabe fazer as coisas.
- Claro.
Samuel mordeu uma sandes.
- No tinha menos de quinhentas perguntas a fazer-lhe. Gos-
taria de lhe fazer a mais interessante de todas. No o mao?
- De forma nenhuma. A nica coisa que lhe peo  que no 
fale assim quando estiverem outras pessoas a escutar. S contri-
buiria para as embaraar e, seja como for, no acreditavam.
- Vou tentar - disse Samuel. - Se me enganar, no se 
esquea que tenho fama de cmico.  difcil cortar um homem ao 
meio e servir-se sempre da mesma metade.
- Creio poder adivinhar a sua pergunta.
- Qual ?
- Porque me contento em ser criado?
- Como diabo  que adivinhou?
- Era lgico.
- A pergunta desagrada-lhe?
- Vinda de si, no. S so desagradveis as perguntas envol-
vidas em condescendncia. No compreendo porque  que a con-
dio de criado tem m fama.  o refgio do filsofo, o alimento do 
preguioso e, se for bem compreendida,  uma posio de poderio 
e at de amor. No percebo como  que no h mais pessoas 
inteligentes que abracem esta carreira, lhe aprendam os segredos 
e dela beneficiem. Um bom criado est ao abrigo, no atrs da 
bondade do amo, mas atrs do hbito e da preguia. Um homem 
tem dificuldade em cozinhar ou em passajar as meias. E prefere 
ficar com um mau criado a troc-lo por outro. Mas um bom criado 
- e eu sou excelente - pode dirigir completamente a vida do seu 
amo. Pode dizer-lhe o que deve pensar, como deve agir, deve casar, 
quando deve divorciar-se. Pode reduzi-lo ao terror pelo hbito, ofe-
recer-lhe a felicidade e, finalmente, ser contemplado no seu testa-
mento. Se tivesse querido, poderia ter roubado, espoliado e espan-
cado todos aqueles para quem trabalhei, acabando ainda por obrig-
los a agradecer-me.. Se pesarmos tudo bem, a minha condio 
no me protege, mas o meu amo tem o dever de me defender. O 
senhor  obrigado a trabalhar e a enfrentar as preocupaes. Eu 
trabalho e preocupo-me menos do que o senhor. E sou um bom 
criado. Um mau criado no trabalha, no se preocupa com nada e 
no deixa de ser vestido e protegido. No conheo nenhuma profis-
so em que haja tanta incompetncia e em que a excelncia seja 
to rara.
Samuel inclinara-se para ele, escutando-o com o maior inte-
resse.
Lee continuou:
- Que alvio no vai ser voltar a falar pidgim!
- Estamos pertissimo de casa. Porque foi que parmos? 
- Pla t tempo fal. Sinh t plonto?
- O qu? Ah!... estou, sim. Mas  uma vida muito solitria a
sua.
-  o nico inconveniente. J pensei em ir para San Francis-
co e abrir uma lojeca.
- Lavandaria? Ou uma mercearia?
- No. J h muitas lavandarias e restaurantes chineses. Ti-
nha pensado numa livraria. O ramo agradava-me e a concorrncia 
no havia de ser grande. Mas o mais provvel  nunca o fazer. Um 
criado perde o esprito de iniciativa.


3

Samuel e Adam percorreram a propriedade a cavalo. Como 
todas as tardes, o vento comeou a soprar e a poeira amarela 
ergueu-se no cu.
-  uma bela terra -disse Samuel. - No h dvida que .
- Tenho a impresso de que o vento a leva - observou Adam. 
- No, apenas a desloca. O que o vento lhe tira vai cair na terra 
dos James e voc recebe o que vem dos Southeys.
- No gosto do vento. Pe-me nervoso.
- Ningum gosta. At deixa os animais inquietos. No sei se 
reparou, mas um pouco mais para o alto do Vale plantam barrei-
ras de eucaliptos para cortar o vento. So rvores que vm da 
Austrlia e dizem que crescem trs metros por ano. Porque no 
planta algumas filas para ver? Com o tempo, podero deter o ven-
to e daro excelente lenha para queimar.
- Boa ideia - disse Adam. - Mas o que eu quero  gua. 
Este vento bombearia toda a gua que eu pudesse encontrar... 
Pensei que se furasse alguns poos e irrigasse, a terra no se iria 
embora. At poderia experimentar semear feijo.
Samuel franziu os olhos para os proteger do vento.
- Vou tentar encontrar-lhe gua - disse. - Inventei uma 
bomba que aspira muito depressa. Um moinho de vento custa 
caro, mas talvez lhe possa fabricar um mais em conta.
- ptimo - disse Adam. - Se o vento trabalhar para mim, 
j no me incomoda e, se tiver gua, poderei semear luzerna.
-  coisa que rende pouco.
- No  nisso que eu pensava. H algumas semanas fui dar 
uma volta para os lados de Greenfield e de Gonzales. Descobri l 
uns suos que alimentam as manadas de vacas leiteiras com 
quatro colheitas de luzerna por ano.
-J ouvi falar nisso. Mandaram vir os animais da Sua. 
O rosto de Adam parecia iluminado.
- O que eu queria fazer era vender a manteiga e o queijo e dar 
o almece aos porcos.
- Voc vai valorizar o Vale - disse Samuel. -  um homem 
de iniciativa.
- Se encontrar gua.
- Encontrar-se- se houver. Trouxe a minha varinha mgica. 
Com a mo, acariciou uma varinha bifurcada presa  sela. 
Adam apontou  esquerda um grande plaino coberto de
artemsia an.
- Veja - disse ele. - Trinta e seis acres to lisos como um 
soalho. J os sondei. A camada de terra tem a mdia de um metro 
de espessura e est ao alcance da relha do arado. Acha que seria 
capaz de encontrar gua?
- No sei - disse Samuel. - Vou ver.
Desceu do cavalo, estendeu as rdeas a Adam e pegou na 
varinha. Depois, principiou a andar. Lentamente, com os braos 
esticados para a frente, segurando cada uma das pontas da 
forquilha. Deslocava-se em ziguezague. Uma vez, franziu o cenho, 
recuou alguns passos, depois abanou a cabea e recomeou a 
avanar. Adam cavalgava ao lado dele, segurando o outro cavalo.
Adam no desviava os olhos da varinha. Viu-a estremecer e 
depois torcer-se ligeiramente como a ponta duma cana de pesca 
que fosse puxada por um peixe invisvel. O rosto de Samuel esta-
va contrado. Continuou a andar at que a extremidade da varinha 
pareceu violentamente atrada para o cho, lutando contra a mo 
que a retinha. Samuel girou lentamente em crculo, partiu um ramo 
de artemsia e atirou-o ao cho. Depois, saiu do crculo traado, 
tornou a colocar a varinha em posio e dirigiu-se para o centro 
marcado pelo ramo quebrado.  medida que se aproximava, a 
ponta da varinha era novamente atrada. Samuel suspirou, pare-
ceu distender-se e deixou cair a varinha no cho.
- Aqui h gua - disse ele. - E no est muito profunda. A 
atraco era forte. Deve haver muita gua.
- Bom - disse Adam. - Vou mostrar-lhe dois outros stios.
Samuel desfolhou um ramo de artemsia e espetou-o na ter-
ra. Depois, fendeu-o na ponta e entalou outro galho para servir de
ponto de referncia. Antes de se ir embora, ainda calcou o solo 
para poder encontrar a marca com facilidade.
Numa segunda tentativa, a trezentos metros de distncia, a 
varinha pareceu literalmente querer fugir-lhe das mos.
- H toneladas de gua - disse ele.
A terceira tentativa no obteve resultado. Aps hora e meia de 
esforos, a varinha no deu o mais pequeno sinal de agitao. Os 
dois homens regressaram lentamente a cavalo para casa. O ar es-
tava doirado pela refraco dos raios solares atravs da poeira ama-
rela. Como de costume, o vento acalmara com o cair da tarde, mas 
s vezes s a meio da noite  que a poeira voltava a cair no cho.
- Eu bem sabia que era uma boa terra - disse Samuel.
 uma coisa, que se nota  primeira vista. Deve haver um rio 
subterrneo que vem da serra. O senhor sabe escolher uma terra.
Adam sorriu.
- Ns tnhamos um rancho no Connecticut. H seis gera-
es que no fazemos outra coisa seno arrancar-lhe as pedras. 
Mal sabia andar j apanhava pedras para fazer muros. At julga-
va que todas as herdades fossem iguais. Aqui a terra parece-me 
estranha e eu quase que me sinto culpado. Se quisssemos uma 
pedra teramos de andar muito antes de a encontrar.
- O pecado  coisa curiosa - observou Samuel.- Se um 
homem se visse obrigado a despojar-se de tudo o que tem, creio 
que o faria de modo a ficar com alguns pecadinhos para seu pr-
prio tormento. So sempre as ltimas coisas que largamos.
- Talvez seja um bom meio de se mostrar humilde perante a 
ira de Deus.
- No h dvida de que a humildade  uma boa coisa - 
disse Samuel -, pois raros so os homens que no a tm, mes-
mo em pequena quantidade. Mas chega-se a perguntar onde  
que reside o seu valor. A no ser que a aceitemos como uma dor 
agradvel e muito preciosa. A dor... gostava de saber se j algu-
ma vez foi bem compreendida.
- Fale-me da sua varinha - pediu Adam. - Como  que 
funciona?
Samuel designou com o dedo a varinha bifurcada presa na 
sela.
- A verdade  que no acredito nela. Mas no h que duvidar:
funciona. (Sorriu a Adam.) -Talvez eu saiba onde se encontra a 
gua, talvez eu a sinta. Uns tm o sentido da orientao, outros 
tm o sentido da gua. Suponha... chamemos humildade, ou falta 
de f em mim mesmo s razes que me obrigam a empregar mto-
dos de feiticeiro para trazer  superfcie o que eu sei existir com 
toda a certeza. Compreende o que eu quero dizer?
- Preciso de pensar nisso - disse Adam.
Os cavalos caminhavam  vontade, de cabea baixa e freio 
nos dentes.
- Quer passar c a noite? - perguntou Adam.
- Podia faz-lo mas mais vale que no. No preveni a Lizza 
e no quero que se aflija por minha causa.
- Mas ela sabe onde est.
- Pois sabe, mas prefiro voltar para casa. A hora pouco im-
porta. Se me convidar para jantar, aceito. Quando quer comear a 
abrir os poos?
- Assim que puder.
- Sabe que a mania da gua no sai nada barata? Terei de 
levar cinquenta cntimos ou mais por cada meio metro, consoan-
te o terreno que encontrarmos. Pode sair-lhe caro.
- Dinheiro no me falta. O que eu quero  gua. Oia, Sr. 
Hamilton...
- Trate-me por Samuel.
- Oia, Samuel, eu quero transformar a minha terra num 
jardim. No se esquea de que me chamo Adam. At hoje, nunca 
conheci o paraso ou, se o conheci, foi para me ver posto na rua.
- No se pode arranjar melhor pretexto para fazer um jardim 
- exclamou Samuel.- E onde tenciona plantar o pomar?
Adam respondeu:
- No quero macieiras.  escusado ir ao encontro dos aborre-
cimentos.
- E que diz a isso a sua Eva? No se esquea de que a 
opinio dela tambm conta. Eva adora as mas.
- A minha no. (Os olhos de Adam brilhavam.) - Voc no 
conhece a minha Eva. H-de ficar satisfeita com a minha deciso. 
Ningum pode avaliar at onde vai a generosidade dela.
- Ento  uma raridade. No h maior dom.
Aproximavam-se da entrada do pequeno vale onde se escon-
dia a casa dos Sanchez. J se avistavam as copas verdes e arre-
dondadas dos grandes carvalhos.
- Um dom - disse brandamente Adam.-O senhor nem pode 
imaginar. A minha vida era cinzenta, Sr. Hamilton... Samuel. No 
que fosse m, comparada com outras vidas, mas no era nada. 
Nem sei porque lhe estou a dizer isto.
- Talvez seja por eu gostar de ouvir.
- A minha me faleceu muito antes de eu comear a ter 
recordaes; a minha madrasta era uma mulher cheia de qualida-
des, mas doente. O meu pai era um homem severo. Talvez fosse 
um grande homem...
- E no conseguia gostar dele.
- Sentia por ele o que se sente na igreja, mas sem sombra de 
medo.
Samuel aquiesceu.
- Bem sei. E  o que pretendem certos homens. (Sorriu.) - 
Sempre desejei outro amor. A Lizza diz que  uma das minhas 
fraquezas.
- O meu pai alistou-me no exrcito. Estive no Oeste a com-
bater os ndios.
- J me disse isso, mas no raciocina como um militar.
- Nunca o consegui ser. Parece-me que lhe estou a contar a 
minha vida.
-  porque o deseja. H sempre uma razo.
- Um soldado deve querer fazer o que lhe mandam. Ou, 
pelo menos, no deve ir contra as ordens. Eu no conseguia des-
cobrir motivos fortes para matar homens e mulheres e no com-
preendia as justificaes quando as davam.
Cavalgaram um momento em silncio e, depois, Adam pros-
seguiu:
- Sa do exrcito a arrastar-me como se quisesse livrar-me 
dum atoleiro. Vagueei muito tempo antes de voltar a casa, um 
lugar de que me lembrava mas que no amava.
- E o seu pai?
- Morreu. E a casa no era mais que um lugar para me sen-
tar, ou trabalhar enquanto a morte no vem, como se se esperas-
se por uma festa terrvel.
-  filho nico?
- No. Tenho um irmo.
- E onde est ele? Espera pela festa?
- Sim,  exactamente isso. Foi ento que apareceu a Cathy. 
Talvez lhe conte um dia como as coisas se passaram, se estiver 
disposto a ouvir.
- Pode crer que estou. Gosto de histrias como de uvas.
- Ela emitia uma espcie de luz. E tudo mudou de cor. O 
mundo abriu-se e sabia bem acordar. J no havia limites. As pes-
soas eram boas e belas. Eu perdera o medo.
- Estou a reconhecer isso - disse Samuel.-  um velho 
conhecimento. Sem nunca morrer completamente, s vezes afas-
ta-se ou ento  voc que o faz. Estou a reconhecer isso, estou - 
os mesmos olhos, o nariz, a boca e o cabelo.
- E tudo veio duma rapariguinha ferida.
- E de si mesmo, tambm no?
-Ah! no. Teria vindo mais cedo. Foi a Cathy quem o trouxe 
e  ela prpria quem o alimenta.  por isso que quero gua. Tenho 
de pagar o que recebi. Vou fazer um jardim maravilhoso onde ela 
possa viver e espalhar a sua luz.
Samuel engoliu a saliva vrias vezes. Quando falou, a voz 
parecia comovida.
- Sei qual  o meu dever - disse ele. - E devo cumpri-lo, 
se sou homem e se sou realmente seu amigo. 
- Que quer dizer?
Samuel acrescentou com ironia:
-  meu dever arrancar essa coisa que vive em si, esmagar-
-lhe a cabea, plant-la  sua frente e cobri-la de cal viva para que 
no irradie. (A voz avolumou-se, veemente.) - Deveria mostr-la 
a si tal qual : fedendo a esterco, perigosa e porca. Deveria acon-
selh-lo a perscrut-la at que descobrisse como ela na realidade 
 medonha. Deveria acautel-lo contra a infidelidade e dar-lhe 
exemplos. Deveria estender-lhe o leno de Othello. Ai no que 
no sei que deveria faz-lo! E deveria endireitar-lhe os pensamen-
tos desequilibrados e mostrar-lhe que esse entusiasmo  cinzento 
como o chumbo e est podre como um animal morto. Se cumpris-
se o meu dever, devolv-lo-ia  sua antiga e triste vida e s teria 
que me felicitar por isso.
- Est a brincar? Talvez no devesse ter-lhe dito...
- Um dia, um dos meus amigos cumpriu o seu dever para 
comigo. Mas eu sou um falso amigo. Voc possui uma coisa mag-
nfica, preserve-a e arda com ela. E quanto a mim, abro-lhe todos 
os poos que quiser, nem que tenha de enfiar a sonda at s ne-
gras entranhas da terra. A gua h-de esguichar como o sumo 
dum fruto.
Cavalgaram sob os grandes carvalhos em direco  casa. 
Adam disse:
- L est ela, sentada  porta. (Gritou:) - Cathy, h gua, 
muita gua. (Depois, numa voz perturbada, acrescentou para 
Samuel:) - Sabia que ela estava  espera duma criana?
- Mesmo de to longe, parece muito bonita - respondeu 
Samuel.


4

O dia fora muito quente. O Sol estava quase a desaparecer por 
detrs das cristas da serra. Lee ps a mesa debaixo dum carvalho, 
andando numa roda-viva entre a rvore e a cozinha, levando as car-
nes frias, os picles, a salada de batata, um bolo de coco e uma 
torta de pssegos. No centro da mesa, colocou um grande jarro de 
barro cheio de leite.
Adam e Samuel voltaram do lavatrio com a cara e o cabelo 
reluzentes de gua; a barba de Samuel encaracolara aps a ensa-
boadela. Ficaram de p diante da mesa desmontvel e aguarda-
ram Cathy.
Ela chegou devagar, pousando cautelosamente os ps, como 
se tivesse medo de cair. Uma saia plissada e um avental dissimu-
lavam, at certo ponto, o ventre inchado. O rosto tinha uma ex-
presso calma e infantil; vinha de mos cruzadas em cima da bar-
riga. S quando chegou perto da mesa  que ergueu os olhos 
para contemplar Samuel e, logo a seguir, Adam.
Adam ofereceu-lhe uma cadeira.
- Ainda no conheces o Sr. Hamlton, querida. 
Cathy estendeu a mo.
- Como est?
Samuel estivera a observ-la e achava-a bela.
- Muito prazer em conhec-la. Tem passado bem, no  ver-
dade?
- Tenho, sim, muito obrigada!
Os homens sentaram-se.
- Para ela, cada refeio  uma cerimnia que ela honra ou 
no com a sua presena - disse Adam. 
- No digas isso. No  verdade.
- No acha que h uma atmosfera de festa, esta tarde, 
Samuel?
-  verdade. E, pelo que me toca, estou sempre disposto a 
participar numa festa. Quanto aos meus filhos, ainda so piores. 
O meu filho Tom queria vir hoje. Ficou a remorder-se na quinta.
Samuel notou subitamente que estava falando para evitar que 
o silncio casse sobre eles. Calou-se e o silncio amortalhou-os. 
Cathy olhava para o prato enquanto comia a fatia de carneiro as-
sado. S erguia a cabea para introduzir uma garfada entre os 
dentinhos aguados. Nos olhos muito abertos, no havia nada. 
Samuel arrepiou-se.
- Faz frio, no faz?- perguntou Adam.
- Frio? No. Parece que algum me pisou a sepultura. 
- J tenho tido essa sensao.
O silncio voltou a cair. Samuel esperava que atirassem uma
frase, mas j sabia que tal no aconteceria. 
- A Sr.a Trask gosta do nosso vale? 
- Como? Gosto, gosto.
- Se no sou indiscreto, quando espera ser me?
- Daqui a umas seis semanas - respondeu Adam. - A 
minha mulher  daquelas que no falam muito.
Um silncio pode ser revelador, reflectiu Samuel. E viu que 
os olhos de Cathy se erguiam para logo se baixarem, e pareceu-
-lhe que a cicatriz que ela tinha na testa ficava mais escura. Tinha 
sido atingida por algo, como quando se roa num cavalo com a 
ponta dum chicote. Samuel no via o que poderia ter dito para a 
alarmar. Sentia uma tenso semelhante  que precede a toro 
da varinha de aveleira: era algo estranho e forado. Dirigiu o olhar 
para Adam: ele fitava a mulher intensamente. O que era estranho
no o era para Adam. O seu rosto reflectia a felicidade.
Cathy mastigava um bocado de carne com os incisivos. Samuel 
nunca vira mastigar assim. Aps ter engolido, ela lambia os lbios. 
Na cabea de Samuel, martelava uma frase: H qualquer coisa, 
qualquer coisa que no consigo descobrir. Qualquer coisa que no 
est bem.  E o silncio envolveu o grupo.
Ouviu uma coisa deslizar atrs dele. Voltou-se. Lee poisou um 
bule em cima da mesa e retirou-se silenciosamente.
Samuel recomeou a falar para repelir o silncio. Contou como 
viera ter ao Vale, vindo direito da Irlanda, mas, aps algumas pala-
vras, verificou que tanto Cathy como Adam j no o escutavam. 
Para ter a certeza, utilizou o processo que empregava com os 
filhos quando, depois de lhe pedirem que lhes lesse uma histria, 
deixavam de o interromper. Lanou duas frases que nada significa-
vam. No houve reaco. Desistiu.
Apressou-se a comer, bebeu o ch a ferver e dobrou o guar-
danapo.
- Se me d licena, minha senhora, vou voltar para casa. 
- Boa noite - disse ela.
Adam levantou-se de um salto. Parecia que o tinham arran-
cado a um sonho.
- No se v embora, agora. Esperava que passasse a noite 
aqui.
- No, obrigado. No posso. E depois a caminhada no  
grande e o luar ajuda.
- Quando comea a perfurao?
- Tenho de preparar as brocas, afi-las e deixar tudo em 
ordem antes de me vir embora. Dentro de poucos dias, mando o 
meu filho com o material.
Adam renascia para a vida.
- No demore - disse ele. - Cathy, ns vamos ter o mais 
belo jardimdo mundo. No haver nada que se lhe possa compa-
rar.
Samuel desviou rapidamente o olhar para Cathy. O rosto con-
tinuava imvel. Os olhos mantinham-se frios e a boca levemente 
arqueada nos cantos era apenas uma linha.
- H-de ser ptimo.
Por instantes, Samuel teve vontade de fazer ou de dizer algu-
ma coisa que afizesse sair do mundo onde se refugiara. Percorreu-
-o um novo arrepio.
- Andam outra vez em cima do seu tmulo? - perguntou 
Adam.
- Parece que sim.
O crepsculo aproximava-se e as rvores j desenhavam si-
lhuetas negras no fundo do cu.
- Boa noite.
- Vou acompanh-lo.
- No, fique com a sua mulher. Ainda no acabou de jantar. 
- Mas eu...
- Deixe-se estar sentado. Hei-de dar com o meu cavalo. Se 
no conseguir, roubarei um dos seus. (Samuel empurrou amavel-
mente Adam para a cadeira.) - Boa noite. Boa noite, minhasenhora.
Encaminhou-se rapidamente para o celeiro.
Doxology, o velho cavalo de cascos chatos, comia desdenho-
samente com a ponta dos beios o feno disposto na manjedoira.
A corrente batia na madeira. Samuel despendurou a sela do 
prego e atirou-a sobre o largo costado. Estava a apertar a cilha 
quando ouviu um ligeiro rumor. Voltou-se e viu a silhueta de Lee 
que se recortava na tarde moribunda.
- Quando volta? - perguntou suavemente o chins.
- No sei. Dentro de alguns dias. Talvez uma semana. Lee, 
que se passa?
- Onde?
- Que se passa aqui? H qualquer coisa que me intriga. 
- Que quer dizer?
- Sabe muito bem.
- Cliado chin tlabalh. No escut. No fal.
- Sim, sim, parece-me que tem razo. No devia ter-lhe per-
guntado. Fui indelicado.
Voltou-se, meteu o freio na boca de Dox e passou por entre 
as orelhas a rdea que segurava os antolhos. Soltou a corrente e 
deixou-a cair na manjedoira.
- Boa noite, Lee.
- Sr. Hamilton...
- O que ?
- No precisa dum cozinheiro?
- No posso dar-me esse luxo.
- Eu no peo muito.
- A Lizza dava cabo de si. Porqu? Quer ir-se embora? 
- Foi s para saber. Boa noite.


5

Adam e Cathy estavam sentados debaixo da rvore no cre-
psculo que se adensava.
-  um bom homem - disse Adam.- Agrada-me. Gostava 
de o convencer a vir viver para aqui e a dirigir a explorao. Uma 
espcie de administrador.
Cathy respondeu:
- Ele tem uma casa e famlia.
- Pois tem. Mas a terra dele  a coisa mais pobre que j se 
viu. Ganhava mais se trabalhasse aqui. Hei-de perguntar-lhe.  
preciso tempo para nos adaptarmos a uma nova terra.  como se 
nascssemos de novo e tivssemos de reaprender tudo. Na mi-
nha terra, saberia de onde vinha a chuva. Aqui  diferente. Na 
minha terra, adivinhava quando se aproximava o vento e quando 
faria frio. Mas hei-de aprender.  preciso tempo. Sentes-te bem, 
Cathy?
- Sinto.
- Um dia - e j no falta muito - todo este vale ficar verde 
de luzerna. Hs-de v-la das grandes janelas da casa. Plantarei 
filas de eucaliptos. Vou mandar buscar sementes e plantas para 
transformar isto numa espcie de herdade experimental. Podia 
tentar plantar nogueiras ans da China. Gostava de saber se pe-
gariam. No custa nada tentar. O Lee logo me aconselha. Quando 
a criana tiver nascido, percorreremos toda a plantao a cavalo. 
Tu ainda no a viste bem. J te disse que o Sr. Hamilton vai mon-
tar moinhos de vento? Havemos de v-los girar  nossa frente. 
(Estiraou as pernas sob a mesa.) - O Lee devia trazer velas. S 
gostava de saber o que andar a fazer.
Cathy articulou muito devagar:
- Adam, eu no queria vir e no ficarei aqui. Assim que puder, 
vou-me embora.
- No digas disparates. (Adam riu-se.) - s como uma cri-
ana que deixa os pais pela primeira vez. s como eu. Quando fui 
para a tropa, julguei morrer de tristeza. Mas depressa me recom-
pus. Toda a gente se recompe. Deixa-te de disparates.
- No so disparates.
- Peo-te o favor de no dizeres nada. Assim que o beb 
nascer, tudo h-de mudar, vers.
- Cruzou as mos atrs da cabea e ergueu os olhos para o 
cu.
Atravs da ramaria das rvores, avistava a luz plida das es-
trelas.



CAPTULO XVI

1

A noite era to clara que as colinas pareciam feitas da mesma 
matria que o luar. Samuel Hamilton cavalgava numa paisagem si-
lenciosa, desprovida de ar, morta. As sombras eram negras sem 
meios-tons e as claridades, brancas, sem cor. Aqui e ali, Samuel 
surpreendia a actividade secreta dos animais nocturnos: o gamo 
que pasta toda a noite quando h lua e que dorme nas moitas 
durante o dia; os coelhos bravos, os ratos dos campos e todos os 
outros animaizinhos perseguidos de dia, esgueiravam-se, salta-
vam, escondiam-se ou imobilizavam-se em atitudes que os fazi-
am assemelhar-se a pedras ou a arbustos, quando o ouvido ou as 
narinas descobriam um perigo; os ratoneiros tambm metiam mos 
 obra: a esguia doninha que ondula como uma vaga pardacenta; 
o gato selvagem, rastejando sempre e quase invisvel, excepto 
quando os olhos amarelos reflectem a luz e cintilam; a raposa 
sempre a farejar com o focinho afilado,  procura duma refeio 
sangrenta; os raccoons que patinham na gua e imitam o coaxar 
das rs. Os coiotes vagueavam pelos caminhos e, atormentados 
por um alegre penar, levantavam a cabea e uivavam  Lua sua 
deusa uma soluante exploso de riso. E por cima deste mundo 
de sombra, voavam as corujas, desenhando um rastro de medo 
obscuro no cho. O vento da tarde amainara e s uma pequena 
brisa suspirosa nascia das terras frias, atrada pelas colinas quen-
tes.
O rudo forte e irregular dos cascos de Doxology impunha o 
silncio  fauna nocturna mesmo muito depois de se ter extinguido.
A barba de Samuel brilhava e o cabelo estava revolto.
O chapu preto ia pendurado no aro. Sentia um mal-estar no 
estmago, uma apreenso que se assemelhava ao princpio dum 
pesadelo. Era o weltschmerz, que ns transformmos em welsrats, 
palavra que traduz toda a tristeza do mundo que invade a alma 
como um gs e dela to bem se apossa que  escusado procurar a 
origem do mal - ningum a consegue descobrir.
Samuel rebuscou a memria. Tornou a ver a bela herdade e 
as suas promessas de gua. Nada que pudesse magoar, a no ser 
que dissimulasse cimes inconfessveis. Interrogou-se e no encon-
trou quaisquer vestgios de cime. Recordou ento o sonho de Adam 
e o seu jardim do Paraso, a sua adorao por Cathy. Nada, tam-
bm, a no ser que... a no ser que alimentasse no fundo de si 
mesmo uma secreta amargura e que a velha ferida no tivesse ci-
catrizado. Mas havia j tanto tempo que esquecera a dor... Ainda 
conservava uma lembrana quente e suave, agora que tudo aca-
bara. Os seus rins e as suas coxas j tinham esquecido o desejo.
Enquanto cavalgava atravs da luz e da sombra, continuava a 
procurar. Quando tinham comeado a fervilhar no seu peito os ani-
mais roedores? Foi ento que descobriu. Era Cathy, a pequena, a 
delicada Cathy. Sim, mas depois? Era silenciosa. Muitas mulheres 
o so. O que era ento? De onde vinha o mal? Sentira uma tenso 
comparvel  que antecede a descoberta da gua. Lembrou-se dos 
arrepios, dos passos sobre o tmulo. Conseguira determinar o tem-
po, o lugar e o actor. Acontecera durante o jantar, tudo viera de 
Cathy.
Evocou a sua imagem e observou-lhe os olhos muito abertos, 
as narinas delicadas, a boca bonita mas demasiado pequena para 
o seu gosto, o queixinho firme, depois voltou novamente aos olhos. 
Eram frios? Seria dos olhos? Voltava sempre ao mesmo ponto. 
Os olhos de Cathy no eram habitados. No comunicavam nada. 
Por detrs deles nada havia de familiar. No eram olhos huma-
nos. Lembravam-lhe qualquer coisa. Mas o que era? Uma recor-
dao? Uma imagem? Percorreu demoradamente a memria e, 
de sbito, reviveu.
A imagem brotou do fundo dos anos com as suas cores, os 
seus gritos e as suas sensaes compactas, intactas. Viu-se ga-
roto ainda to pequeno que era obrigado a pr-se na ponta dos ps
para chegar  mo do pai. As caladas de Londonderry faziam-no 
tropear. Nunca tinha visto outra grande cidade. As pessoas em-
purravam-no e divertiam-se. Era uma festa com os seus teatros 
de marionetas, os seus tabuleiros de legumes, os seus cavalos e 
os seus carneiros apresentados na rua para venda, e os vende-
dores de bugigangas de cores berrantes, bugigangas desejveis e 
que talvez obtivesse visto o pai estar bem disposto.
Foi ento que a multido se engolfou numa ruela estreita, como 
destroos arrastados pela corrente. Os peitos faziam presso nas 
costas e andava-se levantando muito os ps. A rua desembocava 
numa praa e, na parede cinzenta duma casa, destacava-se a 
alta estrutura duma forca de onde pendia um n corredio.
Samuel e o pai foram arrastados, empurrados pela enxurra-
da at ficarem junto da forca. Samuel ainda ouvia o pai a dizer: 
No  para crianas. No  para ningum e, muito menos, para 
uma criana. O pai lutou para se voltar, para tentar abrir caminho 
na multido. Deixem-nos sair, tenho uma criana.
A massa era annima e empurrava sem paixo; Samuel er-
gueu a cabea. Um grupo de homens com fatos e chapus pretos 
subira  alta plataforma e rodeava um homem de cabelos doirados, 
envergando umas calas negras e uma camisa azul-clara, aberta 
no peito. Samuel e o pai estavam to prximos que a criana era 
obrigada a levantar a cabea para ver.
O homem doirado parecia no ter braos. Contemplou a mul-
tido e, depois, baixou o olhar e fitou Samuel. A imagem desta-
cava-se na luz, clara e perfeita. Os olhos do homem no tinham 
profundidade. No eram como os outros olhos. No eram os olhos 
dum homem.
Subitamente, a agitao redobrou na plataforma e o pai de 
Samuel colocou as mos na cabea do filho. As palmas cobriram 
as orelhas e os dedos juntaram-se na nuca. Depois, as mos apoia-
ram-se com toda a fora na cara, obrigando o rosto a encostar-se 
ao capote domingueiro do pai. Tentou lutar mas no conseguiu 
desenvencilhar a cabea. S distinguia uma faixa de luz e um 
murmrio surdo. Ouvia as pancadas do corao. Depois, as mos 
que o mantinham contraram-se, o pai parou de respirar e o seu 
corpo ps-se a tremer.
Havia ainda outra imagem. Juntou os fragmentos e exami-
nou-a por cima da cabea do cavalo: uma mesa usada numa taver-
na, risos e exclamaes. O pai tinha  frente uma caneca de esta-nho 
cheia de cerveja; ele tinha uma chvena de leite quente com 
canela. O pai tinha os lbios curiosamente azuis e lgrimas nos 
olhos.
- Se soubesse, no te teria trazido. No  espectculo para 
um homem e muito menos para um rapaz.
- Eu no vi nada - retorquiu Samuel. - Tu baixaste-me a 
cabea.
- Ainda bem.
- O que era?
- Mais vale dizer-te. Estavam a matar um homem mau. 
- Era o homem doirado?
- Era, sim, mas no fiques triste. Ele devia morrer, no uma,
mas muitas vezes. Praticou actos horriveis, coisas que s um mons-
tro pode imaginar. E o que me custa no  que o tenham enforcado,
mas que isso tenha sido pretexto para uma festa, quando afinal um
homem devia ser enforcado em segredo e s escuras.
- Eu vi o homem doirado. Ele olhou para mim.
- S por isso, sinto-me satisfeito por ele j no existir. 
- O que  que ele tinha feito?
- No quero que tenhas pesadelos.
- O homem doirado tinha uns olhos estranhos. Pareciam-se 
com olhos de cabra.
- Bebe o teu leite doce se queres que eu te d um pau com 
fitas e um apito dos grandes - a imitar prata.
- E a caixa reluzente com um boneco l dentro?
- Isso tambm. Bebe o leite e no peas mais nada.
Era esta a imagem arrancada ao passado poeirento.
Doxology subia a ltima encosta antes da depresso onde se 
erguia a casa, e os seus grandes cascos tropeavam nas pedras.
Eram os olhos, no h dvida, pensava Samuel. Em toda a 
minha vida, s vi duas vezes olhos como aqueles. Olhos desuma-
nos. E, acrescentou para consigo: So as fantasmagorias da 
noite! Que relao pode existir entre o homem doirado que enfor-
caram h tanto tempo e a linda mulherzinha grvida? A Lizza tem 
razo. A minha imaginao ainda prega comigo no Inferno. Tenho 
que me livrar deste pensamento estpido ou ainda acabo por pas-
sar o resto do tempo  procura do Diabo naquela criatura.  assim 
que a gente cai no lao. O melhor  pensar agora nisto a valer e 
depois pr uma pedra no assunto. Trata-se apenas duma seme-
lhana de forma e de cor. Mas no, no  bem isso. Trata-se dum 
olhar, e tanto a forma como a cor nada tm que ver com isso. Mas 
ento porque  que um olhar  mau? Talvez j tenha havido algum 
santo com um olhar desses. Agora v se te livras de todo este 
romanesco... para sempre. Estremeceu. Vou ter que pr um 
gradeamento  roda da minha sepultura, para que ningum a pise.
E Samuel Hamilton, para resgatar os maus pensamentos, re-
solveu dedicar todos os seus esforos  criao do Paraso do vale 
do Salinas.


2

Lizza Hamilton, toda afogueada, andava dum lado para o ou-
tro na cozinha, como uma fera enjaulada. Uma fogueira de car-
valho ardia no forno do po. A massa levedava nos cestos. Lizza 
levantara-se antes do romper do dia, como de costume. Ficar na 
cama depois da aurora ou passear aps o crepsculo era cometer 
um pecado. Uma s pessoa no mundo podia ficar impunemente 
estendida na cama depois da aurora, e essa pessoa era Joe, o 
filho mais novo de Lizza.
S Tom e Joe viviam agora na herdade. Tom, espadado e 
corado, preocupando-se j com o bigode que despontava, estava 
sentado  mesa da cozinha, com as mangas abotoadas como lhe 
tinham ensinado. Lizza deitou pequenas bolas de massa numa 
pedra chata. Formaram-se vulces que assobiavam. Os coscores 
tinham uma cor acastanhada, mais escura nas bordas. A cozinha 
rescendia.
Samuel entrou, vindo do ptio onde se fora lavar. A cara e 
barba escorriam gua. Samuel desenrolou as mangas da camisa 
abotoou-as antes de entrar na cozinha. As mangas arregaadas  
mesa no eram autorizadas pela Sr.a Hamilton. Considerava-as 
uma ignorncia ou um desprezo das leis da etiqueta.
- Estou atrasado, mam - disse Samuel.
Ela no se voltou para o olhar. A esptula que tinha na mo 
deslocou-se com a rapidez duma serpente que ataca e as bolinhas 
de massa, ao serem voltadas, puseram-se a chiar na pedra quente.
- Que horas eram quando entraste? - perguntou ela.
- Oh! era tarde, bastante tarde. A umas onze horas. No vi 
as horas com medo de te acordar.
- Eu no acordei - resmungou Lizza.- Talvez julgues que 
 bom para a sade andar a vadiar toda a noite. Mas Deus Nosso 
Senhor far o que entender.
Era bem notrio que Deus Nosso Senhor e Lizza professavam 
a mesma opinio em quase todas as circunstncias. Ela voltou-
-se, esboou um gesto rpido, e um prato de bolos quentes a es-
talar foi parar s mos de Tom.
- Que te pareceu a terra dos Sanchez? - perguntou Lizza. 
Samuel aproximou-se da mulher, inclinou-se e beijou-lhe a bo-
checha corada.
- Bom dia, mam. D-me a tua bno.
- Deus te abenoe - respondeu maquinalmente Lizza. 
Samuel sentou-se  mesa e disse:
- Deus te abenoe, Tom. Pois muito bem! O Sr. Trask tem 
feito grandes mudanas. Est a reparar a casa velha para ir viver 
para l.
Lizza virou-se com um movimento brusco.
- A casa onde as vacas e os porcos dormiram durante anos? 
- Oh! Eles rasparam os soalhos e substituram as janelas.
Foi tudo arranjado de novo e pintado de fresco.
- O cheiro dos porcos nunca h-de desaparecer - disse
Lizza com firmeza. - O fedor dos porcos resiste a tudo.
- Garanto-te que entrei em casa e que no me cheirou a
nada, a no ser a tintas.
- Quando secar a tinta, volta o cheiro dos porcos.
- Ele arranjou um jardim atravessado por um ribeiro e j tem 
o lugar para as flores, para as rosas, e mandou vir plantas de 
Bston.
- No sei se o Senhor ver um tal desperdcio com bons 
olhos - disse ela a resmungar.- Mas as rosas nada tm que se 
lhes diga.
- Ele prometeu dar-me algumas estacas - disse Samuel.
Tom terminou os bolos e mexeu o caf.
- Que gnero de homem  ele, pap?
- Creio que  um homem de valor. Sabe falar bem e tem o 
esprito fino. Pareceu-me um pouco sonhador...
- Vejam-me isto: a desgraa a fazer pouco da misria! - 
interrompeu Lizza.
- Bem sei, mam, bem sei. Mas nunca ters tu compreen-
dido que os meus sonhos substituam algo que eu no tenho?
O Sr. Trask pode dar-se ao luxo de sonhar. O dinheiro tudo 
consegue. Ele quer fazer da sua terra um jardim e h-de conse-
gui-lo.
- Como  a mulher dele?- perguntou Lizza.
-  muito nova e muito bonita.  calma e fala pouco. Est 
prestes a ter o primeiro filho.
- Bem sei - disse Lizza. - Qual  o nome dela de solteira? 
- No sei.
- De onde ?
- No sei.
Lizza colocou um prato de bolos quentes diante de Samuel,
deitou caf numa chvena e tornou a encher a de Tom.
- Que foi que descobriste, afinal? Como se veste ela?
- Veste-se muito bem. Tinha um vestido azul com um casa-
quinho cor-de-rosa apertado na cintura.
- Isso no te escapou! Sabers dizer-me se era feito por ela 
ou comprado na loja?
- Oh! era comprado na loja.
- No sejas mentiroso - afirmou Lizza - Tambm pensas-
te que o vestido de viagem que a Dessie fez para ir a San Jos era 
comprado na loja.
- A Dessie tem muita habilidade. Na mo dela, as agulhas 
at cantam.
Tom disse:
- A Dessie talvez v abrir uma loja de roupas, em Salinas. 
- Foi o que ela me disse - replicou Samuel. - H-de vin-
gar.
- Salinas? (Lizza ps as mos nas ancas.) - A Dessie no 
me disse nada.
- Parece-me que tramos a nossa amiguinha - disse Samuel.
- Ela queria fazer uma surpresa  me, ns fomos estragar tudo, 
como quem destapa uma coisa escondida.
- Ela podia ter-me dito - continuou Lizza.- No aprecio 
surpresas. Bom. Prossegue. Que estava ela a fazer?" 
-Quem?
- A Sr.a Trask, quem havia de ser?
- O que estava a fazer? Estava simplesmente sentada. Sen-
tada numa cadeira debaixo dum carvalho. O parto est para breve.
- As mos, Samuel, as mos? Que estava ela fazendo com 
as mos?
Samuel rebuscou na memria.
- Nada, se bem me lembro. Estou agora a recordar-me. Ela 
tem umas mos muito pequenas e tinha-as cruzadas em cima dos 
joelhos.
Lizza fungou.
- No estava a coser? Nem a passajar? No estava a fazer 
malha?
- No, mam.
- No sei se ser muito bom para ti ires a essa casa. A ri-
queza e a ociosidade so as armas do Maligno, e tu no ofereces 
l uma grande resistncia.
Samuel ergueu a cabea e riu com prazer. s vezes, a mu-
lher provocava-lhe hilaridade, mas ele no lhe podia confessar 
porqu. Precisamente por ele ser rico que eu l vou, Lizza. Ten-
cionava dizer-to depois do pequeno almoo para que tivesses tem-
po de me ouvir. Ele quer que eu lhe abra quatro ou cinco poos e 
que instale moinhos de vento e talvez, at, reservatrios.
- Ficou tudo bem assente? Trata-se de um moinho de vento 
para extrair a gua? Achas que te pagar ou que voltas com des-
culpas como  costume? Paga-me quando fizer a ceifa - imi-
tou ela.- Paga-me quando lhe morrer o tio milionrio. J sei 
por experincia, Samuel, que quando no te pagam logo, nunca 
mais te pagam. Com tudo o que te devem, j podamos ter com-
prado um rancho no fundo do Vale.
- O Adam Trask h-de pagar - disse Samuel.- Ele tem 
dinheiro. O pai deixou-lhe uma fortuna.  um Inverno inteiro de tra-
balho, mam. Poderemos pr alguma coisa de lado e ter um verda-
deiro Natal. Ele paga-me dlar e meio por cada metro, mais os
moinhos de vento. Posso fabricar tudo aqui, excepto os revesti-
mentos. Vou precisar dos rapazes para me ajudarem e levo o Tom 
e o Joe comigo.
- O Joe no ir - disse ela. - Bem sabes como ele  deli-
cado.
- Parece-me que se poderia desembaraar duma parte da 
sua delicadeza. Tanta delicadeza  capaz de o matar  fome.
- O Joe no ir - atalhou ela. - E quem tratar da herdade 
enquanto tu e o Tom andarem por fora?
- Tinha pensado em pedir ao George para voltar. Ele no 
gosta do trabalho de escritrio em King City.
- Talvez no goste, mas por oito dlares por semana nem 
sempre se faz o que se quer.
- Mam - suplicou Samuel. - Nunca mais teremos uma 
oportunidade igual a esta de abrir uma conta no banco. No desa-
fies a sorte com o peso da tua lngua. Peo-te por tudo, mam.
Lizza resmungou toda a manh enquanto Tom e Samuel se 
ocupavam do material de perfurao, desenhavam esboos de 
moinhos de vento revolucionrios e estabeleciam os planos dos 
depsitos. No meio da manh, Joe foi ter com eles e ficou to 
fascinado que pediu a Samuel para o levar consigo. Samuel res-
pondeu:
- Lamento muito; mas no posso, Joe. A tua me precisa de 
ti aqui.
- Mas eu queria ir, pap. No ano que vem, entro para o col-
gio de Paio Alto e  ainda mais longe. Deixa-me ir contigo. Garan-
to-te que trabalharei a valer.
- Tenho a certeza de que trabalharias se fosses, mas sou 
contra a tua ida. E, quando falares nisso  tua me, agradecia-te 
muito que no esquecesses de acrescentar que eu sou contra. 
At lhe poderias dar a entender que recusei levar-te.
Joe sorriu e Tom largou a rir.
- Queres que a mam te convena a levar o Joe?- pergun-
tou Tom.
Samuel franziu o cenho e mirou os filhos.
- Eu sou um homem com ideias firmes - disse ele. Quando 
tomo uma deciso, ningum consegue fazer-me voltar atrs. J 
estudei todos os aspectos da questo e a minha ltima palavra 
esta: o Joe no vai. Ou querero obrigar-me a mentir? 
- Vou j falar  mam - disse Joe.
- Devagar, rapaz. V se tens cuidado - recomendou-lhe Sa-
muel. - Serve-te da cabea. Deixa a tua me fazer a maior parte 
do trabalho. Entretanto, eu irei reconsiderando a minha deciso.
Dois dias depois, a grande carroa afastava-se carregada de 
madeira e de ferramentas. Tom conduzia os quatro cavalos e, sen-
tados a seu lado, Samuel e Joe baloiavam as pernas.



CAPTULO XVII

1

Quando afirmei que Cathy era um monstro foi porque disso 
estava convencido. Agora que me debrucei sobre os caracteres 
alinhados que contam a sua histria e que reli todas as notas no 
fundo das pginas, pergunto a mim mesmo se seria verdade. Como 
no sabamos o que ela queria, nunca saberemos se o conseguiu 
ou no. E se, em vez de ir ao encontro dequalquer coisa, ela fugia 
 sua frente, tambm ignoramos se lhe conseguiu escapar. Quem 
sabe se ela no tentou dizer o que era a algum, ou a todos, e se 
no falhou por no conhecer a nossa linguagem? Talvez a sua 
vida tenha sido a sua linguagem, com a sua sintaxe e as suas 
belezas, mas indecifrvel. No custa nada dizer que ela era m. 
Mas isso pouco significa se no soubermos porqu.
Desenhei o retrato de Cathy, aguardando calmamente o ter-
mo da gravidez, vivendo num rancho que no amava, com um 
homem que no amava.
Estava sentada numa cadeira sob um carvalho, com as mos 
cruzadas em cima do ventre. O seu estado tornava-a gordssima, 
anormalmente gorda, se bem que estivessem na moda os bebs 
enormes e que os quilos a mais fossem motivo de orgulho. Cathy 
estava deformada; o ventre esticado, prenhe, proibia-lhe a posi-
o vertical sem o apoio das mos. Mas a deformao estava 
localizada. Os ombros, o pescoo, os braos, as mos, o rosto 
no eram afectados e continuavam finos como os duma rapariga. 
Os seios no aumentavam e as pontas no escureciam. As gln-
dulas mamrias no trabalhavam. Nada se preparava para ali-
mentar o nascituro. Quando ela se sentava a uma mesa, no se 
conseguia perceber que estava grvida.
Naquela poca, no se media o arco plvico, no se analisava 
o sangue, nem se tomavam fortificantes  base de clcio. Cada 
filho custava um dente  me. Era a lei. E as mulheres tinham 
estranhos apetites, at por coisas porcas, e dizia-se que isso era o 
tributo ao pecado original que Eva continuava a pagar.
Comparados a outros, os apetites de Cathy eram simples. Os 
carpinteiros que reparavam a velha casa queixavam-se de nunca 
encontrarem os paus de giz com que faziam as marcas. Desapa-
reciam todos. Cathy roubava-os, cortava-os aos bocadinhos e escon-
dia-os no bolso do avental. Quando ningum a via, trincava a cal 
com os dentes. Ela falava pouco e tinha um olhar vago. Dir--se-ia 
que se fora embora, deixando em seu lugar uma boneca animada.
Em torno dela, notava-se uma grande azfama. Adam, nadando 
em felicidade, construa o seu Paraso. Samuel e os filhos tinham 
aberto um poo de doze metros e colocavam uma armao de fer-
ro, pois Adam queria que fosse tudo do melhor.
Os Hamilton levaram a sua sonda para outro lado e come-
aram a abrir um novo buraco. Dormiam numa tenda ao lado das 
obras e cozinhavam numa fogueira. Mas um deles estava sempre 
a caminho de casa, para ir buscar uma ferramenta ou levar um 
recado.
Adam andava numa roda-viva por toda a parte, como uma 
abelha atrada por um excesso de flores. Sentava-se ao p de 
Cathy e falava-lhe das novas plantas que acabavam de chegar. 
Descrevia-lhe a nova p do moinho de vento que Samuel inven-
tara. Tinha um passo varivel e era uma coisa nunca vista. Ia at 
aos poos e atrasava o trabalho com as suas perguntas. E, eviden-
temente, como falava de poos com Cathy, falava de partos e de 
enxovais com os operrios. Era um perodo feliz para Adam, o 
melhor de todos os perodos. Ele era o rei duma vida longa e re-
pleta. E o Vero cedeu o lugar a um Outono quente e fragrante.


2

Os Hamilton tinham acabado o seu almoo de po, queijo e
caf forte aquecido ao lume. Joe sentia as plpebras pesadas e 
procurava meio  [e afastar para as moitas para dormir um pouco.
Samuel estava ajoelhado no solo arenoso e examinava os den-
tes partidos da sua sonda. Antes de pararem para almoar, a broca 
encontrara qualquer coisa a dez metros de profundidade que desfi-
zera o ao como se fosse chumbo. Samuel raspou a pea de metal 
com o canivete e examinou as lascas na palma da mo. Os seus 
olhos tinham um brilho infantil. Estendeu a mo e deitou as lascas 
na mo de Tom.
- Olha para isto, meu filho. Que te parece que seja?
Joe aproximou-se bamboleando-se. Tom examinou os frag-
mentos.
- No sei o que , mas  rijo - disse ele. -  grande de 
mais para ser um diamante. Parece metal. Achas que demos com 
uma locomotiva enterrada?
O pai riu-se.
- A dez metros! - disse ele com admirao.
- Parece o ao duma ferramenta - disse Tom. - Mas no 
temos nada to duro.
Samuel pareceu absorvido pela contemplao dum espect-
culo longnquo mas aprazvel, enquanto Tom sentia percorre-lo 
um arrepio de satisfao. Os rapazes Hamilton gostavam de ver 
vaguear o esprito do pai, pois ento o mundo povoava-se de coi-
sas espantosas.
Samnel disse:
- Tu pensas que  metal? Que  ao? Tom, vou dizer-te o 
que  e, depois, mandarei fazer uma anlise. V se no te esque-
ces: vamos encontrar nquel e, talvez, prata, grafite e mangansio. 
Quem me dera traz-los  superfcie! Esto envolvidos numa ca-
mada de areia marinha.
Tom disse:
- Que disseste tu que era? Nquel e prata...?
- Deve ter-se passado h milhares de sculos - disse 
Samuel. (E os filhos sabiam que ele estava a ver tudo.) - Talvez 
houvesse gua aqui. Um mar interior com pssaros que voavam 
em crculo e piavam. Se tudo se passou  noite, que espectculo! 
Um risco fulgurante, um fuso de luz branca e, depois, uma bola 
incandescente vinda do cu. A seguir, um enorme jacto de gua e
um espantoso esguicho de vapor. O barulho  de ensurdecer, por-
que se juntou o estrondo da coisa que caiu  exploso da gua. E 
depois  a noite negra por causa da luz deslumbrante. E, a pouco e 
pouco, os peixes mortos voltam  superfcie, com o ventre prateado 
brilhando ao luar, enquanto os pssaros os vm comer.  uma bela 
imagem, no  verdade?
Tom perguntou baixinho:
-Achas que  um meteoro no  verdade? 
-Tenho a certeza. E a anlise h-de prov-lo. 
Joe, muito excitado, disse:
- Vamos tir-lo c para fora.
- Tira-o tu, se quiseres. Ns temos um poo a abrir. 
Tom disse com seriedade:
- Se a anlise mostrar que h nquel e prata em quantidade, 
no teria interesse...?
- s bem o filho do teu pai - disse Samuel.- Mas no 
sabemos se  grande como uma casa ou pequeno como um cha-
pu.
- Podamos descer e ir ver.
- Mas, ento, em segredo e sem dizer nada a ningum. 
- Porqu?
- Ouve, Tom. No pensas na tua me? j lhe damos bas-
tantes aborrecimentos. Ela j me disse com clareza que, se eu 
gastasse mais um tosto em patentes, me faria uma cena que 
nunca mais se me varreria da memria. J pensaste na vergonha 
que ela sentiria quando lhe perguntassem o que estvamos a fa-
zer? A tua me diz sempre a verdade, Tom, e teria de responder: 
Esto a cavar um buraco para irem buscar uma estrela. (Riu 
com satisfao.) - Nunca nos perdoaria. Havia de ser o bom e o 
bonito. Ficvamos sem sobremesa, pelo menos, durante trs 
meses.
Tom disse:
- No podemos continuar a furar. Temos de ir para outro 
lado.
- Vou fazer explodir uma carga de plvora. Se o meteoro 
resistir, iremos abrir outro buraco. (Ergueu-se.) - Tenho de ir a 
casa buscar o explosivo e afiar a sonda. Porque no vamos todos 
juntos? Ser uma surpresa para a mam. Passar toda a noite a
cozinhar e a queixar-se. Assim, poder fingir que no ficou conten-
te de nos ver.
Joe disse:
- Vem a algum a toda a pressa.
Um cavaleiro aproximava-se a todo o galope, mas era um 
estranho cavaleiro saltitando na montada como um boneco desen-
gonado. Quando se acercou, viram que era Lee, com os cotovelos 
a abanar como asas e a trana a torcer-se como uma serpente. Era 
surpreendente que no se tivesse deixado cair com uma tal veloci-
dade. Deteve-se, ofegante.
- Sinh Adam diz pla vi, Sinhla Cathy muito mal. lie 
deplessa, Sinh s glit, chol.
- Calma, Lee - disse Samuel. - Quando comeou? 
- Talv hola almoo.
- Bom. Sossegue. Como est o Adam?
- Sinh Adam maluco. Glit, lile, vomita.
- Pois claro - disse-lhe Samuel. - Ah! estes pais novos! 
Tambm j o fui h muito tempo. Tom, sela-me o cavalo, no te 
importas?
Joe perguntou:
- Que h de novo?
- A Sr.aTrask vai ter um menino. Eu disse ao Adam que o 
ajudava.
- Tu?- estranhou Joe.
Samuel contemplou o filho mais novo.
- Trouxe-vos a ambos ao mundo e parece-me que ainda 
nenhum dos dois se queixou de eu ter prestado um mau servio 
ao mundo. Tom, junta a ferramenta e vai a casa afiar a broca... 
No te esqueas de trazer a lata de plvora que est na prateleira 
da arrecadao e trata-a com respeito se tens amor aos braos e 
s pernas. Joe, tu ficas aqui a tomar conta do material.
Joe perguntou queixosamente:
- Que fico eu aqui a fazer sozinho?
Samuel guardou silncio e, depois, disse:
- Joe, gostas de mim?
- Claro que gosto.
- Se te dissessem que eu tinha cometido um crime, ias de-
nunciar-me  polcia?
- Que ests tu a dizer?
- Ias denunciar-me?
- No.
- Muito bem! Na minha mochila, debaixo da roupa, encon-
trars dois livros. So novos. Portanto, v se os tratas bem. So 
dois volumes escritos por um homem que, em breve, ser famo-
so. Podes comear a l-los, vers que te faro muito bem. So os 
Princpios de Psicologia por um homem do Leste chamado William 
James. No tem qualquer parentesco com o clebre salteador de 
comboios. E se, por desgraa, disseres a quem quer que seja que 
eu tenho estes livros, ponho-te fora do rancho. Se a tua me viesse 
a saber que eu gastei dinheiro para comprar os livros, era ela quem 
me punha na rua.
Tom aproximou-se segurando um cavalo pela rdea. 
- Eu tambm os posso ler?
- Podes, sim - respondeu Samuel. (E saltou para a sela 
com ligeireza). - A caminho, Lee.
O chins quis partir a galope, mas Samuel reteve-o.
- Devagar, Lee. Um parto leva mais tempo do que voc pen-
sa.
Cavalgaram um momento em silncio e, depois, Lee disse:
-  pena que tenha comprado esses livros. Eu tambm os 
tenho na edio integral e num s volume. Poderia emprestar-
-lhos.
-  pena, de facto. Tem muitos livros?
- Muitos, no. A uns trinta ou quarenta. Mas os que ainda 
no tiver lido esto  sua disposio.
- Obrigado, Lee. Assim que puder, irei deitar uma vista de 
olhos  sua biblioteca. Voc devia falar com os meus filhos. O Joe 
 um pouco cabea no ar, mas o Tom  um rapaz srio e far-lhe-ia 
bem conversar consigo.
-  um passo difcil de dar, Sr. Hamilton. A minha timidez 
impede-me de falar com os novos conhecimentos, mas hei-de ten-
tar j que me pede.
Apressaram os cavalos em direco ao vale.
- Como est a me?- perguntou Samuel.
- Preferia que visse pelos seus olhos - respondeu Lee.
Quando um homem vive sempre s como eu, chega a considerar
as coisas sob um ngulo irracional, em funo da sua posio so-
cial.
- Pois . At eu, que no vivo s, tambm considero as coi-
sas sob um ngulo irracional. Mas talvez seja diferente do seu.
- Ento no acredita que seja fruto da minha imaginao?
- No acredito em coisa nenhuma. E, para o tranquilizar, 
tambm lhe posso dizer que sinto uma sensao de estranheza.
-Creio que  tambm o que eu sinto - disse Lee, e sorriu-se 
- vou-lhe dizer como se passam as coisas comigo. Desde que 
estou aqui, no me saem da memria os contos de fadas que o 
meu pai me contava. Ns, os Chineses, temos uma demonologia 
muito aperfeioada.
- Acha que ela  um demnio?
- Claro que no - disse Lee. - Espero j ter passado essa 
fase primria. Sabe, Sr. Hamilton, os criados adquirem uma habi-
lidade especial para descobrir donde sopram os ventos e para 
julgar a atmosfera da casa onde trabalham. Ora, a casa onde eu 
sirvo  muito estranha. Talvez seja por isso que me faz recordar os 
demnios paternos.
- O seu pai acreditava neles?
- Ah! no. Mas era da opinio que eu devia conhec-los. 
Alis, vocs, os Ocidentais, tambm se encarregaram de perpe-
tuar um bom nmero de mitos.
Samuel inquiriu:
- Diga-me o que foi que despertou os demnios?
- Se no estivssemos a chegar, tentaria dizer-lho. Mas pre-
firo abster-me. Ver por si. Talvez eu ande delirando. O Sr. Adam 
vive numa tal tenso que  capaz de se partir como a corda dum 
banjo.
- D-me um ponto de referncia para evitar perder tempo. 
Que foi que ela fez?
- Nada. Para falar verdade, nada. J assisti a muitos nas-
cimentos, Sr. Hamilton, mas este oferece um aspecto inteiramente 
novo.
- Que aspecto?
- Pois bem! Vou dizer-lhe a nica imagem que me ocorre: 
parece tratar-se mais duma luta de morte do que dum nascimen-
to.
Quando passaram sob os carvalhos, antes de entrarem no vale, 
Samuel disse:
- Gostaria de saber porque  que este dia me parece to 
estranho.
- No h vento - disse Lee. -  a primeira vez, de h um 
ms para c, que o vento no sopra de tarde.
- Deve ser isso. Prestei tanta ateno aos pormenores que 
nem sequer vi como estava o dia. Esta manh descobrimos uma 
estrela enterrada e agora vamos trazer para o mundo um ser huma-
no.
Contemplou as colinas ensolaradas, atravs dos ramos dos 
carvalhos.
-Que belo dia para nascer! Se os sinais tm alguma influn-
cia, est para surgir uma bela vida. Estou com receio de que o 
Adam s sirva para nos atrapalhar. Fique ao p de mim, se no se 
importa, para o caso de eu precisar de alguma coisa. Olhe, os 
carpinteiros esto sentados debaixo duma rvore.
- O Sr. Adam mandou parar o trabalho. Receava que as mar-
teladas incomodassem a mulher.
Samuel repetiu:
- Fique ao p de mim. O Adam est cheio de boas intenes 
mas o que ele ignora  que a mulher seria incapaz de ouvir o 
prprio Deus tocando a reunir nas nuvens.
Os operrios sentados  sombra da rvore saudaram-nos. 
- Como tem passado, Sr. Hamilton? E a sua famlia?
- Vou andando menos mal, obrigado. Espera, aquele ali no
 o Rabbit Holman? Por onde tens andado, Rabbit? 
- Tenho andado na prospeco, Sr. Hamilton. 
- E encontraste alguma coisa?
- Nem sequer consegui encontrar a mula que tinha levado 
comigo.
Encaminharam-se para casa. Lee disse rapidamente:
- Se tivesse um minuto disponvel, gostava de lhe mostrar 
uma coisa.
- Que coisa, Lee?
- Tentei traduzir algumas poesias chinesas antigas para in-
gls. No sei se ser possvel. Quer deitar-lhes uma vista de olhos? 
- Com todo o prazer, Lee. S tenho a ganhar com isso.


3

A casa branca dos Bordoni estava silenciosa, quase secreta-
mente silenciosa, e tinha as persianas fechadas. Samuel desmon-
tou diante da porta, tirou os sacos da sela e estendeu as rdeas a 
Lee. Bateu, no obteve resposta, e entrou. Aps a luz do dia, a 
sala parecia s escuras. Entrou na cozinha. Uma cafeteira de barro 
cinzento aquecia brandamente ao lume. Samuel bateu de leve  
porta do quarto e entrou.
O quarto estava quase completamente na escurido pois, alm 
de as cortinas estarem fechadas, ainda tinham tapado as janelas 
com mantas. Cathy estava estendida numa grande cama de colu-
nas e Adam encontrava-se a seu lado, com a cara escondida na 
colcha. Ao ouvir passos, ergueu a cabea e lanou um olhar cego.
Samuel, afavelmente, disse:
- Porque est s escuras?
Adam respondeu com uma voz roufenha:
- A luz faz-lhe doer a vista.
Samuel deu alguns passos e compreendeu que se devia mos-
trar autoritrio.
-  preciso luz - disse ele. - Ela que feche os olhos. Pos-
so pr-lhe uma venda, se ela quiser.
Dirigiu-se para a janela e agarrou na manta, mas Adam le-
vantou-se de um salto.
- Deixe isso. A luz faz-lhe mal - disse ele com selvajaria. 
Samuel enfrentou-o:
- Oia, Adam, sei muito bem o que est a sentir. Prometi-lhe 
que tratava de tudo e no deixarei de o fazer. A nica coisa que 
peo  que no me obrigue a tratar de si.
Arrancou a manta, correu as cortinas e a luz doirada entrou 
pela janela.
Cathy gemeu. Adam aproximou-se dela.
- Fecha os olhos, querida. Vou pr-te uma venda.
Samuel colocou os dois sacos em cima duma cadeira e 
postou-se junto do leito.
- Adam - disse ele com firmeza -, vou pedir-lhe para sair 
deste quarto e para no tornar c a entrar.
- Porqu? No posso fazer uma coisa dessas.
- No quero que se ande a meter debaixo dos meus ps. Em 
geral, os futuros pais apanham uma boa piela. 
- No seria capaz.
Samuel continuou:
- Sinto a clera a vir-me aos poucos e o desprezo mais deva-
gar ainda. Mas j os sinto a borbulhar. Vai sair deste quarto e 
deixar de me aborrecer, ou ento vou-me eu embora e voc que se 
arranje sozinho.
Adam acabou por se ir embora e, mal fechou a porta, Samuel 
atirou-lhe:
- E veja se no irrompe por este quarto ao menor grito. Es-
pere que eu saia. (Fechou a porta, notou que havia uma chave e 
deu-lhe uma volta.) - Ele est desorientado e veemente.  sinal de 
que gosta de si.
At ento, ainda no olhara para Cathy. Ao faz-lo, viu-lhe 
nos olhos um dio feroz, implacvel, assassino.
- No demorar muito, esteja descansada. j rebentaram as 
guas?
O olhar hostil fitou o homem e os lbios afastaram-se para 
mostrarem os dentinhos, mas Cathy no respondeu. 
Ele contemplou-a com frieza.
- Estou aqui na qualidade de amigo. No  por gosto, minha 
menina. Ignoro quais sejam as suas razes de queixa e no me 
interessa sab-las. Talvez possa evitar que sofra. Vou fazer-lhe 
ainda mais uma pergunta. Se no me responder e se me tornar a 
olhar dessa maneira trocista, vou-me embora e deixo-a sozinha.
As palavras produziram o mesmo efeito que uma descarga 
de chumbo num charco. Cathy fez um esforo e Samuel estreme-
ceu ao ver que a expresso do rosto se modificava, que o olhar de 
ao desaparecia e os lbios se entreabriam enquanto os cantos 
da boca se erguiam. Observou os movimentos das mos, os pu-
nhos que se abriam e as palmas que se curvavam, abertas. As 
feies adquiriram um aspecto jovem, inocente e reflectiram um 
verdadeiro sofrimento. Era como se uma vista de lanterna mgica 
cedesse o lugar a outra.
Cathy respondeu baixinho:
- Perdi as guas de madrugada.
- Assim  que eu gosto. Custou-lhe muito?
- Custou.
- As dores eram muito espaadas?
- No sei.
- Faa um clculo. Estou consigo h um quarto de hora.
- Desde que chegou j tive duas dores pequenas, mas ne-
nhuma grande.
- Muito bem. Onde tem a roupa?
- Na arca.
- Vai ver que tudo correr bem - disse ele com afabilidade. 
Abriu um dos seus sacos e tirou para fora uma corda grossa forrada 
de veludo azul e com uma ala em cada extremidade. O veludo era 
bordado a flores cor-de-rosa.
- A Lizza mandou-lhe a corda - disse. - F-la enquanto 
esperava pelo primeiro filho. Contando com os nossos filhos e 
com os dos nossos amigos, esta corda j trouxe muita gente ao 
mundo.
Enfiou cada uma das alas num p da cama.
De sbito, Cathy arregalou os olhos e retesou as costas como 
uma mola, enquanto o sangue lhe aflua  cara. Samuel esperava 
lgrimas ou gritos e olhou com apreenso para a porta fechada. 
Mas no houve gritos, quando muito uma srie de grunhidos dolo-
rosos. Decorridos alguns segundos, Cathy caiu para trs. Voltara-
-lhe o olhar de dio.
Novamente a sacudiu uma dor.
- Menina boazinha - disse em voz meiga -, sentiu uma ou 
duas dores? porqu, quanto mais experincia se tem, mais se 
percebe que se torna difcil distingui-las. J vai sendo tempo de ir 
lavar as mos.
Com os dentes apertados, ela abanava a cabea dum lado 
para o outro.
- Pronto, pronto, minha filha. O beb no tarda a chegar. 
(Levou a mo  testa de Cathy e tocou-lhe na feia cicatriz.) - 
Como foi que se feriu? - perguntou.
Cathy atirou a cabea para a frente e os seus dentinhos pon-
tiagudos cravaram-se na palma da mo de Samuel, junto do dedo 
mnimo. Ele soltou um grito de dor e tentou retirar a mo. Mas 
estava bem filada. Cathy abanava a cabea s sacudidelas, ras-
gando a carne como um co rasga um saco e, ao mesmo tempo,
ia soltando um grito agudo. Samuel esbofeteou-a, sem resultado. 
Automaticamente, fez o que teria feito a um co. Com a mo es-
querda, apertou a garganta de Cathy para a sufocar. Ela estre-
buchou e cravou ainda mais os dentes antes de afrouxar a den-
tada. Samuel conseguiu retirar a mo ensanguentada. Recuou e 
observou a ferida. Contemplou Cathy com receio. Mas o rosto dela 
ficara novamente calmo, infantil, inocente.
- Desculpe. Desculpe.  a dor - disse ela. Samuel teve um 
breve sorriso. - Ainda acabo por ter de aaim-la. Uma cadela j 
me fez uma vez a mesma coisa.
Pelo olhar de Cathy perpassou novamente um lampejo de 
dio.
Samuel acrescentou:
- Tem alguma coisa para pr nisto? Os humanos so mais 
venenosos do que as serpentes.
- No sei se tenho.
- E usque, no tem?
Aplicou a garganta da garrafa na ferida e, depois, emborcou--a. 
Sentiu uma enorme vontade de vomitar enquanto um vu de bruma 
lhe embaciava a vista. Bebeu um golo de lcool para se dar novas 
foras. Tinha receio de olhar para a cama.
- Vou ficar com a mo inutilizada por algum tempo - disse.
Mais tarde, Samuel contou a Adam: Ela tem uma consti-
tuio de ferro. A criana nasceu antes de eu estar pronto. Saiu 
como uma rolha. Eu nem sequer tinha gua para a lavar e ela nem 
se agarrou  corda para dar  luz. Uma constituio de ferro.
Correu para a porta, chamou Lee e pediu gua quente. Adam 
precipitou-se no quarto.
- Um rapaz - gritou Samuel. -  um menino.
Adam viu os lenis cheios de sangue e ps-se verde.
- Calma - aconselhou Samuel. - V chamar o Lee. E voc, 
Adam, se ainda sabe o que faz, v preparar caf. E veja se os 
candeeiros esto cheios e se tm as chamins limpas.
Adam girou como um pio e saiu do quarto. Lee entrou logo a 
seguir. Samuel apontou para uma espcie de trouxa na cesta da 
roupa.
- Passe-lhe uma esponja com gua quente, Lee. Cautela 
com as correntes de ar. Quem me dera ter c a Lizza. No posso
fazer tudo ao mesmo tempo. (Depois voltou-se para o leito:) - 
Agora vou limp-la a si. (Mas Cathy estava novamente dobrada ao 
meio e torcia-se com dores.) - J falta pouco - acrescentou ele 
-,  s o tempo de sair a placenta. Andou muito depressa. E 
quando penso que nem precisou da corda da Lizza!...
Depois, de repente, viu qualquer coisa e arregalou os olhos:
- Deus do Cu, a vem mais outro!
Ps mos  obra e, como da primeira vez, o parto foi incri-
velmente rpido. Samuel cortou um segundo cordo umbilical. Lee 
pegou no segundo beb, lavou-o, vestiu-o e colocou-o na cesta.
Samuel lavou a me e ergueu-a para lhe mudar a roupa. No-
tou que lhe vinha uma sensao de repugnncia quando lhe olhava 
para a cara. Trabalhava o mais depressa possvel, mas a mo mor-
dida dificultava-lhe os movimentos. Tapou Cathy com um lenol la-
vado e levantou-lhe a cabea para lhe meter debaixo uma almofada 
limpa. Por fim, teve de se resignar a olh-la.
Os cabelos doirados estavam encharcados em suor, mas a
expresso do rosto modificara-se. Parecia petrificado e sem vida.
No pescoo, distinguia-se nitidamente o latejar das artrias.
- Tem dois filhos - disse Samuel.- Dois belos rapazes.
No so gmeos autnticos. Cada um nasceu no seu saco. 
Ela contemplou-o friamente e sem interesse. 
Samuel continuou:
- Vou mostrar-lhe os meninos.
- No - respondeu ela.
- O qu?! No quer ver os seus filhos? 
- No quero saber deles.
- No tardar a mudar de opinio. Agora est cansada. E
posso jurar-lhe que nunca assisti a um parto to rpido.
O olhar de Cathy desviou-se de Samuel.
- No quero saber deles. Corra as cortinas e no deixe en-
trar a luz.
-  o cansao. Dentro de alguns dias, j ver as coisas de 
outro modo e ter esquecido tudo.
- Nunca esquecerei. V-se embora. Leve-os deste quarto e 
mande-me c o Adam.
Samuel ficou estupefacto com o tom da voz. No se notava o 
mnimo mal-estar, nem fadiga, nem ternura. As palavras eram a
prpria expresso da vontade.
- No gosto de si - disse ele.
Mas logo se arrependeu e desejou poder engolir a frase que, 
alis, no produzira nenhum efeito em Cathy.
- Mande-me c o Adam - insistiu ela.
Na saleta, Adam deitou um olhar vago aos dois filhos e enca-
minhou-se rapidamente para o quarto cuja porta fechou. Passados 
alguns instantes, ouviu-se o rudo de marteladas. Adam estava a 
pregar as mantas nas janelas.
Lee entrou com o caf para Samuel.
- A sua mo est com mau aspecto.
-Tambm me parece e receio que haja complicaes. 
- Porque fez ela isso?
- No sei.  uma mulher estranha.
Lee prosseguiu:
- Vou tratar de si, Sr. Hamilton. Isso podia custar-lhe o brao. 
Samuel parecia moribundo.
- Faa o que lhe apetecer, Lee. Apoderou-se de mim um des-
gosto horrvel. Gostava de ser criana para poder chorar. J sou 
velho de mais para ter medo. Nunca mais tinha tido um desespero 
to grande desde o dia em que me morreu um pssaro na mo, j 
l vo muitos anos.
Lee abandonou a sala e voltou pouco depois sobraando uma 
caixa de bano incrustada de drages. Sentou-se junto de Samuel 
e tirou do estojo uma navalha chinesa de lmina triangular.
- Vai doer - disse ele.
- Hei-de aguentar.
O chins mordeu os lbios, sentindo em si prprio a dor que 
infligia, quando lancetou profundamente a ferida e retalhou os 
bocados de carne at fazer sair um jorro de sangue. Agitou um 
frasco de unguento Hall e despejou algumas gotas do lquido ama-
relo na chaga. Depois, saturou um leno com o mesmo remdio e 
atou a mo. Samuel fez uma careta e agarrou-se  cadeira com a 
mo vlida.
- , principalmente, cido fnico - explicou Lee. - Deve 
ter-lhe cheirado.
- Obrigado, Lee. Pareo uma criana a torcer-me desta ma-
neira.
- Eu no sei se seria capaz de ficar to calmo - diss Lee. 
- Vou buscar-lhe outra chvena de caf.
Voltou logo a seguir com duas chvenas e sentou-se junto de 
Samuel.
- Vou sair desta casa - disse ele. - Nunca tive tendncia 
para trabalhar no matadouro.
Samuel empertigou-se:
- Que quer dizer?
- Nem eu sei; as palavras saram-me sem dar por isso. 
Samuel sentiu-se percorrido por um calafrio.
- Lee, os homens so estpidos. E, at agora, eu ainda no
tinha dado por isso, mas os Chineses tambm so estpidos. 
- E porque havia de ser o contrrio?
-Talvez por julgarmos que os estrangeiros so mais fortes e 
melhores do que ns.
- Que pretende dizer?
Samuel explicou:
- Talvez a estupidez seja necessria, assim como as lutas 
com o drago, o orgulho, a coragem lastimvel que consiste em 
encolerizar Deus e a cobardia infantil que transforma cada rvore 
 beira da estrada num fantasma, talvez tudo isto seja bom e ne-
cessrio mas...
- Que pretende dizer?- repetiu pacientemente
- Supunha que tivesse soprado um vento de loucura no de-
serto do meu esprito mas, agora que ouvi a sua voz, compreendo 
que tambm soprou em si. H qualquer coisa a pairar sobre esta 
casa. Aproxima-se algo horrvel.
- Eu tambm pressinto a mesma coisa.
- Bem sei. E  por isso que me sinto menos  vontade do 
que  costume na minha estupidez. Este nascimento foi dema-
siado rpido, fcil de mais, parecia uma gata a parir gatinhos. E 
receio por esses dois gatinhos. A minha cabea est a encher-se 
de pensamentos horrveis.
- Que pretende dizer? - perguntou Lee pela terceira vez. - 
Queria ter aqui a minha mulher - exclamou Samuel - Acabavam-
-se os sonhos, os fantasmas e a estupidez! Quero-a ao p de mim. 
Dizem que os mineiros descem s galerias com canrios para ver 
se o ar  respirvel. A Lizza sabe reconhecer a estupidez. Se a

Lizza v um fantasma,  realmente um fantasma e no um bocado 
de sonho. Se a Lizza farejar desgraa, poremos barricadas nas 
portas.
Lee levantou-se, aproximou-se da cesta da roupa e contem-
plou os bebs. Teve de se aproximar muito porque a luz diminua, 
rapidamente.
- Esto a dormir - disse ele.
- Daqui a pouco desatam a berrar. Lee, no se importa de 
atrelar a carrinha e de ir buscar a Lizza? Diga-lhe que preciso dela. 
Se o Tom ainda l estiver, diga-lhe para ficar. Se no, volta para l 
amanh. E se a Lizza no quiser vir, diga-lhe que precisamos da 
mo duma mulher e duns olhos que saibam ver. Ela compreender 
o que isto quer dizer.
- Vou j - disse Lee.- Talvez a gente esteja a assustar-se 
um ao outro, como duas crianas no escuro.
- J pensei nisso - disse Samuel. - Lee, diga-lhe que feri 
a mo quando abria o poo. No lhe conte a verdade, por amor de 
Deus.
- Vou acender uns candeeiros antes de sair. A presena da 
sua mulher vai ser um grande alvio para ns.
- Pode crer que sim, Lee, pode crer que sim. Ela h-de tra-
zer um pouco de luz a esta cave to escura.
Aps a partida de Lee, Samuel pegou num candeeiro com a 
mo esquerda, mas viu-se obrigado a pous-lo no cho para girar 
a maaneta da porta do quarto. L dentro, reinava a escurido e a 
luz amarela do petrleo apenas alumiava o tecto, enquanto a cama 
ficava na sombra.
A voz de Cathy soou:
- Feche a porta. No quero luz. Adam, vai-te embora. Quero 
ficar sozinha, s escuras.
- Eu fico ao p de ti - disse Adam em voz rouca. 
- No te quero ao p de mim.
- Eu fico.
- Fica se quiseres, mas cala-te. Torne a fechar essa porta e 
leve a luz.
Samuel voltou  sala. Colocou o candeeiro em cima duma 
mesa junto da cesta da roupa e examinou as carinhas dos dois 
bebs adormecidos. Tinham os olhos profundamente fechados e

rabujaram, incomodados pela luz. Samuel, com a ponta do indi-
cador, acariciou as, duas testas quentes. Um dos gmeos bocejou, 
abrindo uma boca enorme e tornou a adormecer. Samuel voltou a 
pegar no candeeiro, encaminhou-se para a porta, abriu-a e deu al-
guns passos no terreiro. A estrela do pastor estava to brilhante 
que parecia cintilar como um foguete prestes a cair atrs das mon-
tanhas. O ar estava calmo e Samuel distinguia o cheiro das salvas 
que o calor fizera murchar. A noite estava muito escura. Samuel 
teve um sobressalto ao ouvir uma voz que saa da sombra.
- Como est ela?
- Quem est a falar? - perguntou Samuel. 
- Sou eu, o Rabbit.
O homem emergiu da escurido e a sua silhueta recortou-se 
na luz da porta.
- A me, Rabbit? Est passando bem.
- O Lee disse que eram gmeos.
-  verdade. Dois gmeos. No se podia esperar melhor. Agora 
 que o Sr. Trask vai revolver cus e terra! Vai ter que plantar se-
mentes de chupeta! (Samuel mudou de assunto sem saber por-
qu.)
- Sabes o que encontrmos hoje, Rabbit? Um meteoro. 
- O que  isso, Sr. Hamilton?
- Uma estrela cadente que caiu h milhes de anos.
- A srio? Ora vejam! Como foi que feriu a mo?
- Eu ia responder que foi numa estrela cadente. Mas a
verdade  menos interessante. Entalei-a numa roda dentada. 
- O golpe  profundo?
- No. No  muito.
- Dois rapazes - continuou Rabbit.- A minha mulher vai 
ter cimes.
- Queres entrar e fazer-me companhia?
- No, no, obrigado. Tenho de me ir deitar.  medida que 
os anos passam, as noites parecem mais curtas. 
-  da idade, Rabbit. Boa noite.
Lizza Hamilton chegou por volta das quatro da manh. Samuel 
adormecera numa cadeira e sonhava que estava pegando numa 
barra de ferro em brasa. Lizza, despertou-o e observou-lhe a mo 
antes mesmo de deitar uma olhadela aos bebs. Depois, enquanto

punha um toque feminino no trabalho masculino do marido, deu as 
suas ordens. Samuel ia vestir-se, selar o Doxology e galopar para 
King City. Pouco importava a hora. Acordaria o intil do mdico 
para que lhe tratasse da mo. Se no fosse grave, voltaria para 
casa e esperaria. E era mesmo um verdadeiro crime ter deixado o 
Joe, pobre criana indefesa, sentado  beira dum buraco sem nin-
gum que cuidasse dele. O descuido bradava tanto aos Cus que 
at o prprio Senhor se devia ter encarregado de o remediar.
Se era realismo o que Samuel pedira, ficara bem servido. Lizza 
atirou com ele para a estrada ao romper do dia. s onze horas tinha 
a mo ligada e, s cinco, estava sentado na sua prpria cadeira,  
sua prpria mesa, a tremer de febre, enquanto Tom lhe preparava 
um caldo de galinha.
Samuel ficou de cama durante trs dias, combatendo os fan-
tasmas da febre, at que a sua forte constituio veio ao de cima 
e expulsou a infeco.
Ento, Samuel contemplou Tom com um olhar lmpido, e dis-
se:
- Tenho de me levantar.
Ps-se de p e caiu molemente sentado, soltando um riso 
que mais parecia um cacarejo. Ria-se assim sempre que alguma 
coisa lhe levava a melhor. Ele pensava que, embora derrotado, 
sempre conseguia uma certa vitria rindo do malogro. Tom 
empanturrou-o de caldo, apesar das ameaas de morte do pai. 
Ainda se encontram pessoas que esto convencidas de que o 
caldo de galinha cura todas as doenas, cicatriza todas as feridas, 
e pode ser servido nos velrios.


Lizza esteve fora uma semana e limpou a casa dos Trask 
desde o sto at  cave. Lavou tudo o que podia caber numa 
selha e escovou o resto. Estabeleceu o regime alimentar dos be-
bs e notou com satisfao que eles dormiam bem e ganhavam 
peso. Fez de Lee um escravo por no confiar inteiramente nele. 
Ignorou Adam, por no lhe servir para nada, excepto uma vez, em 
que o obrigou a lavar as janelas, trabalho que ela tornou a fazer 
logo a seguir.
Lizza permaneceu  cabeceira de Cathy o tempo suficiente
para chegar  concluso de que era uma rapariga inteligente que 
falava pouco e no tentava dar lies aos mais velhos. Observou-
-a e concluiu que estava de perfeita sade nem ferida nem doen-
te. Tambm compreendeu que Cathy no amamentaria os dois 
gmeos. E, no fundo, antes assim. Os dois comiles eram capa-
zes de a chupar at ao osso! Esquecia-se de que era mais pe-
quena que Cathy e que alimentara os seus nove filhos.
Numa tarde de sbado, Lizza deitou uma vista de olhos geral, 
deixou uma lista de instrues prevendo tudo, desde a clica at  
nuvem de gafanhotos, fez a mala e pediu a Lee que a levasse para 
casa.
Achou que a casa estava transformada num chiqueiro, que era 
indecente, e entregou-se  limpeza com a violncia e o nojo dum 
Hrcules. Samuel atirou-lhe perguntas de raspo: Como estavam 
os midos? Bem. Iam crescendo. Como passava o Adam? Vagueia 
pela casa como um ser vivo, mas no h grandes provas disso. O 
Senhor, na sua extrema prudncia, dava dinheiro a pessoas bem 
estranhas, mas talvez fosse para impedir que morressem de fome. 
Como estava a Sr.a Trask? Calma, dando-se ares de grande dama 
como a maioria das ricaas do Leste. (Lizza nunca vira ricaas do 
Leste). Mas dcil e respeitosa.
-  estranho - disse Lizza. - No vejo nada que lhe censu-
rar, salvo, talvez, uma certa inclinao para a preguia. Pois, mes-
mo assim, no gosto l muito dela. Talvez seja por causa da cica-
triz? Como a arranjou?
- No sei - respondeu Samuel.
Lizza apontou o indicador, como uma pistola, aos olhos do 
marido.
- Vou dizer-te uma coisa. Nem ela mesma sabe, mas deitou 
mau-olhado ao marido. Ele anda em torno dela como um pato 
doente. Tenho a impresso de que ainda no olhou a valer para os 
filhos.
Samuel esperou que Lizza lhe passasse de novo ao alcance 
da voz.
- Se ela  preguiosa e se ele no tem cabea para nada, 
quem vai tomar conta dos bebs? Um casal de gmeos exige 
muito trabalho.
Lizza parou de varrer, aproximou uma cadeira da cama e sen-
tou-se com as mos em cima dos joelhos.
- Bem sabes que eu nunca menti.
- Tu s incapaz de mentir - disse Samuel.
E Lizza sorriu, julgando que era um cumprimento.
- Vou dizer-te uma coisa que talvez te custe a acreditar. 
- Diz l.
- Samuel, tu conheces aquele chins com os olhos em amn-
doa, fala de estrangeiro e rabicho?
- O Lee? Claro que conheo.
- No estavas convencido de que era um pago? 
- Eu sei l?
- Ora, Samuel, era natural que fosse. Pois no . 
E Lizza empertigou-se.
- O que  ele, ento?
Ela bateu-lhe no brao com um dedo de ferro.
- Um presbiteriano! E bem-educado... muito bem-educado, 
podes crer-me. Mas  preciso perceber-lhe a algaraviada. Que me 
dizes tu a isto?
Samuel s muito dificilmente conseguia refrear a vontade de
rir.
- No me digas?
- Estou-te a dizer que sim. Quem julgas tu que trata dos 
gmeos? Tu bem sabes que eu no iria confiar num pago... Mas 
um presbiteriano. Ele aprendeu num instante tudo o que lhe ensi-
nei.
- Assim no me admira que tenham ganho peso.
- S temos razes para estar orgulhosos e para rezar. 
- Partilharemos o orgulho e rezaremos - disse Samuel.


5

Cathy descansou durante uma semana e readquiriu foras. 
No sbado da segunda semana de Outubro, ficou toda a manh 
trancada no quarto. Adam quis entrar mas a porta estava fechada 
 chave.
- Tenho que fazer - gritou ela.
Adam afastou-se.
Est a arrumar a secretria - pensou ele, ouvindo abrir e 
fechar gavetas.
Ao fim da tarde, Lee foi ter com Adam, sentado em frente da
casa, e disse-lhe com uma espcie de embarao:
- Sinhla diz a mim ile King City compl bibelo. 
- Pois vai! - disse Adam.- Ela  a tua patroa.
- Sinhla diz a mim no volta antes segunda-feita. 
A voz de Cathy ergueu-se atrs deles:
- Ele j no sai h muito tempo. Precisa de descansar.
-  verdade - disse Adam.- No tinha pensado nisso. V
se te divertes. Se eu precisar de alguma coisa, peo aos carpinteiros. 
- Os home volt p'a casa no domingo.
- Peo ao ndio Lopez que me ajude.
Lee sentiu o olhar de Cathy em cima dele.
- Lopez and bbado. Mim acha galafa usque. 
Adam respondeu a rir:
- C me hei-de arranjar.
Lee olhou para Cathy no enquadramento da porta e baixou os 
olhos.
- Mim talv enfl talde.
E pareceu-lhe que se desenhavam e logo desapareciam duas 
rugas entre os olhos de Cathy. Lee girou sobre os calcanhares. 
- Boa talde - disse ele.
Cathy voltou para o quarto ao cair da noite. s sete e meia, 
Adam foi bater-lhe  porta.
- Preparei-te um jantarinho.
A porta abriu-se como se Cathy estivesse por detrs  espera 
de um sinal. Vestia um trajo de viagem: jaqueta orlada de preto 
com grandes botes, aplicaes e gola de veludo preto. Na cabe-
a tinha um grande chapu de palha com enormes alfinetes. Adam 
ficou de boca aberta. Ela no lhe deu tempo a que falasse.
- Vou-me embora.
- O qu?
- J te tinha prevenido.
- Isso  que no.
- No fizeste caso. Pior para ti!
- No acredito.
- A voz de Cathy era amorfa e metlica.
- O que tu acreditas no interessa. Vou-me embora! 
- E os bebs?
- Atira com eles a um dos teus poos 
Tomado de pnico, Adam gritou:
- Cathy, tu endoideceste. No podes deixar-me, Cathy, no 
podes.
- Eu posso fazer de ti o que quiser. Tu ests  merc de 
qualquer mulher. No passas dum imbecil.
A palavra arrancou-o ao aparvalhamento em que cara. Ines-
peradamente, agarrou Cathy pelos ombros e empurrou-a. Ela re-
cuou a cambalear e Adam aproveitou a oportunidade para tirar a 
chave do interior da porta. Sem perda de tempo, fechou-a e deu 
uma volta  chave.
Ficou ofegante, de ouvido encostado  porta, sentindo-se inva-
dido por uma vontade mrbida. L dentro, Cathy andava calma-
mente. Ouviu abrir uma gaveta e pensou logo: Ela fica. Depois 
distinguiu um estalido que no conseguiu definir. A voz de Cathy 
soou-lhe to perto do ouvido que o obrigou a recuar.
-Querido-disse ela-nunca pensei que ficasses to aba-
lado. Desculpa.
Adam suspirou e deu uma volta com a mo trmula  chave 
que caiu.Empurrou a porta. Cathy estava  sua frente e segurava 
na mo direita um Colt 44 com o buraco negro do cano apontado 
para ele. Adam avanou um passo e viu que o co estava erguido.
Cathy disparou. A bala de chumbo atingiu-o no ombro, esbor-
rachou-se e arrancou-lhe uma parte da omoplata. A exploso, o 
rudo e a dor fizeram-no vacilar e cair. Ela aproximou-se devagar, 
com cuidado, como quem se aproxima duma fera ferida. Ele olhou-
-lhe para os olhos e no viu nada. Cathy atirou a pistola para o 
cho, ao lado dele, e saiu de casa.
Adam ouviu-lhe os passos no terreiro, depois, nas folhas se-
cas do caminho, depois, mais nada. E o grito montono que soava 
h tanto tempo era dos gmeos que tinham fome. Esquecera-se 
da hora da refeio.



CAPTULO XVIII

1

Horace Quinn era o novo xerife adjunto nomeado pelo Governo 
para ver o que se passava no distrito de King City.
Tanto ele como a mulher se queixavam de que o novo empre-
go o impedia de cuidar do rancho. Mas, na realidade, os crimes 
eram pouco frequentes. Horace Quinn apresentara a sua candida-
tura como adjunto mas esperava vir a ser xerife, Tratava-se dum 
posto importante, muito mais estvel do que o de procurador do 
distrito e quase to honroso como o de juiz do Supremo Tribunal. 
Horace no queria ser lavrador toda a vida e a mulher ansiava por ir 
viver para Salinas onde tinha famlia.
Assim que correu o boato, espalhado pelo indio e pelos car-
pinteiros, de que Adam fora ferido com uma bala de pistola, Horace 
selou o cavalo e deixou  mulher o cuidado de transformar em 
enchidos o porco que ele matara nessa mesma manh.
Ao norte do grande sicmoro, no stio onde a estrada de Hester 
volta para a esquerda, Horace encontrou Julius Euskadi. Julius 
perguntava a si mesmo se deveria ir caar a codorniz ou ir at 
King City e tomar o comboio para Salinas, terra onde um homem 
pode passar um bom bocado. Os Euskadi eram gente de bem, 
rica e descendente de imigrantes bascos.
Julius disse:
- Quer ir comigo at Salinas? Disseram-me que ao lado da 
casa da Jenny, a dois passos de Long Green, abriu uma nova 
casa que d pelo nome de Faye. Disseram-me que  estupenda. 
Quase como em San Francisco. E tem um pianista.
Horace apoiou o cotovelo no boto da sela e afugentou com o 
pingalim uma mosca que pousara na garupa do cavalo.
- Fica para outro dia - disse ele.- Tenho de ir ver uma coi-
sa.
- Por acaso, no vai a casa dos Trask?
- Exactamente. Ouviu dizer alguma coisa?
- Ouvi mas no faz sentido. O Sr. Trask feriu-se no ombro 
com um 44 e ps todos os operrios na rua. Faz ideia como  que 
algum se consegue ferir num ombro com um 44, Horace?
- Eu no. Mas essa gente do Leste  to esperta! Foi por isso 
que resolvi ir ver o que se passava. A mulher dele no teve um filho 
h pouco tempo?
- Dois gmeos, foi o que me disseram - informou Julius. - 
Talvez o tiro tenha sido disparado por eles.
- Um segurava o revlver e o outro carregava no gatilho? Que 
mais ouviu dizer?
- Montes de coisas, Horace. Posso acompanh-lo?
- No conte comigo para o nomear adjunto, Julius. Parece 
que os guarda-livros do Governo tm o mau hbito de esmiuar as 
notas de despesas. Conhece o Hornby em Alisal? Pois fique sa-
bendo que nomeou adjunto a tia-av e a manteve na folha de paga-
mentos durante trs semanas.
- Est a gozar-me!
- Era o que faltava. Portanto, j sabe que no apanha a es-
trela.
- Nem eu a queria para nada. Tinha pensado, apenas, em 
fazer-lhe um pouco de companhia. Sou curioso.
- Tambm eu. Ainda bem que vem comigo. Se precisar de 
si, estou sempre a tempo de o fazer prestar juramento. Como se 
chama essa nova casa de que me falou?
- Faye. Uma mulher de Sacramento.
- Em Sacramento costumam fazer bem as coisas.
E Horace contou como se faziam as coisas em Sacramento.
Era um belo dia. Quando os dois homens penetraram no vale 
dos Sanchez, iam entretidos a maldizer os resultados das caa-
das dos ltimos anos. Comparadas ao passado, h trs coisas 
que j no so o que foram: as colheitas, a pesca e a caa. Julius 
acrescentou:
- S gostava de saber quem foi que lhes meteu na cabea a 
ideia de matarem todos os ursos pardos. Em oitenta e oito, o meu 
av matou um para as bandas de Pleyto, que no pesava menos de 
novecentos quilos.
Quando chegaram ao p dos carvalhos, calaram-se para res-
peitar o silncio. Nada se movia nem se ouvia.
- Gostava de saber se tero acabado de restaurar a velha 
casa - perguntou Horace.
- Acabaram agora! O Rabbit Holman contou-me que o Trask
tinha reunido todos os operrios para os pr na rua.
- Parece que o Trask tem um bom peclio...
-  o que corre. O Sam Hamilton anda a abrir quatro poos...
se tambm no foi despedido.
- Como est o Sr. Hamilton? Tenho que ir fazer-lhe uma visita. 
- Est bom. Sempre mais prximo do Inferno do que do Cu. 
- Um destes dias dou um salto at  casa dele - disse
Horace.
Lee saiu de casa para os acolher.
Horace atirou-lhe:
- Bom dia, Ching Chong. O patro est? 
- Patlo doente - respondeu Lee.
- Gostava de o ver.
- Agola no pode. Patlo doente.
- Basta - atalhou Horace.- Diga-lhe que o xerife-adjunto 
Quinn quer v-lo.
Lee desapareceu e voltou logo a seguir.
- Pode entl. Mim guad cavalos.
Adam estava estendido na cama de colunas onde os gmeos 
tinham nascido. Encostava-se a um monte de almofadas e tinha o 
ombro e o seio esquerdo tapados por um espesso penso. Todo o 
quarto fedia ao unguento Hafi.
Horace disse depois  mulher: Foi a primeira vez na minha 
vida que vi um morto a respirar ainda.
As mas do rosto de Adam estavam salientes e a pele da 
cara esticada e transparente. Os olhos pareciam sair-lhe da cabe-
a; brilhavam de febre com um olhar intenso e miope. Com a mo 
direita, ossuda, amarrotava a colcha.
Horace principiou:
- Bom dia, Sr. Trask. Ouvi dizer que se tinha ferido. (Deteve--
se. Depois, como no obtivesse resposta, prosseguiu:) - Resolvi 
vir at c para saber notcias suas. Como aconteceu isso?
Uma espcie de aspereza endureceu as feies de Adam. 
Encolheu-se ainda mais na cama.
- Se lhe custa falar, responda em voz baixa - acrescentou 
Horace.
- S quando respiro com fora - respondeu Adam devaga-
rinho. - Estava a limpar o revlver quando se disparou.
Horace fitou Julius e, depois, o doente. Adam viu o olhar e 
ruborizou-se ligeiramente.
- Isso acontece frequentemente - disse Horace. - Posso 
ver a arma?
- Suponho que o Lee a guardou.
Horace aproximou-se da porta.
- Eh! Ching Chong, traz-me a pistola.
Alguns instantes depois, Lee entregava a arma com a coronha 
para a frente. Depois de examin-la, Horace fez girar o tambor com 
uma pancada da mo. Despejou-o e cheirou o pequeno cilindro de 
cobre da bala vazia.
- Estas engenhocas s disparam quando as limpam. Tenho 
de fazer um relatrio, Sr. Trask. No o vou maar muito. Se calhar 
estava a limpar o cano com uma vareta, quando se deu o disparo 
e ficou ferido no ombro?
- Foi isso mesmo, Sr. Adjunto - disse Adam precipitada-
mente.
- E, apesar de estar a limp-lo, esqueceu-se de extrair o 
tambor?
- Foi isso, foi.
- Estava a limp-lo com uma vareta, com o cano apontado 
para si e o co armado?
Adam respirou rpidamente.
Horace continuou:
- Mas ento a vareta deve ter-lhe atravessado o corpo e 
arrancado a mo esquerda.
Os olhos plidos de Horace no se desviavam da cara de 
Adam. Amavelmente, acrescentou:
- Ento, Sr. Trask, o que foi que se passou?
- Garanto-lhe que foi um acidente.
- Certamente no quer que ponha no meu relatrio o que 
acabo de lhe dizer. Passaria por idiota. Que foi que houve?
- Eu no estou habituado s armas de fogo e as coisas tal-
vez no se tivessem passado exactamente assim, mas a verdade 
 que estava a limp-lo quando se disparou.
No nariz de Horace, ps-se a vibrar um plo, obrigando-o a 
respirar pela boca para evitar as ccegas. Afastou-se dos ps da 
cama para se aproximar de Adam.
- Chegou do Leste h pouco tempo, Sr. Trask? 
- Vim do Connecticut.
- J pouco se servem de armas de fogo l para esses lados? 
- Muito pouco.
- Ainda se caa?
- Alguma coisa.
- Est mais habituado s espingardas? 
- Estou, mas cao pouco.
- Calculo que nunca tenha visto uma pistola na sua vida e 
que no sabia servir-se dela.
- Pois  - disse Adam prontamente. - Na minha terra,
poucos so os que possuem uma pistola.
- Por isso, quando aqui chegou, comprou um colt para fazer
como toda a gente e na inteno de aprender a us-lo?
- Estava convencido de que era uma boa ideia.
Julius Euskadi escutava com todas as fibras do seu corpo
retesadas. Mas no dizia nada.
Horace suspirou e desviou os olhos. A seguir, fitou Julius na 
cara e nas mos. Colocou a pistola em cima da secretria e ali-
nhou, cuidadosamente, lado a lado, a bala vazia e as balas car-
regadas.
- Sabe - disse ele -, s h pouco tempo  que sou adjun-
to. Estava convencido de que me distrairia e que, daqui a alguns 
anos, poderia candidatar-me a xerife. Mas estou a ver que no 
tenho estmago para isto.
Adam observava-o com nervosismo.
- Suponho nunca ter metido medo a ningum. Que me quei-
ram mal, est bem, mas terem-me medo, no.  um sentimento 
que me desagrada e avilta.

Julius exclamou com impacincia:
- Deixe l isso! No vai pedir a demisso numa ocasio des-
tas!
- E quem me impediria? Bom! Sr. Trask, o senhor serviu na 
cavalaria. As armas so a carabina e a pistola. O senhor... (Dete-
ve-se e engoliu a saliva.) - Que se passou, Sr. Trask?
Os olhos de Adam pareceram aumentar. Estavam hmidos e 
franjados de vermelho.
- Foi um acidente - murmurou ele.
- Tem testemunhas? A sua mulher estava ao p de si?
Adam no respondeu; tornara a fechar os olhos.
- Sr. Trask - disse Horace -, eu sei que no se sente bem 
e estou a tentar facilitar-lhe as coisas. Enquanto o senhor des-
cansa, eu irei conversar com sua mulher. (Esperou um instante e, 
depois, virou-se para a porta, dirigindo-se a Lee:) - Ching Chong, 
diga  senhora que gostaria de lhe falar por pouco tempo.
Lee no respondeu.
Adam falou sem abrir os olhos.
- A minha mulher foi fazer uma visita.
- Ela no estava presente quando isso aconteceu?
Horace olhou para Julius e viu-lhe uma curiosa expresso no 
rosto. Tinha os cantos da boca arrepanhados e exibia um sorriso 
dubitativo. Horace pensou rapidamente: Este anda mais depressa 
do que eu. Dava um bom xerife.
- Mas que curioso. A sua mulher teve um beb, dois bebs, 
h quinze dias e j anda a fazer visitas. Os meninos foram com 
ela? Parece-me t-los ouvido. (Horace debruou-se para a cama 
e tocou na mo direita de Adam.) - Lamento muito mas j se 
est fazendo tarde, Trask! - disse ele em voz alta -, e voc vai 
dizer--me o que se passou. E no julgue que vou meter o nariz 
onde no sou chamado.  a lei. E agora, cos diabos, abra os olhos 
e responda ou, ento, pego em si, mesmo ferido, e levo-o ao xerife!
Adam abriu os olhos, mas eram olhos de sonmbulo, com-
pletamente cegos.
A voz no tinha tonalidade, nem timbre, nem emoo. Dir-se-
-ia que pronunciava na perfeio palavras duma lngua estrangei-
ra que no compreendia.
- A minha mulher foi-se embora.

- Para onde?
- No sei.
- O qu?
- No sei para onde foi.
Julius atirou bruscamente:
- Porque se foi ela embora?
- No sei.
Horace disse com violncia:
- Cautela, Trask, olhe que est fazendo um jogo perigoso. E 
o que suspeito no me est a agradar mesmo nada. Voc deve 
saber porque se foi embora a sua mulher.
- No sei, no.
- Ela estava doente? Portava-se de forma estranha? 
- No.
Horace voltou-se.
- E tu, Ching Chong, sabes alguma coisa?
- Mim ile King City no sbado. Mim volt peito meia-noite e 
enconfl sinh Tlask no cho.
- No estavas c quando isto sucedeu? 
- No, sinh.
- Muito bem. Trask, s o senhor me pode responder. Ching 
Chong, abre as cortinas para podermos ver alguma coisa. Ora 
bem, assim j est melhor. Agora, vou falar em seu lugar. A sua 
mulher foi-se embora. Foi ela quem disparou?
- Foi um acidente.
- Ela tinha a pistola na mo?
- Foi um acidente.
- No me est a facilitar o trabalho. Bem. Suponhamos que 
ela se foi embora e que a encontramos. H quanto tempo est 
casado?
- Quase um ano.
- Que nome tinha ela em solteira?
Fez-se um longo silncio at que Adam respondeu, muito 
baixo: Prometi no o revelar.
- De onde era ela? No sei.
- Sr. Trask, est-me a parecer que no precisa de ajuda 
para ir parar  cadeia. Descreva-me a sua mulher. Era alta? 
Os olhos de Adam brilharam.

-No era alta. Pequena e franzina.
- Muito bem. A cor dos cabelos, dos olhos? 
- Era linda.
- Era?
- Cicatrizes?
- Meu Deus, no! Ah! sim, uma cicatriz na testa.
- No sabe, como se chama, donde veio ou para onde foi e
no  capaz de descrev-la. Toma-me por parvo? 
Adam respondeu:
- Ela tinha um segredo e eu prometi no lhe perguntar qual 
era. Ela tinha medo por causa de algum.
E, de sbito, Adam ps-se a chorar. Todo o corpo estremecia 
e a respirao era entrecortada de soluos. Era um desgosto de-
sesperado.
Horace sentiu-se invadido pela piedade.
- Vamos para outra sala, Julius. (Passaram para a sala ao
lado.) - Que pensa disto tudo? Estar ele doido? 
- No sei.
- Acha que a matou?
- Foi o que pensei logo.
- Tambm eu - disse Horace.- Valha-me Deus! (Precipi-
tou-se para o quarto e voltou com a pistola e as balas.) - Tinha-
-me esquecido - disse ele  laia de desculpa.- Estou a ver que 
no vou longe na carreira.
- E agora? - perguntou Julius.
- J no estou  altura da situao. Tinha-lhe dito que no o 
inclua na folha de pagamentos, mas tenho de pedir-lhe que erga 
a mo direita.
- No estou nada interessado em prestar juramento, Horace. 
Eu quero ir a Salinas.
- No tem por onde escolher, Julius. Se no levantar a mo, 
prendo-o.
Julius levantou a mo com repugnncia e repetiu o juramento. 
-  nisto que d fazer companhia aos amigos. O meu pai vai 
esfolar-me vivo. E, agora, que fazemos?
- Eu vou prevenir o xerife. Preciso dele. Estava capaz de 
levar o Trask, mas ele no se pode mexer. Fique ao p dele. Tem 
um revlver?

- No tenho, no.
- Fique com este. E com a minha estrela. 
Tirou-a da camisa e estendeu-a a Julius.
- Quanto tempo se conta demorar?
- Voltarei o mais depressa possvel. J viu alguma vez a Sr.a 
Trask, Julius?
- No.
- Nem eu. Vou ter que contar ao xerife que o marido no lhe 
conhece o nome nem a estatura. No  muito alta e  bonita. Quer 
melhor descrio? Se tivesse juzo, pedia a demisso antes de me 
apresentar ao xerife. Seja como for,  ele quem me pe na rua. 
Acha que o Trask matou a mulher?
- Como quer que o saiba?
- No se zangue.
Julius apoderou-se da pistola, introduziu as balas no tambor 
e fez girar a arma em torno do dedo.
- Quer uma ideia, Horace?
- Acha que tenho cara de quem no quer aceitar uma ideia? 
- O Sam Hamilton conhecia-a. Foi ele quem assistiu ao par-
to. Disse-me o Rabbit. A Sr.a Hamilton esteve c a tratar da mu-
lher. Porque no vai at ao rancho deles e lhes pede os sinais? 
- Est-me c a parecer que voc  que deve usar essa es-
trela - disse Horace. -  uma boa ideia. Vou andando.
- Quer que deite uma vista de olhos s imediaes?
- Tudo o que lhe peo  que evite que o Trask se escape ou
que faa algum mal. Compreendeu? At logo.


2

Por altura da meia-noite, Horace subiu para um comboio de 
mercadorias em King City. Instalou-se na plataforma da locomotiva 
ao lado do fogueiro e chegou a Salinas de manh cedo. Salinas 
era a sede do condado, uma cidade que se desenvolvia E rapida-
mente, prestes a ultrapassar os dois mil habitantes. Era o maior 
aglomerado entre San Jos e San Luis Obispo, e toda a gente lhe 
predizia um brilhante futuro.

Horace, ao sair da estao da Pacifico Sul, foi tomar o pe-
queno almoo. No queria acordar o xerife muito cedo e provocar 
observaes desagradveis. No restaurante, encontrou o jovem 
Will Hamilton, cuja prosperidade se traduzia num belo fato cin-
zento. Horace sentou-se  sua mesa.
- Como tem passado, Will?
- Muitssimo bem, obrigado.
- Anda tratando dos negcios?
- Sim, vim fechar um negcio.
- Devia lembrar-se de mim de vez em quando.
Horace achava estranho dirigir-se assim a um rapaz to novo. 
Mas Will Hamilton respirava o xito. Toda a gente sabia que ele se 
tornaria um dos homens mais influentes da provncia. Assim acon-
tece com certas pessoas que trazem o futuro, bom ou mau, estam-
pado no rosto.
- Com todo o gosto, Horace. Estava convencido de que o 
tempo no lhe chegava para o rancho.
- Se aparecesse outra coisa, talvez me deixasse convencer 
com facilidade.
Will aproximou-se dele.
- Sabe, Horace, que esta parte da nossa provncia anda bas-
tante abandonada? J pensou alguma vez em ocupar um lugar 
mais importante?
- Que lugar?
- Voc no passa dum adjunto. No se sentiria tentado a 
deixar-se eleger xerife?
- No. Nunca tinha pensado nisso.
-  agora ou nunca. Mas guarde segredo. Irei visit-lo den-
tro de quinze dias e, depois, falaremos. Mas nem uma palavra a 
ningum.
- Pode contar comigo, Will. Mas ns j temos um excelente 
xerife.
- Bem sei. No  nisso que eu pensava. No h nenhum em 
King City. Est a perceber-me?
- Estou, estou. Vou pensar no assunto. Sabe que fui visitar 
ontem os seus pais?
As feies de Will iluminaram-se. Ah, sim? Como esto eles? 
- ptimos. Sabe, o seu pai  realmente divertido.

Will soltou uma casquinada.
- Sempre nos fez rir enquanto fomos crescendo.
-  inteligente, ainda por cima. Mostrou-me o projecto dum 
moinho de vento. Nunca vi nada parecido.
- Valha-me Deus! - exclamou Will. - No me diga que a 
febre o atacou de novo?
- Mas tem muito interesse! - disse Horace.
- Tem sempre interesse. Mas os nicos que ganham algu-
ma coisa so os que registam as patentes dele.  uma coisa que 
pe a minha me fora de si.
- Ela tem uma maneira diferente de ver as coisas. 
Will continuou:
- A nica maneira de ganhar dinheiro  vender qualquer coisa 
fabricada pelos outros.
- Voc tem carradas de razo, Will, mas garanto-lhe que o 
tal moinho de vento  um caso srio.
- Ele levou-o  certa, hem, Horace?
- Parece-me que sim. Mas, com franqueza, voc no gosta-
va que ele mudasse, pois no?
- De forma nenhuma! - disse Will. - Pense no que eu lhe 
disse.
- No deixarei de o fazer.
- E bico calado.
O cargo de xerife no era uma sinecura. E a provncia que, na 
lotaria das eleies, obtinha um bom xerife, podia considerar-se 
feliz. As suas funes eram bastante indefinidas. Os seus princi-
pais deveres - fazer respeitar a lei e manter a paz - estavam 
longe de ser os mais importantes. Um xerife estpido ou violento 
no fazia carreira numa comunidade onde os interesses individu-
ais devem ser respeitados. Tinha de arbitrar as brigas de vizinhos 
por questes de gua, de marcos, de direitos de passagem; tinha 
de averiguar as paternidades duvidosas, e tudo isto sem recorrer 
 fora das armas. S quando todos os outros meios se revela-
vam improfcuos  que um bom xerife procedia a uma deteno. 
O melhor no era o campeo da pontaria, mas sim o da diploma-
cia. A provncia de Monterey possua um xerife excelente que ti-
nha o maravilhoso dom de se meter apenas no que lhe dizia respei-
to.

Horace chegou  velha cadeia s nove e dez. O xerife j estava 
no seu gabinete. Apertaram as mos, falaram do tempo e das co-
lheitas, at que Horace resolveu entrar no assunto.
- Vim c- disse finalmente Horace -, porque preciso dos 
seus conselhos.
E contou a histria com todos os pormenores, sem nada es-
quecer - os sinais das testemunhas e a hora a que tinham de-
posto. O xerife fechara os olhos e cruzara as mos. Se, por aca-
so, pontuava a histria, era unicamente abrindo os olhos, mas nun-
ca soltando uma palavra.
- Como v, eu estava em maus lenis - terminou Horace. 
- Nem conseguia saber o que se passara, nem obtinha os sinais 
da mulher. Foi o Julius Euskadi quem me deu a ideia de ir ver o 
Sam Hamilton.
O xerife espreguiou-se, bocejou, traou as pernas e fez um 
resumo da situao.
- Acha que ele a matou?
- Era o que eu pensava. Mas o Sr. Hamilton deixou-me na
dvida. Na opinio dele, o Trask no tem alma de assassino.
- H um assassino em cada um de ns - disse o xerife. -
Basta encontrar o gatilho para o tiro sair.
- O Sr. Hamilton contou-me coisas estranhas a respeito dela. 
Antes de dar  luz os filhos, mordeu-o na mo. Se visse a ferida, 
pensava que era uma dentada de lobo.
- O Sam deu-lhe a descrio dela?
- Deu, sim. E a mulher dele, tambm.
Horace tirou um papel da algibeira e leu a descrio porme-
norizada fornecida pelos Hamilton.
Quando Horace se calou, o xerife suspirou:
- Esto ambos de acordo sobre a cicatriz?
- Inteiramente. E tambm notaram que mudava de cor de
um dia para o outro.
O xerife tornou a fechar os olhos e aninhou-se confortavel-
mente na cadeira. De sbito, endireitou-se, abriu uma gaveta da 
secretria e tirou uma garrafa de uisque.
- Sede? - perguntou.
-  sua sade!
Horace bebeu, limpou a boca e devolveu a garrafa.

-Que pensa de tudo isto? - perguntou ele.
O xerife emborcou trs go,Ladas de usque, rolhou a garrafa e 
tornou a guard-la na gaveta. S ento respondeu:
-O nosso condado  bem administrado. Eu mantenho boas 
relaes com os oficiais da polcia. Sempre que  necessrio, 
damos uma ajuda uns aos outros. Numa cidade em plena expan-
so como Salinas, cheia de estranhos que entram e saem, poda-
mos ter aborrecimentos sem fim se no vigissemos tudo de per-
to. Eu estou em excelentes termos com toda a gente.
O xerife fitou Horace.
- No se impaciente. No tenciono fazer-lhe um discurso. 
Estou apenas a pr-lhe as coisas no seu devido p. Ns no esta-
mos aqui para aborrecer as pessoas, mas para viver com elas.
- Terei feito mal?
- De forma nenhuma, Horace. Voc agiu como devia. Se 
no tivesse vindo ver-me, ou se tivesse prendido o Sr. Trask, est-
vamos metidos num lindo sarilho. Oia...
- Estou a ouvir - disse Horace.
- Do outro lado da linha do caminho de ferro, ao p do bairro 
chins, h uma rua de casas de prostituio.
- Bem sei.
- Toda a gente sabe. Se as fechssemos, mudavam de lu-
gar.  uma instituio necessria. Trazemo-las debaixo de olho 
para que no se passe nada de grave. E as proprietrias dessas 
casas esto em contacto connosco. Quando um cadastrado ou 
um evadido anda a rondar no bairro, sou logo informado.
Horace interrompeu:
- O Julius contou-me...
Deixe-me dizer tudo o que tenho a dizer para que no tenha-
mos de voltar ao assunto. H cerca de trs meses, veio ver-me 
uma mulher muito respeitvel. Desejava instalar-se, o mais legal-
mente possvel, e vinha de Sacramento, onde explorara uma casa. 
Mostrou-me cartas de recomendao de gente muito importante. 
Tinha o registo criminal virgem. Em resumo: uma excelente cida-
d.
- O Julius falou-me nela. Chama-se Faye.
-  isso mesmo. Abriu uma ptima casa, sossegada e bem 
dirigida. J ia sendo tempo que a velha Jenny e a Negra tivessem

alguma concorrncia. Elas ficaram desesperadas com a histria, 
mas eu disse-lhes o mesmo que lhe disse a si. J lhes estava a 
fazer falta a concorrncia.
- Dizem que tem um pianista.
- Pois tem e  bem bom. Um cego. Mas deixa-me falar ou 
no deixa?
- Desculpe.
- No tem importncia. Bem sei que sou vagaroso, mas atinjo 
sempre o meu objectivo. Seja como for, a Faye mostrou ser o que 
parecia: uma cidad valiosa. Sabe que as casas de toleradas tm 
mais medo duma coisa do que de todas as outras: receberem uma 
rapariga que, depois de fugir, resolve entrar para o servio. Os pais 
acabam sempre por encontr-las e armam um escndalo terrvel. 
Depois, a igreja entra na dana, seguida pelas ligas femininas, e 
no tarda muito que a casa adquira m fama e nos vejamos obriga-
dos a encerr-la. Est a compreender?
- Estou, sim - disse Horace.
- Agora veja l se me passa  frente! Detesto explicar uma 
coisa que as pessoas j perceberam. No domingo  noite, a Faye 
mandou-me um recado. Acabava de albergar uma rapariga e no
sabia o que lhe havia de fazer. O que a preocupava  que a tal 
pequena, apesar do seu arzinho de filha-famlia, mostrava conhe-
cer o ofcio na ponta dos dedos. Fui at l para a interrogar. Ela 
contou-me a clssica histria, mas, fora isso, nada tenho a censu-
rar-lhe. Alm de ter a idade requerida, ningum apresentou quei-
xa contra ela.
Colocou as mos abertas sobre a mesa. 
- Aqui tem, meu caro. O que pensa?
- Tem a certeza de que se trata da Sr.a Trask?
- Olhos grandes, cabelo loiro, cicatriz na testa. Chegou no 
domingo  tarde.
Horace relembrou o rosto de Adam a soluar.
- Valha-me Deus Todo-Poderoso! Outro que se encarregue 
de prevenir o marido. Eu prefiro demitir-me.
O xerife olhou para o espao  sua frente.
- Disse que o marido no lhe conhecia o nome de solteira
nem sabia donde vinha? As histrias que ela no lhe ter contado!... 
- O palerma - disse Horace - est apaixonado por ela.
No, no  o filho do meu pai quem lhe vai contar. 
O xerife levantou-se.
- Vamos tomar um caf.
Caminharam em silncio durante um momento. Depois, o 
xerife disse:
- Horace, se eu revelasse tudo o que sei, esta provncia fica-
va reduzida a cinzas.
- No duvido.
- Ela teve um par de gmeos?
- Dois rapazes.
- Oia, Horace. S trs pessoas sabem disto. Ela, voc e eu. 
Eu vou preveni-la de que, se ela disser uma s palavra que seja, a 
ponho a andar com tanta velocidade que h-de julgar que leva fogo 
no rabo. Quanto a voc, Horace, se algum dia sentir ccegas na 
lngua, antes de dizer seja o que for, mesmo  sua mulher, lembre-
-se dos dois midos que ficavam a saber que a me  uma prostitu-
ta.


3

Adam estava sentado numa cadeira  sombra do grande car-
valho. Tinha o brao esquerdo ligado ao peito para no poder mover 
o ombro. Lee saiu de casa com a cesta da roupa, colocou-a no 
cho ao lado de Adam e voltou para casa.
Os gmeos estavam acordados e atiravam olhares cegos e 
ansiosos s folhas do carvalho que o vento fazia oscilar. Uma fo-
lha seca caiu a rodopiar e pousou na cesta. Adam inclinou-se e 
deitou-a fora.
S ouviu o cavalo de Samuel quando estava quase ao p 
dele, mas Lee j o tinha avistado. Lee trouxe uma cadeira e levou 
Doxology para a estrebaria.
Samuel sentou-se calmamente. No queria perturbar Adam 
olhando-o insistentemente, nem evitando olh-lo. O vento come-
ava a refrescar e brincava nos cabelos de Samuel.
- Pensei que talvez no fosse asneira recomear com o tra-
balho dos poos.
Adam j no se servia da voz h tanto tempo que ela parecia 
ter enferrujado.
- No, - disse ele. - j no quero poos. Pagar-lhe-ei o 
trabalho que teve.
Samuel debruou-se para a cesta e meteu um dedo numa 
das mozinhas, que se fechou.
- Acho que o ltimo mau hbito que um homem perde  o de 
dar conselhos.
- No preciso de conselhos.
- Ningum precisa. O conselho  um presente.  necessrio 
fazer os gestos, Adam.
- Que gestos?
- Os gestos da vida. Finja que vive como numa pea de tea-
tro. Ao fim de certo tempo, de muito tempo, a mentira tornar-se- 
verdade.
- Para qu? - perguntou Adam.
Samuel contemplou os gmeos.
- Quer queira, quer no, ter de transmitir o facho. Por muito 
estril que deseje ser, as ervas e os espinhos ho-de nascer. Al-
guma coisa h-de crescer - disseele..
Adam no respondeu e Samuel levantou-se 
- Voltarei as vezes que forem precisas. Faa os gestos, 
Adam.
Na estrebaria, Lee segurou Doxology enquanto Samuel mon-
tava.
- L se vai a sua livraria, Lee.
- Oh! - disse o chins - talvez eu no estivesse muito 
interessado nela.




CAPTULO XIX

1

Parece que os pases novos seguem sempre a mesma rotina.
Primeiro, chegam os desbravadores, fortes e hericos, mas 
vulnerveis. Podem lutar contra as foras da natureza, mas so 
ingnuos e impotentes perante o homem, e  talvez a ele que 
fujam. Quando a terra fica desbravada, chegam, por sua vez, os 
homens de negcios e de leis para auxiliarem o progresso e resol-
verem os problemas de propriedade, o que equivale a dizer que 
acabam tambm por contrair a febre da posse. Vem, por fim, a 
cultura que , simultaneamente, distraco, descanso para os 
nervos e olvido da amargura de viver. E a cultura pode apresen-
tar-se sob todas as formas.
A igreja e o bordel chegaram ao mesmo tempo ao Oeste. E 
ambos teriam ficado horrorizados se soubessem que no passa-
vam de diferentes facetas da mesma necessidade. Porque, na 
realidade, ambos pretendiam alcanar o mesmo fim: os cnticos, 
os ritos, a poesia da igreja ofereciam ao homem o esquecimento 
da sua tristeza; o bordel, esse, oferecia-lhe outros esquecimen-
tos. As diversas seitas chegaram de cabea levantada, cheias de 
suficincia,e seguras da sua misso. Desprezando as mais sim-
ples leis econmicas, mandaram construir igrejas que ainda no 
acabaram de pagar. Combatiam o mal,  certo, mas tambm se 
combatiam umas s outras com um vigor diablico. Em nome duma 
doutrina, no havia nenhuma que no condenasse as outras s 
chamas do Inferno. S numa coisa estavam de acordo: todas se 
gabavam de Serem fiis intrpretes das Escrituras que definiram a
nossa esttica e as nossas relaes com os outros humanos. Se-
ria necessrio um homem sagaz para descobrir onde residiam as 
diferenas entre as seitas, mas toda a gente podia ver o que elas 
tinham de comum. Todas ofereciam a msica, talvez no a melhor, 
mas qualquer coisa que dela tinha a forma e o som. Todas traziam, 
tambm, a conscincia ou talvez fosse prefervel dizer que aguilho-
avam as conscincias adormecidas... No eram puras, mas pos-
suam um potencial de pureza como uma camisa branca que esti-
vesse suja. E todos os homens se podiam apoderar do melhor para 
o fazer germinar em si. Quando o Reverendo Billing foi preso, verifi-
caram que era ladro, adltero, libertino e zoomanaco, mas isso 
no alterava o facto de ele ter comunicado muitas coisas boas a 
um grande nmero de fiis. Prenderam o Reverendo Billing, mas o 
que nunca prenderam foi o que ele tinha libertado. E pouco importa 
que ele tenha obedecido a intentos impuros. Os seus materiais 
eram bons e o que ele construiu ainda se conserva de p. Apenas 
cito o caso de Billing como um exemplo extremo. Os pregadores 
honestos tinham energia e eram dinmicos. Combatiam o mal e 
expulsavam Sat de todos os lugares onde se introduzira. Poder-
-se- talvez dizer que cantavam a verdade e a beleza da mesma 
maneira que uma foca canta o Hino Nacional ao som das cornetas 
dum circo.  possvel mas ainda sobravam beleza e verdade bas-
tantes e o hino era reconhecvel. Contudo, as seitas fizeram mais 
do que isso. Criaram as bases da vida mundana no vale do Salinas. 
O jantar no presbitrio  av do clube local e as sesses poticas 
que se realizavam  tera-feira na cave da sacristia apadrinharam o 
teatro.
Enquanto as igrejas, carregadas do suave olor da piedade, 
investiam como ajaezados e impetuosos cavalos de cervejaria em 
dia de festa, a sua parente pobre entrava com pezinhos de l, toda 
curvada e velada, para evangelizar os corpos.
Talvez j tenham visto palcios de vcio e de deboche no Far 
West truncado e artificial dos filmes; alguns at, podem ter exis-
tido. Mas no havia nenhum assim no vale do Salinas. Os bordis 
eram calmos, ordenados e discretos. E, na verdade, se depois de 
terem escutado os gritos de xtase dos fiis, pontuados pelos acor-
des dos harmnios, ouvissem os murmrios que saam duma casa 
de prostituio, era natural que confundissem as identidades dos
dois ministrios. O bordel era tolerado, mas no reconhecido.
Vou-lhes contar como eram os solenes recintos amorosos de 
Salinas. Pareciam-se com os outros recintos das outras cidades, 
mas a rua amorosa de Salinas tem bastante que ver com esta 
histria.
Ia-se pela Main Street para Nascente at se encontrar Castro-
ville Street, que hoje se chama Market Street, s Deus sabe por-
qu. Antigamente, as ruas tinham os nomes dos stios aonde le-
vavam. Assim, seguindo-se por Castroville Street, andadas nove 
milhas, estava-se em Castroville; Alisal Street ia ter a Alisal e as-
sim por diante.
Seja como for, quando dessem com Castroville Street, viravam 
 direita. Passado o segundo cruzamento, - a rua era atravessada 
na diagonal pela linha da Pacfico Sul e por outra rua na direco 
Poente-Nascente. Juro-lhes pela minha salvao eterna que no 
me recordo do nome dessa rua. Se virassem  esquerda nessa rua 
e se atravessassem a linha, iam ter ao bairro chins. Se virassem  
direita, iam dar  tal rua do amor.
A calada era de barro, lamacenta no Inverno e dura como 
pedra no Vero. Na Primavera, a erva crescia nas valetas: aveia 
brava, malvasco e mostarda amarela. De manh cedo, as andori-
nhas chilreavam no meio dos bonicos de cavalo.
Recordas-te desses rudos, meu velho? Lembras-te da brisa 
oriental que trazia os cheiros do bairro chins, porco assado, lco-
ol, tabaco negro e yen shi? Lembras-te do som pesado do gongo 
do Joss? Lembras-te como o ar ficava a vibrar?
Recordas-te das humildes casas que nunca eram pintadas, 
nem reparadas? Pareciam muito pequenas e procuravam desapa-
recer atrs duma aparncia desmazelada, enquanto a grama ten-
tava dissimul-las aos olhos da rua. Recordas-te dos estores sem-
pre corridos, delimitados por trs nesgas de luz amarela? Do inte-
rior s vinha um murmrio. Abria-se a porta, entrava um cam-
pnio e tu ouvias gargalhadas e at uma cantilena sentimental 
moda num piano com um bocado de corrente de autoclismo 
atravessado nas cordas, e depois a porta tornava-se a fechar.
E o martelar dos cascos dos cavalos na rua? Desembocava 
Peter Bulene, guiando o seu carro. Parava diante duma casa e 
quatro ou cinco cavalheiros muito bem postos desciam. Talvez fos-
sem personalidades oficiais, homens ricos, banqueiros, ou 
frequentadores habituais da casa. Ento o Peter levava os cava-
los at  esquina e estendia-se no carro enquanto esperava pelos 
cavalheiros. Gatos enormes atravessavam a rua e desapareciam 
na erva alta.
E depois - lembras-te? - um apito de locomotiva, a luz in-
congruente do seu farol, e um comboio de mercadorias proveni-
ente de King City atravessava Castroville Street para entrar em 
Salinas, e tu ficavas a ouvir a locomotiva a arfar na estao. Recor-
das-te?
Todas as cidades tm as suas damas clebres, mulheres eter-
nas sentimentalmente glorificadas pelos anos fora. As damas exer-
cem uma atraco muito especial nos homens. Tm o crebro dum 
comerciante, os msculos dum campeo de boxe, o calor dum 
amigo e o talento dum actor. Formam-se lendas em torno delas e, 
por mais estranho que parea, tais lendas nada tm de voluptuo-
sas. As histrias que se contam duma dama englobam tudo, 
excepto a cama. Quando a recorda, o velho frequentador evoca 
uma alma filantrpica, uma autoridade mdica, uma impostora e 
uma poetisa das emoes corporais que nunca participava no jogo 
do amor.
Durante um certo nmero de anos, Salinas abrigara dois des-
ses tesoiros: Jenny, a quem tambm chamavam s vezes Jenny-
-a-Peidorreira, e a Negra, proprietria do Long Green. Jenny era 
uma boa mulher que sabia guardar um segredo e emprestar di-
nheiro. H todo um livro a escrever sobre as histrias da Jenny de 
Salinas.
A Negra era uma bela mulher de cabelos brancos de neve, 
austera, e duma dignidade sombria e terrvel. Os seus olhos cas-
tanhos, onde se escondia uma negra amargura, contemplavam 
este mundo pavoroso com um olhar desgostoso mas compreen-
sivo. A Negra governava a casa como uma catedral onde se ado-
rasse um Prapo triste, sim, mas em ereco. Quem quisesse go-
zar um bocado e apanhar umas palmadas nas costas, devia ir  
casa da Jenny, onde se dava o dinheiro por bem empregado. Mas 
quem sentisse cair-lhe em cima toda a tristeza do mundo, a ponto 
de lhe fazer chegar as lgrimas aos olhos, devia ir ao Long Green. 
Quando de l se saa, tinha-se a impresso de haver realizado um
acto importante. Nada que se comparasse com levantar umas sai-
as numa meda de feno. Os belos olhos escuros da Negra no se 
apartavam de ns durante vrios dias.
Quando Faye chegou de Sacramento e abriu a sua casa, as 
duas veteranas aliaram-se para correrem com ela, mas depressa 
verificaram que no se tratava de uma concorrente.
Faye era do gnero maternal, caloroso: peito opulento e ba-
cia larga. Era um seio para derramar lgrimas, toda ela acalmava 
e acariciava. Havia amadores para a catedral sexual da Negra e 
para as bacanais da Jenny, mas tambm havia clientela para a 
Faye. A sua casa transformou-se no refgio dos jovens minados, 
pela puberdade, que choravam uma virtude perdida e choravam por 
a continuar a perder cada vez mais. Faye era a consoladora dos 
maridos mal casados. Na sua casa, vingavam-se os esposos das 
mulheres frias. Faye era para os homens a av cedo desapareci-
da. E se, por acaso, algo de sexual acontecia em Faye, tinha--se 
a impresso de que era um acidente perdovel. Era na sua casa 
que a juventude de Salinas enveredava, pela forma mais fcil e 
encantadora, pelo spero caminho do sexo. Faye era uma 
mulher,agradvel, no muito inteligente, agarrada aos princpios e 
que se ofendia por tudo e por nada. Inspirava confiana e tinha 
confiana em ns. Quando se conhecia Faye, no se sentia von-
tade de lhe fazer mal. No era uma concorrente para as outras. 
Era uma terceira fase.
Tal como numa loja ou num rancho os empregados se pare-
cem com o patro, tambm numa casa de toleradas as mulheres se 
parecem com a patroa. Primeiro, porque ela s escolhe quem lhe 
apetece e, depois, porque uma boa patroa imprime a sua personali-
dade ao negcio. Podia-se estar bastante tempo em casa de Faye 
sem ouvir pronunciar uma palavra grosseira ou sugestiva.  en-
trada para os quartos, os pagamentos, eram to simples e casu-
ais que mal se dava por eles. Tudo somado, ela dirigia uma casa 
de primeirssima ordem, e disso se davam conta o delegado e o 
xerife. Contribua largamente para todas as obras de caridade. 
Com um medo pavoroso das doenas, pagava a um mdico para 
examinar regularmente as suas pensionistas. Tinha-se menos pro-
babilidades de arranjar uma complicao em casa de Faye do 
que com a professora da escola dominical. De modo que no tar-
dou que Faye se tornasse uma das cidads mais invejadas da prs-
pera cidade de Salinas.


2

A menina Kate intrigou bastante Faye: era to nova e bonita, 
to bem-educada e distinta... Faye mandou-a entrar para o seu 
prprio quarto e interrogou-a muito mais do que s vulgares pre-
tendentes. Faye era capaz de definir num abrir e fechar de olhos 
todas as mulheres que lhe batiam  porta: indolentes, viciosas, 
insatisfeitas, gulosas, ambiciosas. Kate no entrava em nenhuma 
destas classificaes.
- Espero que no se importe que lhe faa todas estas per-
guntas. Acho estranho que tenha c vindo. Com uma cara dessas, 
podia arranjar um marido, uma equipagem e uma boa casa, sem 
que se incomodasse muito.
Faye fez girar a aliana no seu gordo anular. Kate sorriu timida-
mente.
-  to difcil de explicar. Espero que no insista em querer 
saber. Est em jogo a felicidade de algum muito chegado. Peo-
-lhe por tudo que no me pergunte nada.
Faye aquiesceu solenemente.
- H tantos casos lamentveis! Tive uma pensionista que 
estava criando um filho e, durante muito tempo, no soube de 
nada. Agora, tem uma bela casa e um marido em... L me esca-
pava! Preferia cortar a lngua. Tem algum menino, querida?
Kate baixou os olhos para tentar dissimular as lgrimas. Quan-
do conseguiu falar, murmurou:
- Desculpe-me, mas no posso dizer nada.
- Ora essa, ora essa, ningum a obriga a falar.
Faye no era inteligente, mas estava longe de ser parva. Foi 
ter com o xerife e explicou-lhe tudo. Seria ridculo arriscar-se. Sa-
bia que havia algo de estranho em Kate, mas, se isso no trou-
xesse prejuzo para a casa, Faye nada tinha a ver com o caso.
Os seus temores dissiparam-se logo que Kate se entregou 
ao trabalho com ardor. Quando os clientes voltam e escolhem uma
rapariga tratando-a pelo seu nome prprio,  porque ela vale alguma 
coisa. E no  com os seus lindos olhos que ela obtm esse resul-
tado. Faye adquiriu a certeza de que Kate no era uma principiante.
Quando se tem uma nova pensionista, h duas coisas que 
contam: a primeira  trabalhar ela?; e a segunda entender- - 
se- com as outras? No h como uma rapariga dotada de mau 
feitio para semear a desordem numa casa.
Faye no teve de esperar muito tempo para obter resposta  
segunda pergunta. Kate fez tudo o que pde para se tornar agra-
dvel. Ajudou as colegas a limpar os quartos; levou-lhes comida 
quando estavam doentes, ouviu-lhes as histrias e, assim que teve 
dinheiro, emprestou-lhes. No podia haver melhor. Passado pouco 
tempo, era a maior amiga de toda a gente.
Kate chamava a si todos os aborrecimentos, no havia emprei-
tada que a assustasse e, o que era melhor, fazia subir a receita. 
No tardou muito tempo que tivesse um numeroso grupo de admi-
radores. E que delicadeza. Recordava-se sempre das datas dos 
aniversrios e oferecia uma prenda e um bolo com velas. Faye es-
tava convencida de ter achado um tesoiro.
As pessoas no sabem o que  ser patroa. Pensam que bas-
ta sentar-se numa poltrona, ingurgitar muita cerveja e arrecadar 
metade dos ganhos das raparigas. Mas no  nada disto. As pen-
sionistas tm direito ao sustento, o que representa conta na mer-
cearia e um cozinheiro. O problema da lavagem da roupa  muito 
mais complicado do que num hotel.  preciso conservar o harm 
em boas condies, fazendo com que se sinta to feliz quanto 
possvel, e o prostbulo  um lugar de eleio para a neurastenia. 
Tem de se reduzir o suicdio a um mnimo absoluto e as prostitu-
tas, principalmente as que vo envelhecendo, tm uma grande 
tendncia para brincar com navalhas, o que s pode dar cabo da 
fama duma casa.
No  tarefa fcil e o desperdcio pode levar um negcio  
falncia. Quando Kate se ofereceu para tomar conta das compras 
e das refeies, Faye ficou encantada mas perguntou a si mesma 
onde iria a rapariga arranjar tempo para tanta coisa. Pois bem! 
No s a comida melhorou como as contas da mercearia ficaram 
reduzidas a um tero no primeiro ms. Quanto s da lavandaria, 
encolheram vinte e cinco por cento. Faye nunca soube o que Kate
disse ao homem da lavandaria, mas era caso para perguntar como 
tinha conseguido viver antes de conhecer a rapariga.
 tardinha, antes de principiar o trabalho, sentavam-se as duas 
no quarto de Faye e tomavam ch. O quarto ficara muito mais agra-
dvel desde que Kate pintara as madeiras e colocara cortinas de 
renda. As raparigas compreenderam que havia duas patroas e sen-
tiram-se contentes pois, com Kate, tudo se tornava fcil. Deixaram-
-se iniciar em novas prticas, que no tinham mal nenhum e que s 
eram pretexto para uma boa gargalhada.
Um ano se passou e Faye e Kate eram como me e filha. E 
as pequenas diziam: Reparem bem. Esta casa ainda h-de ser 
dela um dia.
Kate tinha sempre as mos ocupadas, a maior parte das ve-
zes a bordar iniciais em finos lenos. Todas as raparigas tinham 
um que guardavam preciosamente.
Gradualmente, aconteceu uma coisa muito natural. Faye, a 
essncia da maternidade, ps-se a considerar Kate como filha. Era 
um sentimento que se lhe assenhoreara do corao e das emo-
es que lhe fazia sofrer a sua natural moralidade. No queria que 
sua filha fosse uma puta, o que era perfeitamente razovel.
Faye perguntava a si mesma como abordaria o problema. No 
estava nos seus hbitos atacar as questes pela frente. Seria in-
capaz de dizer: No quero que continues a prostituir-te.
- Se for segredo, no me respondas. Mas sempre senti von-
tade de te perguntar. Que te disse o xerife...? Meu Deus, j foi h 
um ano. Como o tempo passa! E passa mais depressa quando se 
envelhece. Ele esteve quase uma hora fechado contigo. No teria 
ele... No, claro que no.  um pai de famlia. Ele prefere ir a casa 
da Jenny. Mas no me quero meter na tua vida.
- No h segredo nenhum - disse Kate. - Se houvesse 
dizia-lhe logo. Ele aconselhou-me, com toda a amabilidade, a que 
voltasse para casa. Quando lhe expliquei que no podia, foi muito 
compreensivo.
- Disseste-lhe porqu? - perguntou Faye com uma ponta 
de cime.
- Claro que no. Supe que lhe ia revelar uma coisa que nem 
a si quis dizer? No seja ridcula, querida. At parecem coisas de 
criana.
Faye sorriu e aninhou-se com satisfao na sua poltrona.
O rosto de Kate estava impassvel, mas ela recordava-se, pala-
vra por palavra, de toda  entrevista. Francamente, o xerife agrada-
ra-lhe. Era um homem s direitas.


3

Ele fechara a porta do quarto e examinara tudo com um olhar 
rpido e profissional: nem fotografias, nem objectos pessoais. 
Nada, a no ser roupas e calado.
Sentou-se na exgua cadeira de verga e uniu os dedos que 
pareceram comear a conversar como formigas gigantes. Falou numa 
voz monocrdica como se no estivesse muito interessado no que 
dizia. Foi talvez isso o que impressionou Kate.
No princpio da conversa, ela arvorara o seu olhar estpido e 
teimoso, mas assim que ele pronunciou as primeiras palavras, Kate 
ps de parte esse mtodo e mergulhou os olhos nos dele para 
tentar adivinhar o que pensava. Ele no olhava para ela, mas tam-
bm no desviava o olhar. Ela sabia que o xerife a estava observan-
do. Sentia-lhe o olhar fixo na cicatriz, um olhar to insistente que 
quase parecia ro-la.
- No organizarei cadastro - disse ele calmamente.- J 
ocupo este posto h muito tempo e a reforma est por pouco. 
Garanto-lhe, minha menina, que se isto se tivesse passado quin-
ze anos atrs, no deixaria de fazer as minhas indagaes e te-
nho a certeza de que poria a claro coisas bastante feias.
Aguardou uma reaco, mas ela no protestou. O xerife aba-
nou a cabea.
- No quero saber nada - continuou. - S desejo a paz 
neste condado e quero que seja respeitada, custe o que custar. 
Ainda no travei conhecimento com o seu marido.
Kate compreendeu que ele notara o pequeno estremecimen-
to que a percorrera.
- Parece que  um homem encantador. Tambm parece que 
foi gravemente atingido.
Fitou-a nos olhos.
- No lhe interessa saber o mal que causou o seu tiro de 
pistola?
- Interessa - disse ela.
- Desta ainda escapa. Ficou com o ombro esfrangalhado, mas 
escapa. O chins trata-o na perfeio. Como  evidente, no pode-
r utilizar o brao esquerdo por muito tempo. Um tiro de 44 no  
brincadeira nenhuma. Se o chins no tivesse voltado a tempo, o 
Sr. Trask teria sangrado toda a noite, morreria e voc estaria agora 
atrs das grades da minha priso.
Kate continha a respirao, procurando adivinhar o que se 
iria seguir, mas o polcia mantinha-se impenetrvel. 
- Tenho muita pena - disse ela.
O olhar do xerfe ficou alerta.
- Acaba de cometer um erro, pois sei muito bem que no tem 
pena nenhuma. Conheci uma pessoa no seu gnero, h uma dzia 
de anos, que foi enforcada diante da cadeia. Costumvamos fazer 
isso nesse tempo.
O quartinho com o seu leito de mogno, os seus objectos de 
toucador, a sua mesa de cabeceira e o bacio, o seu papel pintado 
onde se repetiam infindavelmente as mesmas rosas, ficou com-
pletamente silencioso quando acabaram de soar as ltimas pa-
lavras.
O xerife contemplava uma gravura representando trs queru-
bins - s trs cabeas de cabelos encaracolados e olhares 
lmpidos, com os pescoos ornados de asas de pombo. Franziu 
as sobrancelhas.
- Estranha gravura para uma casa destas - disse ele.
- J c estava quando cheguei - esclareceu Kate. 
Aparentemente, o prembulo j tinha terminado.
O xerife endireitou-se na cadeira, desenlaou os dedos e pou-
sou as mos nos braos da cadeira.
- Abandonou dois gmeos - recomeou ele -, duas crian-
as de tenra idade. Calma. No lhe vou pedir que volte para junto 
deles. Creio at que farei tudo o que puder para evitar uma coisa 
dessas. Conheo muito bem as pessoas da sua raa. Poderia p-
la fora do meu distrito e passar palavra ao xerife vizinho e assim 
sucessivamente at a obrigar a mergulhar no oceano Atlntico. Mas 
no farei isso. No me importa saber como vive, desde que no me
arranje aborrecimentos. Uma puta  uma puta. 
Kate perguntou numa voz sem cor:
- Que quer que faa?
- Assim  que  respondeu o xerife. - O que eu quero  
s isto: reparei que mudou de nome. Vai ficar com ele. Suponho 
que tambm inventou outro local de nascimento. A partir de hoje, 
foi l que realmente nasceu. Quanto ao motivo que a empurrou 
para aqui, veja se nunca o explica a menos de duas mil milhas do 
meu gabinete.
Kate sorriu ligeiramente, mas era um autntico sorriso. Prin-
cipiava a depositar confiana naquele homem. O xerife agradava-
-lhe.
- Tambm me lembrei - prosseguiu ele - de que talvez co-
nhecesse gente na vizinhana.
- No conheo ningum.
- Ouvi falar numa agulha de tricotar - acrescentou ele aci-
dentalmente. - Pode dar-se o caso de algum que conhece entrar 
aqui.  essa a cor natural dos seus cabelos?
- .
- Pinte-os de preto durante algum tempo. H uma quanti-
dade de pessoas que se parecem com outras pessoas. 
- E isto?
Com o dedo, Kate designava a cicatriz.
- Isso  uma... Falta-me a palavra. Ai! tenho-a debaixo da 
lngua...
- Uma coincidncia?
- Isso mesmo. Uma coincidncia.
Parecia ter acabado. Pegou em tabaco e mortalhas e fez um 
cigarro frouxo e amarrecado. Riscou um fsforo sulfuroso e man-
teve-o afastado at a chama passar do azul ao amarelo. O cigarro 
acendeu-se mal e o papel ardeu s de um lado.
Kate perguntou:
- No haver perigo? Suponha que...
- No. Se surgisse algum imprevisto, eu saberia agir. S 
peo uma coisa:  que voc, a sua profisso, os seus actos e as 
suas palavras nunca possam ferir o Sr. Trask e os seus filhos. O 
melhor  imaginar que morreu e ressuscitou sob outra forma. As-
sim, tudo correr pelo melhor.
Ergueu-se, encaminhou-se para a porta e, depois, voltou-se.
- Tenho um filho que vai fazer vinte anos. Um belo latago 
com o nariz partido. Todos gostam dele. No quero que venha c. 
Vou prevenir a Faye. Ele que v  casa da Jenny. Se ele por c 
aparecer, mande-o para a Jenny.
O xerife fechou a porta. Kate examinou as unhas a sorrir.


4

Faye rodou na cadeira para apanhar uma fatia de bolo de no-
zes. Tinha sempre a boca cheia de qualquer coisa. Kate perguntou 
a si mesma, com um certo receio, se Faye tinha o dom de ler o 
pensamento, quando a ouviu dizer:
- No gosto. Disse e repito que preferia ver-te com cabelos 
loiros. No percebo que mania foi essa que te deu de os tingires. 
Tens uma pele to bonita.
Kate pegou numa mecha de cabelo e enrolou-a nos dedos. 
Ela era muito inteligente e foi por isso que proferiu a melhor e a 
mais eficaz das mentiras: a verdade.
- No tencionava dizer-lhe, mas receava que me reconheces-
sem e que isso pudesse prejudicar algum.
Faye levantou-se da cadeira, aproximou-se de Kate e beijou-
-a.
- s to boa rapariga! Tens tanto tacto! 
Kate props:
- E se tomssemos ch? Vou faz-lo num instante.
Saiu do quarto e, no corredor que levava  cozinha, apagou o 
beijo com a ponta dos dedos.
Quando se tornou a sentar, Faye pegou num grande bocado 
de bolo onde se desenhava uma noz inteira, e deu-lhe uma denta-
da. Uma lasquinha de casca de noz penetrou-lhe num dente cariado 
e despertou o nervo. Sentiu-se invadida por uma dor atroz que 
parecia ser feita de chamas azuladas, e o suor comeou a correr-
-lhe pela testa. Quando Kate voltou com o tabuleiro do ch, Faye 
tinha uma mo na boca e gemia com dores.
- Que tem?- exclamou Kate.
- Uma lasca de noz no meu dente.
- Deixe ver. Abra a boca e mostre-me.
Kate observou a maxila, pegou num palito e, em menos de
um segundo, extraiu a lasca e exibiu-a na palma da mo. 
- Aqui a tem - disse ela.
A dor atenuou-se.
- S isso? Estava convencida de que tinha um guarda-chu-
va enfiado no dente. Ouve, querida, abre a segunda gaveta onde 
esto os remdios. Tira o paregrico e um pedacinho de algodo.
Kate foi buscar o frasco e introduziu uma bolinha de algodo 
embebida em lquido na cavidade do dente, com o auxilio do pali-
to.
- Devia mandar arranc-lo.
- Isso sei eu.
- A mim j me faltam trs dentes deste lado.
- No se nota. Sinto-me toda arrepiada. Traz-me a garrafa 
de Pinkham.
Bebeu pela garrafa um golo do extracto de legumes e suspirou 
de alvio:
- Que remdio maravilhoso! - disse ela.- A mulher que 
inventou isto era uma santa.



CAPTULO XX
1

Estava uma tarde esplndida. Sentada  janela, Faye avistava 
o cume do monte Fremont levemente rosado pelos ltimos raios de 
sol. De Castroville Street vinha o rudo dos guizos duma grande 
carroa puxada por oito cavalos. O cozinheiro remexia as caaro-
las na cozinha. Faye ouviu algum a roar pela parede e, logo a 
seguir, uma pancadinha na porta.
- Entra, Olho-de-Algodo.
A porta abriu-se e o pequeno pianista corcunda de olhos pa-
rados imobilizou-se no limiar, aguardando que Faye falasse para 
saber onde estava.
- Que queres? - perguntou Faye. 
O homem voltou-se para ela.
- No me sinto bem, Sra Faye. Precisava de me meter na 
cama e de no tocar esta noite.
- J estiveste doente duas noites na semana passada. No 
gostas do teu trabalho?
- No me sinto bem.
- Bom. Por esta noite, est bem. Devias tratar de ti. 
Kate sugeriu afavelmente:
- Devias pr de lado a droga durante uns quinze dias.
- Oh! menina Kate, no sabia que estava c! Eu no tenho 
fumado.
- Tens fumado, sim - afirmou Kate.
- Est bem, menina Kate, no torno a tocar no cachimbo. 
No me sinto nada bem.
Fechou a porta e ouviram a sua mo tacteando a parede para
encontrar o caminho.
Faye observou:
- Ele disse-me que tinha deixado de fumar. 
- Pois continuou.
-O desgraado - disse Faye - no tem muito que o prenda 
 vida.
Kate postou-se diante dela.
- s boa de mais - disse ela.- Tem confiana em toda a 
gente. Se no tiver cuidado, qualquer dia at lhe roubam o telhado 
da casa.
- Quem teria vontade de me roubar? - perguntou Faye. 
Kate pousou as mos nos gordos ombros de Faye: 
- Nem todos so to bons como a senhora,
Cintilaram lgrimas nos olhos de Faye. Pegou num leno que
estava em cima duma cadeira ao lado, limpou os olhos e deu umas
palmadnhas delicadas nas narinas.
- Tu s como se fosses minha filha, Kate.
- J comeo a convencer-me disso. Eu no conheci a minha
me. Ela morreu quando eu era muito pequena. 
Faye respirou fundo e atacou:
- Kate, custa-me muito ver-te trabalhar.
- Porqu?
Faye abanou a cabea, procurando as palavras.
- No  que tenha vergonha, a minha casa  boa e, se no
houvesse esta, haveria outra pior em seu lugar. Como no fao
mal a ningum, no tenho de que me envergonhar. 
- No tem razes nenhumas para isso.
- Mas no gosto que trabalhes. s como se fosses minha
filha e eu no quero que a minha filha trabalhe.
- No seja pateta, querida - disse Kate.- Faz-me falta,
aqui ou noutro lugar qualquer. J lhe disse que preciso de dinheiro. 
- No, no  verdade.
- , sim,  verdade. Onde poderia eu ir arranj-lo?
- Poderias ser a minha filha, dirigir a casa, ocupares-te de 
certas coisas e no ires para o quarto. Sabes perfeitamente que 
no me sinto muito bem.
- Pois claro que sei, minha pobre querida, mas preciso de 
dinheiro.

- Eu tenho que chegue para as duas. Poderia dar-te o mes-
mo ou mais do que ganhas actualmente e no ficava a perder. 
Kate abanou tristemente a cabea.
- Gosto muito de si - disse ela -, e quem me dera poder 
obedecer-lhe. Mas a senhora precisa de pr dinheiro de lado e eu... 
Suponha que lhe acontece alguma coisa. No, tenho de continuar 
a trabalhar. Sabe que esta noite tenho cinco fregueses  minha 
espera?
Faye ficou horrivelmente chocada.
- No quero que continues a trabalhar. 
-  preciso, mam.
A palavra deu o resultado desejado. Faye desatou a chorar.
Kate sentou-se no brao da cadeira, acariciou-lhe o rosto e 
secou-lhe as lgrimas. Por fim, os soluos tornaram-se mais es-
paados.
A escurido envolvia o Vale. O rosto de Kate resplandecia sob 
os cabelos negros.
- J se sente melhor? Vou dar uma volta at  cozinha e 
depois vou vestir-me.
- Kate, no podes dizer aos teus fregueses que ests doen-
te?
- No posso, no, mam.
- Kate, hoje  quarta-feira. Depois da uma hora, j no deve 
haver ningum.
-  o dia do banquete anual da Unio dos Madeireiros. 
-  verdade. Mas como  quarta-feira, vo-se embora antes 
das duas.
- Onde quer chegar?
- Quando todos se forem embora, bate  minha porta. Te-
nho uma surpresa para ti.
- Que espcie de surpresa?
- Oh! Uma autntica surpresa. J que vais  cozinha, diz ao 
cozinheiro que venha c.
- Desconfio que a surpresa  um bolo.
- No faas perguntas, querida.  uma surpresa. 
Kate beijou-a.
- Adoro-te, mam.
Depois de ter fechado a porta, Kate ficou um instante no corre-
dor. Passou a mo pelo queixo. Os olhos estavam tranquilos. De-
pois, estendeu os braos acima da cabea e todo o seu corpo se 
retesou num bocejo voluptuoso. Lentamente, acariciou o corpo dos 
seios at s ancas. A boca esboou um sorriso enquanto se enca-
minhava para a cozinha.


2

Os poucos clientes habituais entraram e sairam. Dois curio-
sos vieram espreitar o pessoal mas no apareceu um s madei-
reiro. O mulherio bocejou na sala at s duas da manh.
Um triste acidente retivera os madeireiros. Clarence Monteith 
teve uma crise cardaca no meio da sesso de encerramento do 
congresso, antes do banquete. Aps a chegada do Dr. Wilde, os 
madeireiros fizeram uma padiola com dois paus de bandeira enfia-
dos nas mangas dum casaco. Clarence morreu no caminho e tive-
ram de ir chamar o mdico outra vez. Quando acabaram de tratar 
do funeral e de redigir o artigo necrolgico, j ningum sentia von-
tade de ir ver as mulheres.
Quando estas, no dia seguinte, souberam o que se tinha pas-
sado, lembraram-se logo do que dissera a Ethel s duas menos 
dez.
- Meu Deus! - exclamara a Ethel. - Que calma! Nem m-
sica h. E a Kate perdeu a lngua. At parece um velrio.
Mais tarde, a Ethel sentiu-se comovida por ter proferido esta 
frase.
Grace respondera:
-O que vai ser de si sem a lngua, Kate? No se sente bem? 
Kate, no se sente bem?
Kate sobressaltou-se:
- Estava a pensar numa coisa.
- Pois eu no - disse Grace.- Estou cheia de sono. Por-
que no fechamos? Vamos pedir  Faye. Esta noite no aparece 
um gato. Eu vou pedir  Faye.
A voz de Kate deteve-a:
- Deixa a Faye sossegada. Ela no est bem. Quando de-
rem as duas, fechamos.
-O relgio est parado - disse Ethel. -O que tem a Faye? 
Kate respondeu:
- Era nisso que eu pensava. Estou tremendamente preocupada
por causa dela. No est nada bem e no o quer dar a entender. 
- E eu a julgar que ela estava ptima! - disse Grace. 
Ethel acertou em cheio novamente:
- Tambm a mim no me parece l muito fina. J reparei 
que tem um ar congestionado.
Kate disse com toda a suavidade:
- No lhe digam que lhes toquei no assunto. Ela no quer 
que se apoquentem.  to boa!
- No h dvida que nunca estive numa casa to porreira - 
disse Grace.
Alice comentou:
- Ela que nunca te oia dizer palavras dessas.
- Ora, ora! Ela conhece-as to bem como eu - respondeu 
Grace.
- Mas no gosta que as digam. Pelo menos, ns. 
Kate explicou-lhes pacientemente:
- Vou contar-lhes o que se passou. Estvamos a tomar 
ch,esta tarde, quando ela desmaiou. Acho que devia consultar um 
mdico.
- Eu reparei que ela tinha um ar congestionado - insistiu 
Ethel. - Este relgio no est bom. J nem percebo se se adianta, 
ou se se atrasa.
- Vo-se deitar. Eu fecho as portas - disse Kate.
Assim que elas saram Kate foi ao quarto e ps o vestido 
novo de seda estampada que lhe dava um aspecto de adolescen-
te. Escovou o cabelo, fez a trana e ps-lhe um lacinho branco. 
Depois esfregou a cara com gua-de-colnia. Aps um instante 
de hesitao, tirou da gaveta da cmoda um relgiozinho de oiro 
que pendia duma cadeia com o fecho em forma de flor-de-lis. 
Embrulhou o relgio no seu mais belo leno e saiu.
O corredor estava escuro, mas via-se uma fmbria de luz por 
baixo da porta de Faye. Kate bateu devagarinho.
- Quem ?- perguntou Faye.
-  a Kate.
- No entres j. Espera a fora. J te digo para entrares. 
Kate ouviu um rumor no quarto, depois, a voz de Faye: 
- Pronto. Podes entrar.
O quarto estava enfeitado. Lanternas japonesas penduradas 
eram hastes de bambu que brilhavam nos cantos e tiras de papel de 
lustro vermelho caam do centro do tecto para as paredes, forman-
do baldaquino. Em cima da mesa, estava um grande bolo com ve-
las. Uma caixa de chocolates e um magnum de champanhe dentro 
do balde de gelo. Faye ostentava o seu mais belo vestido de renda 
e os olhos cintilavam-lhe de emoo.
- Meu Deus! - exclamou Kate ao fechar a porta. -  uma 
festa.
-  uma festa para a minha querida filhinha. 
- Mas no  o meu aniversrio.
- Talvez seja, at certo ponto - disse Faye.
- No percebo o que queres dizer. Eu trouxe-te um presente. 
Colocou o leno dobrado nos joelhos de Faye. 
- Tem cuidado ao abri-lo - disse ela.
Faye pegou no relgio.
- Oh! querida, querida... Minha doidinha, eu no posso acei-
tar.
Abriu a tampa com a ponta da unha. No interior estavam gra-
vadas estas palavras: Para C. de todo o corao of. A.
- Era o relgio da minha me - disse Kate meigamente. - 
Quero d-lo  minha nova mam.
- Querida filha! Querida filha!
- A minha me ficaria contente se soubesse.
- Esta festa  para ti. Tambm eu tenho um presente para ti, 
mas quero d-lo  minha maneira. Abre a garrafa e enche duas 
taas enquanto eu corto o bolo. Quero fazer as coisas como deve 
ser.
Assim que tudo ficou pronto, Faye aproximou a cadeira da 
mesa e ergueu a sua taa.
-  minha nova filha, para que viva muitos anos e bons. 
Depois de terem bebido, Kate disse por seu turno: 
-  minha me.
Faye disse:
- Vais fazer-me chorar, v l! Em cima da escrivaninha est
um cofrezinho de mogno. Sim, esse mesmo. Pe-no em cima da 
mesa e abre-o.
A caixa continha um papel enrolado, atado com uma fita ver-
nelha.
- O que  isto?- perguntou Kate.
-  a minha prenda. Desenrola-o.
Kate desfez o n e desenrolou o papel, que tinha traadas 
algumas linhas numa caligrafia aplicada e elegante. No fundo da 
folha, viam-se as assinaturas de Faye e do cozinheiro:
- Lego todos os meus bens sem excepo a Kate Albey que 
considero como minha filha.
Era simples, directo e, legalmente, irrefutvel. Kate releu o 
texto trs vezes, olhou a data, examinou a assinatura do cozi-
nheiro. Faye observava-a com a boca entreaberta pela expectati-
va. Quando Kate mexeu os lbios lendo as palavras, Faye tam-
bm mexeu os seus.
Kate enrolou o papel, atou a fita e tornou a guardar tudo no 
cofre cuja tampa fechou. Sentou-se numa cadeira. Faye perguntou 
finalmente:
- Ests satisfeita?
Os olhos de Kate pareciam penetrar nos de Faye. Pareciam 
fur-los para atingir o crebro. Kate disse calmamente:
- Estou a ver se me contenho, mam. No sabia que pudes-
se haver pessoas to boas. Tenho medo de me desfazer em pe-
daos se disser alguma coisa muito depressa ou se me aproximar 
muito de ti.
Era muito mais dramtico do que Faye supusera. 
-  uma prenda esquisita, no ?
- Esquisita, no.
- Quero eu dizer que um testamento  um presente estra-
nho. Mas significa mais do que isso. Agora tu s minha verdadeira 
filha. J te posso dizer tudo. Eu tenho... no, - ns temos de 
reserva mais de sessenta mil dlares. Na minha secretria esto 
os livros com as contas e as chaves dos cofres. Vendi a minha 
casa de Sacramento por bom preo. Porque no dizes tu nada, 
minha filha? Ests aborrecida por qualquer motivo?
- Um testamento soa a morte.  um mau pressgio.
- Toda a gente devia fazer testamento.
- Bem sei, mam - Kate sorriu com tristeza. - Estou a 
pensar numa coisa. Lembra-te de todos os teus parentes que ten-
taro anular este testamento. No podes fazer uma coisa destas.
- Minha pobre filhinha,  s isso o que te preocupa? j no 
tenho famlia e, se tivesse, como poderia ela saber? julgas que s 
a nica a ter um segredo? julgas que eu uso o nome que tinha ao 
nascer?
Kate fitou Faye demoradamente.
- Kate! - exclamou esta ltima. - Kate,  uma festa. No 
estejas triste. Pareces gelada.
Kate levantou-se, afastou brandamente a mesa e sentou-se 
no cho, encostando o rosto aos joelhos de Faye. O seu dedo fino 
acompanhou um fio de oiro que corria na renda. Faye acariciou a 
face de Kate, depois, o cabelo, e tocou ao de leve nas orelhas 
estranhas. Timidamente explorou com a ponta dos dedos as cer-
canias da cicatriz.
- Nunca me senti to feliz - disse Kate.
-Tambm eu me sinto feliz, querida. Mais feliz do que nunca. 
J no me parece estar s. Sinto-me em segurana na tua compa-
nhia.
Kate prendeu delicadamente o fio de oiro na ponta das unhas. 
Ficaram sentadas por muito tempo numa doce ntimidade, 
at que Faye quebrou o encanto.
- Kate - disse ela -,  uma festa. J nos esquecamos.
Vamos beber champanhe para comemorar isto. 
Kate perguntou, levemente constrangida: 
- Ser necessrio, mam?
- Evidentemente. S nos pode fazer bem.  preciso levantar 
o brao de vez em quando, para matar o bicho. Tu no gostas de 
champanhe, Kate?
- Nunca bebi muito. Faz-me mal.
- Asneiras. Enche as taas, querida.
Kate ergueu-se e encheu as taas.
- Bebe - disse Faye. Olha que estou a vigiar-te. No vais 
deixar uma velha embriagar-se sozinha.
- Tu no s uma velha, mam.
- No fales. Bebe. No tocarei na minha taa enquanto no 
beberes. (Esperou que Kate tivesse bebido e, depois, despejou a
sua taa de um trago.- Isto faz bem -disse ela. -Torna a ench-
-las. Vamos, minha filha, pela goela abaixo. No h nada melhor 
para esquecer.
Todo o organismo de Kate se contraa  passagem do vinho. 
Recordava-se e tinha medo.
- Como  triste o fundo duma taa. Deita mais.
A transio deu-se em Kate quase logo a seguir  segunda 
taa. O seu medo, o seu medo de tudo, evaporou-se. Sempre 
receara isso e, agora, j era muito tarde. O vinho destrura as barra-
gens que ela erguera laboriosamente, mas j no se importava. A 
coisa que aprendera a disfarar e a dominar estava perdida. A voz 
subiu de tom, os lbios arreganharam-se, os olhos cintilaram sob 
as plpebras semicerradas e o olhar tornou-se irnico.
-  a tua vez de beber, mam. Tenho-te debaixo de olho. 
Pronto... Aposto que no s capaz de beber duas sem tomar fle-
go.
- No apostes porque perdias. Sou capaz de beber seis. 
- Mostra-me.
- Se o fizer, acompanhas-me?
- Claro.
O concurso principiou, o vinho espalhou-se pela mesa e o nvel 
desceu no magnum de champanhe.
Faye soltava casquinadas. Os seus olhos brilhavam duma 
forma curiosa.
- Quando era nova, aconteceram-me coisas que tu nem 
podes imaginar,
Kate disse:
- Tambm te podia contar coisas incrveis.
- Tu? No digas disparates. No passas duma criana. 
Kate riu-se.
- Criana, eu? Pois sim! Nunca deves ter visto nenhuma 
como eu.
O seu riso intensificou-se e penetrou no torpor alcolico que 
se apoderara de Faye.
- Tens um ar estranho - disse Faye, fixando os olhos de 
Kate. - Deve ser da luz. No pareces a mesma. 
- E no sou.
- Chama-me mam querida.
- Mam querida!
- Kate, vamos ter uma rica vida.
- Ai no! Melhor do que tu julgas.
- Sempre tive vontade de ir  Europa. Podamos tomar o 
barco e ir comprar lindos vestidos a Paris.
- Pois podamos, mas, por enquanto, no. 
- Porque no? Dinheiro no me falta.
- Havemos de ter muito mais.
Faye defendeu a sua causa.
- Porque no vamos j? Podamos vender a casa. Com o 
negcio que estamos fazendo, no nos davam menos de dez mil 
dlares.
- No.
- Que significa isso? A casa  minha e posso vend-la quan-
do me apetecer.
- Esqueces que sou tua filha?
- No gosto que me fales nesse tom, Kate. Que tens tu? 
Ainda h champanhe?
- Sobrou um resto no fundo da garrafa. Aqui tens, bebe 
mesmo pela garrafa. Anda, mam, isso mesmo, deixa-o escorrer 
pelo pescoo e encharca o colete. Molha-me essa barriga!
Faye revoltou-se.
- Kate, no sejas ordinria! Estvamos to bem. Porque 
queres estragar tudo?
Kate arrancou-lhe a garrafa da mo.
- D-me isso.
Emborcou-a e atirou-a para o cho. Tinha o rosto contrado e 
os olhos brilhantes. Os lbios pequenos estavam entreabertos e 
descobriam os dentes aguados. Os caninos eram mais compri-
dos e aguados do que os outros. Kate riu docemente.
- Mam, minha querida mam, vou mostrar-te como se ex-
plora um bordel. At as lesmas que por a aparecem ho-de pagar 
um dlar pelo gozo que ns lhes dermos.
Faye atalhou:
- Kate, ests bbeda. No percebo de que ests a falar.
- Ai no, mam querida? Queres que te d pormenores? 
- Quero que sejas boazinha, quero que sejas como eras. 
- Agora  tarde. Eu no queria beber, mas tu, minha lom-
briga gorda, obrigaste-me a isso. No esqueas que sou a tua que-
rida, a tua adorada filha. Ficaste surpreendida quando soubeste 
que eu tinha fregueses. Julgas que me desfao deles? Julgas que 
eles me pagam um magro dlar com os trocos que trazem? Ests 
muito enganada. Do-me dez dlares e  mais caro de cada vez 
que voltam.J no podem passar sem mim. No h ningum que 
lhes d aquilo que eu lhes sei dar.
Faye ps-se a chorar como uma criana.
- No fales desse modo. Tu no s assim, tu no s assim.
- Mam querida, minha gorda mam, v ento se baixas as 
calas de um dos meus fregueses. Hs-de ver as cicatrizes que 
tm nas virilhas. Vers como so bonitas. E os cortes que nunca 
mais param de sangrar! Oh! mam querida, eu tenho um estojo 
com a mais bela coleco de navalhas que tu possas imaginar, e 
to afiadas, to afiadas!
Faye debateu-se para sair da cadeira. Kate empurrou-a.
- Fica sabendo, mam,  assim que h-de ser em toda a 
casa. A tarifa ser de vinte dlares e obrigaremos esses porcos a 
tomarem banho. Depois, limpamos-lhe o sangue com lenos 
finssimos de seda branca, sim, mam querida, o sangue que es-
corre das feridas feitas com chicotezinhos de ns nas pontas.
Faye soltou um berro rouquenho. Kate precipitou-se para a 
cadeira e tapou-lhe a boca com a mo.
- No faas barulho. Pronto, assim  que s bonita. Podes
vomitar na mo da tua filha, mas no faas barulho.
 cautela, tirou a mo e limpou-a na saia de Faye. 
A gorda mulher sussurrou:
- Desaparece! Eu dirijo uma boa casa onde no se fazem 
porcarias. Pe-te a andar!
- No te quero deixar sozinha, - minha pobre querida. (A 
voz fez-se tremente.) - Metes-me nojo. (Pegou numa taa e foi 
at  secretria onde a encheu com elixir paregrico.) - Toma, 
bebe isto que te faz bem.
- No quero.
- No sejas criana. Bebe! (Obrigou Faye a beber.) - S 
mais um golo.
Faye grunhiu surdamente por instantes, depois estendeu-se 
na cadeira e adormeceu a ressonar.



3

O terror que crescia no esprito de Kate transformou-se em 
pnico. Kate lembrou-se da ltima vez e logo uma nusea a do-
brou ao meio. Juntou as mos e o medo aumentou. Acendeu uma 
vela e foi cambaleando pelo corredor fora at  cozinha. Deitou 
farinha de mostarda num copo, misturou-lhe gua e bebeu. 
Enclavinhou as mos no rebordo do lava-loias enquanto a papa 
espessa deslizava, escaldante, pelo esfago. Kate contorceu-se, 
sacudida pelos espasmos. Finalmente destrudo o efeito do vinho, 
a mente desanuviou-se, mas o corao batia com violncia e Kate 
sentia-se muito fraca.
Relembrou o sero, cena por cena, esquadrinhando tudo como 
um co a farejar. Molhou a cara, limpou o lava-loias e tornou a 
pr a mostarda no seu lugar, em cima da prateleira. Depois, re-
gressou ao quarto de Faye.
O alvor da madrugada recortava o cume do Frmont que pare-
cia negro no fundo claro do cu. Faye continuava a ressonar na 
cadeira.
Kate contemplou-a por instantes, depois, desmanchou a cama, 
pegou no peso morto da gorda mulher e arrastou-a at ao leito. 
Despiu-a, lavou-lhe a cara e arrumou tudo.
O dia despontava rapidamente. Kate sentou-se junto da cama 
e observou o rosto descontrado, cuja boca aberta aspirava e so-
prava alternadamente. Faye esboou um gesto, os lbios secos 
tartamudearam algumas palavras, soltaram um suspiro e volta-
ram a ressonar.
Kate ps mos  obra. Abriu a gaveta da secretria e exa-
minou os remdios que continha: paregrico; Lydia, Pinkham, vi-
nho reconstituinte; unguento Hall; sais de Epsom; leo de castor e 
amonaco. Pegou no frasco de amonaco, embebeu um leno e 
tapou com ele a boca e o nariz de Faye, virando a cara para o 
lado.
Os vapores penetrantes e ardentes agiram e Faye emergiu 
do seu buraco negro a debater-se. Tinha os olhos arregalados e 
aterrorizados.
- Tudo corre bem, mam. Tudo corre bem. Tiveste um pesa-
delo, um mau sonho.
- Pois, um sonho.
Faye soobrou novamente no sono e recomeou a ressonar. 
Mas, sob o efeito do amonaco, deixara as profundidades do sono 
e estava mais calma. Kate guardou o frasco na gaveta, limpou a 
mesa, enxugou o champanhe derramado e levou os copos para a 
cozinha.
A penumbra da madrugada infiltrava-se pelos interstcios das 
persianas. O cozinheiro mexeu-se no seu cubculo atrs da cozi-
nha. Kate ouviu-o procurar a roupa e enfiar as sandlias. Apres-
sadamente, bebeu dois copos de gua e encheu outro, antes de 
regressar ao quarto, cuja porta fechou. Soergueu a plpebra direi-
ta de Faye e recebeu um olhar vidrado, mas no voltado para 
cima. Kate agiu lentamente e com preciso. Pegou no leno e 
cheirou-o. O amonaco evaporara-se, mas ainda cheirava. Kate 
estendeu o pano em cima da cara de Faye e, quando a mulher 
principiou a agitar-se e a dar mostras de despertar, tirou-lhe o leno 
e deixou-a voltar ao sono. Repetiu o manejo trs vezes. Em segui-
da, foi buscar uma agulha de croch, de marfim, que estava em 
cima do tampo de mrmore da cmoda. Com uma mo, levantou a 
roupa da cama e, com a outra, apoiou a extremidade arredondada 
da agulha nos seios flcidos de Faye, aumentando a presso, at a 
mulher adormecida comear a gemer e a torcer-se. Depois, explo-
rou as partes mais sensveis do corpo; debaixo dos braos, nas 
virilhas, nos ouvidos, no cltoris, aliviando a presso sempre que 
Faye dava indcios de ir acordar.
A mulher estava agora muito perto da superfcie. Gemeu, fun-
gou e tossiu. Kate acariciou-lhe a testa, o interior do cotovelo e 
falou-lhe com meiguice:
- Querida,  um sonho horrvel, acorda, livra-te do pesadelo, 
mam.
A respirao de Faye tornou-se mais regular. Soltou um gran-
de suspiro, virou-se para o lado e ps-se numa posio confortvel 
aps ter emitido uns grunhidos de satisfao. Kate afastou-se da 
cama e sentiu que uma vertigem lhe toldava a vista. Recobrou o 
equilbrio, foi at  porta, escutou, saiu sorrateiramente e encami-
nhou-se sem rudo para o seu quarto. Despiu-se rapidamente, 
vestiu a camisa de dormir e um roupo e calou as chinelas. 
Desalinhou o cabelo, ps um barrete de dormir e borrifou a cara
com gua-de-colnia. Sem fazer barulho, voltou ao quarto de Faye, 
que dormia placidamente voltada para o lado. Kate foi buscar o 
copo, aproximou-se do leito e entornou alguma gua fria na orelha 
de Faye.
Faye gritou uma vez, duas vezes. A cara medrosa de Ethel 
espreitou  porta do quarto a tempo de ver Kate de roupo e chi-
nelas  porta de Faye. O cozinheiro estava atrs dela e tentava 
ret-la.
- No entre, menina Kate. Sabe Deus o que se passa l den-
tro.
- No seja parvo. A Faye est mal.
Kate empurrou a porta e correu para a cama. 
Faye, aterrorizada, chorava e gemia. 
- Que tem? Que tem, minha querida?
O cozinheiro entrou no quarto e trs raparigas sonolentas
aproximaram-se da porta.
- Ento, que h?- perguntou Kate.
- Oh! querida, que sonhos, que sonhos! J no podia mais. 
Kate voltou-se para a porta.
- Ela teve um pesadelo, mas j passou. Vo-se deitar, que eu 
fico com ela. Alex, v buscar ch.
As trs raparigas presentes repararam que Kate no se pou-
pava a esforos. Colocava toalhas frias na cabea dolorida de 
Faye, segurava-a pelos ombros enquanto ela bebia. Fazia-lhe fes-
tas, acalmava-a, mas parecia que uma viso de horror continuava 
a pairar nos olhos de Faye. s dez horas, Alex trouxe uma garrafa 
de cerveja e pousou-a na cmoda. Kate encheu um copo e entre-
gou-o a Faye.
- Faz-te bem.
- Nunca mais quero beber.
- Tem juzo. Bebe como se fosse remdio. Assim  que . 
Deita-te e dorme.
- Tenho medo de dormir.
- Que pesadelo tiveste?
- Era horrvel! Horrvel!
- Conta-me como era, mam, que te faz bem. 
Faye recusou.
- Seria incapaz de o contar. Como pude eu sonhar uma coi-
sa semelhante? No se parecia nada com os meus sonhos. - 
Pobre mezinha - disse Kate. - Gosto tanto de ti. Dorme,que eu 
afasto os sonhos.
Faye caiu a pouco e pouco num sono profundo. Kate perma-
necia  beira da cama, estudando-a.



CAPTULO XXI 

1

Os negcios humanos de natureza perigosa e delicada so 
frequentemente comprometidos pela precipitao. H tantos ho-
mens apressados que tropeam. Quando se trata de cumprir uma 
tarefa difcil e subtil, h primeiro que determinar os fins. Conside-
rados estes satisfatrios,  necessrio esquec-los por completo e 
concentrar exclusivamente a ateno nos meios a empregar. Gra-
as a este mtodo, evita-se o passo em falso ditado pela pressa ou 
pelo medo. Poucos so os que sabem isto.
Kate sabia-o - no podemos afirmar se por experincia, se 
pelo facto de ter nascido com esse dom, mas a verdade  que 
nunca se apressava. Quando se lhe deparava um obstculo, es-
perava que ele desaparecesse para prosseguir. Era capaz de fi-
car completamente tranquila nos intervalos das diversas fases da 
aco. Alm disso, conhecia a fundo a tcnica do combate: deixar 
o adversrio gastar as foras at  derrota ou guiar-lhe a fora de 
modo que se voltasse contra ele.
Kate no tinha pressa. Depois de ter pensado nos fins, p-los 
inteiramente de lado. Entregou-se ao trabalho com aplicao. Se 
armava uma estrutura e verificava que no era slida, demolia-a 
para reconstruir outra. S se entregava a esse joguinho alta noi-
te ou quando estava completamente s, para no se tornar suspei-
ta.
O edifcio seria constitudo  base de indivduos, materiais, fac-
tos e tempo. J tinha as individualidades e o tempo, e ps-se  
procura dos factos e dos materiais. Entrementes, ps a funcionar 
uma srie de pndulos e de molas que iriam enquadrar-se no meca-
nismo completo na altura requerida.
Foi o cozinheiro quem falou em primeiro lugar no testamento. 
Foi ele com certeza. Pelo menos, disso se convenceu. Kate, infor-
mada por Ethel, entrou na cozinha para interrogar o homem que 
amassava o po com os braos cabeludos cobertos de farinha 
at aos cotovelos
- Achas que fizeste bem em dizer que tinhas sido testemu-
nha? Achas que a Sr.a Faye vai ficar contente? 
Ele mostrou-se surpreendido.
- Mas eu no....
-Tu no o qu? No disseste ou no pensaste que era inde-
licado?
- No julgo ter...
- Julgas no ter dito. S trs pessoas sabiam. Achas que 
foi a Sr.a Faye ou eu quem o disse?
O cozinheiro pareceu ainda mais surpreendido. J no tinha 
a certeza de coisa nenhuma. No faltava muito para que se conven-
cesse de que fora ele quem falara.
Trs das raparigas foram fazer perguntas a Kate acerca do 
testamento. Tinham-se juntado para arranjarem mais coragem. 
Kate respondeu-lhes:
- Acho que a Faye no gostaria de me ouvir discutir o assun-
to. O Alex devia ter-se calado. - A coragem que elas tinham reuni-
do desfez-se em migalhas. - Porque no vo perguntar  Faye?
- No temos coragem.
- Mas no lhes falta coragem para andarem a falar nas cos-
tas dela. Pois muito bem! Vamos todas ter com ela e perguntar-
-lhe.
- No, kate, isso no!
- Seja como for, tenho de a informar. No preferem estar 
presentes? No acham que lhe desagradaria saber que andam a 
cochichar-lhe nas costas?
- Bem...
- Quanto a mim, gosto das pessoas que no se pem com 
rodeios.
To bem se houve que, quando as raparigas deram por si, 
estavam no quarto de Faye.
- Elas fizeram-me uma pergunta acerca daquilo que sabes.
O Alex admitiu que fora indiscreto - disse Kate. 
Faye pareceu levemente admirada.
- No julgava que fosse um tal segredo.
Kate respondeu:
- Ainda bem que levas as coisas para esse lado. Mas queria 
que visses que no falei antes de tu me autorizares. 
- Custa tanto a dizer?
- De forma nenhuma. At estou satisfeita, mas no queria 
falar, caso desejasses guardar segredo.
- s um amor, Kate, mas no vejo que tenha algum mal. 
Vocs compreendem, minhas filhas, estou s no mundo e adoptei 
a Kate. Ela  to boa para mim. Traz-me a caixa, Kate.
O testamento andou de mo em mo, e todas as raparigas o 
examinaram. Era to simples que puderam repeti-lo, palavra por 
palavra, s outras raparigas.
A partir desse momento, as pensionistas observaram a atitu-
de de Kate. Tornar-se-ia um tirano? Kate transformou-se, mas foi 
no bom sentido.
Uma semana depois, quando Kate adoeceu, no deixou por 
isso de gerir a casa e ningum teria dado pelo facto se a no tives-
sem encontrado no corredor, encostada  parede, com o corpo re-
tesado e o rosto contrado pela dor. Kate suplicou s raparigas que 
nada dissessem  Faye, mas elas no concordaram com esta so-
luo e foi a prpria Faye quem meteu Kate na cama e chamou o 
Dr. Wilde.
O mdico era um homem encantador e um excelente profis-
sional. Auscultou Kate, examinou-lhe a lngua, tomou-lhe o pulso, 
fez-lhe algumas perguntas de carcter ntimo e, por fim, mordiscou 
o lbio inferior.
- Aqui mesmo? - perguntou ele, carregando levemente no 
stio do rim. - No? Aqui? Di? Bom. Os rins precisam de ser 
descongestionados.
Deixou Plulas amarelas, verdes e encarnadas, para serem 
tomadas a horas diversas. As plulas deram um ptimo resultado. 
Kate tinha uma pequena borbulha e disse a Faye:
- Vou ao mdico.
- Eu peo-lhe que venha c.
- Para que me d plulas? No vale a pena, vou l amanh.


2

O Dr. Wilde era um bom e honrado homem. Ele afirmava 
que, na sua profisso, s uma coisa era certa: o enxofre curava a 
sarna. No praticava nenhuma especialidade. Como a maioria dos 
mdicos rurais, era cirurgio, padre e psiquiatra. Conhecia a maior 
parte dos segredos, das coragens e das fraquezas de Salinas. 
Quando um dos seus pacientes dava a alma ao Criador, ficava 
com a impresso de ter falhado por ignorncia. No era um homem 
audacioso e s utilizava a cirurgia como ltimo e terrvel recurso. A 
indstria farmacutica acorria em auxilio dos mdicos, mas o Dr. 
Wilde continuava a ser um dos raros que preparavam os remdios 
que prescrevia. Longos anos de trabalho extenuante e noites de 
sono interrompido tinham-no tornado levemente distrado.
Numa manh de quarta-feira, s oito e meia, Kate subiu a Main 
Street e encafuou-se na escada do banco de Monterey. Ao fundo 
dum corredor, encontrou uma porta com o seguinte letreiro: Dr. 
Wilde. Consultas das 11 s 14 horas.
s nove e meia, o Dr. Wilde guardou o carro na cocheira e 
pegou na maleta preta. Chegava de Alisal, onde assistira ao fim 
da velha, da velhssima Sr.aGerman, que no fora capaz de mor-
rer de modo convincente. O Dr. Wilde perguntava a si mesmo se a 
vida seca, dura e fibrosa abandonara por completo o corpo da 
velha senhora. Apesar dos seus noventa e sete anos, uma certi-
do de bito no era coisa que tivesse qualquer significado para 
ela. Chegara ao ponto de meter na ordem o padre que a confes-
sava. O mistrio da morte deixava o mdico perplexo. Ainda na 
vspera, Allen Day, com trinta e sete anos e um metro e noventa 
de altura, forte como um toiro, possuindo quatrocentos alqueires 
de terra e uma famlia numerosa, rendera-se humildemente  pneu-
monia, aps trs dias de febre. O Dr. Wilde sabia que aquilo era 
um mistrio. As plpebras pesavam-lhe. Resolveu ir tomar um 
banho e beber qualquer coisa antes da chegada das primeiras 
dores de barriga e dos calos nos ps.
Galgou as escadas e introduziu a velha chave na fechadura 
da porta. A chave no girava. Ps a maleta no cho e fez mais 
fora. A chave no girou. Levou a mo  maaneta da porta e pu-
xou-a. A porta abriu-se. Kate estava diante dele.
- Ah! Bom dia. A fechadura estava fechada. Como entrou?
- No estava fechada. Cheguei adiantada e entrei para es-
perar.
- No estava fechada? (Girou a chave para o outro lado e 
viu que a lingueta saa sem dificuldade.) - Estou a ficar velho - 
disse ele. - E distrado. De resto, nem sei porque a fecho. Qual-
quer pessoa poderia abri-la com um bocado de arame. E quem 
estaria interessado em entrar? (Pareceu ver a rapariga pela pri-
meira vez.) - S dou consulta a partir das onze.
Kate respondeu:
- Queria que me desse mais plulas e no posso voltar mais 
tarde.
- Plulas? Ah! sim.  uma das pensionistas da Faye. 
- Isso mesmo.
- Sente-se melhor?
-As plulas fizeram bem.
- Mal, pelo menos, no fazem. Terei deixado a porta do dis-
pensrio aberta?
-O dispensrio? O que  isso?
- Aquela porta ali.
- Sim, acho que sim.
- Estou a ficar velho. Como est a Faye?
-Ando preocupada a seu respeito. Nestes ltimos dias no 
tem passado nada bem. Queixa-se de dores fortssimas no est-
mago e divaga muito.
- J no  a primeira vez que ela tem dores. No se pode 
levar a vida que ela leva e ter sade. Eu, pelo menos, no posso. 
Chama-se a isso uma gastrite.  o resultado de comer demasiado 
e de se deitar a horas impossveis. Agora, voltando s plulas. De 
que cor eram?
- Havia de trs qualidades: amarelas, encarnadas e verdes. 
- Ah! pois,  isso mesmo, estou a recordar-me.
Enquanto ele deitava as plulas numa caixinha redonda de
carto, Kate foi postar-se diante da porta do dispensrio. 
- Tantos remdios! - disse ela.
-  verdade - respondeu o Dr. Wilde.-  medida que vou 
envelhecendo, cada vez os utilizo menos. Alguns desses produtos
datam da poca em que abri o consultrio. Ainda a esto.  uma 
farmcia de principiante. Eu queria fazer experincias, alquimia. 
-Como?
- Nada, nada, Aqui tem. Diga  Faye que durma e coma 
legumes. No preguei olho durante toda a noite. Faz-lhe diferena 
que a no acompanhe?
O mdico encaminhou-se para a sala de tratamentos.
Kate viu-o afastar-se e depois os seus olhos percorreram as 
filas de frascos e garrafas. Fechou a porta do dispensrio e deitou 
uma olhadela ao gabinete. Um dos livros da estante estava ligeira-
mente sado. Alinhou-o pelos outros.
Depois de ter pegado no seu grande saco de mo que ficara 
em cima do canap de coiro, abriu a porta e saiu.
Quando chegou ao seu quarto, tirou do saco cinco frascos e 
um pedao de papel garatujado. Enfiou tudo numa meia, enrolou-a 
e enfiou-a numa galocha que escondeu no fundo do guarda-fato.


3

Nos meses que se seguiram, operou-se uma mudana gradual 
na casa de Faye. As raparigas eram preguiosas e irritveis. Se 
lhes dissessem que se lavassem e limpassem os quartos, ficariam 
profundamente ressentidas e toda a casa teria de aturar a sua m 
disposio. Mas no foi assim que as coisas se passaram.
Uma noite,  mesa, Kate disse que entrara por acaso no quar-
to de Ethel e que o achara to arrumado e to bonito que no resis-
tira  tentao de lhe comprar um presente. Quando Ethel desfez o 
embrulho, deparou com um enorme frasco de gua-de-colnia, 
suficiente para andar cheirosa durante muito tempo. Ficou en-
cantada e esperou que Kate no tivesse visto a roupa suja escon-
dida debaixo do colcho. Aps o jantar, no s fez desaparecer a 
roupa, como varreu o cho e limpou as teias de aranha que enfei-
tavam os cantos.
Uma tarde, Grace apareceu to vistosa que Kate no pde
deixar de lhe oferecer o alfinete comm feitio de borboleta que trazia 
na gola. Logo a seguir, Grace subiu ao quarto e mudou de com-
binao.
Alex, o cozinheiro, se fosse acreditar no que costumavam di-
zer dele, ter-se-ia considerado um assassino, mas, afinal, soube 
que era um artista, que a cozinha  uma arte e que ele nascera 
com um dom especial.
Olho-de-Algodo descobriu que ningum o odiava. At a sua 
maneira de tocar mudou imperceptivelmente.
-  engraado - disse ele a Kate -, aquilo de que a gente 
se lembra quando se pe a recordar.
- Por exemplo? - perguntou ela.
O pianista tocou qualquer coisa.
-  lindo - disse ela.- O que ?
- No sei. Talvez seja Chopin. Se eu ao menos pudesse ver 
a msica.
Contou-lhe como perdera a vista, coisa que nunca fizera a nin-
gum. Era uma histria bastante triste. Numa tarde de sbado, 
tirou a corrente atravessada nas cordas do piano e tocou um tre-
cho que estudara nessa mesma manh. Uma coisa que se chama-
va Ao luar, e Olho-de-Algodo, supunha ser Beethoven o autor.
Ethel disse que parecia tal qual o luar e perguntou-lhe se co-
nhecia a letra.
- No tem letra - respondeu o pianista.
- Pois devia ter.  bem bonito - disse Oscar Trip que vinha 
todos os sbados de Gonzales.
Certa noite, houve prendas para todos, porque Faye tinha a 
melhor casa, a mais asseada e agradvel de toda a provncia. E 
de quem era a culpa? Das raparigas, de quem havia de ser? E 
acaso j tinham provado coisa mais saborosa do que aquele as-
sado?
Alex, de regresso  cozinha, enxugou timidamente os olhos 
nas costas da mo e jurou que faria um bolo de que no se esque-
ceriam to cedo.
Georgia levantava-se todos os dias s dez horas para estu-
dar piano com Olho-de-Algodo e tinha as unhas limpas.
Num domingo de manh, ao regressar da missa das onze, 
Grace disse a Trixie:
- E dizer que eu pensava em casar-me e deixar a vida. V l 
tu que ideia a minha!
- No podamos estar melhor - disse Trixie.- Quando as 
pequenas da Jenny vieram aos anos da Faye, nem queriam acre-
ditar no que viam. Agora, l em casa, no falam noutra coisa. A 
Jenny anda danada.
- Viste a lista no quadro negro esta manh?
- Ento no havia de ver? Oitenta e sete servios numa se-
mana! Nem a Jenny, nem a Negra eram capazes de nos bater,
ento agora que no tem havido feriados.
- No h feriados, uma figa! Esqueces-te de que estamos na 
Quaresma? A Jenny tem a casa s moscas.
Depois da doena e dos pesadelos, Faye ficou calma e depri-
mida. Kate sabia que era vigiada, mas nada havia a fazer. Limitou-
-se a verificar se o papel enrolado continuava no cofre e se todas as 
raparigas o tinham visto ou ouvido falar nele.
Uma tarde, quando se entretinha a fazer uma pacincia, Faye 
sentiu bater  porta e viu entrar Kate.
- Como te sentes, mam?
- Vou andando.
Os seus olhos eram incapazes de dissimular. Faye no era 
inteligente.
- Kate, gostava de ir  Europa.
- Que rica ideia! Bem o mereces e no  coisa que no 
esteja ao teu alcance.
- No posso ir s, queria que tu me acompanhasses. 
Kate assumiu um ar admirado.
- Eu? Queres que eu v contigo?
- Porque no?
- Oh! minha querida! Quando partimos? 
- Ests realmente disposta a ir?
- Sempre sonhei com isso. Quando partimos? Espero que 
no demore.
- J no havia suspeita nos olhos de Faye e o seu rosto 
desanuviou-se.
- Talvez no prximo Vero, Kate?
- Pois sim, mam.
-Tu... tu j deixaste de trabalhar, no  verdade?
J no preciso. Tu s to boa para mim.
Faye apanhou vagarosamente as cartas, bateu-as na mesa 
para acertar o baralho e guardou-as na gaveta. Kate aproximou uma 
cadeira.
- Queria pedir-te um conselho.
- A respeito de qu?
- Sabes muito bem que fao tudo o que posso para te aju-
dar.
- Claro que sei, querida.
- Tambm sabes que a nossa maior despesa  com a comi-
da, e que aumenta no Inverno.
- Pois .
- Agora podamos comprar fruta e toda a espcie de horta-
lia por uma ninharia. No Inverno, sabes qual  o preo da fruta de 
conserva e duma simples lata de feijo?
- No tencionas fazer conservas?
- E porque no?
- Que diria o Alex?
- Quer creias quer no, mam, foi ele quem mo sugeriu, po-
des perguntar-lhe.
- No  possvel?
- , sim, juro-te.
- Raios me part... Desculpa, querida. Escapou-me.
A cozinha transformou-se numa fbrica de conservas e todas 
as raparigas ajudaram. Alex estava perfeitamente convencido de 
que fora ele o autor da ideia. Terminada a tarefa, foi recompen-
sado com um relgio de prata que tinha o seu nome gravado na 
tampa.
Nos dias de semana, Faye e Kate comiam na sala de jantar, 
na mesa comum, mas quando era o domingo de sada de Alex e 
as raparigas jantavam algumas sandes nos seus quartos, Kate 
servia uma ceia para duas pessoas no quarto de Faye. Era uma 
hora agradvel e mundana. Havia sempre uma pequena gulosei-
ma: pasta de figado ou um doce comprado na pastelaria Lang, do 
outro lado da rua principal. E, em vez do oleado e dos guardana-
pos de papel da sala de jantar, punha-se uma toalha de damasco 
branco e guardanapos de linho. Essas refeies tinham um ar de 
festa com as suas velas acesas e, coisa rara em Salinas, um jarro
de flores no meio da mesa - as flores que Kate ia colher no campo 
e que to bem sabia arranjar.
Como  habilidosa - dizia Faye.- Sabe fazer tudo e tirar 
partido de tudo. Tencionamos ir  Europa. Sabe que ela fala fran-
cs?  verdade, garanto-lhe. Quando estiver s com ela, pea-lhe 
para lhe dizer alguma coisa em francs. At est a ensinar-me. 
Sabe como se diz po em francs?
Faye sentia-se feliz. Kate trazia-a em alvoroo e no parava de 
lhe acenar com mil projectos.


4

Sbado, 14 de Outubro, passaram os primeiros patos bravos 
pelo cu de Salinas. Faye avistou da janela do seu quarto o grande 
bando que se dirigia para o Sul. Quando Kate entrou antes do jan-
tar, como sempre fazia, Faye tocou-lhe no assunto.
- Est o Inverno  porta. Temos de pedir ao Alex para acender 
os foges.
- Queres tomar o tnico, mam?
- Quero, sim. Estou a tornar-me preguiosa  fora de me 
deixar servir.
- Eu gosto de te servir - disse Kate.
Foi  gaveta buscar o frasco de concentrado de legumes de 
Lydia Pinkham e olhou-o  transparncia.
- Est quase no fim - disse ela. -  preciso comprar outro. 
- Mandei comprar doze. Ainda deve haver trs no armrio. 
Kate pegou no copo.
- Tem uma mosca - disse ela.- Vou lav-lo.
Na cozinha, depois de enxaguar o copo, tirou um conta-gotas 
da algibeira. Extrado o pedacinho de batata que obstrua a extre-
midade do conta-gotas, Kate premiu a borracha e verteu algumas 
gotas de um lquido claro, tintura de noz-vmica.
Uma vez no quarto de Faye, deitou trs colheres de sopa de 
concentrado de legumes no copo e agitou-o bem.
Faye bebeu e passou a lngua pelos lbios.
- Sabe a amargo - disse ela.
- Srio? Deixa-me provar (Kate fez uma careta). Tens razo 
- disse ela. - Deve ser por j ter muito tempo. Vou deit-lo fora. 
Tens toda a razo, est amargo a valer. Vou buscar-te um copo de 
gua.
Ao jantar, o rosto de Faye congestionou-se. Parou de comer, 
olhando fixamente.
- Que tens? - perguntou Kate. - Mam, que tens?
Faye pareceu fazer um esforo para fixar a ateno.
- No sei. Deve ser uma palpitao. De repente, assustei-
-me e o corao ps-se a bater.
- Queres que te leve para o quarto?
- No, querida, j me sinto melhor.
Grace descansou o garfo no prato.
- Ficou toda vermelha.
Kate acrescentou:
- Isso no me agrada nada. Devias ir ver o Dr. Wilde. 
- No, j me sinto melhor.
- Que susto! - disse Kate. - J tiveste isso alguma vez? 
- s vezes falta-me a respirao.  de estar muito gorda. 
Nessa noite, Faye no se sentiu muito bem e por volta das dez
horas Kate levou-a para a cama. Depois, foi v-la vrias vezes at
ter a certeza de que adormecera.
No dia seguinte, Faye sentia-se melhor.
-  apenas falta de ar - explicou ela.
- Vamos trat-la como se estivesse doente - disse Kate. - 
Arranjei-te um caldo de galinha e salada de feijo, como tu gos-
tas, s com azeite e vinagre, e uma chvena de ch.
- Acredita, Kate, que me sinto perfeitamente.
- No nos faria mal nenhum comermos um pouco menos. 
Ontem, assustaste-me. Tive uma tia que morreu com uma doen-
a de corao, e so coisas que no se esquecem facilmente.
- Eu nunca tive nada no corao. S me falta o ar quando 
subo as escadas.
Na cozinha, Kate colocou os pratos em duas bandejas. Mis-
turou o azeite com o vinagre numa tigela e deitou-o na salada. Na 
bandeja de Faye ps ainda a sua xcara preferida, enquanto o caldo 
aquecia ao lume. Depois, tirou o conta-gotas do bolso e deitou
duas gotas de leo de crton na salada, mexendo tudo muito bem. 
Seguidamente, foi ao quarto e engoliu o contedo dum frasquinho 
de cscara-sagrada, voltando a correr  cozinha. Ps o caldo nas 
chvenas, encheu o bule de gua a ferver e levou as bandejas para 
o quarto de Faye.
- Estava sem apetite - disse Faye -, mas o caldo cheira 
bem.
- Pus um tempero especial nos feijes - disse Kate. Uma 
velha receita, com rosmaninho e tomilho. Hs-de dizer-me se gos-
tas.
- Est uma delcia - respondeu Faye. - No h nada que tu 
no saibas fazer.
Kate foi a primeira a ser atingida. Comeou a transpirar e do-
brou-se ao meio, torcida pelas dores. O olhar estava parado e a 
saliva escorria-lhe da boca. Faye correu desvairada pela casa, 
gritando por socorro. As raparigas e alguns clientes dominicais 
precipitaram-se no quarto. Kate contorcia-se no cho. Dois dos 
fregueses levantaram-na, tentaram estend-la na cama de Faye, 
mas Kate ps-se a berrar de novo, toda enroscada. A transpirao 
era abundante e tinha a roupa encharcada.
Faye estava a enxugar a testa de Kate com um guardanapo 
quando foi acometida pelas dores.
S ao cabo de uma hora conseguiram encontrar o Dr. Wilde 
que estava jogando as cartas com um amigo. Duas putas hist-
ricas interromperam-lhe a partida e levaram-no de roldo para casa. 
Faye e Kate estavam enfraquecidas pelos vmitos e pela diarreia 
e eram sacudidas por espasmos a intervalos regulares. O Dr. Wilde 
perguntou:
- Que foi que comeram? (Notando os pratos). - Estes fei-
jes so postos de conserva c em casa?
- So - respondeu Grace.- Fomos ns que os fizemos. 
- J os provaram?
- Ainda no, mas...
- Peguem em todos os frascos e deitem-nos fora. Raios par-
tam os feijes!
O mdico pegou na sonda de lavagem ao estmago.
Na tera-feira, foi visitar as duas mulheres, plidas e fracas. A 
cama de Kate fora levada para o quarto de Faye.
- Agora j lhes posso dizer que nunca julguei que escapas-
sem. Tiveram muita sorte. E no se tornem a divertir fazendo con-
servas! Vo compr-las  loja.
- Que foi que ns tivemos?
- Um envenenamento. Botulismo. Pouco sabemos a este 
respeito, a no ser que raramente se escapa. Se esto ainda vi-
vas  porque uma  muito nova e a outra resistente. Ainda evacua 
sangue?- perguntou ele a Faye.
- Um pouco.
-Aqui tem plulas de morfina para acalmar. Provavelmente, 
rompeu algum vaso. Mas costuma-se dizer que as mulheres de m 
vida custam a deixar a vida. Agora um conselho s duas: des-
cansem.
Isto passou-se a 17 de Outubro.
Faye nunca mais se recomps. s vezes sentia-se melhor, 
mas era sol de pouca dura. Passou o dia 3 de Dezembro muito 
mal e a crise foi vencida com mais dificuldade do que era hbito. A 
12 de Fevereiro, sobreveio uma hemorragia e o pulso enfraqueceu. 
O Dr. Wilde auscultou-a demoradamente com o estetoscpio.
Kate tinha o olhar esgazeado e emagrecera horrivelmente. As 
raparigas tentaram obrig-la a sair do quarto de Faye, mas Kate 
no obedeceu.
- S Deus sabe h quantas noites no dorme. Se a Faye
morresse, a Kate nunca mais se recompunha - disse Grace.
- Est  beira da loucura - afirmou Ethel.
O Dr. Wilde conduziu Kate para a sala e pousou a maleta
numa cadeira.
- Mais vale dizer-lhe a verdade: o corao j no aguenta. 
Ela est completamente esfrangalhada por dentro.  o botulismo. 
Pior do que uma cobra cascavel. (Desviou o olhar). - Achei pre-
fervel avis-la, para que estivesse preparada. (Colocou a mo no 
ombro magro de Kate).- Conheo pouca gente com a sua leal-
dade. D-lhe um pouco de leite quente, se ela conseguir tom-lo.
Kate levou uma bacia de gua quente para junto da cama da 
doente. Trixie entrou na altura em que ela lavava o rosto de Faye 
com uma toalha molhada. Depois, Kate escovou os baos cabe-
los loiros e entranou-os.
A cara de Faye tinha a pele esticada, moldando as maxilas e
os ossos do crnio. Os olhos estavam dilatados, o olhar ausente. 
Faye tentou falar, mas Kate interrompeu-a:
- Poupa as tuas foras, poupa as tuas foras.
Foi  cozinha buscar um copo de leite quente e p-lo em cima 
da mesa de cabeceira. Tirou dois frasquinhos do bolso e aspirou 
algumas gotas de cada um deles com o conta-gotas.
- Abre a boca, mam,  um novo remdio. Coragem, sabe 
muito mal.
Pegou no conta-gotas e espremeu a borracha para o despejar 
na lngua de Faye, o mais longe possvel. Segurou-lhe a cabea 
para a ajudar a engolir um pouco de leite e fazer desaparecer o 
gosto.
- V se descansas. Volto j.
Kate esgueirou-se do quarto sem fazer rudo. A cozinha esta-
va s escuras. Abriu a porta, saiu e foi at ao fundo do quintal. A 
terra amolecera com as chuvas primaveris. Com o auxlio dum pau 
afiado, Kate cavou um buraco e atirou l para dentro alguns 
frasquinhos e um conta-gotas. Tapou o buraco e calcou a terra. A 
chuva comeava a cair quando Kate regressou a casa.
Tiveram que amarrar Kate para que no se ferisse. Passados 
os primeiros assomos de violncia, caiu numa espcie de torpor. 
S muito tempo depois recobrou sade. E esquecera-se, por com-
pleto, do testamento. A primeira a lembrar-lho foi Trixie.



CAPTULO XXII

1

Adam Trask vivia entregue a si prprio. A casa meio acabada 
dos Sanchez estava exposta ao vento e  chuva, com os soalhos 
empenados e bolorentos. As hortas e os jardins eram invadidos 
pelo matagal.
Adam parecia envolvido numa viscosidade que lhe tolhia os 
movimentos e as ideias. Via o mundo atravs dum aqurio. s ve-
zes, lutava para vir  superfcie, mas, quando avistava a luz, sentia-
se mal e regressava  morada submersa. Ouvia rir e chorar os 
gmeos, mas s nutria por eles inimizade. Eram os smbolos do 
que perdera. A princpio, os vizinhos apareceram no pequeno vale, 
julgando aliviar Adam dum fardo de dor ou de clera. Mas nada 
podiam contra a nuvem que o envolvia. Adam no lhes resistia, 
ignorava-os. Passado pouco tempo, a estrada sob os carvalhos 
ficou deserta.
Lee ainda se esforou por estimul-lo e despertar-lhe o gosto 
pela vida, mas tinha mais que fazer. Cozinhava e lavava a roupa, 
dava banho e de comer aos bebs. Apesar de tanto e to constan-
te trabalho, depressa se afeioou aos dois rapazinhos. Falava-lhes 
em cantons e as primeiras palavras que eles compreenderam e 
tentaram repetir foram palavras chinesas.
Samuel voltou duas vezes ao rancho na esperana de con-
vencer Adam a abandonar o seu torpor, at que Lizza o dissuadiu 
disso.
- No quero que tornes a l ir - disse ela. - Quando voltas, 
no s o mesmo. No s tu que o modificas, Samuel,  ele que te 
modifica. Vejo sempre a expresso dele na tua cara.
-J pensaste nos dois midos, Lizza?
- Eu s penso na tua famlia. Quando vens de l, parece que 
ficamos todos de luto durante vrios dias.
- Est bem, mam - respondeu Samuel.
Mas tudo aquilo o entristecia, pois no era capaz de se manter 
afastado quando um homem sofria. Custava-lhe muito abandonar 
Adam  sua desolao.
Adam pagara-lhe o trabalho que efectuara. At lhe pagara os 
moinhos de vento, apesar de no os querer. Samuel vendeu o mate-
rial e devolveu-lhe o dinheiro. Nunca obteve resposta.
Comeou a sentir-se irritado com a atitude de Adam. Parecia-
-lhe que ele se comprazia na dor. Mas Samuel no dispunha de 
muito tempo para pensar no caso. Joe entrara para a Universidade 
- a Universidade que Leland Stanford mandara construir no seu 
rancho de Paio Alto. Tom preocupava o pai, pois cada vez se perdia 
mais nos livros. Se bem que no faltasse aos seus deveres, Samuel 
achava-o bastante sorumbtico.
Will e George vingavam no comrcio e Joe escrevia cartas em 
verso em que estigmatizava todos os pilares da sociedade.
Samuel respondeu a Joe: Ficaria desapontado se no te ti-
vesses tornado ateu e noto com prazer que ests colhendo os fru-
tos do livre-pensamento com a sabedoria que  prpria da tua ida-
de. Mas o meu corao compreensivo ficar-te-ia muito grato se no 
tentasses converter a tua me. Ao receber a tua ltima carta, ela 
julgou que estivesses doente. A tua me cr firmemente que no 
h muitos males que resistam a uma boa tigela de caldo. Por isso, 
quando tu atacas heroicamente a estrutura da nossa civilizao, 
ela convence-se logo de que tu sofres do estmago, o que a apo-
quenta. A f dela  uma montanha e tu, meu filho, nem sequer 
ainda dispes de uma p.
Lizza estava a ficar velha. Samuel via-lho na cara, apesar de 
no se sentir ele prprio velho, com barbas brancas ou sem elas. 
Mas Lizza comeava a viver no passado, o que era uma prova.
Tempo houvera em que Lizza considerava os projectos e as 
profecias de Samuel como loucuras infantis. Agora, achava-os 
imprprios dum homem maduro. Os trs, Lizza, Samuel e Tom, 
viviam sozinhos no rancho. Una casara-se com um desconhecido 
e deixara-os. Dessie abrira uma loja de costura em Salinas. Olive
desposara o seu jovem empreiteiro e at Mollie se casara e, por 
muito que custe a acreditar, vivia num apartamento em San Fran-
cisco. Perfumava-se, tinha uma pele de urso branco diante do fo-
go da sala e fumava cigarros de ponta doirada ao caf.
Certo dia, Samuel sentiu uma pontada nos rins quando erguia 
um fardo de feno. A dor foi menor do que o vexame, pois no era 
capaz de admitir que Samuel Hamilton fosse obrigado a abandonar 
o privilgio de carregar fardos de feno. Sentiu-se to insultado pelas 
prprias costas como o teria sido se algum dos seus filhos come-
tesse uma desonestidade.
Samuel foi consultar o Dr. Tilson a King City. Com os anos, o 
mdico tornara-se cada vez mais irascvel.
-  uma dor nos rins.
- Isso sei eu - replicou Samuel.
- E percorreu esta distncia para me perguntar o que j sa-
bia e dar-me dois dlares?
- Aqui tem os dois dlares.
- E quer que lhe diga o que deve fazer? 
- Exactamente.
- Pois ento no volte a fazer o que fez. E agora torne a pegar 
no seu dinheiro. Voc no  parvo nenhum, Samuel, a no ser que 
esteja a regressar  infncia.
- Mas di-me.
- Claro que lhe di. Como saberia que deu um jeito se no 
lhe doesse?
Samuel riu-se.
- Magnfica consulta. Vale muito mais que dois dlares. Fi-
que com o dinheiro.
O mdico perscrutou o rosto de Samuel.
- Espero que esteja a ser sincero. Fico com o dinheiro,fico. 
Samuel foi visitar Will  sua nova loja. Mal reconheceu o filho,
prspero e gordo, vestindo casaco e colete, e de anel de oiro no
dedo.
- Tenho ali um embrulho para a mam. So umas latas de 
conservas francesas: cogumelos, pasta de fgado, e umas sardi-
nhas to pequenas que mal se vem.
- Ela manda tudo ao Joe - disse Samuel. 
- No s capaz de a convencer a com-las?
- No - respondeu o pai. - Ela tem muito mais prazer em 
mand-las ao Joe.
Lee entrou na loja e iluminou-se-lhe o semblante ao avistar 
Samuel.
- Sinh pass bem? - perguntou ele.
- Bom dia, Lee. Como esto os meninos? 
- Bem.
- Vou beber uma cerveja aqui ao lado. Lee, venha ter comi-
go.
Sentaram-se  mesinha redonda e Samuel desenhou qualquer 
coisa no tampo seco da mesa com a espuma que trasbordara do 
copo.
-Tem-me apetecido ir visit-lo a si e ao Adam, mas tive medo 
que a minha presena no fosse muito til.
- Seja como for, mal no fazia. Estava convencido de que 
ele se recompunha, mas afinal continua a errar como um fantas-
ma.
- J l vai mais de um ano? - perguntou Samuel. 
- Um ano e trs meses.
- Acha que eu poderia fazer alguma coisa?
- No sei. Talvez um choque lhe fizesse bem. At agora, nada 
resultou.
- No tenho jeito para choques. No fim, quem se aleijava era 
eu. A propsito, como se chamam os gmeos? 
- No tm nome.
- Est a gozar-me, Lee?
- De forma nenhuma.
- Como  que ele os trata?
-Trata-os por eles.
- Referia-me a quando se lhes dirige.
- Quando se lhes dirige, diz tu a um ou ao outro.
- Isso no tem ps nem cabea - exclamou Samuel
encolerizado. - Nem parece dum homem com juzo.
- Era inteno minha preveni-lo. Se o senhor no o acordar,
 um caso arrumado.
- Pois vou v-lo - disse Samuel.- E levo o chicote. Com 
que ento no tm nome? Ai no, que no vou! 
- Quando?
- Amanh!
Vou matar uma galinha. H-de gostar dos gmeos, Sr. Ha-
milton. So dois amores. No direi ao Sr. Trask que o vai visitar.


2

Samuel disse timidamente  mulher que queria ir ao rancho de 
Adam Trask. Esperava ver elevar-se  sua frente uma muralha de 
objeces, mas, daquela vez, estava disposto a desobedecer a 
Lizza, por maiores que fossem as objeces. Esta deciso ator-
mentava-o um tanto. Enquanto durou a explicao, que se asse-
melhava a uma confisso, Lizza ficou de mos nos quadris e 
Samuel sentiu que o corao lhe fraquejava. Quando terminou, 
ela continuou a mir-lo com o mesmo olhar, frio, supunha ele.
Por fim, Lizza disse:
- Pensas que s capaz de acordar esse homem de pedra, 
Samuel?
- Eu sei l, mam.
No previra aquela pergunta.
- Parece-te muito importante que essas duas crianas te-
nham um nome?
- Parece, sim - disse ele desajeitadamente.
- Samuel, sabes o que  que te empurra para l? Ser a tua 
mania incurvel de meter o nariz em toda a parte? Ser a tua 
incapacidade para s te meteres onde no s chamado?
- Lizza, eu creio conhecer os meus defeitos. Mas, desta vez, 
parece-me que se trata de outra coisa.
- Assim o espero, para teu bem - disse ela. - Esse ho-
mem parece no admitir que os filhos tm direito  vida. 
-  o que eu penso.
- E se ele te disser para te meteres na tua vida, que fazes? 
- No sei.
Lizza Hamilton fechou a boca com uma pancada seca.
- No caias em me aparecer sem essas crianas estarem 
baptizadas. Escusas de vir a gemer que ele no quis ou que te 
mandou embora porque, nesse caso, obrigas-me a l ir eu mesma.
- Nem que tenha de lhe fazer sentir a fora dos meus punhos 
- disse Samuel.
- No digas isso. Nunca foste de violncias, eu conheo-te 
muito bem. Contentas-te com bonitas frases e voltas a lamuriar, 
tentando convencer-me de que no foste l.
- Parto-lhe a cara - ameaou Samuel.
Correu para o quarto, enquanto Lizza ficava a sorrir para a 
porta que batera com estrondo.
Samuel surgiu quase logo a seguir envergando o fato preto e a 
camisa branca de colarinho engomado. Inclinou-se para a mulher 
para que ela lhe desse o n  gravata preta. A barba at brilhava de 
tanto ter sido escovada.
- Seria bom que desses uma escovadela aos sapatos. 
Enquanto se entregava a esse trabalho, Samuel olhou de sos-
laio.
- Posso levar a Bblia? - pediu. -  nela que ainda se 
encontram os melhores nomes.
- No gosto muito que a Bblia saia de casa - respondeu 
Lizza com embarao. - Se voltares tarde, que  que eu leio? E 
alm disso tem os nomes dos nossos nove filhos na capa.
Viu que o marido ficava sombrio. Foi ao quarto e voltou com 
uma pequena Bblia usada, com os cantos todos amolgados e a 
capa segura com papel e cola.
- Leva esta - disse ela.
- Mas  a da tua me.
- Ela no se importaria e todos os nomes que a esto escri-
tos, menos um, j tm duas datas.
- Vou embrulh-la para que no se estrague - disse Samuel. 
Lizza respondeu-lhe sem rodeios:
- No  isso o que tem importncia. O que apoquentava a 
minha me e o que me apoquenta a mim  tu nunca deixares o 
Antigo Testamento em paz. Tens de andar sempre a esmiu-lo e 
a interrog-lo. Pareces uma galinha a debicar na comida. Essa 
mania s serve para me irritar.
- Fao o possvel por compreend-lo, mam.
- Que necessidade h de compreender? Basta ler. Est l 
tudo, preto no branco. E quem  que te pede para compreender? 
Se Deus quisesse que compreendesses, ter-te-ia dado com que
compreender ou ento escrevia-o de outra maneira. 
- Mas, mam...
- Samuel - disse ela -, tu s a criatura mais presunosa 
que j se viu.
- Pois sou, mam.
- E no me estejas sempre a dar razo, que  falta de sin-
ceridade. Diz-me antes o que pensas!
Lizza contemplou a silhueta escura que se afastava no 
cabriol.
-  um bom marido - disse ela em voz alta -, mas  pre-
sunoso.
E Samuel pensava perplexo:
- Eu a julgar que a conhecia, e faz-me uma coisa destas!


3

Quando enveredou pelo caminho acidentado que levava a casa 
dos Trask, aps ter deixado a estrada do vale, Samuel ensaiou uns 
assomos de raiva e frases hericas para tentar escorraar o cons-
trangimento que dele se apoderara.
Adam era apenas uma sombra do que fora. Tinha o olhar 
vago como se no se servisse dele. Foram-lhe necessrios al-
guns instantes para sentir a presena de Samuel.
Samuel disse:
- Sinto-me envergonhado por ter vindo sem ser convidado. 
Adam respondeu:
- Que deseja? No lhe paguei j?
- Pagar? - perguntou Samuel. - Ah! sim, Deus me valha, 
claro que pagou. E pode crer que pagou at de mais para o tra-
balho que eu fiz.
- O qu? Que est procurando dizer?
A clera de Samuel cresceu e rebentou:
- Um homem passa toda a vida a querer saber quanto vale.
Com que direito vem voc, triste criatura, arbitrar um valor ao meu
trabalho, quando eu prprio no sei quanto mereo?
Adam exclamou:
- Eu pago-lhe, eu pago-lhe o que quiser. Diga quanto . 
-Tem de pagar, mas no a mim.
- Ento porque veio? V-se embora.
- Em tempos, convidou-me a vir.
- Pois acabou-se.
Samuel ps as mos nas ancas e inclinou-se para a frente.
- Oia-me, enquanto estou calmo. Numa noite amarga, es-
cura como breu, e foi a de ontem, o negrume foi atravessado por um 
bom pensamento, um pensamento to brilhante que iluminou as 
trevas desde a estrela do pastor at ao primeiro raio de sol.  
preciso que se exprima o que em ns h de melhor. Aqui tem por-
que me convidei a mim mesmo.
- No tenho prazer nenhum em v-lo.
- Lembrei-me de que uma graa singular lhe concedera dois 
gmeos.
- Meta-se na sua vida!
Os olhos de Samuel pareceram alegrar-se quando tal gros-
seria foi proferida. Lee espreitava-os do interior da casa.
- Por amor de Deus, no me obrigue a ser violento. No dia em
que for a enterrar, espero deixar a recordao dum homem pacfico. 
- No o compreendo.
- Como havia de compreender? Quem  Adam Trask? Um 
lobo com duas crias, um galo sem crista que chocou um ovo! Um 
bocado de lama!
O rosto de Adam foi invadido pelo rubor e os seus olhos pare-
ceram ver pela primeira vez. Samuel sentiu com prazer a ira a 
ferver-lhe no peito e gritou:
- Amigo, trate de fugir da minha frente, peo-lhe por tudo 
quanto h que fuja.
A saliva molhava-lhe os cantos da boca.
- Por tudo quanto tem de mais sagrado, peo-lhe que se 
afaste do meu caminho. J sinto a morte em cada uma das minhas 
mos.
- V-se embora - disse Adam. - Desaparea. Voc est 
doido. Esta terra  minha, fui eu que a comprei.
- Tambm comprou os seus olhos e o seu nariz? - troou 
Samuel. -Tambm comprou o seu equilbrio? Oia-me bem, pois
talvez sejam as ltimas palavras que ouve. Com que ento, com-
prou! E no o fez  custa duma rica herana? Adam, acha que 
merece os seus filhos?
- Merec-los? Eles vivem, o resto no interessa. No o per-
cebo.
Samuel lanou para o cu:
- Deus tenha piedade de mim, Lizza! No  como pensa, 
Adam. Oia-me, antes que as minhas mos lhe toram o gasga-
nete. Como pode merecer os pobres gmeos-esquecidos, aban-
donados, misturados - e digo-lhe mais, antes de fechar a mo 
ainda por descobrir?
- V-se embora - disse Adam com voz rouca. - Uma espin-
garda, Lee, este homem est doido.
As mos de Samuel apertaram a garganta de Adam, fazen-
do-lhe latejar a cabea e injectarem-se os olhos de sangue. Samuel 
acrescentou a troar:
- Os seus dedos fracos no tm foras para me afastar. 
Voc no comprou as crianas, nem as roubou, nem as merece. 
Foi um estranho e maravilhoso presente que lhe deram.
De sbito, os dedos largaram a garganta de Adam que passou 
a mo pelas marcas deixadas pelo possante ferreiro.
- Que quer de mim?
- No tem amor.
- O que tive bastou para me matar.
- Nunca ningum tem que chegue. Nem as prprias pedras. 
- No se aproxime. Sou capaz de lhe bater. No julgue que 
no me sei defender.
- Tem duas armas e nem sequer lhes deu nome.
- Olhe que lhe bato, seu velho. Voc no passa dum velho. 
Samuel disse:
- No posso conceber que exista um homem que, depois de 
apanhar uma rocha, no lhe tenha dado um nome antes do anoi-
tecer - como aconteceu com Pedro, por exemplo. Ao passo que 
voc viveu durante mais de um ano com a essncia do seu cora-
o e nem sequer um nmero lhe ps.
- Ningum tem nada com o que fao.
Samuel vibrou-lhe um murro com o seu punho forte de traba-
lhador e Adam rolou no p. Samuel disse-lhe que se levantasse e,
assim que Adam lhe obedeceu, agrediu-o de novo. Adam ficou no 
cho olhando com ar petrificado para o velho que ainda o amea-
ava. A fria extinguiu-se no olhar de Samuel, que disse calma-
mente:
- Os seus filhos no tm nome.
Adam respondeu:
- A me deixou-os sem me.
- E voc deixou-os sem pai. J pensou no frio que sente  
noite uma criana abandonada? Que calor, que canto de pssaro, 
que manh pode haver para ela? j se esqueceu da sua prpria 
infncia, Adam?
- A culpa no  minha - disse Adam.
- J fez alguma coisa para remediar a situao? Os seus 
filhos continuam sem nome.
Samuel inclinou-se, segurou Adam pelas axilas e ajudou-o a 
erguer-se.
Havemos de lhes dar um nome - disse ele.- Pensaremos 
no caso com vagar e encontraremos para cada um deles um nome 
que o vista.
Sacudiu a poeira que maculava a camisa de Adam.
Adam tinha um olhar intenso mas longnquo, como se pres-
tasse ateno a uma msica trazida pelo vento. Os olhos j no 
estavam sem vida. Adam disse:
- No sabia que teria de agradecer um dia a um homem por 
me ter insultado e sacudido como um tapete. Mas estou-lhe grato. 
 uma gratido dolorosa, mas  gratido.
Samuel sorriu com os olhos semicerrados.
- Fui natural? Fiz as coisas como devia ser? 
- O qu?
- At certo ponto, prometi  minha mulher que o faria. Ela 
no acreditava que eu fosse capaz. Eu sou um homem pacfico. A 
ltima vez que levantei a mo para um ser humano foi na escola e 
pelos lindos olhos duma mida que tinha o nariz encarnado.
Adam contemplava Samuel, mas via o rosto sombrio e hostil 
de Charles. Depois a imagem toldou-se e foi Cathy quem apa-
receu com o mesmo olhar que tivera quando apontava a arma.
- No tive medo - disse Adam.- Foi apenas uma espcie 
de cansao.
- Eu no estava suficientemente enfurecido.
- Samuel, s lhe farei esta pergunta uma nica vez: ouviu
dizer alguma coisa? Tiveram algumas noticias dela, quaisquer que
fossem as notcias?
- No ouvi dizer nada.
-  quase um alivio - disse Adam.
- Tem-lhe dio?
- No.  como se tivesse o corao embotado. Talvez mais
'tarde venha a sentir dio. Eu passei sem transio do deslum-
bramento ao horror. Estou completamente desorientado. 
Samuel disse:
- Um dia ainda nos sentaremos os dois a uma mesa e voc 
dispor o jogo, como se fosse uma pacincia. Mas, por ora, ainda 
no tem todas as cartas na mo.
Ouviu-se o cacarejar indignado duma galinha, logo seguido 
duma pancada surda.
- Passa-se qualquer coisa no galinheiro - disse Adam. 
Ouviu-se um novo cacarejar.
-  o Lee - disse Samuel.- Se as galinhas tivessem um 
governo, uma igreja e uma histria, aprenderiam a desconfiar da 
alegria humana; sempre que um ente humano tem motivos de rego-
zijo, l se vai uma galinha pelo buraco abaixo.
Os dois homens mantiveram-se em silncio, interrompendo-o 
apenas com algumas trocas de impresses sobre a sade respec-
tiva e o tempo; nenhum deles escutava as respostas s prprias 
perguntas. E aquilo poderia ter continuado assim at que a clera 
surgisse de novo, se Lee no tivesse intervindo. Depois de colocar 
uma mesa e duas cadeiras, foi buscar uma garrafa de usque e dois 
copos. Por fim, trouxe os dois gmeos, um debaixo de cada brao. 
P-los no cho, ao lado da mesa, e deu a cada um deles um pauzinho 
para que brincassem e fizessem sombras.
Os midos ficaram solenemente sentados, olhando em re-
dor, interessaram-se pelas barbas de Samuel e acabaram por pro-
curar Lee com os olhos. Estavam vestidos  chinesa, o que lhes 
dava um aspecto singular. Envergavam calas compridas e blusas 
bordadas. Uma era azul-turquesa e a outra rosa-velho, e as calas 
eram pretas. Nas cabeas, boinas pretas com pompons encarnados.
Samuel perguntou:
- Onde foi voc arranjar essa roupa, Lee?
- No a fui arranjar em parte nenhuma - disse Lee com ar 
ofendido. - Era roupa que eu tinha, e toda a outra roupa que eles 
trazem foi feita por mim. Uma criana deve estar bem vestida no 
dia do baptizado.
- Ento j no fala pidgim, Lee?
- Acabei com isso. S falo em King City.
Lee atirou algumas slabas cantadas aos gmeos que sorri-
ram e agitaram os pauzinhos. Depois, continuou:
- Vou dar-lhes de beber. Foi uma garrafa que encontrei c. 
- Foi mas foi uma garrafa que voc encontrou ontem em
Kng City-emendou Samuel.
Agora que Samuel e Adam estavam sentados em frente um do 
outro e que os obstculos haviam rudo, Samuel sentia-se assal-
tado pela timidez. O que ele demolira com os punhos era de difcil 
substituio. Samuel pensou na coragem e na audcia, virtudes 
que se tornam frouxas quando no servem para construir, e riu-se 
de si mesmo.
Os dois homens contemplaram os gmeos metidos naquelas 
estranhas vestimentas coloridas. Samuel pensou: s vezes, a aju-
da que nos d um adversrio  melhor que a dum amigo.
Ergueu os olhos para Adam.
- Custa-me a comear- disse ele.-  como uma carta que 
se torna cada vez mais difcil  medida que os minutos passam. 
No quer ajudar-me?
Adam levantou a cabea antes de voltar a contemplar os 
gmeos.
- Sinto estalidos na cabea. Parecem os rudos que se ou-
vem quando se tem a cabea debaixo de gua. Tenho de me liber-
tar do ano que passou.
- Se me disser o que sentiu, talvez arranjemos um bom pon-
to de partida.
Adam bebeu o contedo do seu copo, tornou a ench-lo e 
inclinou-o at que o lquido cor de mbar chegasse  borda. 0 
cheiro do lcool encheu o ar.
- No  fcil recordar-nos - disse ele. - No era agonia, 
mas uma espcie de nevoeiro... No, tambm sentia umas pica-
das. Disse-me que faltavam cartas no meu jogo e  nisso que estou
a pensar. Talvez nunca as venha a ter todas.
- Ser a carta que lhe falta que est a tentar sair? Quando 
um homem diz que no quer falar em determinada coisa, geral-
mente  porque no pensa noutra coisa.
-Talvez seja isso. A sua imagem est misturada com outras 
imagens vagas, e de pouco me recordo, a no ser do seu ltimo 
retrato desenhado a fogo.
- Foi ela quem desfechou o tiro, no foi, Adam?
Adam apertou a boca e carregou o olhar.
- No  obrigado a responder - acrescentou Samuel.
- Tambm no h necessidade de guardar segredo. Foi ela,
foi.
- Acha que queria mat-lo?
-Tenho pensado nisso vezes sem conto. No, no julgo que 
me quisesse matar. At essa dignidade me recusou. Ela era inca-
paz de dio ou de paixo. No exrcito aprendi que, quando se 
quer matar um homem, se atira  cabea, ao corao ou  barriga. 
No, ela atingiu-me onde pretendia. Ainda estou a ver a arma apon-
tada. Acho que no me teria custado tanto se soubesse que ela me 
tinha querido matar. Sempre era uma forma de amor. Mas eu no 
passava dum obstculo, nem mesmo era um inimigo.
- Tem pensado muito nisso, no tem?
- Tempo no me faltou. Queria perguntar-lhe uma coisa. A 
ltima viso que dela tive foi to horrvel que deu cabo da imagem 
que havia formado. Ela era muito bonita, Samuel?
- Era-o para si, pois fora assim que a imaginara. Tenho a 
impresso de que voc nunca a viu - apenas via a sua criao.
Adam divagou em voz alta:
- Gostava de saber quem era ela e o que era. Nunca me 
preocupei em sab-lo.
- Agora j quer saber.
Adam baixou os olhos.
- No  curiosidade, mas gostava de saber que sangue cor-
re nas veias dos meus filhos. Quando eles crescerem, no procu-
rarei qualquer coisa neles?
- Disso no h dvida. E desde j o previno: no ser o 
sangue, mas as suas suspeitas  que podero desencadear o mal. 
Eles sero apenas o que voc esperar que eles sejam.
- Mas o sangue...
- Pessoalmente, no acredito muito na hereditariedade - 
disse Samuel. - Quando um homem descobre o bem ou o mal 
nos seus filhos, apenas v o que neles semeou desde o dia em 
que abandonaram o ventre materno.
- No se pode transformar um porco num cavalo de corrida. 
- No, mas pode transformar-se num porco de corrida.
- Ningum daqui seria capaz de concordar consigo. Nem a
prpria Sr.a Hamilton.
- Tem toda a razo. A minha mulher discordaria profun-
damente de mim.  at por isso que no conto dizer-lhe nada, com 
receio de provocar a trovoada da sua argumentao. Ela ganha sem-
pre porque se defende, com veemncia e porque considera injrias 
pessoais todas as opinies diferentes da sua.  uma mulher mara-
vilhosa, mas tem de se saber lidar com ela. Falemos antes das 
crianas.
-Quer mais usque?
- Com todo o prazer. Os nomes so um grande mistrio. Nun-
ca consegui descobrir se era o nome que influa na pessoa ou se 
era a pessoa que se transformava para se adaptar ao nome, uma 
coisa  certa: sempre que um homem tem uma alcunha  porque 
no lhe convm o nome que lhe puseram. Que pensa dos nomes 
vulgares -John, James ou Charles?
Adam, estava entretido a olhar os gmeos. E, de sbito, ao 
ouvir pronunciar o ltimo nome, viu surgirem as feies do irmo 
no rosto de um dos filhos.
- Que h? - perguntou Samuel, vendo que Adam se incli-
nava para a frente.
- Estas crianas no se parecem!
-  evidente, no se trata de verdadeiros gmeos.
- Este parece-se com o meu irmo, acabo agora mesmo de
dar por isso. Gostava de saber se o outro sai a mim.
- Ambos se parecem consigo. Uma cara contm sempre
todos os traos do autor dos seus dias.
- A iluso j se desfez - disse Adam -, mas, por instantes, 
julguei ver um fantasma.
- Talvez os fantasmas no sejam mais do que isso - obser-
vou Samuel.
 Tenho a impresso de que, na China, no h nada que morra. 
Vivemos muito atravancados. Pelo menos, foi essa a impresso 
que tive quando l fui.
- Sente-se, Lee - pediu Samuel. - Estamos a ver se des-
cobrimos nomes.
- Pus uma galinha ao lume e pouco deve faltar para estar 
pronta.
Adam, que contemplava os gmeos, ergueu um olhar cordial e 
sereno.
-Quer beber connosco, Lee?
- Eu tenho o meu ng-ka-py na cozinha - disse Lee. 
E voltou para casa.
Samuel inclinou-se para a frente, pegou num dos meninos e 
sentou-o nos joelhos.
- Pegue no outro - disse ele a Adam. - Vamos ver se tm 
alguma coisa que recorde um nome.
Adam pegou desajeitadamente na outra criana e encavalitou-
a na perna.
- So parecidos - disse ele. - Mas muito menos quando 
os olhamos de perto. Este tem os olhos mais redondos do que 
esse.
- Pois tem, e tambm tem a cabea mais redonda e as ore-
lhas maiores - acrescentou Samuel -, mas parece-se mais - 
como dizer?- com uma bala. Talvez v mais longe do que uma 
bala, mas no to alto. E h-de ter o cabelo e a pele mais escuros. 
H-de ser esperto, o que  uma qualidade que limita o desenvolvi-
mento do esprito. A esperteza trava e entrava. Ora veja como ele 
j est direito. Est mais adiantado do que o outro, mais desen-
volvido. No  estranho ver como so diferentes quando se olham 
de perto?
O rosto de Adam estava transfigurado, como se tivesse sido 
novamente invadido pela luz. Parecia ter deixado o fundo do aqu-
rio de guas glaucas. Adam estendeu um dedo. A criana fez um 
gesto para o segurar, mas falhou e quase caiu.
- Eh l! - exclamou Adam. - Tem cuidado. Queres cair?
- Seria um erro pr-lhes nomes em funo das qualidades 
que julgamos discernir neles - disse Samuel. - Podamo-nos 
enganar profundamente. Talvez seja prefervel dar-lhes um nome 
que constitua um objectivo, um nome que os guie. O homem cujo 
nome eu tenho, ouviu nitidamente que Deus o chamava e  por 
isso que toda a vida tenho apurado o ouvido na esperana de me 
acontecer o mesmo. J uma ou duas vezes me pareceu que cha-
mavam por mim - mas nunca foi com clareza.
Adam, enquanto segurava o filho com uma mo, deitou usque 
nos dois copos.
- Obrigado por ter vindo, Samuel. Agradeo-lhe que me tenha 
batido. Isto h-de parecer-lhe esquisito...
- Mais esquisito foi eu ter feito o que fiz. A Lizza nunca acre-
ditar. Tambm, nunca lho hei-de contar. Uma verdade incrvel 
pode causar mais prejuzo do que uma mentira.  necessria uma 
grande f para defender uma verdade inaceitvel. Existe um gran-
de castigo para isso e, geralmente,  a crucificao. E eu no me 
sinto com foras para a aguentar.
Adam disse:
- Sempre me causou espcie que um homem to culto como 
voc pudesse trabalhar nestes montes desrticos.
-  porque me falta a coragem - disse Samuel.- Nunca 
soube aceitar as responsabilidades. Quando cheguei  concluso 
de que o Senhor no chamaria pelo meu nome, deveria ter eu 
chamado pelo d'Ele, mas no o fiz.  nisso que reside a diferena 
entre a grandeza e a mediocridade.  uma doena bastante vul-
gar. Mas tambm no deixa de ser agradvel para o homem me-
docre saber que a grandeza  indiscutivelmente o estado mais 
solitrio do mundo.
- H vrios graus de grandeza - disse Adam.
- No creio - respondeu Samuel. - Isso equivaleria a dizer 
que h uma pequena grandeza. No. Quando se chega a este 
ponto, a grandeza e o indivduo ficam ss perante a escolha. Dum 
lado, h o calor e a promiscuidade do homem, o prazer de ser 
compreendido, e, do outro, h a grandeza, a solido e o frio. A  
que reside a escolha. Sinto-me feliz por ter escolhido a mediocri-
dade, mas nunca saberei que recompensa teria obtido se tivesse 
agido de outro modo. Nenhum dos meus filhos, excepto talvez o
Tom, ser grande. O Tom, agora, sofre, porque chegou para ele a 
altura de escolher.  um conflito que faz pena seguir. Apesar de 
tudo, h qualquer coisa em mim que deseja que ele responda 
afirmativamente. No  estranho haver um pai que deseja ver o 
filho condenado  grandeza? Meu Deus, que egosmo!
Adam riu devagarinho:
- Estou a ver que a escolha dos nomes  mais complicada 
do que pensava.
- Pensava o contrrio?
- Nunca julguei que pudesse ser to agradvel - respon-
deu Adam.
Lee chegou com a galinha numa travessa, uma tigela de bata-
tas cozidas a fumegarem e um prato de beterrabas com azeite e 
vinagre, tudo em cima duma tbua de estender massa.
- No sei se estar bom - disse ele.- As galinhas j so 
um pouco velhas e no temos frangos. As doninhas comeram os 
pintos da ltima ninhada.
- Sente-se - disse Samuel.
- Vou buscar o meu ng-ka-py.
Quando Lee se afastou, Adam comentou:
-  estranho: ele dantes no falava assim.
-  porque passou a ter confiana em si - explicou Sa-
muel.- Ele possui o dom da lealdade resignada sem esperana 
de recompensa. Atingiu uma espcie de perfeio com que ne-
nhum de ns pode mesmo sonhar.
Lee voltou e sentou-se na ponta da mesa.
- Ponham os meninos no cho - pediu ele.
Os gmeos protestaram quando se viram abandonados. Lee
ralhou-lhes em cantons e eles calaram-se.
Os homens comeram calmamente, como  costume da gen-
te do campo. De sbito, Lee ergueu-se e entrou rapidamente em 
casa, voltando logo a seguir com um pichel de vinho.
- Tinha-me esquecido - disse ele.- Encontrei este vinho 
em casa.
Adam riu-se.
- Recorda-me ter bebido vinho mesmo antes de comprar a 
casa. Esta galinha est ptima, Lee. H muito tempo j que no 
dava pelo gosto da comida.
- Est-se a pr bom - disse Samuel.- Certas pessoas jul-
gam que as melhoras so um insulto ao esplendor da doena. 
Mas a cataplasma do tempo no respeita esplendores nenhuns. 
Todos se podem curar se tiverem pacincia para esperar.


4

Lee levantou a mesa e deu um novo pau a cada um dos mi-
dos. Ambos tomaram uma pose digna, chupando ou inspeccio-
nando alternadamente o pedacinho de madeira toda babada. O vi-
nho e os copos ficaram na mesa.
- Temos de pensar nos nomes - disse Samuel. - A pro-
messa que fiz  Lizza est a atazanar-me.
- No sei, sinceramente, que nomes escolher - confessou 
Adam.
- No tem preferncia por nenhum nome de famlia? No tem
nenhum parente rico a quem queira estender uma simptica arma-
dilha? No quer ressuscitar nenhum nome glorioso?
- No, preferia que entrassem na vida com nomes novos. 
Samuel bateu na testa com as falanges.
- Que pena - disse ele. - Que pena que no possam usar
os nomes que lhes convinham.
- Que quer dizer? - perguntou Adam. 
- Estive a pensar na noite passada... 
Deteve-se.
- J pensou no seu prprio nome?
- No meu nome?
Evidentemente. Os seus primeiros filhos... Caim e Abel. 
Adam disse:
- No, no temos o direito de fazer uma coisa dessas.
- Bem sei. Seria desafiar o destino, seja ele qual for. Mas 
no  estranho que Caim seja o nome mais conhecido em todo o 
mundo, e que s um homem o tenha usado, pelo menos, que eu 
saiba?
Lee disse:
- Talvez seja por isso que esse nome nada perdeu do seu 
significado.
Adam olhou o seu vinho cor de tinta.
- Tive um arrepio s de o ouvir dizer.
- H duas histrias que nos perseguem e assombram des-
de os comeos dos tempos - disse Samuel.- Trazemo-las 
connosco como duas caudas invisveis, a histria do pecado origi-
nal e a de Caim e Abel. Pessoalmente, no as compreendo, no 
as compreendo mesmo nada, mas sinto-as. A Lizza zanga-se co-
migo, diz que eu no devia tentar compreend-las, que  intil ex-
plicar uma verdade. Talvez tenha razo. A Lizza afirmou-me que 
voc era presbiteriano, Lee. Voc compreende o jardim do Paraso 
e Caim e Abel?
- A sua mulher pensou que eu devia ser alguma coisa e a 
verdade  que andei na escola dominical em San Francisco, h 
muitos anos. As pessoas gostam que ns sejamos alguma coisa, 
de preferncia o que elas prprias so.
Adam disse:
- O Samuel perguntou-lhe se compreendia.
-Julgo compreender a queda original. Ou antes, sinto-a. Mas 
o assassnio do irmo, no. Talvez seja por no me recordar bem 
de todos os pormenores.
Samuel disse:
- A maioria das pessoas no conhece os pormenores. Ora 
so precisamente os pormenores que me deixam perplexo. Quan-
do penso que Abel no teve filhos! (Olhou o cu.) Valha-me Deus, 
como este dia tem passado depressa!  como a vida que passa 
rapidamente quando no lhe prestamos ateno e lentamente 
quando a observamos. No! - disse ele.- Estou a gostar e pro-
meti a mim mesmo nunca considerar o prazer um pecado. Sinto-
-me feliz quando interrogo, quando levanto a pedra para ver o que 
tem debaixo. E o meu maior desgosto  saber que nunca poderei 
ver o que est do outro lado da Lua.
- Eu no tenho Bblia - disse Adam. - A da minha famlia 
ficou no Connecticut.
- Eu tenho uma - disse Lee. - Vou busc-la.
- No  preciso - disse Samuel. - A Lizza, emprestou-me
a da me dela. Tenho-a aqui na algibeira. (Tirou o embrulho e mos-
trou o livro estragado.) Est rasgada e toda roda - disse ele. - 
S queria saber a quantas agonias j assistiu. Dem-me uma B-
blia usada e creio ser capaz de descrever um homem pelas pgi-
nas ratadas e pelas marcas dos dedos. A Lizza tambm tem dado 
muito uso  sua Bblia. C chegmos, portanto. A mais velha de 
todas as histrias. Se ela nos perturba  porque a perturbao est 
dentro de ns.
- Desde pequeno que nunca mais a ouvi ler - disse Adam.
- Ento, deve julgar que  comprida, quando afinal  curta - 
disse Samuel.- Vou l-la toda para, depois, a comentarmos. D-
me vinho, que j sinto as goelas secas. Ora aqui est. Uma histria 
to pequena mas que abriu tamanha ferida! (Olhou para o cho.) Os 
meninos adormeceram mesmo no cho.
Lee ergueu-se.
- Vou tap-los - disse ele.
- A poeira tambm aquece - disse Samuel.- Agora, oi-
am: Ora Ado conheceu a sua mulher Eva; a qual concebeu e 
pariu Caim, dizendo: Eu possu um homem por Deus.,,
Adam quis falar, mas Samuel olhou para ele. Adam calou-se, 
cobriu os olhos com a mo. Samuel continuou:
Depois teve a Abel, seu irmo. Abel porm foi pastor de ove-
lhas, e Caim lavrador. Passado muito tempo aconteceu oferecer 
Caim, ao Senhor, os seus dons dos frutos da terra. Abel tambm 
ofereceu das primcias do seu rebanho, e das suas gorduras; e 
olhou o Senhor para Abel e para os seus dons. Para Caim, porm, 
e para os seus dons no olhou.
Lee interrompeu:
-A... No, continue, depois voltamos atrs. 
Samuel prosseguiu:
E Caim se irou fortemente, e o seu semblante descaiu. E o 
Senhor lhe disse: Porque andas tu irado? e porque descaiu a tua 
face? Porventura, se tu obrares bem, no recebers recompen-
sa? e se obrares mal, no estar logo o pecado  porta? Mas a tua 
concupiscncia estar-te- sujeita, e tu dominars sobre ela. Caim 
porm disse a seu irmo Abel: Saiamos fora. E quando ambos 
estavam no campo, investiu Caim com seu irmo Abel, e matou-o. 
E o Senhor disse a Caim: Onde est teu irmo Abel? Ele res-
pondeu: No sei. Acaso sou eu o guarda de meu irmo? E o Se-
nhor lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmo clama 
desde a terra por mim. Agora pois sers tu maldito sobre a terra, 
que abriu a sua boca, e recebeu o sangue de teu irmo da tua mo. 
Depois que tu a tiveres cultivado, ela te no dar os seus frutos: tu 
andars vagabundo, e fugitivo sobre a terra. E Caim disse ao Se-
nhor: O meu pecado  muito grande, para eu poder alcanar per-
do. Eis-a me lanas tu hoje da face da terra, e eu me irei escon-
der da tua face, e andarei vagabundo e fugitivo na terra: todo o que 
pois me achar, matar-me-. E o Senhor lhe respondeu: No ser 
assim: antes o que matara Caim ser castigado sete vezes mais. 
E o Senhor ps um sinal em Caim, para que o no matasse quem 
quer que o encontrasse. E Caim, tendo-se retirado de diante da 
face do Senhor, andou errante pela terra, e ficou habitando no pas 
que est a Leste do Paraso.
Samuel fechou o livro com uma espcie de cansao.
- Aqui tm - disse ele -, dezasseis versculos, nem mais, 
nem menos. E, Deus do Cu, s agora reparo numa coisa terrvel: 
nem uma nica palavra de encorajamento. Talvez a Lizza tenha 
razo. No h nada a compreender.
Adam suspirou profundamente.
- No  uma histria reconfortante.
Lee encheu um copo com o seu licor escuro, levou-o aos lbi-
os, mas ficou com o liquido na boca. Depois de o ter engolido, 
disse:
- S tm fora ou deixam vestgios as histrias que somos 
capazes de sentir dentro de ns. Muito grande  o fardo de culpas 
que os homens carregam!
Samuel disse a Adam:
- E voc tentou carreg-lo sozinho.
Lee disse:
- O mesmo acontece comigo e com toda a gente. Colhemos 
as culpas s braadas como se fossem uma coisa preciosa. Deve 
ser porque assim o desejamos.
Adam interrompeu:
- Isso faz com que me sinta melhor e no pior.
- Porque diz isso? - perguntou Samuel.
- No h criana nenhuma que no julgue ter inventado o
pecado: Convencemo-nos de que nos ensinam a virtude e de que o 
pecado nasce em ns.
- Estou a ver. Mas em que  que esta histria atenua o peca-
do?
- Ns somos os descendentes dele - disse Adam com 
veemncia. - Ele  nosso pai e parte da nossa culpa  absorvida 
pela nossa ancestralidade. Que oportunidade tivemos ns? Ns 
no somos os primeiros, somos os filhos do nosso pai.  uma 
desculpa e no h assim tantas neste mundo.
- Pelo menos, convincentes - disse Lee. - Se no fosse 
isso, j h muito tempo que teramos acabado com a culpa, e o 
mundo no estaria povoado de homens tristes que vergam ao peso 
do castigo.
Samuel perguntou:
- Mas que outra situao poderamos imaginar? Com des-
culpas ou sem elas, estamos ligados  nossa ancestralidade. Car-
regamos a culpa.
Adam disse:
- Lembro-me de me ter enfurecido com Deus. Caim e Abel 
ofereceram-lhe o que tinham, e Deus aceitou Abel e repudiou Caim. 
Sempre pensei que era injusto. Se vocs compreendem, eu no 
compreendo.
-Talvez a gente no interprete bem o quadro por ter perdido a 
moldura - disse Lee.- Esta histria foi escrita por um pastor para 
um povo de pastores. No eram lavradores. O Deus dos pastores 
no se sentir mais inclinado a preferir um cordeiro a um molho de 
cevada? Uma oferenda deve ser constituda pelo melhor e pelo mais 
valioso.
- Percebo o que quer dizer - retorquiu Samuel. - Lee, pre-
vino-o duma coisa: nunca se ponha com raciocnios orientais diante 
da Lizza.
Adam estava excitado pelo jogo:
- Sim, mas porque foi que Deus condenou Caim?  uma 
injustia.
Samuel respondeu:
- H toda a vantagem em prestar ateno ao significado das 
palavras. Deus no condenou Caim. At o prprio Deus pode ter 
uma preferncia, no  verdade? Suponhamos que Deus tenha
preferido o anho aos produtos da terra. Alis, tambm  do que eu 
mais gosto. Caim leva-lhe, digamos, um molho de cenouras. Deus 
responde: No gosto disso. Experimenta outra coisa. Traz-me algo 
que me agrade e ters a mesma afeio que dedico ao teu irmo. 
Caim enfurece-se, sente-se ofendido. E quando um homem fica 
ferido no seu amor-prprio, sente logo ganas de bater em qualquer 
coisa. Abel atravessou-se no caminho da sua clera.
- S. Paulo diz aos Hebreus que Abel tinha f - disse Lee.
- O Gnesis no fala nisso - disse Samuel.- Nem em f, 
nem em falta de f. Apenas se refere  ira de Caim.
Lee perguntou:
- Que pensa a Sr." Hamilton dos paradoxos da Bblia?
- No pensa coisa nenhuma, pelo simples facto de no os 
admitir.
- Mas...
- Calma. Experimente perguntar-lhe e ver que sai da dis-
cusso com os cabelos brancos e sem ter adiantado coisa nenhu-
ma.
- Vocs estudaram isso enquanto que eu s tenho uma ideia 
superficial. Ento Caim foi expulso por assassnio? 
- Exactamente, por assassnio.
- E Deus marcou-o?
- Ento no ouviu? Caim tinha uma marca, no para ser 
destrudo, mas para que se salvasse. Pesa uma maldio perma-
nente sobre todo o homem que o matar. A marca destinava-se a 
preserv-lo.
Adam afirmou:
- Continuo convencido de que Caim no foi tratado com igual-
dade.
- Talvez - disse Samuel.- Mas Caim viveu e teve filhos, 
enquanto que Abel apenas viveu na histria. Todos ns somos 
filhos de Caim. E no  estranho que trs adultos, passados mi-
lhares de anos, discutam esse crime como se ele tivesse sido 
cometido ontem, em King City, e a sentena ainda no tivesse 
sido proferida?
Um dos gmeos acordou, bocejou, olhou Lee e tornou a ador-
mecer.
Lee disse:
- Lembra-se de lhe ter dito, Sr. Hamilton, que estava tentando 
traduzir antigas poesias chinesas para ingls? No, no tenha medo, 
no lhas vou ler. Ao dedicar-me a esse trabalho, verifiquei que cer-
tos pensamentos perdidos na bruma do tempo se mantinham to 
frescos e claros como um nascer de Sol. Se a histria no disser 
respeito ao auditor, ele acaba por se desinteressar. Creio poder 
enunciar esta regra: se uma histria quiser ser grande e perpetuar-
-se, ter de se dirigir a cada um de ns. Os factos estranhos e 
longnquos no nos interessam, s o que  profundamente pessoal 
e familiar nos interessa.
Samuel disse:
- Aplique ento isso ao drama de Caim e Abel. 
Adam retorquiu:
- Eu no matei o meu irmo...
Subitamente, deteve-se, s voltas com o passado.
- Posso faz-lo - respondeu Lee a Samuel.- Esta histria 
s  conhecida dos homens por ser a sua prpria histria.  a 
histria simblica da alma humana. Creio estar no bom caminho... 
no me interrompam se no me exprimir com clareza. O que mais 
aterroriza as crianas  o receio de no serem amadas; acima de 
tudo, temem ser repelidas. Afinal, todos o fomos, em maior ou menor 
grau. Da nasce a clera que leva a um crime qualquer para obter 
vingana, e com o crime vem a culpa:  a histria da humanidade. 
Se o homem no fosse repelido por aqueles que ama, no seria o 
que . Talvez houvesse menos desequilibrados. E tenho a certeza 
de que as prises deixariam de ser necessrias. Tudo comea por 
a. Uma criana, ao ver-se recusar o amor que pede, d um pontap 
num gato e esconde a sua culpa secreta; uma outra rouba dinheiro 
para comprar o amor; uma outra conquista o mundo -  sempre a 
mesma coisa: culpa, vingana e culpa maior ainda. O ser humano  
o nico animal que tem remorsos. Esperem! Tenho a impresso de 
que esta antiga e terrvel histria  importante, porque define o mapa 
da alma, essa alma secreta, desdenhada, - culpada. Sr. Trask, o 
senhor disse que no tinha matado o seu irmo, mas lembrou-se 
logo de qualquer coisa. No me interessa saber o que era, mas teria 
to pouco que ver com Caim e Abel? E o senhor, Sr. Hamilton, que 
pensa do meu raciocnio oriental? Sabe muito bem que sou to 
oriental como o senhor.
Samuel apoiara os cotovelos na mesa e encostara o rosto s 
mos.
- Quero pensar - disse ele. - Deixe-me, quero pensar. Pre-
ciso de desmontar tudo o que disse, para estudar as peas uma a 
uma. Parece-me que deu cabo do meu mundo e ainda no sei o 
que irei construir em seu lugar.
Lee perguntou serenamente:
- No se poderia construir um mundo sobre a verdade? No 
se poderiam arrancar certas dores e certas loucuras, se tivsse-
mos os instrumentos necessrios?
- No sei. Voc destruiu o meu belo universo, inventou um 
jogo orgulhoso e transformou-o numa lei. Deixe-me em paz, pre-
ciso de reflectir. Os seus horrveis bicharocos j comearam a pro-
liferar no meu crebro. Gostava de saber o que pensar o Tom de 
tudo isto. Era capaz de acalentar os bicharocos na mo, de os 
fazer girar devagar em cima do lume, como um frango no espeto. 
Adam, acorde, para recordaes j basta.
Adam sobressaltou-se, suspirou demoradamente e pergun-
tou:
- No ser simples de mais? Sempre tive medo das coisas 
simples.
- No  nada simples - disse Lee. -  desesperadamente 
complicado. Mas no fim h a luz.
- Haja o que houver, a do Sol est quase a ir-se embora - 
disse Samuel.- Nem demos pela passagem do tempo. Afinal, 
vim eu para baptizar as crianas e elas continuam sem nome. 
Temos andado para aqui s voltas, sem sair da cepa torta. Quanto 
a si, Lee, era prefervel que no fosse explicar as suas concep-
es  Igreja. Os Chineses no esto isentos da cruz, que eu 
saiba. A Igreja gosta das complicaes, mas s das suas. Tenho 
de voltar para casa.
Adam pediu com desespero:
- Dem-me nomes.
- Da Bblia?
- Seja de onde for.
- Ora vejamos. De todos os homens que fugiram do Egipto, 
s dois chegaram  Terra da Promisso. No acha que esses dois 
nomes so bastante simblicos?
- Quais?
- Caleb e Josu.
- Josu era um soldado, um general. Eu no gosto do exrci-
to.
- Caleb era capito.
- Mas no era general. Caleb agrada-me... Caleb Trask. 
Um dos gmeos despertou e largou logo a chorar.
- Chamou-o pelo nome - disse Samuel. - Josu no lhe
agrada e Caleb est escolhido. Ser portanto aquele, o esperta-
lho, o mais moreno. Olhe, o outro tambm j acordou. Sempre
gostei de Aaro, mas esse no chegou  Terra de Cana.
O segundo garoto soltou um grito que parecia quase de ale-
gria.
- Esse nome  bom - disse Adam.
Samuel deu uma grande gargalhada.
- Em dois minutos - disse ele -, e depois duma torrente 
de palavras. Caleb e Aaron, agora j sois gente, fazeis parte da 
nossa comunidade e tendes direito  danao.
Lee pegou nos dois meninos e perguntou:
- J no os confunde?
- No - respondeu Adam.- Este  o Caleb e tu, tu s o 
Aaron.
Lee levou os gmeos a berrar para casa.
- Ontem, ainda, era incapaz de os distinguir - disse Adam. 
- Aaron e Caleb!
- Louvado seja Deus por ter recompensado os nossos esfor-
os- disse Samuel.- A Lizza devia preferir Josu. Ela sempre 
teve um fraco pelas trombetas de jerico. Mas tambm h-de gos-
tar de Aaron. Portanto, est tudo em ordem. Vou atrelar o carro.
Adam acompanhou-o at  cocheira.
- Ainda bem que veio. Parece que me tirou um grande peso 
de cima.
Samuel meteu o freio na boca de Doxology, endireitou a 
testeira e prendeu a fivela do peitoril.
- Se calhar, agora, vai pensar de novo no jardim? J o estou a 
ver como o tinha sonhado.
Adam s respondeu passado algum tempo:
- J no tenho energias para isso. No me falta dinheiro para
viver e j no tenho ningum a quem mostrar esse jardim.
Samuel aproximou-se dele com os olhos marejados de l-
grimas.
- As energias nunca morrem - disse ele. - No conte com 
isso. Julga que  melhor do que os outros? A energia s morrer 
consigo.
Ficou a arquejar, depois subiu para o cabriol, chicoteou 
Doxology e partiu todo curvado, sem dizer adeus.




TERCEIRA PARTE


CAPTULO XXIII

1

Os Hamilton eram pessoas estranhas, tensas como cordas de 
instrumentos de msica. Alguns deles, quando afinados em diapaso 
muito alto, rebentavam. No raro isso acontece.
De todas as filhas, Una era a que mais alegria dava a Samuel. 
Ainda pequena, j sentia um apetite de saber muito semelhante 
ao que as crianas tm pelos bolos  hora do lanche. Una e o pai 
conspiravam; compravam livros, liam-nos e trocavam impresses.
Una era a mais sria de todos os Hamilton. Conheceu e des-
posou um rapaz com os dedos manchados por produtos qumicos, 
principalmente nitrato de prata. Era um desses homens que vivem 
na pobreza para evitar o embrutecimento que d a riqueza. A sua 
especialidade era a fotografia e estava convencido de que o mundo 
exterior podia ser transposto para o papel com as cores que a vista 
humana distingue.
Chamava-se Anderson e era pouco dado. Como a maior par-
te dos tcnicos, tinha um profundo terror pela especulao e detes-
tava mtodos intuitivos. Abria um degrau, instalava-se nele e abria 
o seguinte, como o alpinista que escala uma montanha. Tinha um 
grande desprezo, inspirado num certo receio, por aqueles Hamilton 
que julgavam ter asas e davam quedas aparatosas.
Anderson nunca caiu, nunca escorregou e nunca voou. Cami-
nhava lentamente para o topo e foi l, diz-se, que encontrou o que 
pretendia: a pelcula colorida. Deve ter casado com Una por ela ser 
a menos expansiva, o que lhe dava uma certa tranquilidade. Como 
a famlia da mulher o assustava e afligia, resolveu ir viver para o
Norte, numa regio lbrega e perdida, para as bandas da fronteira 
do Oregon. Deve ter levado uma vida muito primitiva no meio dos 
seus frascos e dos seus papis.
Una escrevia umas cartas muito apticas, desprovidas de ale-
gria, mas no chorava a sua sorte. Estava passando bem e espe-
rava que o mesmo acontecesse  famlia. O marido estava prestes 
a fazer a descoberta.
Foi ento que Una morreu e devolveram o corpo  famlia.
Nunca conheci Una, pois desapareceu quando eu era ainda 
muito novo, mas George Hamilton falou-me nela muitos anos de-
pois. F-lo com os olhos cheios de lgrimas e em voz trmula.
- Una no era to bonita como a Mollie, mas tinha mos e 
ps maravilhosos. Os tornozelos eram flexveis como um caule e 
toda ela se movia como uma planta. Tinha os dedos esguios e as 
unhas estreitas, em forma de amndoa. A pele era maravilhosa, 
transparente, quase radiosa. No se ria nem brincava como ns. 
Havia nela qualquer coisa de singular, parecia estar sempre  es-
cuta. Quando lia, tnhamos a impresso de que estvamos ou-
vindo msica e, quando lhe fazamos uma pergunta, respondia sem 
rodeios, sem pitoresco, sem talvez como ns costumvamos 
fazer. Ns ramos cabotinos. Una tinha algo de puro e de simples.
Trouxeram-na para casa. As unhas estavam partidas at ao 
sabugo e tinha os dedos engelhados e gastos. E os ps...
George teve de se deter, mas continuou logo com a violncia 
de um homem que procura disfarar os soluos:
- Os ps estavam partidos e feridos. H muito tempo que 
no usava sapatos e tinha os ps em carne viva como um animal 
esfolado. Julgmos que tivesse sido um acidente. Havia tantos 
produtos qumicos... Deve ter sido isso, deve.
Mas Samuel pensou que ao acidente se deveria chamar an-
tes sofrimento e desespero.
A morte de Una sacudiu Samuel como um tremor de terra 
silencioso. No pronunciou uma nica frase bonita, sentou-se so-
zinho e embalou a sua dor. Convencera-se de que o seu desmazelo 
era o nico culpado.
O corpo de Samuel que, at ento, lutara alegremente contra o 
tempo, cedeu um pouco. A pele rija envelheceu, velaram-se os olhos 
lmpidos e os ombros curvaram-se. Lizza, essa, aceitava os acon-
tecimentos e podia assistir  tragdia. Sabia que nada havia a es-
perar deste lado do Cu. Mas para Samuel, que erguera uma vigo-
rosa muralha de riso contra as leis naturais, a morte de Una era 
uma brecha. E fez-se um velho.
Os outros filhos prosperavam. George dedicava-se aos segu-
ros, Will enriquecia e Joe, que se instalara no Leste, entretinha-se 
a inventar uma nova profisso que se chamava publicidade. Os 
seus grandes defeitos transformavam-se em qualidades. Podia 
dar corpo aos seus sonhos, e  tudo o que exige a publicidade. 
Joe tornava-se um grande homem num novo campo.
As raparigas tinham casado, excepto Dessie que possua uma 
loja de costura muito prspera, em Salinas. S Tom no descobri-
ra um caminho.
Samuel dissera a Adam Trask que Tom lutava com a gran-
deza. O pai observava o filho e sentia afluir e refluir o medo, as 
vitrias e as derrotas, pois tambm ele as conhecera.
Tom no tinha ternura lrica ou o aspecto radiante do pai mas, 
quando se aproximava de ns, sentamos uma presena, uma 
fora, um calor e uma integridade intransigente. Sob esta couraa, 
existia uma falha, um pudor. Tinha momentos de alegria compar-
veis aos do pai e, depois, de repente, rebentava como uma corda 
de violino. Tom afundava-se, ento, num torvelinho de trevas.
Era um homem muito moreno; a cara, queimada pelo sol, era 
de um vermelho-escuro como se lhe corresse nas veias sangue 
noruegus ou vndalo. O cabelo, a barba e o bigode eram do 
mesmo vermelho, e os olhos risonhos reflectiam um azul espan-
toso. Era forte, largo de ombros, e tinha a cintura fina. Corria, sal-
tava, erguia pesos e montava a cavalo to bem como qualquer 
outro, mas no tinha gosto pela competio. Will e George, que 
eram jogadores, tentaram interessar muitas vezes o irmo pelas 
alegrias e tristezas da sorte.
Tom explicava:
- J experimentei e achei aborrecido. A razo deve ser a 
seguinte: para mim, a vitria no  um triunfo e a derrota uma 
catstrofe; ora estes dois sentimentos so necessrios  aventu-
ra, que s acessoriamente  um meio de ganhar dinheiro. Se no 
se assemelhar  vida nem  morte,  alegria e  dor, parece-me... 
pelo menos a mim... que ... que no  coisa nenhuma. Se o jogo
me desse alguma sensao, boa ou m, no me importaria de 
jogar.
Will no compreendia: a sua vida no passava duma luta e 
dum jogo permanentes. Gostava de Tom e procurava inculcar-lhe o 
que ele prprio considerava agradvel. Tentou interess-lo nos ne-
gcios, inocular-lhe o veneno do comrcio, feito de embuste, 
de artifcio e de manobras.
Tom voltava sempre desarmado ao rancho. No criticava, li-
mitava-se a compreender que perdera a pista em qualquer parte. 
Sentia que deveria interessar-se pelas humanas pugnas, mas era 
incapaz de iludir-se a si prprio.
Samuel dizia que Tom tinha mais olhos do que barriga, quer 
se tratasse de comida ou de amor. Samuel tinha razo, mas creio 
que apenas conhecia um aspecto do filho. Talvez Tom se abrisse 
mais facilmente s crianas? Vou traar-lhes um retrato de me-
mria, salpicado de recordaes impessoais e de hipteses que 
formulei. Quem sabe se a imagem ser parecida?
Ns vivamos em Salinas e sabamos que Tom chegara quase 
sempre durante a noite - quando a Mary e eu encontrvamos, pela 
manh, debaixo dos travesseiros, maos de pastilhas elsticas. 
Naquele tempo, as pastilhas elsticas representavam para ns uma 
pequenina fortuna. O tio Tom estava s vezes vrios meses sem 
aparecer mas, apesar disso, todas as manhs, ao acordar, meta-
mos a mo debaixo do travesseiro. Ainda hoje o fao, embora o tio 
Tom j tenha deixado de me oferecer pastilhas elsticas h muitos 
anos.
A minha irm Mary no queria ser rapariga. No queria ou 
no se resignava a s-lo. Era uma atleta consumada, jogava o 
berlinde como ningum, mas sentia-se inibida pela condio de 
rapariga. Como  evidente, refiro-me a uma poca muito anterior 
quela em que veio a descobrir as vantagens de pertencer ao 
sexo fraco.
Assim como sabamos que num stio qualquer do nosso cor-
po, talvez debaixo do brao, existia um boto e que bastava pre-
mi-lo, para voar, tambm Mary descobriu um processo mgico 
que, um dia, faria dela um rapaz. Se se deitasse numa posio 
mgica, com os joelhos dobrados, a cabea num ngulo determi-
nado e os dedos entrelaados, acordaria feita rapaz no dia seguin-
te. Fazia uma tentativa todas as noites, mas a manh s lhe trazia 
desiluses. Era eu quem a ajudava a cruzar as mos como numa 
orao.
Mary j desesperara de obter qualquer resultado quando, certa 
manh, encontrou goma elstica debaixo do travesseiro. Cada um 
de ns desembrulhou a sua pastilha e mastigmo-las solenemen-
te. Eram pastilhas Beeman de menta, nunca se fez nada to bom.
A Mary estava entretida a enfiar as meias pretas quando ex-
clamou com grande alvio:
- Evidentemente!
- Evidentemente, o qu?- perguntei eu. 
- O tio Tom! - disse ela.
E ps-se a mastigar com mais violncia.
- O tio Tom?
- Ele  que sabe o que eu devo fazer para me tornar rapaz. 
Evidentemente, no havia nada mais simples. To simples, que 
perguntei a mim mesmo porque no me ocorrera j a ideia. A mam 
estava na cozinha dando instrues  nova criada dinamarquesa. 
Mudvamos muitas vezes de criada: os imigrantes dinamarqueses 
colocavam as filhas em casas de famlias autctones onde aprendi-
am no s a lngua, mas tambm a cozinha americana, a maneira 
de pr a mesa e todos os requintes em moda na alta sociedade de 
Salinas; dois anos depois, a doze dlares por ms, as raparigas 
estavam transformadas em esposas perfeitas para jovens america-
nos. Tinham adquirido um certo verniz mas ainda podiam trabalhar 
no campo como animais. Algumas das famlias mais elegantes de 
Salinas descendem dessas raparigas.
Na poca de que falo, era uma Mathilde de cabelos cor de 
linho quem apanhava uma ensaboadela da minha me. 
Ns entrmos a matar:
- Ele j se levantou?
- Chiu! - respondeu a minha me.- Ele chegou muito tar-
de, deixem-no dormir.
Mas ao ouvir correr a gua no lavatrio do quarto de hspe-
des, compreendemos que j se tinha levantado. Fomo-nos aga-
char como gatos diante da porta, esperando que sasse.
Ao princpio havia sempre um obstculo entre ns. Suponho 
que o tio Tom era to tmido como ns. Ele gostaria de sair a correr
e de nos pegar nos braos, mas, pelo contrrio, fazia-o sempre 
com ar compassado.
- Obrigado pelas pastilhas elsticas, tio Tom. 
- Ainda bem que gostaram.
- Achas que iremos ter po doce antes de deitar, enquanto 
c estiveres?
- Talvez, se a vossa me autorizar.
Fomo-nos sentar na sala. A voz da mam ergueu-se na cozi-
nha:
- Deixem-no sossegado, meninos.
- Eles esto com muito juzo, Olive - respondeu ele.
Sentmo-nos em tringulo. O Tom tinha a cara muito quei-
mada e os olhos eram claros. Usava roupa de boa qualidade, mas 
nunca parecia andar bem vestido. Era diferente do pai. Tinha o bigo-
de mal aparado, os cabelos em desalinho e as mos calosas.
Mary perguntou:
- Tio Tom, como  que se faz para ser rapaz?
- O qu? Mas,  Mary, j se nasce rapaz...
- No  isso o que eu pergunto. Como  que eu me posso
tornar rapaz?
Tom olhou-a gravemente:
- Tu? - perguntou.
Mary falou s catadupas:
- Eu no quero ser rapariga, tio Tom. Quero ser rapaz. As 
raparigas passam o tempo a beijar-se e a brincar s bonecas. Eu 
quero ser rapaz.
Pelo rosto de Mary deslizavam lgrimas de raiva.
Tom baixou os olhos, observou as mos e coou uma das 
palmas calosas. Creio que, nessa altura, ele gostaria de ter dito 
alguma coisa bonita, gostaria de ter encontrado palavras como as 
do pai, aladas, acariciadoras, musicais.
- No gostava que fosses rapaz - disse ele. 
- Porqu?
- Gosto de ti por seres rapariga.
Um dolo desabou na cabea de Mary.
- Queres dizer que gostas das raparigas? 
- Pois claro que gosto, Mary.
O desprezo estampou-se no rosto de Mary. Se fosse verdade,
Tom era um idiota. Mary arvorou um ar de a-mim-no-me-enganas-
-tu.
- Est bem - disse ela. - Mas o que devo eu fazer para me 
tornar rapaz?
Tom compreendeu que perdia a estima de Mary quando, afi-
nal, desejava ser amado e admirado por ela. Ao mesmo tempo, 
deslocava-se dentro dele uma fina fita de ao para cortar a cabe-
a s mentiras. Olhou os cabelos de Mary, to claros que pareci-
am brancos, entranados para no a incomodarem, e sujos nas 
pontas porque Mary limpava as mos  trana quando tinha de 
fazer uma jogada difcil ao berlinde. Tom perscrutou a expresso 
hostil.
- No acredito que queiras mudar a srio. 
- Quero, sim.
Tom enganava-se, ela desejava-o sinceramente.
- Pois muito bem! - disse ele.-  impossivel. E um dia vir 
em que te sentirs feliz por isso.
- Nunca me sentirei feliz - disse Mary.
Depois, voltou-se para mim e acrescentou num tom de des-
prezo gelado:
- Ele no sabe.
A cara de Tom crispou-se e eu estremeci ante a enormidade 
da acusao. Mary era herica e tinha o jogo duro. Era por isso 
que ganhava todos os berlindes de Salinas.
Tom, embaraado, disse:
- Se a tua me concordar, irei daqui a pouco encomendar 
pes doces para comermos esta noite.
- No gosto de po doce - disse Mary.
E dirigiu-se resolutamente para o nosso quarto, batendo com 
a porta.
- V-se logo que  mulher - disse Tom.
Ficramos ss e senti que era meu dever tratar a ferida aber-
ta por Mary.
- Eu gosto muito de po doce - disse eu.
- Bem sei que gostas. E a Mary tambm.
- Tio Tom, no h mesmo maneira de ela se tornar rapaz? 
- Que eu saiba, no - disse ele tristemente. - Se soubes-
se, ter-lhe-ia dito.
- Ela vence todos os rapazes a jogar o boto.
Tom suspirou e tornou a olhar para as mos. Eu via que ele
ficara derrotado e custava-me por ele, custava-me muito. Fui bus-
car-lhe a minha rolha com alfinetes espetados.
- Queres que te d a minha gaiola das moscas, tio Tom? 
No havia dvida - era um autntico cavalheiro: 
- Queres mesmo que aceite?
- Quero, sim. Vs, levantas um alfinete para deixar entrar a 
mosca e, depois, tornas a baix-lo e a mosca fica a zumbir l 
dentro.
-  um presente muito bonito. Obrigado, John.
Com um pequeno canivete, passou todo o dia a talhar um 
bocado de madeira.  tarde, quando voltmos da escola, tinha es-
culpido uma cabea. Os olhos, as orelhas e os lbios eram ani-
mados, prolongados por pequenas pestanas que se reuniam no 
interior da cabea. Na parte de baixo do pescoo havia um buraco 
tapado com uma rolha. Era maravilhoso. Apanhava-se uma mos-
ca, metia-se no buraco que se rolhava e, de repente, toda a cabe-
a se punha a viver: os olhos agitavam-se, os lbios falavam e as 
orelhas abanavam, animados pelo voo desvairado da mosca que 
movimentava as pequenas pestanas. At a prpria Mary lhe per-
doou um pouco, mas s voltou a confiar inteiramente nele quando 
descobriu as vantagens de ser rapariga. Mas j era demasiado 
tarde. O tio Tom ofereceu-nos o brinquedo. Ainda o temos, arru-
mado no sei onde, e continua a funcionar.
s vezes o tio Tom levava-me  pesca. Saiamos no carro, 
antes do nascer do Sol, e dirigamo-nos para o pico Frmont.  
medida que nos aproximvamos, as estrelas empalideciam, a luz 
surgia atrs da montanha e o pico parecia mais escuro. Lembro-me 
que encostava a cara ao casaco de Tom e que ele me passava o 
brao pelos ombros. Parvamos debaixo dum carvalho, desatre-
lvamos o cavalo, dvamos-lhe de beber no ribeiro e, depois, 
prendamo-lo atrs do carro.
No me consigo recordar se Tom falava. J no me lembro 
do som da sua voz, nem das palavras que empregava. Ainda te-
nho presente a fala do meu av, mas quando penso em Tom, 
conservo apenas a recordao dum silncio cordial. Talvez ele nun-
ca falasse.
Recordo-me das doiradinhas que cresciam debaixo das peque-
nas cascatas e dos seus dedos verdes que estremeciam com as 
gotas que lhes tombavam em cima. E recordo-me dos cheiros das 
colinas, das azleas bravas, de um toiro a fugir, de um tremoal e 
do suor do cavalo. Recordo-me do bailado elegante dos busardos, 
l no alto do cu. Tom entretinha-se a acompanhar-lhes as evolu-
es, mas no me lembra ouvir-lhe dizer fosse o que fosse a seu 
respeito. Recordo-me do estremecimento da minha linha que Tom 
me ajudava a enrolar no carreto. Recordo-me do cheiro dos fetos 
estendidos no fundo do cesto e do cheiro, suave e delicado, da 
truta hmida, arco-ris que jazia num leito verde. E depois, recordo-
-me tambm de ir at ao carro e de dar a rao de aveia ao cavalo. 
No me recordo da voz de Tom. Na minha memria, Tom mantm-
-se sombrio, calado e afectuoso.
Tom debatia-se nas trevas. O pai era belo e inteligente, a me 
era pequena e rija, todos os irmos e irms tinham encantos, dons 
ou fortuna. Tom amava-os apaixonadamente, mas sentia-se pesa-
do e prisioneiro da terra. Se o xtase o fazia subir montanhas, logo 
o afundava na escurido rochosa dos picos. Tinha acessos de cora-
gem sabotados por covardias efmeras.
Samuel afirmava que Tom lutava corpo a corpo com a gran-
deza, e perguntava a si mesmo se ele aceitaria ou no a fria res-
ponsabilidade. Samuel conhecia o carcter do filho e o seu poten-
cial de violncia. Isso assustava-o, pois constitua um impulso que 
desconhecia. Mesmo quando agredira Adam Trask, no obede-
cera  violncia. Em casa, continuavam a entrar livros, alguns em 
segredo. Samuel sabia cavalgar um livro e manter o equilbrio no 
meio das ideias, como um homem que desce uma torrente impe-
tuosa em canoa. Mas Tom cavava as ideias, abria um tnel como 
a toupeira e voltava  superfcie com a cara e as mos mancha-
das de leitura.
Violncia e timidez - Tom desejava as mulheres, mas no 
se sentia digno duma mulher. Durante largos perodos, trancava-se 
num celibato doloroso, depois, ia esquecer e perder-se em San 
Francisco. Regressava silenciosamente ao rancho, debilitado, in-
satisfeito, indigno. Ento, punia-se com o trabalho, lavrando e se-
meando as terras estreis, serrando madeira de carvalho duro at 
ficar com as costas desfeitas e os braos pendentes.
 muito provvel que entre o Sol e Tom estivesse sempre a 
figura do pai; cobria-o a sombra de Samuel. Tom escrevia versos 
s escondidas, o que, naquela poca, ainda era o mais prudente. 
Os poetas eram castrados desprezados pelos homens do Oeste. 
Poesia significava fraqueza e degenerescncia. Ler versos era 
mal visto e escrev-los tornava-nos suspeitos. A poesia era um 
vcio secreto. Ningum sabe se os versos de Tom eram belos, pois 
s os mostrou a uma pessoa e queimou-os antes de ter morrido. 
Pela quantidade de cinzas que encontraram no fogo, concluram 
que devia ter escrito muitos.
De toda a famlia, era Dessie a predilecta de Tom. Dessie era 
alegre. A sua loja era o mundo do riso.
A loja de Desse era a nica em Salinas. Um universo femi-
nino. Nela se viam abolidos todas as regras e receios engendra-
dos pelas leis. A porta estava vedada aos homens. Era um san-
turio onde as mulheres podiam ser elas prprias: malcheirosas, 
lbricas, msticas, vaidosas, despintadas e interesseiras. Desa-
tavam-se os espartilhos de barbas de baleia, esses espartilhos 
sagrados que moldavam e esmagavam a carne das mulheres para 
as transformar em deusas. Na loja de Dessie, as deusas voltavam 
a ser mulheres que iam  retrete, tinham indigestes, se coavam 
e arrotavam. E desta liberdade nascia o riso, verdadeiras explo-
ses de riso.
Estou a ver a Dessie e as suas lunetas de oiro encavalitadas 
num nariz que no fora feito para elas. Vejo-lhe ainda os olhos 
vertendo lgrimas hlares e a fronte contrada pelo riso. Os cabe-
los metiam-se entre as lentes e os olhos, obrigando as lunetas a 
carem e a ficarem a baloiar na ponta da fita preta.
Na loja da Dessie tinha de se encomendar um vestido com 
um ms de antecedncia e ir l uma vintena de vezes para esco-
lher o tecido e o modelo. Nunca houvera nada to sadio em Sali-
nas. Os homens, como  natural, tinham os seus clubes, tertlias 
e prostbulos. Antes da chegada da Dessie, as mulheres apenas 
dispunham da Confraria do Altar e da tagarelice com o ministro do 
culto.
At que um dia a Dessie se apaixonou. Desconheo os por-
menores relacionados com o acontecimento. Quem era ele? O que 
foi que contrariou esse amor? Uma mulher que recusava o divrcio, 
religio, doena, egosmo? Suponho que a minha me o sabia, 
mas trata-se duma dessas coisas de que as famlias guardam rigo-
roso segredo e que nunca transpiram. E se outras pessoas de Sali-
nas o souberam, tambm tiveram a lealdade de nunca o contar. 
Tudo o que sei  que foi uma paixo desesperada, obscura e ter-
rvel. Passado um ano, a Dessie perdera toda a alegria e o riso 
extinguira-se.
Tom encafuou-se nas colinas como um leo ferido. Certa noite, 
selou o cavalo e partiu, sem esperar pelo comboio de manh, para 
Salinas. Samuel foi-lhe na peugada e enviou um telegrama de King 
City para Salinas.
Na manh seguinte, quando Tom, todo sujo, esporeava o ca-
valo na John Street de Salinas, era aguardado pelo xerife que o 
desarmou, o meteu na cadeia e o alimentou com caf e lcool at 
que Samuel o veio buscar.
Samuel no pregou nenhum sermo ao filho. Levou-o para casa 
e nunca mais falou no incidente. E uma espcie de calma envolveu 
a casa dos Hamilton.


2

Em 1911, no Dia de Aco de Graas, a famlia reuniu-se no 
rancho. Estavam presentes todos os filhos, excepto o Joe, retido 
em Nova Iorque, a Lizzie que abandonara a famlia para adoptar 
outra e a Una que morrera. Chegaram carregados de presentes e 
de mantimentos que davam para alimentar vrios cls como o 
nosso. Eram todos casados menos a Dessie e o Tom. Os filhos 
enchiam o rancho com a gritaria e a bulha que faziam. Os homens 
realizavam numerosas viagens  forja e voltavam limpando alti-
vamente os bigodes.
A carinha redonda de Lizza punha-se cada vez mais verme-
lha; choviam as ordens e as descomposturas. O fogo da cozinha 
nunca se apagou. No havia camas que chegassem e armaram-se
leitos improvisados no cho para as crianas.
Samuel readquiriu a antiga alegria. O seu esprito irnico 
esplendeu e a sua fala reencontrou a toada musical. Falou, cantou, 
evocou recordaes e, depois, de repente, ainda no era meia-
-noite, cansou-se. Sentiu-se modo e foi deitar-se ao lado de Lizza 
que j dormia h mais de duas horas. Mostrava-se admirado, no 
de ir para a cama, mas por ter vontade de ir.
Depois de o pai e a me se terem recolhido, Will foi buscar o 
usque  forja e o cl reuniu-se na cozinha e bebeu o lcool por 
copos de geleia. As mes subiram atrs umas das outras, na pon-
ta dos ps, aos quartos, para verem se os filhos estavam aconchega-
dos, e tornaram a descer. Falaram baixinho para no incomodarem 
as crianas e os velhos. Estavam o Tom e a Dessie, o George e a 
sua linda Mamie, da famlia Dempsey, a Mollie e William J. Martin, 
a Olive e Ernest Steinbeck, o Will e a sua Deila.
Todos queriam dizer a mesma coisa: Samuel envelhecera. 
Era to surpreendente como a apario dum fantasma. Nunca 
tinham imaginado que fosse possvel. Beberam o usque e fala-
ram em voz baixa.
- J viram como tem os ombros descados? E perdeu o andar 
elstico.
- Tem a pele toda enrugada, mas no  isso... so os olhos, 
os olhos  que esto velhos.
- Dantes, nunca teria sido o primeiro a ir para a cama.
- J repararam que se esquece do que vai dizer no meio das 
frases?
- Eu notei pela pele. Est toda enrugada e as costas das 
mos parecem transparentes.
- Coxeia da perna direita.
- Pois coxeia, mas foi a que o cavalo lhe partiu.
- Bem sei, mas dantes no coxeava.
Sentiam-se ultrajados. No podia ser! O pai no podia enve-
lhecer. O pai era to novo como a aurora - como a perptua
aurora.
- Pode ser velho como a tarde mas, Jesus me valha! o cre-
psculo no pode vir, e a noite? valha-me Deus, isso nunca!
Era natural que as suas mentes no pensassem noutra coisa 
e que no o quisessem admitir; contudo, no intimo, todos formu-
lavam a mesma ideia: no se pode conceber o mundo sem Samuel. 
- Como poderamos pensar nalguma coisa sem saber o que 
ele pensa?
- Que seriam a Primavera, o Natal ou a chuva? Deixaria de 
haver Natal.
Os espritos repeliam esta eventualidade e procuraram uma 
vtima, algum a quem pudessem ferir, pois sentiam-se feridos. 
Voltaram-se todos para Tom.
- Tu estavas c, tu nunca o deixaste. 
- Como foi que aconteceu e quando foi? 
- Quem foi que lhe fez isso?
- Ser vtima da tua loucura?
Tom pde esclarecer porque tambm participara do desgosto.
- Foi a Una - respondeu ele em voz rouca. - Ele no con-
seguiu suportar. Disse-me que um homem, um verdadeiro homem, 
no tinha o direito de se deixar destruir pelo desgosto. Passa os 
dias a repetir-me que o tempo acabaria por acalmar a dor. Tantas 
vezes me disse a mesma coisa que acabei por compreender que 
se deixara vencer.
- Porque no nos disseste nada? Poderamos ter feito algu-
ma coisa.
Tom ergueu-se de um salto e gritou com uma violncia ter-
rvel:
- Vo pr diabo que os carregue! Que queriam que lhes dis-
sesse? Que ele estava a morrer de desgosto? Que j no tinha 
sangue nas veias? Que queriam que dissesse? Vocs no esta-
vam c e eu fui o nico espectador que lhe viu morrer o olhar.
Tom saiu da cozinha e ouviram-no caminhar no solo pedregoso.
Tiveram vergonha. Will Martin disse:
- Vou busc-lo.
- No faa isso - aconselhou George. 
E o cl aquiesceu.
- No faa isso, deixe-o s. Conhecemo-lo to bem como a 
ns mesmos.
Da a pouco, Tom regressou:
- Peo-lhes que me desculpem - disse ele.- Tenho muita 
pena. Talvez esteja com um gro na asa. O pap, quando me via 
assim, chamava-me alegre. Uma noite voltei a casa... (Confessou-
-se:) - Atravessei o terreiro a cambalear e ca na roseira. Subi as 
escadas de gatas e vomitei no cho ao lado da cama. Na manh 
seguinte, tentei dizer ao pai que lamentava o que fizera e, sabem o 
que me respondeu?  Tom, mas tu estavas alegre. Dizer-me 
uma coisa dessas a mim! Depois do que eu tinha feito! Alegre!
George deteve a vaga de palavras.
- Desculpa-nos, Tom - disse ele. - Estvamos com ar de 
te censurar e no era essa a nossa inteno. Se foi assim que 
interpretaste as nossas palavras, peo-te que nos perdoes.
Will Martin props:
-A vida aqui  muito dura. Porque no lhe dizemos para ven-
der tudo e ir viver para a cidade? Podia viver ainda muitos anos e 
bons. A Mollie e eu no nos importamos de o alojar em nossa 
casa.
- No me parece que aceitasse - disse Will.-  teimoso 
como um burro e orgulhoso como um cavalo. Tem orgulho para 
dar e vender.
Ernest, o marido de Olive, disse:
- No custa nada perguntar-lhe. Ns tambm o podamos 
acolher... acolh-los em nossa casa.
Ento todos se calaram porque se sentiam chocados  ideia 
de perderem o rancho, aquele deserto seco e pedregoso no meio 
das colinas.
Will Hamilton, por instinto e graas ao treino profissional, co-
nhecia alguns princpios da psicologia, pelo que afirmou:
- Se lhe pedirmos para apagar o fogo da forja, ser a mes-
ma coisa que pedirmos para apagar a chama da vida. Dir logo 
que no.
- Tens razo, Will - respondeu George. - Metia-se-lhe na 
cabea que abandonava tudo, pensaria que era uma covardia. 
No, ele nunca poder vender e, se o fizer, no sobreviver uma 
semana.
Will props outro meio:
- Talvez ele possa ir visitar-nos? O Tom tratava do rancho. O 
pap e a mam nunca saram deste buraco, e o mundo tem dado 
muitas voltas. Talvez lhe refrescasse as ideias. Poderia voltar quan-
do quisesse e recomear a trabalhar. E, da, talvez que passado 
algum tempo j nem sequer tivesse vontade de voltar.  ele o primeiro
a dizer que o tempo tem mais fora do que a dinamite.
Dessie afastou uma madeixa de cabelos que lhe cara para 
os olhos.
- Julgas que ele  assim to estpido? - perguntou ela. 
Will falou por experincia.
- s vezes os homens sentem prazer em ser estpidos, pelo 
menos quando a estupidez permite fazer coisas proibidas pela 
inteligncia. No nos custa nada tentar. Que pensam?
Houve meneios de cabea na cozinha e s Tom no deu a 
sua aprovao.
- Tom, no estarias disposto a ocupar-te do rancho? - per-
guntou George.
- No  isso - respondeu Tom. - No custa nada tratar 
duma coisa que no existe, que nunca existiu. 
- Ento porque no concordas?
-  que teria a impresso de insultar o meu pai - respondeu 
Tom. - Ele compreenderia a artimanha.
- Nada nos impede de tentar.
Tom esfregou as orelhas at ficarem brancas.
- No os posso impedir - disse ele -, mas no os ajudarei. 
George disse:
- Podamos mandar-lhe uma carta, uma espcie de convite 
com uma data de piadas. Quando ele estiver farto de estar em 
casa de um, vai para a casa do outro. Levar anos s para visitar 
todos os filhos.
As coisas ficaram por ali.


3

Tom foi buscar a carta de Olive, cujo contedo conhecia, a 
King City. Esperou que o pai ficasse s para lha entregar. Samuel 
estava a trabalhar na forja e tinha as mos sujas. Pegou no enve-
lope por um canto, pousou-o na bigorna e foi lavar as mos  
dorna. Abriu o envelope com um cravo de ferradura e saiu para o 
sol para ler a carta. Tom tirara as rodas da carroa e untava os 
eixos, observando o pai pelo rabo do olho.
Samuel terminou a leitura, dobrou a carta e guardou-a no enve-
lope. Depois, sentou-se no banco diante da forja e olhou a direito. A 
seguir, abriu novamente a carta, releu-a, dobrou-a e tornou a guard-
-la no bolso da camisa. Tom viu-o levantar-se e encaminhar-se lenta-
mente para a colina, dando pontaps nas pedras.
Chovera ligeiramente e uma vegetao miservel desponta-
va da terra. A meia encosta, Samuel acocorou-se, apanhou um 
punhado de terra seca e espalhou-a na palma da mo com a pon-
ta do dedo. Havia slex, areia, parcelas de mica brilhante, uma 
pequena raiz e uma pedra com veios. Samuel deixou escorregar 
a terra por entre os dedos e limpou as mos. Arrancou uma erva, 
meteu-a na boca e olhou o cu para l da colina. Uma nuvem parda 
dirigia-se para leste  procura duma floresta onde pudesse reben-
tar.
Samuel levantou-se e desceu a colina. Entrou na arrecadao 
e acariciou os pilares, depois deteve-se em frente de Tom, fez girar 
uma das rodas da carroa e contemplou o filho como se nunca o 
tivesse visto.
- Ests um homem - disse ele.
-No sabias?
- Sabia, sim, sabia.
Depois afastou-se de Tom. O rosto tinha a expresso que a 
famlia to bem conhecia - divertia-se  prpria custa. Depois de 
atravessar o jardinzinho triste, deu uma volta  casa; tambm es-
tava velha, a casa. At os ltimos acrescentos estavam velhos e 
cinzentos, e a massa em torno das vidraas estava toda fendida. 
Quando chegou diante da porta, parou para ver toda a sua terra e, 
depois, entrou.
Lizza entretinha-se a estender massa de torta na tbua dos 
folhados. Manejava o rolo com tanta destreza que a massa pare-
cia animada de vida prpria. Esmagava-se, adelgaava-se, es-
tendia-se, dir-se-ia elstica. Lizza levantou a folha de massa, disp-
-la numa forma de torta e aparou os bordos com uma faca. Em 
cima da mesa estava uma tigela cheia de groselhas e de sumo 
vermelho.
Samuel sentou-se numa cadeira da cozinha, traou as pernas e olhou a 
mulher. Os seus olhos riam.
- No tens nada que fazer a uma hora destas? - perguntou 
ela.
- Se quisesse, tinha, mam.
- No fiques a que me pes nervosa. Se ests com pregui-
a, vai ler o jornal para o quarto.
- J o li - disse Samuel.
- Todo?
- O que me interessava.
- Samuel, o que h? Ests a magicar qualquer coisa, adi-
vinho-o pela tua cara. Diz-me j o que  para que eu possa acabar 
o bolo.
Samuel descruzou as pernas e sorriu  mulher.
- Uma mulher mais pequena que a sardinha. Trs juntas no 
chegavam a fazer uma pescada.
- Samuel, no estou a achar-te graa nenhuma. Compreendo 
que gostes de brincar, mas ainda no so onze horas. Vai-te embo-
ra.
Samuel perguntou:
- Lizza, sabes o que significa a palavra frias? 
- No gosto que brinques de manh. 
- Sabes, Lizza?
- Evidentemente que sei. No sou assim to parva. 
- Ento explica.
- Quer dizer ir descansar  beira-mar, numa praia. Agora 
deixa-te de disparates e vai-te embora.
- Onde ters tu aprendido o significado dessa palavra?
- No me querers dizer que ideia se te meteu na cabea? 
Porque no havia de conhecer tal palavra?
- J a puseste em prtica, Lizza?
- Mas...
Lizza calou-se.
- Em cinquenta anos j alguma vez tiveste frias, minha 
admirvel mulherzinha?
- Samuel, peo-te o favor de sares - disse ela com apre-
enso.
Ele tirou a carta do bolso e desdobrou-a.
-  da Olive - disse ele.- Convida-nos a ir a Salinas. Pre-
parou dois quartos para ns. Quer que a gente conhea os filhos. 
E arranjou-nos bilhetes para a temporada do Chautauqua. O
Billy Sunday vai lutar com o Diabo e o Bryan far o discurso da
Cruz de Oiro. Gostaria de ouvir.  velho como o mundo, mas parece
que o Bryan ainda consegue fazer-nos vir as lgrimas aos olhos. 
Lizza esfregou o nariz e mascarrou-se de farinha. 
-  caro?- perguntou ela com ansiedade. 
- Caro? A Olive comprou os bilhetes.  um presente.
- No podemos ir - disse Lizza. - Quem trataria do ran-
cho?
O Tom. Para o trabalho que h no Inverno... 
- Aborrecia-se sozinho.
- Talvez o George c venha para caar codornizes. Olha o 
que est no envelope.
- O que  isso?
- Dois bilhetes de comboio para Salinas. A Olive no quer que 
a gente tenha pretextos para recusar.
- Troca-os na estao e devolve-lhe o dinheiro.
- Ento, Lizza, no pode ser... Mam, ento. Toma, aqui tens 
um leno.
-  uma rodilha - protestou Lizza.
- Senta-te, mam. Pronto. Tiveste um choque com a ideia de 
descansar. Bem sei que  uma rodilha. Parece que o Billy Sunday 
passeia o Diabo por todo o palco.
-  um blasfemo - disse Lizza.
- Mesmo assim, gostava de ver. Que dizes? Levanta a ca-
bea que no te oio. Que disseste tu?
- Disse que sim - respondeu Lizza.
Tom estava a desenhar quando o pai se aproximou dele. O 
olhar de Tom pretendia ser inexpressivo, tentando adivinhar o efeito 
produzido pela carta de Olive.
Samuel contemplou o desenho.
- O que  isso?
- Estou a ver se consigo descobrir um sistema para abrir a 
cancela sem ser preciso desmontar do cavalo. Isto aqui  a tran-
queta.
- E como se abre?
- Com uma mola.
Samuel estudou o desenho.
- E como se fecha?
- Com esta barra empurrada pela mola.
- Estou a ver - disse Samuel. - No fundo, talvez desse 
resultado se a porta fosse reforada, mas dava vinte vezes mais 
trabalho a fazer e a abrir do que se descssemos do cavalo e abrsse-
mos  mo.
Tom protestou:
- s vezes, com um cavalo teimoso...
- Bem sei - disse Samuel.- O nico pretexto razovel  
que seria divertido.
Tom sorriu-se.
- Apanhaste-me.
- Se a tua me e eu fssemos fazer uma viagenzita, achas 
que serias capaz de tratar do rancho?
- Claro que seria - respondeu Tom. - Onde tencionam ir? 
- A Olive convidou-nos para irmos a Salinas. 
- Boa ideia - disse Tom. - A mam concorda? 
- Inteiramente. Mesmo no que respeita ao dinheiro.
- Muito bem - disse Tom.- Quanto tempo contam ficar
ausentes?
O olhar cintilante, sardnico de Samuel fixou-se em Tom que 
acabou por perguntar:
- Que se passa, pai?
- A tua voz teve uma inflexo quase imperceptvel, mas que 
no me passou despercebida. Tom, meu filho, no me aborrece 
que partilhes um segredo com os teus irmos. At  uma boa coisa.
- No percebo o que queres dizer - disse Tom.
- Eu c me entendo - respondeu-lhe o pai.- Ainda bem 
que no resolveste seguir a carreira teatral, porque davas um mau 
actor. A conspirao deve ter sido no Dia de Aco de Graas, 
quando estiveram todos juntos. E, resultou a valer. Estou a ver a 
mo do Will nisto tudo. No me digas se no quiseres.
- Eu era contra a ideia - disse Tom.
- Isso nem parece teu - disse o pai. - Nem que pusesses 
a verdade ao sol eu acreditava. No digas aos outros que j sei.
Afastou-se mas voltou logo atrs e pousou a mo no ombro 
de Tom.
- Obrigado por me teres querido honrar com a verdade. No  
muito hbil mas d melhor resultado.
- Ainda bem que vais descansar.
Samuel ficou de p diante da porta da forja olhando para o 
rancho.
- Dizem que as mes tm mais afeio pelos filhos feios 
disse ele.
Depois, meneando a cabea com violncia:
- Tom, j que sabes guardar segredos, vou pagar-te na mes-
ma moeda, pedindo-te que nunca digas nada a nenhum dos teus 
irmos: eu sei porque parto, Tom, e sei para onde vou. E sinto-me 
feliz.



CAPTULO XXIV

1

Muitas vezes tenho perguntado a mim mesmo porque  que 
certas pessoas so afectadas e destroadas, menos que outras, 
pelas verdades da vida e da morte. A morte de Una destruiu os 
diques da juventude, e a velhice entrou em Samuel. Mas Lizza que, 
certamente, amava tanto a famlia como o marido, no foi atingida 
com a mesma violncia. Continuou a viver da mesma maneira; co-
nheceu a dor, mas sobreviveu-lhe.
Suponho que Lizza aceitava a vida como a Bblia, com os 
seus paradoxos e contradies. No gostava da morte mas sabia 
que existia e, quando ela chegou, Lizza no ficou surpreendida.
Samuel brincava e filosofava com a morte, mas no acreditava 
nela.  morte no fazia parte do seu universo. Ele prprio e tudo o 
que o rodeava eram imortais. Mas quando a verdadeira morte fez a 
sua obra, foi um ultraje, uma denegao da sua imortalidade, e a 
primeira fenda arrastou a queda de toda a estrutura. Creio que ele 
sempre julgara poder discutir com a morte, considerava-a um ad-
versrio pessoal com envergadura para ser vencido.
Para Lizza, era apenas o fim prometido e esperado. A morte 
no a deteve e, apesar da sua dor, ps o refogado ao lume, cozeu 
seis tortas e preparou o banquete funerrio. Arranjou tudo de for-
ma que Samuel tivesse uma camisa lavada, o fato de veludo preto 
escovado e os sapatos engraxados. Talvez seja assim que se fazem 
as unies durveis, em que as duas partes esto ligadas por foras 
complementares.
Samuel, mais ainda do que Lizza, sabia resignar-se, mas a 
resignao deixava-o profundamente dilacerado. Lizza observou-o
atentamente depois de terem resolvido ir a Salinas. Ela ignorava o 
que se lhe metera na cabea, mas, como me arguta que era, 
pressentia que ele preparava alguma coisa. Lizza era completa-
mente realista: tudo o mais lhe sendo indiferente, sentia-se feliz por 
ir visitar os filhos.
Alegrava-a a ideia de ir ver os filhos e os netos, assim como o 
stio onde viviam. Nunca tivera uma marcada predileco pelos lu-
gares, que considerava meras pausas no caminho para o Cu. No 
gostava do trabalho e limitava-se a faz-lo porque assim tinha de 
ser. Mas sentia-se cansada, cada vez lhe custava mais lutar contra 
as dores e o reumatismo que tentavam obrig-la a ficar na cama de 
manh - alis, sem nunca o alcanarem.
Lizza aguardava a partida para o Paraso, jardim onde no se 
lavava roupa nem loia e onde no era preciso cozinhar. Aqui entre 
ns, havia umas coisinhas que ela no aprovava no Paraso: canta-
va-se demasiado e no se percebia como  que os prprios eleitos 
conseguiam sobreviver  celestial preguia. Ela logo arranjar algu-
ma coisa para matar o tempo: nuvens para remendar, asas cansa-
das para friccionar, golas de tnicas para virar e, pensando bem, 
devia haver por l muita teia de aranha a pedir vassoira.
A visita a Salinas divertia-a e assustava-a. A ideia agradava-
-lhe tanto que se ps a cismar se no andaria por ali algum pecado 
oculto. E o Chautauqua? No precisava de l ir e, provavelmente, 
no iria. O Samuel era capaz de perder a cabea e tinha de ser 
vigiado. Continuava a consider-lo um rapazinho indefeso. No 
sabia a orientao tomada pelo pensamento do marido e a des-
truio que lhe ameaava o corpo.
Os lugares tinham muita importncia para Samuel. O rancho 
era um parente e, quando o deixou, foi como se tivesse apunhala-
do um amigo. Mas assentara numa deciso e resolveu partir em 
beleza. Fez visitas cerimoniosas a todos os vizinhos, os pioneiros 
do Vale que se lembravam dos bons tempos e, assim que os ve-
lhos amigos o viram desaparecer, compreenderam que no o tor-
nariam a ver, se bem que ele nada tivesse dito. Samuel contem-
plou demoradamente as montanhas e as rvores e at as caras; 
como se quisesse lembrar-se delas para a eternidade.
Samuel reservou a ltima visita ao rancho de Adam Trask. H 
meses que l no ia. Adam j no era um homem novo, os filhos
tinham onze anos e o Lee... oh!, meu Deus! o Lee estava na mes-
ma.
- H muito tempo que desejava v-lo - disse Lee, indo rece-
b-lo - mas tenho tanto que fazer. E no tenho querido deixar de ir 
a San Francisco pelo menos uma vez por ms.
- Compreendo perfeitamente - disse Samuel.- Quando se 
sabe que um amigo est prximo, no se vai v-lo e depois, quando 
ele desaparece, arrepelamo-nos todos por no o ter visto com mais 
frequncia.
- Soube o que se passou com a sua filha. Sinto muito.
- Eu recebi a sua carta, Lee. Fiquei com ela. Muito obrigado 
pelas suas palavras de conforto.
- Eram palavras chinesas - disse Lee. - Parece-me que
cada vez fico mais chins  medida que envelheo.
- Noto-lhe uma diferena qualquer, Lee. O que ? 
-  o meu rabicho, Sr. Hamilton. Cortei-o. 
- Ah!  isso, .
- Cortmo-lo todos. No sabia? Morreu a imperatriz viva. A 
China  livre. Os Manchus j no so nossos senhores e deixmos 
de usar rabicho em obedincia a uma proclamao do novo governo. 
J no se v um nico rabicho em todo o Celeste Imprio.
- E fez-lhe uma grande diferena, Lee?
- Nem por isso.  mais simples, mas parece que temos uma 
impresso de vazio na nuca, que  bastante incmoda. Temos sem-
pre dificuldade em nos habituara uma comodidade.
- Como est o Adam?
- Est bem. Mas no mudou muito. S queria saber como 
ele era dantes.
- Tambm eu gostava de saber. Teve uma Primavera muito 
breve. Os filhos j devem estar crescidos.
- Pois esto. Ainda bem que me deixei ficar por c. Aprendi 
muita coisa vendo-os crescer e ajudando-os a viver. 
- Ensinou-lhes o chins?
- No, o Sr. Trask no queria e acho que tinha razo. Era 
uma complicao intil. Mas sou amigo deles e eles so meus 
amigos. Creio que admiram o pai e que gostam de mim. So mui-
to diferentes, nem pode imaginar at que ponto.
- Em que sentido, Lee?
- H-de v-los quando voltarem da escola. Parecem os dois 
lados da mesma medalha. - O Cal  inteligente, sisudo e observador, 
e o irmo...  um rapaz de quem se gosta mesmo antes de o ouvir 
falar e mais ainda depois.
- No gosta do Cal?
- J me tenho surpreendido a defend-lo, perante mim mes-
mo. Ele luta para viver, enquanto que o irmo no precisa de lutar.
 - O mesmo se d com a minha ninhada - disse Samuel. 
No percebo porqu. Era caso para julgar que, com a mesma 
educao e o mesmo sangue, se pareceriam todos uns com os 
outros e, afinal, no: so completamente diferentes.
Da a pouco, Samuel e Adam desceram a estrada sombrea-
da para a entrada do pequeno vale de onde se avistava o Salinas.
- Fica para jantar? - perguntou Adam.
- No quero ser responsvel pela morte de alguns frangos - 
disse Samuel.
- O Lee fez carne assada.
- Ento, nesse caso...
Adam tinha um ombro mais baixo do que o outro por causa 
do ferimento. O rosto mantinha-se fechado e impassvel, enquan-
to o olhar apenas englobava o conjunto, ignorando os pormeno-
res. Os dois homens pararam na estrada e contemplaram o vale, 
verdejante aps as primeiras chuvas.
Samuel perguntou afavelmente:
- No sente uma certa vergonha em deixar esta terra incul-
ta?
- No tenho razo nenhuma para a cultivar - respondeu 
Adam. -J uma vez falmos no assunto. Pensava que eu muda-
ria de opinio? Pois no mudei.
- Sente prazer em sofrer? - perguntou Samuel. - Julga-se 
grande e trgico?
- No sei.
- Pense nisso. Talvez esteja a representar um papel num 
enorme palco diante duma sala vazia.
Uma leve irritao transpareceu na voz de Adam:
- Porque me vem pregar descomposturas? Gosto muito de
o ver, mas porque tenta sempre perscrutar-me?
- Para ver se a clera ainda no morreu em si. Sou um velho
intrometido. Esta terra est por desbravar e, ao p de mim, est um 
homem por desbravar. No gosto do desperdcio, talvez por nunca 
ter podido dar-me a esse luxo. Ser possvel que lhe agrade esta 
vida de marasmo?
- Que quer que eu faa?
- Uma nova tentativa.
Adam enfrentou Samuel.
- Tenho medo de tentar - disse ele.- Prefiro continuar as-
sim. Talvez j no tenha foras nem coragem. 
- E os seus filhos? Gosta deles?
- Gosto... gosto.
- Tem alguma preferncia?
- Porque diz isso?
- No sei, pareceu-me notar qualquer coisa na sua voz. 
- Vamos para casa - disse Adam.
Caminharam lentamente sob as rvores. De sbito, Adam per-
guntou:
- J alguma vez ouviu dizer que a Cathy estivesse em Sali-
nas? Diga, j alguma vez ouviu dizer isso?
- E voc?
- Eu, j, mas no acredito, no posso acreditar.
Samuel caminhou silenciosamente por um sulco da estrada. 
Pelo seu esprito perpassava a mesma preocupao que pelo de 
Adam e, com lassido, sentiu reviver uma ideia que julgava morta. 
Acabou por dizer:
- Ela nunca se afastou de si?
- Talvez no. Mas j esqueci o tiro, nunca mais voltei a pen-
sar nele.
- No me cabe a mim dizer-lhe como deve viver a sua vida 
- disse Samuel. - Sei muito bem que seria prefervel que dei-
xasse os subterrneos dos seus talvez e que voltasse  super-
fcie onde sopra o vento. Enquanto converso consigo, vou pas-
sando ao crivo todas as minhas recordaes, como um homem 
que peneirasse o lixo dum bar para recolher o p de oiro que se 
mete nas frinchas do soalho. Mas  trabalho de amador, nem isso 
chega a ser. Voc ainda  muito novo para joeirar as recordaes, 
Adam, por isso devia arranjar outras novas para que um dia a 
colheita na peneira pudesse ser mais rica.
Adam inclinara a cabea para a frente e tinha os maxilares 
salientes de tanto os apertar.
Samuel olhou-o furtivmente:
-  isso - disse ele -, morda com quanta fora tem. Muito 
gostamos de defender os nossos erros! Quer que lhe diga o que 
faz, para que no julgue t-lo inventado? Quando se deita, depois 
de apagar a vela, v-a aparecer  porta, com uma luz por detrs, e 
v-lhe a camisa de dormir a agitar-se ao de leve. Ela aproxima-se 
devagar da sua cama e voc, contendo a respirao, levanta a roupa 
para a receber e afasta a cabea no travesseiro para lhe dar lugar. 
Comea a sentir o perfume da sua pele, que no tem rival no mundo...
- Cale-se! - gritou Adam.- Diabos o levem! - Pare com 
isso. Sempre a foar na minha vida! Parece um coiote a refocilar 
numa vaca morta.
- A razo, por que sei - continuou Samuel -  que um 
desses fantasmas tambm se aproxima de mim da mesma manei-
ra, noite aps noite, ms aps ms, ano aps ano, sempre, sem-
pre, at hoje. Eu devia ter fechado o crebro com duas voltas de 
chave e ter posto trancas no corao, mas nunca o fiz. Durante 
todos estes anos, tenho enganado Lizza com essa recordao. 
Dei-lhe uma imitao do amor e fiquei com o verdadeiro para as 
horas da noite. At cheguei a desejar que a Lizza tambm tivesse 
um desses visitantes nocturnos. Mas nunca o saberei. Acho que 
teria fechado o corao a cadeado e atirado a chave para o inferno.
Adam tinha as mos to enclavinhadas que as falanges esta-
vam brancas.
- Obriga-me a duvidar de mim mesmo - disse ele furiosa-
mente. - Sempre me obrigou. Chego a ter medo de si. Que acha 
que devo fazer, Samuel? Diga-me. No sei como faz para ver as 
coisas com tanta clareza. Que acha que deveria fazer?
- Eu sei quais so os deveria, mas nunca os aplico. Sei 
sempre quais so os deveria. Deveria tentar encontrar uma nova 
Cathy, deveria deixar a nova Cathy matar a Cathy do sonho... Dei-
xe-as lutar. Voc seria o espectador que casaria com a vence-
dora. Este  um deveria do mal o menos. O melhor seria pro-
curar e encontrar um amor novinho em folha para expulsar o anti-
go.
- Tenho medo de experimentar - disse Adam.
- J me disse isso. E agora vou ser egosta. Vou-me embora, 
Adam, vim dizer-lhe adeus.
- O qu?
- A minha filha Olive convidou-nos,  minha mulher e a mim, 
para irmos a Salinas. Partimos depois de amanh. 
- Mas voltam?
Samuel prosseguiu:
- Depois de estarmos em casa da Olive durante um ms, 
talvez dois, vir uma carta do George, e ele ficar ofendido se no 
o formos visitar a Paso Robles. E depois ser a Mollie que nos 
chamar a San Francisco. E depois ser a vez do Will e at mes-
mo o Joe que est no Leste, se Deus nos der vida e sade.
- A ideia no lhe agrada? Bem o merece. No se esquea 
que levou anos a regar com o seu suor as colinas poeirentas.
- Eu gosto das minhas colinas poeirentas - disse Samuel. 
- Gosto delas como uma cadela gosta do seu cachorrinho estropi-
ado. Gosto de cada seixo, de cada pedra que parte a relha do 
arado. Gosto da terra pobre e rida. Gosto do corao seco das 
minhas colinas porque sei existir riqueza algures nesse amontoa-
do de poeira.
- Mas tem direito ao descanso.
- J  a segunda vez que me diz isso. Era preciso aceitar e 
aceitei. Quando diz que mereo o descanso, quer dizer que a mi-
nha vida est terminada.
- Acha?
- Foi o que aceitei.
Adam disse com emoo:
- Ento, no pode, no deve aceitar, se isso significar o fim 
da sua vida.
- Bem sei - disse Samuel.
- No pode fazer uma coisa dessas. 
- E porque no?
- Porque eu no quero.
- Eu sou um velho coscuvilheiro, Adam, e o que me abor-
rece  j no me meter no que no me diz respeito. Foi graas a 
isso que compreendi que j era tempo de ir ver os meus filhos. 
Agora at finjo que sou coscuvilheiro para que os outros no des-
confiem.
- Preferia v-lo morrer a trabalhar no seu monte de poeira. 
Samuel sorriu-lhe.
- Que coisa to agradvel de ouvir! Obrigado.  bom ser-se 
amado, mesmo tardiamente.
Adam impediu subitamente a passagem a Samuel, que teve 
de parar.
- Sei o que fez por mim - disse Adam-, e no lho posso
retribuir. Mas posso pedir-lhe ainda outra coisa. Quer ajudar-me
mais uma vez e salvar-me talvez a vida? 
- F-lo-ia se pudesse.
Adam descreveu um arco de crculo com a mo para o lado 
do Poente.
- Estaria disposto a ajudar-me a fazer nesta terra o jardim de 
que falmos? A erigir os moinhos de vento? A abrir os poos? A 
semear a luzerna? Podamos negociar em sementes de flores,  
coisa que d dinheiro. Imagine os canteiros de ervilhas-de-cheiro e 
os quadrados dourados de maravilhas, e talvez at dez acres de 
rosas. Que perfume no traria o vento de oeste!
- Vai fazer-me chorar - disse Samuel -, e no h nada 
mais ridculo do que um velho a chorar. (Os olhos de Samuel 
humedeceram-se.) - Agradeo-lhe muito, Adam - disse ele. - 
O vento de oeste j rescende  generosidade da sua oferta.
- Ento aceita?
- No. Recuso. Mas quando estiver em Salinas a ouvir o 
William Jennings Bryan, irei imaginando o jardim e talvez chegue 
a convencer-me de que j est florido.
- Mas eu quero que voc o faa.
- Pea ao meu filho Tom, que ele ajuda-o. O pobre, se pu-
desse, cobria o mundo de rosas.
- Sabe o que est a fazer, Samuel?
- Sei-o to bem que j est quase feito. 
- Como pode ser teimoso!
- Presunoso - disse Samuel. - A Lizza diz que sou presun-
oso. Mas deixei-me apanhar pela teia de aranha tecida pelos meus 
filhos e parece-me que estou a gostar.



2

A mesa estava posta dentro de casa. Lee disse:
- Gostaria de os servir debaixo das rvores, como noutros 
tempos, mas est uma aragem fria.
- Pois est, Lee - disse Samuel.
Os gmeos entraram em silncio e examinaram timidamente 
o convidado.
- H muito tempo j que no os via, rapazes. Parece-me 
que acertmos com os nomes. Tu s o Caleb, no s? 
- Chamo-me Cal.
- Pois seja Cal. (Voltou-se para o outro.) - O teu nome no 
te arranha a garganta quando o pronuncias? 
- Como?
- Tu chamas-te Aaron, no  verdade? 
- Chamo-me, sim, senhor.
Lee soltou um risinho abafado.
- Ele soletra-o s com um a porque os dois aa fazem rir 
os amigos.
- Eu tenho trinta e cinco coelhas belgas, Sr. Hamilton - disse 
Aron. - O senhor quer v-las? Com a Primavera tive oito crias, 
nasceram ontem mesmo.
- Gostava de as ver, gostava. (Sorriu maliciosamente.) Cal, 
no me digas que s jardineiro?
Lee voltou a cabea com vivacidade e fixou Samuel com o 
olhar.
- No diga isso.
Cal respondeu:
- Para o ano que vem, o meu pai vai dar-me um acre de 
terra para cultivar.
Aron disse:
- Tenho um coelho que pesa oito quilos.  para dar ao meu 
pai quando fizer anos.
A porta do quarto de Adam abriu-se.
- No diga nada - pediu apressadamente Lee. -  um se-
gredo.
Lee comeou a cortar a carne.
- O senhor lana sempre a confuso no meu esprito - dis-
se ele. - Sentem-se, meus rapazes.
Adam entrou, desenrolando as mangas, e ocupou a cabeceira 
da mesa.
- Boa tarde, meus filhos - disse ele. 
E eles responderam em coro:
- Boa tarde, pai.
- No lhe diga - pediu Aron.
- Conta comigo - respondeu Samuel. 
- De que se trata? - perguntou Adam. 
Samuel respondeu:
- Faa favor de respeitar a nova vida privada. O seu filho e 
eu temos um segredo.
Cal disse por seu turno:
- Eu tambm tenho um segredo para lhe dizer depois do jan-
tar.
- C fico  espera - disse Samuel. - E espero no ter 
adivinhado do que se trata.
Lee ergueu a cabea e fitou Samuel, depois colocou uma fatia 
de carne em cada prato.
Os rapazes comeram rapidamente, em silncio, engolindo a 
comida como lobos esfaimados. Aron perguntou: 
- Ds-nos licena, pap?
Adam aquiesceu e os dois rapazes saram a correr. Samuel 
seguiu-os com o olhar.
- Parecem ter mais de onze anos - disse ele. - Se bem 
me recordo, os meus filhos, aos onze anos, eram mais traquinas. 
Estes dois parecem adultos.
- A srio? - perguntou Adam.
- Acho que sei porque  - disse Lee.-  que no h mu-
lher nenhuma em casa para gostar das crianas. No me parece 
que os homens apreciem muito as crianas, e por isso estes rapa-
zes nunca perceberam que vantagem tinham em se portarem como 
tal, pois nada tinham a ganhar com isso. Gostava de saber se isto 
 bom ou mau.
Samuel limpou o resto do molho que tinha no prato com um 
bocado de po.
- Adam, no sei se j reparou no que representa o Lee? 
Ser um filsofo que sabe cozinhar ou um cozinheiro que sabe
pensar? Tem-me ensinado muitas coisas. A si tambm lhe ensinou? 
Adam respondeu:
- Acho que nunca lhe prestei muita ateno ou, ento, talvez 
fosse ele que no falasse.
- Porque foi que no quis que os meninos aprendessem o 
chins, Adam?
Adam reflectiu um momento:
- Vou ser honesto: acho que tinha cimes. Dei outro nome a 
este sentimento mas, no fundo, no queria que pudessem afas-
tar-se de mim e enveredar por um caminho onde eu no poderia 
segui-los.
-  muito razovel e quase demasiado humano - comentou 
Samuel.- Mas o facto de o admitir j representa um grande passo 
em frente. Gostava de saber se alguma vez consegui chegar to 
longe.
Lee trouxe a grande cafeteira, encheu as chvenas e sentou-
-se. Aqueceu a palma da mo encostando-a  chvena e riu-se. 
- Sabe que me arranjou uma srie de aborrecimentos, Sr.
Hamilton, e que at perturbou a calma da China? 
- De que maneira?
- Tenho a impresso de j lho ter dito,- observou Lee-, 
mas talvez me tenha limitado a pens-lo, com a inteno de lhe 
dizer. Seja como for,  uma histria divertida.
- Gostaria muito de conhec-la - disse Samuel. (E olhou 
para Adam.) - No est interessado, Adam? Prefere deixar-nos 
para se ir refugiar nas nuvens?
- Estava precisamente a fazer essa pergunta a mim mesmo 
- disse Adam. -  estranho, parece que me sinto excitado.
- Optimo - disse Samuel. - Talvez seja o que de melhor 
pode acontecer a um homem. Conte-nos a sua histria, Lee.
O chins levou a mo  nuca e sorriu.
- Sempre gostava de saber quando  que me habituarei  
falta do rabicho - disse ele.- Era muito mais til do que julgava. 
Ah! pois, vamos l ento  minha histria. J lhe disse, Sr. Hamil-
ton, que estou ficando cada vez mais chins. E o senhor, tem-se 
tornado cada vez mais irlands?
- Tenho temporadas - disse Samuel.
- Lembra-se do dia em que nos leu os dezasseis versculos
do quarto Captulo do Gnesis?
- Lembro-me perfeitamente e j foi h muito tempo.
- Quase dez anos - prosseguiu Lee.- A histria impres-
sionou-me muito e tornei a l-la palavra por palavra. Quanto mais 
pensava nela, mais me parecia plena de significado. Ento, resolvi 
comparar as tradues que temos; so muito parecidas. S h 
uma passagem que me preocupa. Na verso King James, depois 
de Jeov perguntar a Caim qual a causa da sua clera, acrescenta: 
 Porventura, se tu obrares bem, no recebers recompensa? e se 
obrares mal, no estar logo o pecado  porta? Mas a tua con-
cupiscncia estar-te- sujeita e tu dominars sobre ela. Foi o tu 
dominars sobre ela que me impressionou, pois tratava-se de uma 
promessa feita a Caim de que dominaria o pecado.
Samuel aquiesceu.
- Ora, os filhos de Caim no o dominaram inteiramente - 
disse ele.
Lee bebeu o caf.
- Resolvi ento consultar uma edio popular americana da 
Bblia. Era uma novidade na poca e diferia das outras nessa pas-
sagem, dizendo domina-a em vez de dominars sobre ela.  
nisto que reside toda a diferena. J no  uma promessa, mas 
sim uma ordem. Comecei a interessar-me pelo caso, perguntan-
do a mim mesmo qual seria o verbo utilizado pelo autor original e 
porque daria lugar a tradues diferentes.
Samuel pousou as mos na mesa e inclinou-se para a frente, 
enquanto lhe passava um lampejo de juventude pelos olhos.
- Lee - perguntou ele -, no me diga que estudou o he-
breu?
Lee respondeu:
- J lhe digo, mas  uma histria muito comprida. Quer uma 
pinga de ng-ka-py?
- Refere-se a essa bebida com um sabor agradvel a ma-
s podres?
- Isso mesmo. Ajuda a desatar a lngua.
- A mim ajudar-me- a prestar mais ateno - respondeu 
Samuel.
Enquanto Lee estava na cozinha, Samuel perguntou: 
- Adam, j sabia de alguma coisa?
- No - respondeu Adam.- Ele nunca me disse nada. Ou 
talvez eu no lhe tenha ouvido dizer nada.
Lee voltou com a garrafa de pedra e trs xicarazinhas de por-
celana, to finas e delicadas que deixavam passar a luz.
- Todos beb moda chinesa - disse ele, servindo o lquido 
escuro. - Tem muito anis.  uma bebida excelente. Se se beber 
bastante, produz o mesmo efeito que o absinto.
Samuel despejou a xcara.
- Gostaria de saber o que o interessava tanto - disse ele.
- Era opinio minha que o homem que concebera uma to 
grande histria sabia exactamente o que queria dizer e no o diria 
de forma dbia.
- Voc disse: o homem? Ento no cr que seja um livro 
divino, escrito pela mo de Deus?
- Creio que o esprito que concebeu essa histria era curio-
samente divino. Temos alguns semelhantes na China.
- s queria saber- disse Samuel. -Afinal de contas, voc 
no  presbiteriano.
- J lhe disse que me estava a tornar cada vez mais chins. 
Como ia dizendo, fui a San Francisco, ao quartel-general da nos-
sa associao familiar. J ouviu falar nela? As nossas grandes 
famlias tm centros onde cada membro pode pedir auxlio ou 
prest-lo. A famlia Lee  enorme e no desampara os seus.
- J ouvi falar, j - disse Samuel.
- Est-se referindo sem dvida  luta que eles travaram contra 
a escravido das mulheres?
-  isso mesmo.
- A realidade  bastante diferente - disse Lee. - Fui at l 
por haver na nossa famlia um certo nmero de venerandos cava-
lheiros muitssimo sbios. Tm todos o culto da exactido. Um 
deles pode ficar vrios anos a reflectir numa frase de outro sbio a 
quem vocs chamam Confcio. Pensei que poderia encontrar al-
gum que me esclarecesse acerca do sentido duma palavra. So 
uns velhinhos estupendos. Fumam dois cachimbos de pio todas 
as tardes, o que os faz descansar e lhes agua o esprito. Depois 
reflectem encantadoramente durante toda a noite. Creio que ne-
nhum outro povo soube utilizar to bem o pio como ns.
Lee humedeceu a lngua na beberagem negra.
- Submeti respeitosamente o meu problema  apreciao de 
um desses sbios. Li-lhe o captulo e disse-lhe como o interpre-
tava. Na noite seguinte, quatro deles reuniram-se e pediram-me 
que os acompanhasse. Discutimos toda a noite. (Lee riu-se.) - 
Isto deve parecer esquisito - disse ele.- Creio que no ousaria 
cont-lo a muita gente. So capazes de imaginar quatro ancies 
muito dignos - o mais novo j passou dos noventa - metendo-se 
a aprender o hebreu? At contrataram um rabino para os ajudar. 
Atiraram-se ao estudo como crianas: livro de exerccios, gram-
tica, vocabulrio, frases elementares. S queria que vissem o hebreu 
escrito a tinta da China com um pincel! A escrita da direita para a 
esquerda no os atrapalhou, pois ns escrevemos de cima para 
baixo. Aqueles velhos tm o sentido da perfeio e foram at s 
razes!
- E voc? - perguntou Samuel.
- Eu acompanhei-os, pasmando com a beleza dos espritos 
lcidos e imponentes. Comecei a gostar da minha raa e, pela 
primeira vez, desejei ser chins. De quinze em quinze dias, ia ter 
com eles para discutirmos e, aqui mesmo, no meu quarto, enchi 
pginas e pginas com o que escrevi. Comprei todos os dicionri-
os de hebreu existentes. Mas os venerandos cavalheiros passa-
vam-me sempre  frente e tambm no precisaram de muito tem-
po para passar  frente do rabino que se viu obrigado a fazer-se 
acompanhar de um colega. Ali! Sr. Hamilton, muito gostaria eu que 
tivesse assistido a um desses seres. Que perguntas! Que estudos! 
Que maravilhosa maneira de pensar!
Dois anos depois, chegmos  concluso de que estvamos 
aptos a atacar os dezasseis versculos do quarto captulo do Gne-
sis. As venerveis criaturas tambm tinham a impresso de que o 
verbo era muito importante: tu dominars sobre ela e domina-a. Foi 
ento que descobrimos o nosso filo: Tu podes, Tu podes dominar 
a concupiscncia, o pecado. Ento, os antiqussimos cavalheiros 
sorriram, abanaram a cabea e compreenderam que todos aqueles 
anos no tinham sido em vo. Era o primeiro passo. Rasgaram o 
seu casulo de seda chinesa e,  hora a que lhes falo, esto 
aprendendo o grego.
Samuel comentou:
-  uma histria fantstica. Tentei segui-la mas talvez tenha

deixado escapar alguma coisa. Porque  que esse verbo  to im-
portante?
As mos de Lee tremeram quando encheu as xcaras transl-
cidas, bebendo a dele de um trago.
- Ento no compreende? - perguntou em voz alta.- De 
acordo com a traduo da Bblia americana, ordena-se ao homem 
que triunfe sobre o pecado, a que se pode chamar ignorncia. A 
traduo de King James com o seu tu dominars sobre ela promete 
ao homem uma vitria certa sobre o pecado. Mas a palavra hebraica, 
a palavra timshel - tu podes - deixa a escolha. Talvez seja a 
palavra mais importante do mundo. Significa que o caminho est 
aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se tu podes, 
tambm  verdade que tu no podes, compreendem?
- Compreendo, sim. Contudo voc no acredita que seja uma 
lei divina. Porque acha ento que seja importante?
- Ah! - disse Lee. - H muito tempo j que lho queria dizer. 
Previ mesmo as suas perguntas e preparei-me para lhes responder. 
Toda a frase que influenciou o pensamento e a vida de inmeras 
pessoas  importante. Nas seitas e nas igrejas, milhes de fiis 
obedecem  ordem domina, e entregam-se de alma e corao  
obedincia; milhes de outros acreditam na predestinao do tu, 
dominars, e nada do que podero fazer deter a marcha do destino. 
Mas tu podes  algo que engrandece o homem e o eleva ao tama-
nho dos deuses, porque, apesar da sua fraqueza, da sua imundcie 
e do assassnio do irmo,  ele ainda quem dispe da grande esco-
lha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer, e vencer.
A voz de Lee era um canto de triunfo.
Adam perguntou:
- Acredita nisso, Lee?
- Acredito, sim, acredito. No custa nada entregarmo-nos  
preguia,  fraqueza, deixarmo-nos cair aos ps do deus, escon-
dermos a cara dizendo: No tenho culpa, o meu caminho estava 
traado.  Compare isto com a grandeza do arbtrio. O homem 
torna-se um homem. O gato no tem direito  escolha e a abelha 
deve fabricar o mel. Tudo isto nada tem de divino. E sabe que os 
meus velhos sbios, que se deixavam delicadamente escorregar 
para a morte, tomaram um tal gosto  vida que j no querem 
morrer?
Adam perguntou:
- Quer dizer que essas chineses crem no Antigo Testa-
mento?
Lee respondeu:
- Os meus velhos sbios crem em todas as histrias verda-
deiras que ouvem. So peritos em verdade. Sabem que esses 
dezasseis versculos contam a histria da humanidade, quaisquer 
que sejam a sua idade, a sua cultura ou a sua raa. No acreditam 
que um homem possa escrever quinze versculos contendo trs 
quartos de verdade e mentir depois num verbo. Confcio ensina aos 
homens como se deve viver para ser feliz, mas esta histria  uma 
escada que se oferece ao homem para atingir os cus. (Os olhos 
de Lee brilhavam.) -  um ensinamento a reter. Essas palavras 
consolidam o cho sob os ps do homem e defendem-no da fraque-
za, da covardia e da preguia.
Adam perguntou:
- Como foi que teve tempo para cozinhar, criar os meninos, 
tratar de mim e fazer tudo isso?
- No sei - disse Lee. - Mas fumo os meus dois cachim-
bos todas as tardes, como fazem os mais velhos, e sinto que sou 
um homem, e o homem  uma coisa muito importante, talvez mais 
Importante ainda do que uma estrela. Isto no  teologia. No 
dobrei a espinha perante os deuses, mas surgiu em mim um novo 
amor por esse instrumento brilhante que  a alma humana.  uma 
coisa maravilhosa e nica no mundo. Est sempre a ser atacada 
e nunca  destruda, porque tu podes.


3

Lee e Adam acompanharam Samuel at  arrecadao para 
lhe desejarem boa viagem. Lee alumiava o caminho com uma 
lanterna, pois era uma dessas noites precoces de Inverno em que 
o cu est coalhado de estrelas e a terra parece duas vezes mais 
escura tal  o brilho das estrelas. As colinas estavam silenciosas. 
No se ouvia bulir nenhum animal, nem roedor, nem de rapina, e o 
ar estava to parado que as folhas dos carvalhos verdes se recorta-
vam imveis na Via Lctea. Os trs homens mantinham-se em si-
lncio. A argola da lanterna rangeu devagarinho quando Lee des-
viou a luz.
- Quando pensa voltar?
E Samuel no respondeu.
Doxology aguardava pacientemente na estrebaria, de cabea 
baixa e fitando com os olhos leitosos a palha que estava no cho.
- Sempre teve este cavalo? - perguntou Adam.
- H trinta e trs anos - respondeu Samuel. - J no tem 
dentes e sou obrigado a dar-lhe  mo o caldo de feno aquecido. 
Quando dorme, tem pesadelos, arrepia-se e at chega a chorar.
-  to feio que mais parece um espantalho - disse Adam.
- Pois . Talvez fosse por isso que o escolhi quando era 
ainda um potrozinho, h trinta e trs anos. Sabe que dei por ele 
dois dlares? No tinha ponta por onde se lhe pegasse, os cascos 
eram chatos e os jarretes grossos e curtos. Tem a cabea peque-
na e  teimoso, os flancos so magros e a garupa  enorme. Alm 
disso, uma boca de ferro e nunca admitiu a retranca. Quando se 
monta, parece que damos um passeio de tren numa estrada esbu-
racada. No sabe trotar e estrebucha a cada passo. Tenho-o h 
trinta e trs anos e nunca fui capaz de lhe descobrir uma qualida-
de. Posso dizer at que  vicioso.  egosta, briguento, mau e 
desobediente. Hoje ainda, no posso pr-me atrs dele, seno levo 
logo um coice. Quando lhe dou de comer, quer sempre morder-me 
a mo. Gosto dele.
Lee disse:
- E ps-lhe o nome de Doxologia?
- Com toda a razo - disse Samuel.- Uma criatura to 
pouco amada dos deuses, devia ser recompensada de qualquer 
forma. J pouco tempo de vida lhe resta.
- Talvez fosse prefervel acabar-lhe com os tormentos - disse 
Adam.
- Que tormentos? - perguntou Samuel. -  a criatura mais 
feliz e mais slida que j vi at hoje.
- Mas deve ter dores e sofrimentos.
- Ele no acredita. O Doxology considera-se um grande ca-
valo. Voc matava-o, Adam?
- Acho que sim. Matava-o, sim.
- Era capaz de tomar essa responsabilidade?
- Creio que era. Trinta e,trs anos de arreios  mais do que se 
pode esperar dum cavalo.
Lee pusera a lanterna no cho. Samuel acocorou-se ao lado 
e, instintivamente, estendeu as mos para a rstia de luz amarela 
para captar um pouco de calor.
- H uma coisa que me apoquenta, Adam - disse ele. 
- O que ?
- Matava realmente o meu cavalo porque a morte era mais 
repousante?
- Eu queria dizer...
Samuel perguntou rapidamente:
- Gosta da sua vida, Adam?
- Claro que no.
- Se eu tivesse um remdio que pudesse cur-lo, mas tam-
bm mat-lo ao mesmo tempo, acha que lho deveria dar? Veja 
bem.
- Que remdio?
- No interessa - atalhou Samuel -, basta que lhe diga 
que pode mat-lo.
Lee pediu:
- Tenha cuidado, Sr. Hamilton, tenha cuidado. 
- Qual  o remdio? - perguntou Adam. 
Samuel respondeu mansamente:
- Uma vez sem exemplo, Lee, parece-me que vou deixar de 
ser prudente. Se no tiver razo, est a ouvir-me?, se cometer algum 
erro, aceito a responsabilidade e no me importo que me atirem 
com todas as censuras.
- Tem a certeza de no se enganar? - perguntou Lee com 
ansiedade.
- No, no tenho a certeza. Adam, quer o remdio?
- Quero, sim. No sei o que seja, mas d-mo.
- Adam, a Cathy est em Salinas.  proprietria dum lugar, 
onde imperam o vcio e a depravao. Tudo o que  mau e medo-
nho, os actos contra a natureza, o horror, tudo o que a mente 
humana pode inventar de mais ignbil, l se vende. Os invlidos e 
os doentes tambm l se vo satisfazer. Mas h ainda pior. A Cathy 
- ela agora chama-se Kate - atrai a frescura, a juventude e a
beleza e emporcalha-as de tal modo que ficam perdidas para sem-
pre. Aqui tem o seu remdio. Vejamos o efeito que faz. 
- Voc  um mentiroso - disse Adam. 
- No, Adam, eu sou tudo menos um mentiroso. 
Adam voltou-se para Lee:
-  verdade?
- Eu no sou um antdoto - disse Lee. -  verdade.
Adam ficou uns instantes a saltitar at dar meia volta e desa-
parecer a correr. Ouviram os passos a afastar-se, ouviram-no estre-
buchar, cair, esmagar a roseira e abrir passagem ao longo da vere-
da. S deixaram de o ouvir quando desapareceu atrs da colina.
Lee disse:
- O seu remdio  um veneno.
- Assumi a responsabilidade - disse Samuel. - H muito 
tempo j que aprendi isto: quando um co engole estricnina e vai 
morrer,  preciso pegar num machado e levar o animal para o cepo. 
Espera-se pela convulso seguinte e, nessa altura, corta-se o rabo 
do animal. Se o veneno no estiver muito espalhado, o co pode 
salvar-se; o choque da dor pode combater o veneno. Sem o cho-
que, morre de certeza.
- Est certo de que se trata dum caso semelhante? - per-
guntou Lee.
- No sei, mas o Adam estava condenado a morrer.
- O senhor  um homem valente.
- No, sou apenas um velho, e se a minha conscincia tiver
de arcar com um pecado, j no ser por muito tempo.
- Que acha que ele vai fazer? - perguntou Lee.
- No sei - respondeu Samuel -, mas ao menos no fica-
r sentado a chocar o desgosto. No se importa de segurar na
lanterna?
 luz amarelenta, Samuel introduziu o freio na boca de Do-
xology, um freio to usado que mais parecia uma fina vareta de 
ao. Quanto ao cabresto, j no era utilizado desde tempos ime-
moriais. O velho cavalo podia estender o focinho, parar ou pastar 
 vontade  beira da estrada. Samuel j estava habituado. Ao aper-
tar a retranca, o animal afastou-se e preparou um coice.
Quando Doxology j estava entre os varais do carro, Lee per-
guntou:
- Posso acompanh-lo um bocado? Depois, volto a p. 
- A caminho - disse Samuel.
E fingiu no reparar que Lee o ajudava a montar.
A noite estava muito escura e Dox manifestava a sua repro-
vao pelas passeatas nocturnas tropeando tanto quanto podia. 
Samuel disse:
- Estou s suas ordens, Lee. Que queria dizer-me? 
Lee no se mostrou surpreendido.
- Talvez eu me parea consigo nisto de me meter onde no 
sou chamado. Tenho pensado muito, sei calcular as probabilida-
des, mas, mesmo assim, h bocado fiquei admirado. Teria sido 
capaz de apostar que, de todos os homens, o senhor seria o nico 
a no prevenir o Adam.
- J sabia?
- Evidentemente.
- E os filhos?
- No creio que saibam, mas  uma questo de tempo. Sabe 
como as crianas so cruis. Qualquer dia, atiram-lhes  cara com 
aquilo no ptio do recreio.
- Talvez fosse prefervel que ele os levasse para longe daqui 
- disse Samuel. - Pense no caso, Lee.
- No respondeu  minha pergunta, Sr. Hamilton. Como foi 
capaz de fazer uma coisa destas?
- Acha que procedi mal?
- No pretendia dizer isso. Mas no julgava que fosse ho-
mem para influir no curso dum destino. Era assim, pelo menos, 
que eu o julgava. Interessa-lhe o que estou a dizer?
- Qual  o homem que no fica interessado quando o dis-
cutem? - disse Samuel. - Prossiga.
- O Sr. Hamilton  um homem bom, e sempre acreditei que 
a sua bondade fosse uma consequncia de evitar os aborrecimen-
tos. O seu esprito  to gil como um cordeirinho a saltar num 
campo de malmequeres. Que eu saiba, nunca conquistou nada 
pela violncia mas, contudo, esta noite, praticou um acto que des-
truiu a imagem que eu formara de si.
Samuel prendeu as rdeas num pau espetado no orifcio de 
encaixe do chicote e Doxology continuou a tropear pelos sulcos do 
caminho. O velho afagou a barba que brilhou na noite. Depois, tirou
o chapu preto e colocou-o nos joelhos.
- Creio ter ficado to surpreendido como voc - disse ele - 
mas se quer saber porqu, meta a mo na sua conscincia. 
- No o estou a compreender.
- Se me tivesse falado nos seus estudos mais cedo, talvez 
tivesse sido diferente, Lee.
- Continuo a no compreender.
- Cautela, Lee, no me puxe pela lngua. J lhe disse que 
era mais ou menos irlands, conforme os perodos. Ora, neste 
momento, estou a atravessar o perodo mximo.
- O Sr. Hamilton vai-se embora e no torna a voltar, no tem 
a inteno de viver muito tempo.
- , verdade, Lee. Como sabe?
- A morte paira em torno de si, parece que irradia a morte.
- No sabia que se notava, Lee - disse Samuel. - Sabe, 
Lee, eu vejo a minha vida como uma sinfonia, nem sempre bela, 
mas com a sua forma e a sua melodia, e h muito tempo j que a 
orquestra no tocava. Eu feria sempre a mesma nota, um des-
gosto infindo. No sou s eu, tenho a impresso de que muitos de 
ns tambm concebem o fim da vida como uma derrota irre-
medivel.
Lee disse:
- Talvez seja por serem demasiado ricos. Tenho reparado que 
no h pior insatisfao do que a do rico. Alimentem um homem, 
vistam-no e metam-no numa boa casa, e vero que morre de de-
sespero.
- A culpa  da sua traduo, Lee: Tu podes. Julguei que me 
esganavam e sacudiam. Quando a indisposio se dissipou, abriu-
-se diante de mim uma nova estrada resplandecente. O final da 
minha sinfonia ser grandioso. O meu corao emite uma derra-
deira melodia como um canto de pssaro na noite.
Lee observava Samuel na obscuridade.
- Os ancios da minha famlia tiveram a mesma sensao.
- Tu podes dominar o pecado,  isso mesmo. No creio 
que todos os homens tenham sido destrudos. Posso citar uma 
dzia deles que no o foram e  a eles que o mundo vai buscar a 
sua substncia. Isto tanto se aplica aos crebros como s bata-
lhas, s recordamos os que ganharam.  certo que a maioria dos
homens foram destrudos, mas h sempre alguns que, como faris,
guiam a humanidade assustada atravs da noite. Tu podes. Tu podes.
Que glria!  certo que somos fracos e tarados e briguentos, mas
se fssemos s isso, j teramos desaparecido da face da terra h
muitos milhares de anos. Uns restos de maxilar, alguns dentes
partidos enterrados em calcrio, seriam os nicos vestgios deixa-
dos pelo homem. Mas h o arbtrio, Lee, o direito de vencer. Eu
nunca o compreendera ou aceitara anteriormente. Foi por isso que
falei ao Adam esta noite. Dei-lhe a escolher. Talvez fizesse mal,
mas com o que lhe disse obriguei-o a viver ou a renunciar  vida.
Como  a tal palavra, Lee?
        - Timshel - disse Lee. - No se importa de parar a car-
        roa?
- O regresso vai ser demorado.
Lee apeou-se.
- Samuel - disse ele.
        - Aqui me tem. (O velho riu-se.) - A Lizza detesta que eu
        diga isto.
- Samuel, o senhor foi mais longe do que eu.
- J no era sem tempo, Lee.
- Adeus, Samuel.
        E Lee afastou-se rapidamente em sentido contrrio, ouvindo
        as cambas de ferro das rodas a moerem as pedras da estrada.
        Voltou-se para trs, olhou a carroa que se distanciava e viu o
        velho Samuel que se recortava no cu, com os cabelos brancos a
        brilhar  claridade das estrelas.


FIM DO PRIMEIRO VOLUME




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